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17 de agosto de 2005

REPORTAGEM DE CAPA
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BEIRA-MAR
CRÔNICA
  

REPORTAGEM DE CAPA

Dançar é preciso

A cidade se agita com , da
carioca Deborah Colker, e
espera a vinda de Onqotô, que
comemora os trinta anos do
mineiro Grupo Corpo

Debora Ghivelder e Fátima Sá 

Fotos: André Valentim/Strana e Flavio Colker
Deborah Colker e a vitrine do desejo de Nó: três meses de teatro lotado
Fotos: José Luiz Pederneiras e Alexandre Schneider
Rodrigo Pederneiras e Onqotô: o novo balé do Corpo

É quase um pas de deux. Nas próximas semanas as duas maiores companhias de dança do Brasil praticamente se cruzam nos palcos da cidade, oferecendo uma programação de excelência ímpar. Nó, da Cia. de Dança Deborah Colker, cumpre inédita estada de três meses de casa lotada e despede-se no domingo (21) do Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes. No dia 31, estréia no Theatro Municipal o novo espetáculo do Grupo Corpo. Onqotô (corruptela mineira de "onde é que eu estou?") celebra os trinta anos da vitoriosa trajetória da companhia mineira. Quem não viu a mais recente ousadia de Deborah Colker deve se apressar. Os ingressos andam escassos. Todo mundo quer ver os bailarinos representando o desejo, amarrados em cordas e expostos em vitrine. Para garantir lugar na platéia do Corpo também é preciso correr. As bilheterias abrem nesta segunda (15) e prevê-se uma disputa acirrada. Afinal, não é todo dia que se tem um novo trabalho do coreógrafo Rodrigo Pederneiras com passos embalados pela música de Caetano Veloso.

 
O mundo saúda o Grupo Corpo e a Cia. Deborah Colker: sucesso traduzido em variadas línguas

O prestígio da Cia. Deborah Colker e do Grupo Corpo pode ser medido, mais do que por elogios, em números: desde que estreou, 54.000 cariocas passaram pela platéia do Teatro João Caetano. Alguns fizeram questão de voltar. A atriz Fernanda Montenegro, por exemplo, bateu ponto duas vezes. "Se der, ainda verei uma terceira", promete. Onqotô, por sua vez, estreou na semana passada em São Paulo e deve atrair mais de 11.000 pessoas até desembarcar no Rio. "A gente sabe que a Deborah e o Corpo estão em cartaz e pensa logo: 'O que eles vão inventar agora?'. A dança gera uma expectativa enorme na cena cultural", conjectura o músico, compositor e professor de literatura José Miguel Wisnik, que assina, com Caetano Veloso, a trilha original de Onqotô. A expectativa acompanha desde sempre as duas companhias. Quando o desconhecido Grupo Corpo pôs os pés no palco, em 1976, um ano depois de criado, fez um sucesso tão estrondoso que passou seis anos com o mesmo espetáculo. Maria Maria trazia música especialmente composta por Milton Nascimento e, de cara, apresentou-se em catorze países. Em 1994, Deborah Colker fundou seu grupo e estreou Vulcão, dividindo o palco com ninguém menos que a incensada companhia americana Momix. "Foi um peso enorme. Eu não tinha alternativa: ou dava certo ou dava certo", conta Deborah. Deu certo. Vulcão, com suas coreografias cheias de vitalidade, arrebatou o público. Rapidamente, a brasilidade do Corpo e o vigor atlético de Deborah arregalaram os olhos do mundo para a dança contemporânea verde-amarela. Ambos já percorreram mais de vinte países e hoje têm lugar cativo nos principais teatros do mundo. Em 1995, o Corpo tornou-se a primeira trupe brasileira com status de companhia residente da Maison de La Danse de Lyon, na França. Com Mix, Deborah ganhou o Laurence Olivier Award (2001), o maior prêmio das artes da Inglaterra.

 
Caetano: parceria com Wisnik

As semelhanças entre os dois grupos param no sucesso e na qualidade. A começar pela dança, tudo o mais é diferente. Deborah, uma obsessiva de carteirinha, gosta de dar a palavra final em tudo. "Ela é um furacão louro", define bem o músico Berna Ceppas, parceiro desde Vulcão – são dele as trilhas recheadas de samplers e referências. "A Debinha vê o conflito como força motriz", explica o irmão, Flávio Colker, também na companhia desde os primórdios. O jeito mandão e auto-suficiente, entretanto, convive com outro, meio moleque, carioca e encantador. Deborah não é popular só no palco. Ela conquista os mais simples por onde passa. Atualmente é a rainha dos flanelinhas e ambulantes da Praça Tiradentes. É certo encontrá-la tomando uma cachacinha, depois do espetáculo, em uma das barraquinhas em frente ao teatro. A intimidade é tanta que até palpite na música dos camelôs ela já deu. "Só tocava pagode", conta. Um dia, cansada, Deborah gravou um CD para a turma. "Agora eles escutam Raul Seixas", comemora ela, que, para surpresa dos bailarinos, não recusa aqueles cachorros-quentes enormes, cheios de maionese. O jeito pop levou-a um dia desses a se esbaldar, altas horas, num baile sob o viaduto de Madureira. "Ela não tem essa coisa pedante de ser artista", diz o cenógrafo Gringo Cardia, parceiro de palco e de andanças pela cidade.

Em Belo Horizonte, onde mantém sua sede, o Grupo Corpo é, antes de tudo, uma família "gracinha", como costumam dizer. Dos seis filhos de Isabel Pederneiras e Manoel de Carvalho Barbosa, quatro trabalham diretamente na companhia. "No dia em que o barco afundar, afunda tudo junto", brinca dona Isabel, que foi praticamente despejada para que o Corpo nascesse. Explique-se: os filhos penavam atrás de uma sede e acabaram convencendo os pais a ceder a casa e mudar-se para um apartamento. Paulo, o mais velho da prole, fundou a trupe e é o diretor artístico. Rodrigo é, desde 1981, o coreógrafo. Miriam toca os projetos sociais. E Pedro é o diretor técnico do grupo. "Sou a mão-de-obra barata da família", debocha ele, encarregado de transportar para todos os cantos a parafernália de até 15 toneladas necessária aos espetáculos. Lá, tudo se decide entre fatias de bolo e golinhos de café. "Antes de chegar à sala da direção você passa pelo cafezinho. Se for alguém enjoado, cheio de onda, nem segue adiante. É o fenômeno da família mineira. Ou ela enlouquece o cidadão ou se torna uma usina de encanto", diz José Miguel Wisnik. Foi essa "coisa família" que levou Caetano ao grupo. O músico já conhecia os Pederneiras e era fã deles, mas foi o convite de Fernando Velloso, coordenador de programação do Corpo e amigo de velha data, que selou o compromisso. "Eu sou meio mãe da noiva", brinca Fernando, que teve também a idéia de juntar os amigos, e até então nunca parceiros, Caetano e Wisnik.

 

"O Corpo leva ao palco a dança mais moderna e mais criativa, com um toque que é nosso. De todas as artes, a dança é a que mais me transporta. O que eles fazem é a Grande Arte."

MARIETA SEVERO

Na hora de criar, Deborah e o Corpo diferem completamente. Ela bola seus espetáculos a partir de idéias em geral muito cotidianas, desenvolvidas com sua equipe: Gringo, Berna e Flávio Colker, que assina com ela Nó. Os movimentos vigorosos e acrobáticos da companhia dependem de uma interação precisa com o cenário. É fundamental que ele fique pronto primeiro. Só assim foi possível criar, por exemplo, os inacreditáveis giros na roda-gigante do espetáculo Rota, a dança atrevida entre os vasos de porcelana de 4 x 4 e os malabarismos pelos andares de Casa. "Passamos um ano ensaiando em cima do cenário, mudando, adaptando", conta Gringo. dança o desejo. Dividido em dois atos, começa grandioso, em um clima de Éden, com uma imensa árvore feita de cordas. Por esse emaranhado, bailarinos, vestidos pelo estilista Alexandre Herchcovitch, evoluem atados uns aos outros, num jogo que ora sugere aprisionamento, ora submissão, ora laço afetivo. No segundo ato, entra em cena uma enorme caixa acrílica transparente com bordas pintadas de vermelho. Dentro e fora dela, bailarinos se tocam, se repelem, se alcançam em manobras arriscadas, que incluem uma queda livre que deixa a platéia sem ar. A alusão é às vitrines de Amsterdã, à idéia do sexo fácil e da solidão. "Ela trabalha o contemporâneo, o agora", sublinha a fã Fernanda Montenegro.

 

"Adoro os espetáculos da Deborah, a emoção, a criatividade. Admiro também a iniciativa. Ela põe a dança no calendário do país e do mundo. E esse é um território ainda inóspito no Brasil."

MARCO NANINI

Para o Corpo, todo o conceito do espetáculo nasce da música – quase sempre composta para as apresentações. "Está na tradição do balé que as peças musicais precedam as coreografias. No caso do Corpo, nem o tema é sugerido aos autores da música", conta Caetano Veloso. A companhia contrata o músico e dá a ele total liberdade de criação. Só depois que boa parte dos temas está alinhavada é que a direção do grupo entra em cena com palpites, idéias e complementações. Foi assim em Benguelê, em que João Bosco mostrou o caminho para a África, em Parabelo, quando Tom Zé e Wisnik conduziram o grupo pelo sertão, e em O Corpo, com Arnaldo Antunes dando a tônica urbana de uma viagem pelo corpo humano. "Eles trabalham as heranças míticas brasileiras", aponta Fernanda, que também não perde nenhuma apresentação do grupo. Lecuona, o espetáculo exibido no ano passado, que volta dividindo o palco com Onqotô, é exceção. A coreografia foi criada com base em músicas do cubano Ernesto Lecuona, morto em 1963, que deixaram apaixonado Rodrigo Pederneiras.

Lecuona, movido a paixão, latino na alma, generoso nos decotes dos figurinos coloridos e diáfanos, arrancou suspiros do público. Onqotô promete ir além. "Há três semanas vi o ensaio em Belo Horizonte. Todo mundo chorou. Caetano então chorou de se debulhar", conta o cineasta Fabio Barreto, que, ao lado de Marcelo Santiago, produz um documentário sobre a companhia, recheado de cenas de bastidores e entrevistas de fãs como o ex-presidente Fernando Henrique. Onqotô fala da criação do universo, do homem que se percebe pequenino diante da vastidão do mundo. "O espetáculo trata das perguntas que a gente sempre se faz desde que o mundo é mundo: 'onqotô?', 'pronqovô?', 'quemqosô?' ", explica, em mineirês, Rodrigo Pederneiras, que desta vez elaborou coreografias muito próximas do chão. "Aproveitei letras de Caetano em que ele fala coisas como 'de costas para o planeta' para construir os movimentos", diz Rodrigo. Na emocionante trilha há desde um rap sobre o Big Bang até um trecho musicado de Os Lusíadas, de Camões. "Falamos de nós, da nossa posição, do nosso jeito de ser. A idéia é levar o Brasil para o mundo e demolir o crédito conferido sempre, sobre tudo, aos anglo-saxões. É como diz Caetano: 'Eles criaram até o início de tudo, o Big Bang'", teoriza Rodrigo. Para levar a cabo essa aventura pela gênese do universo, Paulo Pederneiras criou um cenário inusitado: um imenso espaço côncavo, coberto por tiras de borracha cinza-chumbo, que remete à idéia de um buraco negro. Por causa disso, toda a iluminação teve de ser repensada, assim como os figurinos de Freusa Zechmeister. Ou seja, deu um trabalhão. A brincadeira de criação, afinal, requer suor até para quem habita o olimpo da dança. "O Corpo e a Deborah honram o mundo da dança no Brasil", diz Fernanda Montenegro. "Toda vez que eu vejo o Corpo, fico patriota", já escreveu Luiz Fernando Verissimo. Todos nós.

 

Movimentos do Corpo

O grupo capitaneado pelos irmãos Pederneiras nasceu em 1975 em Belo Horizonte.

Reúne 60 profissionais, incluindo 22 bailarinos, que ganham, em média, 3 300 reais.

Consome por ano 7 milhões de reais (70% deles financiados pela Petrobras).

Mantém uma escola de dança e um projeto social que atende 700 crianças de quatro favelas de Belo Horizonte.

Já montou 32 espetáculos e mantém 7 deles em repertório.

Apresentou-se em 25 países, incluindo Finlândia, Austrália, Líbano, Luxemburgo e Israel.

Do Rio segue para Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. No fim de outubro, apresenta-se em Nova York e, em novembro, em Lyon. Um espetáculo com música de Carlinhos Brown está nos planos do grupo.


De Minas para o mundo

O grupo festeja trinta anos de sucesso

 
José Luiz Pederneiras
Maria Maria, de 1976: com música composta por Milton Nascimento, foi a estréia do Corpo, criado um ano antes. Ficou seis anos em cartaz e rodou catorze países
José Luiz Pederneiras
21, de 1992: a volta do grupo à trilha exclusiva, com música de Marco Antônio Guimarães, do Uakti, foi um divisor de águas e consagrou o estilo cheio de brasilidade da companhia
Santagustin, de 2002: pop e com humor, homenageava Santo Agostinho ao som de Tom Zé e com figurino de Ronaldo Fraga
Lecuona, de 2004: balé que volta neste ano foi dos poucos a usar trilha não original



A força de Deborah

A trupe nasceu em 1994 no Rio de Janeiro.

Reúne 60 profissionais, incluindo 16 bailarinos, que recebem, no mínimo, 2 500 reais.

Consome por ano 4 milhões de reais (50% deles financiados pela Petrobras).

Inaugurou sua escola de dança no ano passado. Hoje tem 450 alunos.

Já montou 7 espetáculos, todos mantidos em repertório.

Apresentou-se em 21 países, incluindo Alemanha, Áustria e Itália.

Do Rio segue para Brasília, São Paulo, Goiânia e Belo Horizonte. No ano que vem faz turnê pela Europa. Foi convidada para rodar a Alemanha durante a Copa do Mundo de 2006 com um espetáculo sobre futebol. Está trabalhando nele.


Ousadias com estilo

Vigor carioca tipo exportação

 
Velox, de 1995: o espetáculo em que os bailarinos escalavam um paredão consagrou definitivamente a dança atlética da companhia
Rota, de 1997: com uma roda-gigante no palco e embalada por valsa de Strauss, mesclava força e suavidade e produziu o balé mais popular da carreira do grupo
4 x 4, de 2002: a Cia. flerta com as artes plásticas e deslumbra a platéia dançando entre vasos de porcelana
Nó: coreografia inspirada no desejo brinca com as cordas, que unem e aprisionam

     
  
   

 

 
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