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CRÔNICA Feminino
plural Manoel Carlos
Leo
Martins  |
Se
você conhece uma garota chamada Bruna, 20 anos, loira, bonita, magra (não
tábua, hein!), olhos verdes e o sorriso mais lindo do mundo, então
conhecemos a mesma pessoa, a mesma Bruna. A minha (digamos assim) é uma
ex-paulistana, já que mora no Rio desde bebezinho.
Minha mãe estava grávida de 37 semanas.
Achando que ia ter de esperar pelo menos mais uma, foi de carro com meu pai para
São Paulo. Pois foi chegar ao hotel, pronto, aquela correria, e a Bruninha
aqui, uma hora depois, já botava a cara neste mundão maluco. Assim,
nasci em São Paulo, só voltando para o Rio uma semana depois. Sou
uma paulistana acidental. Ela sempre
conta essa pequena história autobiográfica com gestos de atriz e
risinhos que entrecortam as frases. Não nos encontramos com freqüência,
o que sempre lamento, mas, quando isso acontece, o tempo voa, tão vertiginosa
é a presença de Bruna, assim como tudo o que ela fala e faz. Nos
vimos na última quinta-feira, na nova Livraria Travessa, do também
novo Shopping Leblon. Eu procurava uma fotobiografia de Clarice Lispector, que
está para sair pela Edusp, quando vi Bruna no mezanino, tomando café
e falando ao celular. Não resisti e fui até lá. Ela fez sinal
para que eu me sentasse. Pedi uma água e aguardei, ouvindo, involuntariamente,
o que ela dizia ao celular:
Eu também já estou louca de saudade, amor. Nunca senti isso na minha
vida, juro. Por namorado nenhum! Do Afonso? Ah, qual é? Desse é
que eu me lembro menos! Esquece, amorzinho, que eu só penso em você
e já estou correndo para casa, para te ver. Um beijo. Tchau.
E desligou. E aí nos levantamos e nos abraçamos, alegres com esse
encontro inesperado. Já
vi que você está com pressa e que não tem mais nada com o
Afonso. Graças a Deus!
E que está com um novo
amor! Não apenas novo,
mas o maior amor da minha vida!
Parabéns. O nome dele?
Dela. Confesso que não entendi
imediatamente. Não por ingenuidade, mas porque o inesperado, muitas vezes,
nos emburrece. Ela disparou, sem esperar por alguma pergunta:
Estou amando uma garota de 20 anos, como eu. Lívia.
Faz psicologia na PUC. Esse era outro
jeito de Bruna de se fazer encantadora. Dizia tudo que queria dizer, numa única
frase. A surpresa me obrigou a três segundos de silêncio.
Escandalizado?
Não, claro, apenas surpreso e um pouco confuso. Até o nosso último
encontro você tinha uma relação com o Afonso e exibia, apesar
de tão jovem, uma coleção de ex-namorados.
Pois é. Depois de tantos homens, descobri o
verdadeiro amor numa outra mulher. Tão feminina quanto eu. Portanto, um
caso de feminino plural. Não,
não fiquei mesmo escandalizado, juro. Mas... o que será que aconteceu?,
perguntei a mim mesmo numa fração de segundo. Bruna encantando os
homens a sua volta, adorando exercer esse encanto, vaidosa de reinar sobre tantos
corações masculinos, entrega-se a um grande amor por outra mulher.
Não conhecia até então uma história parecida.
Tô indo me disse Bruna, já se levantando
e tentando pagar o café, o que eu não permiti. Fui caminhando com
ela até a escada que leva ao térreo, falando rapidamente:
Não quero especular, minha querida, e só
desejo que você seja feliz, mas preciso conhecer essa história. Sou
um novelista, você sabe. Já tive duas garotas nessa situação
em Mulheres Apaixonadas e adorei criar e escrever aquelas personagens.
Bruna desceu dois degraus e voltou-se
para mim: Um dia eu te conto,
prometo. Até lá pense numa frase que eu li e que me chamou a atenção
porque foi dita por São Jerônimo, um doutor da Igreja Católica,
há mais de 1 500 anos: o amor não conhece regras.
E desceu. Fiquei olhando a cabecinha loira, o andar elegante e cheio de graça,
caminhando entre os clientes e os livros da Travessa, apressada para ir ao encontro
do seu novo e grande amor. Um caso, como ela mesma disse, de feminino plural.
UM DIA, UM GATO Foi Alberto Giacometti
(1901-1966), pintor e escultor suíço, quem escreveu: "Num incêndio,
entre salvar um gato e um Rembrandt, eu salvaria o gato". Agradeço a todos
os leitores que me socorreram com essa informação, solicitada por
mim na crônica anterior. e-mail:
almaviva@uninet.com.br
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