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18 de janeiro de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
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REPORTAGEM DE CAPA

Arquitetura doméstica

Em casa de ferreiro o espeto pode ser de pau, mas em casa de arquiteto a história é freqüentemente diferente. Sem terem de submeter as idéias aos gostos e limites dos clientes, os profissionais da prancheta podem pôr em prática toda a criatividade no próprio lar. Veja Rio certificou-se disso ao visitar a moradia de oito arquitetos badalados do Rio. Algumas são ousadas, outras despretensiosas e funcionais. Não importa. Todas espelham o estilo de seu criador. Cada um deles mostrou seu espaço preferido: Chicô Gouvêa, o resultado da grande reforma que acabou de fazer; Cadas Abranches, sua aversão a paredes; Bel Lobo, como enfrentou o recente desafio de mudar, com a família, de um grande casarão para um imóvel bem menor. André Piva, por sua vez, ergueu a casa inteira; Lia Siqueira fez do seu lar uma sucursal da Casa Cor; Joy Garrido se orgulha do quarto da filha, recém-repaginado; Jairo de Sender adora a mistura de estilos. E Maurício Nóbrega realizou o sonho de morar em uma casa. As arrumações são bem diferentes, mas as soluções são sempre criativas e cheias de peças interessantes. Ótima inspiração para a temporada de liquidação que está começando nas lojas de móveis e acessórios (veja na seção As Boas Compras).

Sofia Cerqueira


André
Piva

 
Fotos Bruno Veiga/Strana
Sala e mezanino: projeto ousado com vista privilegiada

A maior concorrente do arquiteto André Piva, no caso da construção que ele ergueu numa encosta da Fonte da Saudade, é a própria vista que se tem de lá. É freqüente o visitante ir direto para a varanda e ficar extasiado diante da Lagoa, do Cristo, do Dois Irmãos e da Pedra da Gávea. "Só depois, aos poucos, vai percebendo a casa. Não dá para competir", conforma-se o arquiteto. Foi justamente a imagem desses cartões-postais que fez Piva optar, há sete anos, pelo terreno difícil, estreito e inclinado para fazer sua moradia. Foi um ano projetando e mais dois em obras. "Nenhum cliente permitiria isso, estão sempre com pressa", admite. Valeu a pena. "Imprimi a arquitetura em que acredito. Como nos meus trabalhos, fiz o maior número de espaços integrados", explica ele, que tem uma extensa lista de projetos, como a cobertura de Boni e Lou de Oliveira, a casa de Leonardo Brício, a boate Baronetti e o bar Redondo. Para a casa em que vive com o estilista Carlos Tufvesson, criou dois grandes lofts. O imóvel de 450 metros quadrados tem só sete portas. No andar ao nível da rua ficam a sala, a cozinha e a varanda. O pé-direito de 6 metros permitiu a construção de um mezanino, onde ele criou uma biblioteca e um home theater. O andar de baixo é um enorme quarto, com escritório e banheiro, sempre tendo a paisagem como protagonista. Para decorar, clássicos do design, como o récamier Barcelona, peças da Rua do Lavradio, obras de artistas como Daniel Senise e Nuno Ramos, livros, presentes e recordações de viagem. "Gosto do contemporâneo, mas sem minimalismos", diz. Se tiver vista, então, perfeito.

 

Cadas Abranches

 
Fotos Bruno Veiga/Strana

Cadas: disposição para mais obras

Derrubar paredes é com ele. E, se for na própria casa, melhor ainda. Nos últimos sete anos, o arquiteto Cadas Abranches mudou três vezes de apartamento num único prédio, uma construção dos anos 50 no Leblon. A cada mudança, botou tudo abaixo. "É Bin Laden total. Só fica a estrutura (pilares e vigas)", diz ele, famoso por projetar casas e criar ambientes despojados-chiques. Levam a sua assinatura, entre outros, a residência da socialite Germana Gerdau Johannpeter, os restaurantes Joe & Leo's e as lojas A-teen. "Eu me apego às peças, não ao espaço", justifica as seguidas empreitadas em causa própria. O atual apartamento, de 220 metros quadrados, passou um ano em quebra-quebra. A estrutura original, com sala e três quartos, deu lugar a uma ampla área de estar e duas suítes. Soluções ousadas e materiais diferentes, que poderiam ser alvo da resistência de um cliente, estão por todos os lados. E sobretudo no seu espaço preferido, a sala. A iluminação tem um quê de show: um trilho com canhões de luz corta o ambiente, e a parede em curva que liga o estar à área de jantar ganhou balizadores (rasgos verticais iluminados). Dois pilares se transformaram num painel para TV de plasma, e vigas irregulares viraram prateleiras. O piso é de tábuas com um afastamento fora do padrão, e uma das paredes foi revestida de tijolos. Para completar, móveis e objetos que o acompanham há anos, como uma mesa da Forma, cadeiras Harry Bertoia, uma mapoteca, que já serviu para guardar projetos no escritório, e uma peça de metal com a palavra art. Para desespero da mulher, Ângela, Cadas ainda tem fôlego para novas obras caseiras. "Fico sempre querendo uma coisa diferente."

 

Chicô Gouvêa

 
Fotos Bruno Veiga/Strana

Chicô: cozinha e sala integradas

A casa tem de ter a história de quem vive nela. O arquiteto Chicô Gouvêa parte dessa premissa em qualquer projeto. Em seu apartamento de 160 metros quadrados, no Leblon, não foi diferente. Depois de uma década no mesmo endereço, no ano passado ele decidiu fazer uma grande obra. "A vida passou por várias mudanças, e a casa já não acompanhava", avalia. A reforma teve ainda outro impulso: a gastronomia, um hobby cada vez mais freqüente em seu dia-a-dia. O imóvel, originalmente de quatro quartos, agora tem um dormitório. A sala ganhou mais espaço e uma charmosa cozinha, separada por uma faixa de vidro. É ali que Chicô testa receitas e convida os amigos a experimentá-las numa mesa anexa, projetada por ele em madeira de demolição. Para evitar que o cheiro de alguns alimentos entranhe nos livros, que ocupam todas as paredes, fez de um quarto de empregada uma cozinha de apoio. "Quando é para a gente, não tem indecisão. Fui inventando e fazendo, sem muitas plantas", conta. São do arquiteto, por exemplo, a fachada do CasaShopping e a decoração das casas da socialite Aparecida Marinho, da presidente do MAM de São Paulo, Milú Villela, e do restaurante Garcia & Rodrigues. Afeito a cores quentes, ele escolheu para o seu lar móveis de tons neutros e usou laranja e vermelho nas paredes, cortinas e almofadas. Desafio mesmo foi acomodar tantos bibelôs, peças de arte e coleções que tem. Só para transferir os 5 000 soldadinhos de chumbo (numerados e separados por categorias) do antigo home office para o seu quarto levou um mês.

 

Lia Siqueira

 
Fotos Bruno Veiga/Strana

Lia: móveis da Casa Cor no lar

O apartamento de Lia Siqueira é uma espécie de extensão da Casa Cor. Por todo o imóvel de 260 metros quadrados, no Leblon, há peças que a arquiteta desenhou para a mostra. Só na sala, estão um biombo de peroba-do-campo, destaque da edição de 2004, um painel de pele de cabra, criado para o evento de 2000, e um aparador, sensação no espaço do joalheiro em 1994. "Não fiz nenhuma intervenção arquitetônica no apartamento, só inseri a minha história", diz ela, que mora ali com o casal de filhos adolescentes e o marido. A disposição dos cômodos foi mantida, o piso de ipê inalterado e o pé-direito é original. "Vim para ficar só cinco anos e já estou há sete. O apartamento é bom, mas falta a vista do horizonte", comenta. Lá, o estilo contemporâneo e elegante de Lia é nítido. Há clássicos do design, móveis de família e obras de arte. Nas paredes, trabalhos de bambas como Beatriz Milhazes, Eduardo Sued e Daniel Senise. "Prefiro manifestação artística a objetos decorativos. Isso não impede que peças de valor sentimental entrem", explica. Um estilo que conquistou clientes como as atrizes Malu Mader, Patrícia Pillar, Cissa Guimarães, o designer Antônio Bernardo e o publicitário Armando Strozemberg. O canto preferido de Lia é um misto de biblioteca e escritório. O espaço é uma verdadeira filial da Casa Cor: as escrivaninhas, as escadas de madeira e as estantes foram expostas separadamente em cinco edições da mostra. "Já tive clientes querendo comprar as peças. Faço até outras, mas tenho ciúme dos protótipos", confessa.

 

Bel Lobo

 
Fotos Bruno Veiga/Strana

Decoração com muito design: Bel é habituée de brechós de móveis

Foi um verdadeiro exercício da profissão. Há cerca de um ano, Bel Lobo e o marido, o também arquiteto Bob Neri, decidiram se mudar. Transformaram a casa onde viviam, uma construção de 500 metros quadrados no Cosme Velho, em escritório e foram para um apartamento alugado, na quadra da Praia do Leblon. "Eu me sentia meio síndica num espaço tão grande. Há anos queria morar mais perto da praia", ela explica a reviravolta domiciliar. Com o novo lar escolhido, um três-quartos de 130 metros quadrados, viria o maior desafio: abrir mão de vários móveis e objetos da antiga residência. O estilo das duas casas, no entanto, se manteve inalterado. "Tudo o que a gente tem é de brechó", diz Bel, autora de projetos como os restaurantes Bazzar e Zuka e as lojas Salinas, Totem, H. Stern Home, Elle Lui Maison e Livraria da Travessa. Bob Neri, entre outros trabalhos, é arquiteto das lojas Richards há quase duas décadas. O apartamento onde agora vivem com os dois filhos mantém na sala o ar clean. "Mas com alma", descreve Bel. Antes da mudança, eles clarearam os tacos e pintaram de branco as paredes. Na decoração, clássicos do design comprados de segunda mão, peças garimpadas em lojas de móveis antigos e obras de artistas contemporâneos. Para arrematar, objetos adquiridos em feirinhas e peças cheias de humor, como um convite de exposição com a foto de um homem gargalhando transformado em quadro. "Somos realizadores de desejos. Temos um estilo, mas procuramos dar a cara do dono aos nossos projetos", diz. Na residência do casal, isso está explícito.

 

Jairo de Sender

 
Fotos Bruno Veiga/Strana

Jairo: mistura de arte, peças de família e vários suvenires

Para Jairo de Sender, em decoração não há espaço para preconceito. Vale misturar duas serigrafias de Salvador Dalí, herdadas de família, com uma réplica inflável da Torre Eiffel, trazida de uma viagem, mais uma escultura contemporânea de arame e uma foto antiga num pratinho-suvenir de zoológico. Todas essas peças estão num mesmo ambiente, o home theater, na cobertura do arquiteto, na Barra. Esse é o espaço preferido de Sender e onde ele reúne a mulher e os três filhos. "O que fiz na minha casa faço na dos clientes. As pessoas têm de pôr para fora suas vontades, suas viagens", diz. O arquiteto, que tem um rol de clientes como o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, e os atores Luigi Baricelli e Luciano Szafir, é adepto da mistura de estilos e materiais. A entrada e a escada da cobertura de 360 metros quadrados, só para se ter uma idéia, são de mármore carrara. O restante do piso é de porcelanato, material também usado em cozinhas. "Para mim, não existe cafona nem a expressão 'não pode'." Para abrigar a família no home theater, ele optou por um sofá moderno e uma poltrona Egg, um clássico do design, de 1958. A cor escolhida para a peça assinada por Arne Jacobsen foi um azul "bic", como Sender define. No mesmo andar ficam uma pequena cozinha, as salas de estar e jantar e um miniescritório. Embaixo, quatro quartos. Por todos os cantos, móveis de estilo, objetos deixados pelo avô paterno e lembranças de viagens. "A decoração tem de ter peças de valor afetivo e humor", prega Jairo. E, como se vê, ele põe isso em prática.

 

Joy Garrido

 
Fotos Bruno Veiga/Strana

Joy: quarto repaginado para a filha

Sempre às voltas com obras, a arquiteta Joy Garrido vem adiando há anos um projeto para o próprio lar. "Penso em quebrar paredes e integrar ambientes, como tenho feito em alguns trabalhos. Acabo concentrando a energia para os clientes", conta. Há vinte anos no mesmo apartamento, um imóvel de 230 metros quadrados na Praia de São Conrado, ela só fez reformas pontuais. Primeiro transformou um dos banheiros das três suítes num closet, repaginou o quarto da filha mais velha, também Joy, de 17 anos, e há quatro anos acabou com a sala de televisão e transferiu para lá seu escritório. "Fico sempre apaixonada pelo último trabalho", diz a arquiteta, que acaba de reformar o quarto da caçula, Maria, de 13 anos. O ambiente, antes rosa-bebê com paisagens de contos de fadas, virou um funcional e colorido quarto de adolescente. Como para qualquer cliente, projetou tudo pensando nos hábitos e gostos da filha. Em vez de uma bicama, optou por estrado visível com um futon em cima. "Um outro futon enrolado pode virar outra cama. A Maria adora receber amigas para dormir aqui", conta. A mesa-de-cabeceira tem rodinhas, já prevendo o vai-e-vem, e a parede atrás da cama ganhou uma estante para os livros e revistas preferidos. Em outra parede foi criado um canto de estudo e televisão, com vários nichos: em um ficam lápis e canetas, em outro o material escolar e em um terceiro as bijuterias da menina. Para fechar, um armário com espelho grande na porta. No restante da casa, espalham-se poucas peças modernas e móveis clássicos, uma das marcas da arquiteta, que tem em sua clientela nomes como Márcia Peltier, Patrícia Mayer e Bia Rique.

 

Maurício Nóbrega

 
Fotos André Valentim/Strana

Como num barco: todo o espaço usado

O sonho do arquiteto Maurício Nóbrega era morar numa casa. Há três anos, encontrou o imóvel tão desejado. Não hesitou: trocou o apartamento de 350 metros quadrados, no Flamengo, pela charmosa construção de dois andares, na Gávea, com metade da metragem mas enorme potencial. Foram dez meses de obra, que deram o clima contemporâneo e tornaram os ambientes claros, duas marcas de seus projetos. "O que eu fiz foi quase o design de um barco. Todo o espaço livre foi aproveitado", conta. O vão embaixo da escada de acesso aos três quartos virou um porta-louças. A área da antiga piscina deu lugar à sala de jantar e, na laje, ele criou novo espaço de lazer. A garagem, pouco usada, foi transformada num agradável terraço, com parede de lambris, piso de tijolinhos e um banco com almofadões. "Como nos meus trabalhos, não me guiei por tendências. Segui os sonhos dos moradores. No caso, eu, minha mulher e minhas duas filhas", diz o arquiteto, responsável, entre outros, pela casa do músico Roberto Frejat, pela loja Espaço Lundgren e pelo bar Saturnino. Em sua casa, o destaque é a sala. Diante do espaço reduzido, Maurício aproveitou os 2,5 metros que tinha entre a janela e o muro. Abriu tudo, instalou uma porta de vidro, criou um jardim-de-inverno e revestiu a parte interna do muro com espelho. "Dá amplitude", explica. Pôs sofás claros, uma mesa de centro indiana, uma escrivaninha antiga, obras de artistas como José Bechara e Nelson Felix e um divertido painel com casinhas de passarinho. "Conheço o carteiro pelo nome. Isso só acontece quando se mora em uma casa", diz, com o ar de sonho realizado.

     
  
   

 

 
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