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REPORTAGEM DE CAPA
Arquitetura doméstica Em
casa de ferreiro o espeto pode ser de pau, mas em casa de arquiteto a história
é
freqüentemente diferente. Sem terem de submeter as idéias aos gostos
e limites dos clientes, os profissionais da prancheta podem pôr em prática
toda a criatividade no próprio lar. Veja Rio certificou-se disso
ao visitar a moradia de oito arquitetos badalados do Rio. Algumas são ousadas,
outras despretensiosas e funcionais. Não importa. Todas espelham o estilo
de seu criador. Cada um deles mostrou seu espaço preferido: Chicô
Gouvêa, o resultado da grande reforma que acabou de fazer; Cadas Abranches,
sua aversão a paredes; Bel Lobo, como enfrentou o recente desafio de mudar,
com a família, de um grande casarão para um imóvel bem menor.
André Piva, por sua vez, ergueu a casa inteira; Lia Siqueira fez do seu
lar uma sucursal da Casa Cor; Joy Garrido se orgulha do quarto da filha, recém-repaginado;
Jairo de Sender adora a mistura de estilos. E Maurício Nóbrega realizou
o sonho de morar em uma casa. As arrumações são bem diferentes,
mas as soluções são sempre criativas e cheias
de peças
interessantes. Ótima inspiração para a temporada de liquidação
que está começando nas lojas de móveis e acessórios
(veja na seção As Boas Compras).
Sofia
Cerqueira André
Piva
Fotos
Bruno Veiga/Strana
 | | Sala
e mezanino: projeto
ousado com vista privilegiada |
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A
maior concorrente do arquiteto André Piva, no caso da construção
que ele ergueu numa encosta da Fonte da Saudade, é a própria vista
que se tem de lá. É freqüente o visitante ir direto para a
varanda e ficar extasiado diante da Lagoa, do Cristo, do Dois Irmãos e
da Pedra da Gávea. "Só depois, aos poucos, vai percebendo a casa.
Não dá para competir", conforma-se o arquiteto. Foi justamente a
imagem desses cartões-postais que fez Piva optar, há sete anos,
pelo terreno difícil, estreito e inclinado para fazer sua moradia. Foi
um ano projetando e mais dois em obras. "Nenhum cliente permitiria isso, estão
sempre com pressa", admite. Valeu a pena. "Imprimi a arquitetura em que acredito.
Como nos meus trabalhos, fiz o maior número de espaços integrados",
explica ele, que tem uma extensa lista de projetos, como a cobertura de Boni e
Lou de Oliveira, a casa de Leonardo Brício, a boate Baronetti e o bar Redondo.
Para a casa em que vive com o estilista Carlos Tufvesson, criou dois grandes lofts.
O imóvel de 450 metros quadrados tem só sete portas. No andar ao
nível da rua ficam a sala, a cozinha e a varanda. O pé-direito de
6 metros permitiu a construção de um mezanino, onde ele criou uma
biblioteca e um home theater. O andar de baixo é um enorme quarto, com
escritório e banheiro, sempre tendo a paisagem como protagonista. Para
decorar, clássicos do design, como o récamier Barcelona, peças
da Rua do Lavradio, obras de artistas como Daniel Senise e Nuno Ramos, livros,
presentes e recordações de viagem. "Gosto do contemporâneo,
mas sem minimalismos", diz. Se tiver vista, então, perfeito. Cadas
Abranches Fotos
Bruno Veiga/Strana
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 | | Cadas:
disposição para mais obras |
Derrubar
paredes é com ele. E, se for na própria casa, melhor ainda. Nos
últimos sete anos, o arquiteto Cadas Abranches mudou três vezes de
apartamento num único prédio, uma construção dos anos
50 no Leblon. A cada mudança, botou tudo abaixo. "É Bin Laden total.
Só fica a estrutura (pilares e vigas)", diz ele, famoso por projetar casas
e criar ambientes despojados-chiques. Levam a sua assinatura, entre outros, a
residência da socialite Germana Gerdau Johannpeter, os restaurantes Joe
& Leo's e as lojas A-teen. "Eu me apego às peças, não
ao espaço", justifica as seguidas empreitadas em causa própria.
O atual apartamento, de 220 metros quadrados, passou um ano em quebra-quebra.
A estrutura original, com sala e três quartos, deu lugar a uma ampla área
de estar e duas suítes. Soluções ousadas e materiais diferentes,
que poderiam ser alvo da resistência de um cliente, estão por todos
os lados. E sobretudo no seu espaço preferido, a sala. A iluminação
tem um quê de show: um trilho com canhões de luz corta o ambiente,
e a parede em curva que liga o estar à área de jantar ganhou balizadores
(rasgos verticais iluminados). Dois pilares se transformaram num painel para TV
de plasma, e vigas irregulares viraram prateleiras. O piso é de tábuas
com um afastamento fora do padrão, e uma das paredes foi revestida de tijolos.
Para completar, móveis e objetos que o acompanham há anos, como
uma mesa da Forma, cadeiras Harry Bertoia, uma mapoteca, que já serviu
para guardar projetos no escritório, e uma peça de metal com a palavra
art. Para desespero da mulher, Ângela, Cadas ainda tem fôlego para
novas obras caseiras. "Fico sempre querendo uma coisa diferente." Chicô
Gouvêa Fotos
Bruno Veiga/Strana
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 | | Chicô:
cozinha e sala integradas |
A
casa tem de ter a história de quem vive nela. O arquiteto Chicô Gouvêa
parte dessa premissa em qualquer projeto. Em seu apartamento de 160 metros quadrados,
no Leblon, não foi diferente. Depois de uma década no mesmo endereço,
no ano passado ele decidiu fazer uma grande obra. "A vida passou por várias
mudanças, e a casa já não acompanhava", avalia. A reforma
teve ainda outro impulso: a gastronomia, um hobby cada vez mais freqüente
em seu dia-a-dia. O imóvel, originalmente de quatro quartos, agora tem
um dormitório. A sala ganhou mais espaço e uma charmosa cozinha,
separada por uma faixa de vidro. É ali que Chicô testa receitas e
convida os amigos a experimentá-las numa mesa anexa, projetada por ele
em madeira de demolição. Para evitar que o cheiro de alguns alimentos
entranhe nos livros, que ocupam todas as paredes, fez de um quarto de empregada
uma cozinha de apoio. "Quando é para a gente, não tem indecisão.
Fui inventando e fazendo, sem muitas plantas", conta. São do arquiteto,
por exemplo, a fachada do CasaShopping e a decoração das casas da
socialite Aparecida Marinho, da presidente do MAM de São Paulo, Milú
Villela, e do restaurante Garcia & Rodrigues. Afeito a cores quentes, ele
escolheu para o seu lar móveis de tons neutros e usou laranja e vermelho
nas paredes, cortinas e almofadas. Desafio mesmo foi acomodar tantos bibelôs,
peças de arte e coleções que tem. Só para transferir
os 5 000 soldadinhos de chumbo (numerados e separados por categorias) do antigo
home office para o seu quarto levou um mês. Lia
Siqueira Fotos
Bruno Veiga/Strana
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 | | Lia:
móveis da Casa Cor no lar |
O
apartamento de Lia Siqueira é uma espécie de extensão da
Casa Cor. Por todo o imóvel de 260 metros quadrados, no Leblon, há
peças que a arquiteta desenhou para a mostra. Só na sala, estão
um biombo de peroba-do-campo, destaque da edição de 2004, um painel
de pele de cabra, criado para o evento de 2000, e um aparador, sensação
no espaço do joalheiro em 1994. "Não fiz nenhuma intervenção
arquitetônica no apartamento, só inseri a minha história",
diz ela, que mora ali com o casal de filhos adolescentes e o marido. A disposição
dos cômodos foi mantida, o piso de ipê inalterado e o pé-direito
é original. "Vim para ficar só cinco anos e já estou há
sete. O apartamento é bom, mas falta a vista do horizonte", comenta. Lá,
o estilo contemporâneo e elegante de Lia é nítido. Há
clássicos do design, móveis de família e obras de arte. Nas
paredes, trabalhos de bambas como Beatriz Milhazes, Eduardo Sued e Daniel Senise.
"Prefiro manifestação artística a objetos decorativos. Isso
não impede que peças de valor sentimental entrem", explica. Um estilo
que conquistou clientes como as atrizes Malu Mader, Patrícia Pillar, Cissa
Guimarães, o designer Antônio Bernardo e o publicitário Armando
Strozemberg. O canto preferido de Lia é um misto de biblioteca e escritório.
O espaço é uma verdadeira filial da Casa Cor: as escrivaninhas,
as escadas de madeira e as estantes foram expostas separadamente em cinco edições
da mostra. "Já tive clientes querendo comprar as peças. Faço
até outras, mas tenho ciúme dos protótipos", confessa. Bel
Lobo Fotos
Bruno Veiga/Strana
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 | | Decoração
com muito design: Bel
é habituée de brechós de móveis |
Foi
um verdadeiro exercício da profissão. Há cerca de um ano,
Bel Lobo e o marido, o também arquiteto Bob Neri, decidiram se mudar. Transformaram
a casa onde viviam, uma construção de 500 metros quadrados no Cosme
Velho, em escritório e foram para um apartamento alugado, na quadra da
Praia do Leblon. "Eu me sentia meio síndica num espaço tão
grande. Há anos queria morar mais perto da praia", ela explica a reviravolta
domiciliar. Com o novo lar escolhido, um três-quartos de 130 metros quadrados,
viria o maior desafio: abrir mão de vários móveis e objetos
da antiga residência. O estilo das duas casas, no entanto, se manteve inalterado.
"Tudo o que a gente tem é de brechó", diz Bel, autora de projetos
como os restaurantes Bazzar e Zuka e as lojas Salinas, Totem, H. Stern Home, Elle
Lui Maison e Livraria da Travessa. Bob Neri, entre outros trabalhos, é
arquiteto das lojas Richards há quase duas décadas. O apartamento
onde agora vivem com os dois filhos mantém na sala o ar clean. "Mas com
alma", descreve Bel. Antes da mudança, eles clarearam os tacos e pintaram
de branco as paredes. Na decoração, clássicos do design comprados
de segunda mão, peças garimpadas em lojas de móveis antigos
e obras de artistas contemporâneos. Para arrematar, objetos adquiridos em
feirinhas e peças cheias de humor, como um convite de exposição
com a foto de um homem gargalhando transformado em quadro. "Somos realizadores
de desejos. Temos um estilo, mas procuramos dar a cara do dono aos nossos projetos",
diz. Na residência do casal, isso está explícito. Jairo
de Sender Fotos
Bruno Veiga/Strana
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 | | Jairo:
mistura de arte, peças de
família e vários suvenires |
Para
Jairo de Sender, em decoração não há espaço
para preconceito. Vale misturar duas serigrafias de Salvador Dalí, herdadas
de família, com uma réplica inflável da Torre Eiffel, trazida
de uma viagem, mais uma escultura contemporânea de arame e uma foto antiga
num pratinho-suvenir de zoológico. Todas essas peças estão
num mesmo ambiente, o home theater, na cobertura do arquiteto, na Barra. Esse
é o espaço preferido de Sender e onde ele reúne a mulher
e os três filhos. "O que fiz na minha casa faço na dos clientes.
As pessoas têm de pôr para fora suas vontades, suas viagens", diz.
O arquiteto, que tem um rol de clientes como o presidente do Ibope, Carlos Augusto
Montenegro, e os atores Luigi Baricelli e Luciano Szafir, é adepto da mistura
de estilos e materiais. A entrada e a escada da cobertura de 360 metros quadrados,
só para se ter uma idéia, são de mármore carrara.
O restante do piso é de porcelanato, material também usado em cozinhas.
"Para mim, não existe cafona nem a expressão 'não pode'."
Para abrigar a família no home theater, ele optou por um sofá moderno
e uma poltrona Egg, um clássico do design, de 1958. A cor escolhida para
a peça assinada por Arne Jacobsen foi um azul "bic", como Sender define.
No mesmo andar ficam uma pequena cozinha, as salas de estar e jantar e um miniescritório.
Embaixo, quatro quartos. Por todos os cantos, móveis de estilo, objetos
deixados pelo avô paterno e lembranças de viagens. "A decoração
tem de ter peças de valor afetivo e humor", prega Jairo. E, como se vê,
ele põe isso em prática. Joy
Garrido Fotos
Bruno Veiga/Strana
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 | | Joy:
quarto repaginado para a filha |
Sempre
às voltas com obras, a arquiteta Joy Garrido vem adiando há anos
um projeto para o próprio lar. "Penso em quebrar paredes e integrar ambientes,
como tenho feito em alguns trabalhos. Acabo concentrando a energia para os clientes",
conta. Há vinte anos no mesmo apartamento, um imóvel de 230 metros
quadrados na Praia de São Conrado, ela só fez reformas pontuais.
Primeiro transformou um dos banheiros das três suítes num closet,
repaginou o quarto da filha mais velha, também Joy, de 17 anos, e há
quatro anos acabou com a sala de televisão e transferiu para lá
seu escritório. "Fico sempre apaixonada pelo último trabalho", diz
a arquiteta, que acaba de reformar o quarto da caçula, Maria, de 13 anos.
O ambiente, antes rosa-bebê com paisagens de contos de fadas, virou um funcional
e colorido quarto de adolescente. Como para qualquer cliente, projetou tudo pensando
nos hábitos e gostos da filha. Em vez de uma bicama, optou por estrado
visível com um futon em cima. "Um outro futon enrolado pode virar outra
cama. A Maria adora receber amigas para dormir aqui", conta. A mesa-de-cabeceira
tem rodinhas, já prevendo o vai-e-vem, e a parede atrás da cama
ganhou uma estante para os livros e revistas preferidos. Em outra parede foi criado
um canto de estudo e televisão, com vários nichos: em um ficam lápis
e canetas, em outro o material escolar e em um terceiro as bijuterias da menina.
Para fechar, um armário com espelho grande na porta. No restante da casa,
espalham-se poucas peças modernas e móveis clássicos, uma
das marcas da arquiteta, que tem em sua clientela nomes como Márcia Peltier,
Patrícia Mayer e Bia Rique. Maurício
Nóbrega Fotos
André Valentim/Strana
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 | | Como
num barco: todo o espaço usado |
O
sonho do arquiteto Maurício Nóbrega era morar numa casa. Há
três anos, encontrou o imóvel tão desejado. Não hesitou:
trocou o apartamento de 350 metros quadrados, no Flamengo, pela charmosa construção
de dois andares, na Gávea, com metade da metragem mas enorme potencial.
Foram dez meses de obra, que deram o clima contemporâneo e tornaram os ambientes
claros, duas marcas de seus projetos. "O que eu fiz foi quase o design de um barco.
Todo o espaço livre foi aproveitado", conta. O vão embaixo da escada
de acesso aos três quartos virou um porta-louças. A área da
antiga piscina deu lugar à sala de jantar e, na laje, ele criou novo espaço
de lazer. A garagem, pouco usada, foi transformada num agradável terraço,
com parede de lambris, piso de tijolinhos e um banco com almofadões. "Como
nos meus trabalhos, não me guiei por tendências. Segui os sonhos
dos moradores. No caso, eu, minha mulher e minhas duas filhas", diz o arquiteto,
responsável, entre outros, pela casa do músico Roberto Frejat, pela
loja Espaço Lundgren e pelo bar Saturnino. Em sua casa, o destaque é
a sala. Diante do espaço reduzido, Maurício aproveitou os 2,5 metros
que tinha entre a janela e o muro. Abriu tudo, instalou uma porta de vidro, criou
um jardim-de-inverno e revestiu a parte interna do muro com espelho. "Dá
amplitude", explica. Pôs sofás claros, uma mesa de centro indiana,
uma escrivaninha antiga, obras de artistas como José Bechara e Nelson Felix
e um divertido painel com casinhas de passarinho. "Conheço o carteiro pelo
nome. Isso só acontece quando se mora em uma casa", diz, com o ar de sonho
realizado. |