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REPORTAGEM DE CAPA
Dançar é preciso A
cidade se agita com Nó, da carioca Deborah Colker, e espera a vinda
de Onqotô, que comemora os trinta anos do mineiro Grupo Corpo Debora
Ghivelder e Fátima Sá
Fotos:
André Valentim/Strana e Flavio Colker
 | | Deborah
Colker e
a vitrine do desejo
de Nó: três
meses de teatro lotado
| Fotos: José Luiz Pederneiras
e Alexandre Schneider
 | | Rodrigo
Pederneiras
e Onqotô:
o novo balé do
Corpo |
É
quase um pas de deux. Nas próximas semanas as duas maiores companhias de
dança do Brasil praticamente se cruzam nos palcos da cidade, oferecendo
uma programação de excelência ímpar. Nó,
da Cia. de Dança Deborah Colker, cumpre inédita estada de três
meses de casa lotada e despede-se no domingo (21) do Teatro João Caetano,
na Praça Tiradentes. No dia 31, estréia no Theatro Municipal o novo
espetáculo do Grupo Corpo. Onqotô (corruptela mineira de "onde
é que eu estou?") celebra os trinta anos da vitoriosa trajetória
da companhia mineira. Quem não viu a mais recente ousadia de Deborah Colker
deve se apressar. Os ingressos andam escassos. Todo mundo quer ver os bailarinos
representando o desejo, amarrados em cordas e expostos em vitrine. Para garantir
lugar na platéia do Corpo também é preciso correr. As bilheterias
abrem nesta segunda (15) e prevê-se uma disputa acirrada. Afinal, não
é todo dia que se tem um novo trabalho do coreógrafo Rodrigo Pederneiras
com passos embalados pela música de Caetano Veloso.
 | | O
mundo saúda o Grupo Corpo e a Cia. Deborah Colker: sucesso traduzido em
variadas línguas |
O
prestígio da Cia. Deborah Colker e do Grupo Corpo pode ser medido, mais
do que por elogios, em números: desde que Nó estreou, 54.000
cariocas passaram pela platéia do Teatro João Caetano. Alguns fizeram
questão de voltar. A atriz Fernanda Montenegro, por exemplo, bateu ponto
duas vezes. "Se der, ainda verei uma terceira", promete. Onqotô,
por sua vez, estreou na semana passada em São Paulo e deve atrair mais
de 11.000 pessoas até desembarcar no Rio. "A gente sabe que a Deborah e
o Corpo estão em cartaz e pensa logo: 'O que eles vão inventar agora?'.
A dança gera uma expectativa enorme na cena cultural", conjectura o músico,
compositor e professor de literatura José Miguel Wisnik, que assina, com
Caetano Veloso, a trilha original de Onqotô. A expectativa acompanha
desde sempre as duas companhias. Quando o desconhecido Grupo Corpo pôs os
pés no palco, em 1976, um ano depois de criado, fez um sucesso tão
estrondoso que passou seis anos com o mesmo espetáculo. Maria Maria
trazia música especialmente composta por Milton Nascimento e, de cara,
apresentou-se em catorze países. Em 1994, Deborah Colker fundou seu grupo
e estreou Vulcão, dividindo o palco com ninguém menos que
a incensada companhia americana Momix. "Foi um peso enorme. Eu não tinha
alternativa: ou dava certo ou dava certo", conta Deborah. Deu certo. Vulcão,
com suas coreografias cheias de vitalidade, arrebatou o público. Rapidamente,
a brasilidade do Corpo e o vigor atlético de Deborah arregalaram os olhos
do mundo para a dança contemporânea verde-amarela. Ambos já
percorreram mais de vinte países e hoje têm lugar cativo nos principais
teatros do mundo. Em 1995, o Corpo tornou-se a primeira trupe brasileira com status
de companhia residente da Maison de La Danse de Lyon, na França. Com Mix,
Deborah ganhou o Laurence Olivier Award (2001), o maior prêmio das artes
da Inglaterra.  | | Caetano:
parceria com Wisnik |
As
semelhanças entre os dois grupos param no sucesso e na qualidade. A começar
pela dança, tudo o mais é diferente. Deborah, uma obsessiva de carteirinha,
gosta de dar a palavra final em tudo. "Ela é um furacão louro",
define bem o músico Berna Ceppas, parceiro desde Vulcão
são dele as trilhas recheadas de samplers e referências. "A
Debinha vê o conflito como força motriz", explica o irmão,
Flávio Colker, também na companhia desde os primórdios. O
jeito mandão e auto-suficiente, entretanto, convive com outro, meio moleque,
carioca e encantador. Deborah não é popular só no palco.
Ela conquista os mais simples por onde passa. Atualmente é a rainha dos
flanelinhas e ambulantes da Praça Tiradentes. É certo encontrá-la
tomando uma cachacinha, depois do espetáculo, em uma das barraquinhas em
frente ao teatro. A intimidade é tanta que até palpite na música
dos camelôs ela já deu. "Só tocava pagode", conta. Um dia,
cansada, Deborah gravou um CD para a turma. "Agora eles escutam Raul Seixas",
comemora ela, que, para surpresa dos bailarinos, não recusa aqueles cachorros-quentes
enormes, cheios de maionese. O jeito pop levou-a um dia desses a se esbaldar,
altas horas, num baile sob o viaduto de Madureira. "Ela não tem essa coisa
pedante de ser artista", diz o cenógrafo Gringo Cardia, parceiro de palco
e de andanças pela cidade. Em
Belo Horizonte, onde mantém sua sede, o Grupo Corpo é, antes de
tudo, uma família "gracinha", como costumam dizer. Dos seis filhos de Isabel
Pederneiras e Manoel de Carvalho Barbosa, quatro trabalham diretamente na companhia.
"No dia em que o barco afundar, afunda tudo junto", brinca dona Isabel, que foi
praticamente despejada para que o Corpo nascesse. Explique-se: os filhos penavam
atrás de uma sede e acabaram convencendo os pais a ceder a casa e mudar-se
para um apartamento. Paulo, o mais velho da prole, fundou a trupe e é o
diretor artístico. Rodrigo é, desde 1981, o coreógrafo. Miriam
toca os projetos sociais. E Pedro é o diretor técnico do grupo.
"Sou a mão-de-obra barata da família", debocha ele, encarregado
de transportar para todos os cantos a parafernália de até 15 toneladas
necessária aos espetáculos. Lá, tudo se decide entre fatias
de bolo e golinhos de café. "Antes de chegar à sala da direção
você passa pelo cafezinho. Se for alguém enjoado, cheio de onda,
nem segue adiante. É o fenômeno da família mineira. Ou ela
enlouquece o cidadão ou se torna uma usina de encanto", diz José
Miguel Wisnik. Foi essa "coisa família" que levou Caetano ao grupo. O músico
já conhecia os Pederneiras e era fã deles, mas foi o convite de
Fernando Velloso, coordenador de programação do Corpo e amigo de
velha data, que selou o compromisso. "Eu sou meio mãe da noiva", brinca
Fernando, que teve também a idéia de juntar os amigos, e até
então nunca parceiros, Caetano e Wisnik.
"O
Corpo leva ao palco a dança mais moderna e mais criativa, com um toque
que é nosso. De todas as artes, a dança é a que mais me transporta.
O que eles fazem é a Grande Arte."
MARIETA SEVERO
| Na
hora de criar, Deborah e o Corpo diferem completamente. Ela bola seus espetáculos
a partir de idéias em geral muito cotidianas, desenvolvidas com sua equipe:
Gringo, Berna e Flávio Colker, que assina com ela Nó. Os
movimentos vigorosos e acrobáticos da companhia dependem de uma interação
precisa com o cenário. É fundamental que ele fique pronto primeiro.
Só assim foi possível criar, por exemplo, os inacreditáveis
giros na roda-gigante do espetáculo Rota, a dança atrevida
entre os vasos de porcelana de 4 x 4 e os malabarismos pelos andares de
Casa. "Passamos um ano ensaiando em cima do cenário, mudando, adaptando",
conta Gringo. Nó dança o desejo. Dividido em dois atos, começa
grandioso, em um clima de Éden, com uma imensa árvore feita de cordas.
Por esse emaranhado, bailarinos, vestidos pelo estilista Alexandre Herchcovitch,
evoluem atados uns aos outros, num jogo que ora sugere aprisionamento, ora submissão,
ora laço afetivo. No segundo ato, entra em cena uma enorme caixa acrílica
transparente com bordas pintadas de vermelho. Dentro e fora dela, bailarinos se
tocam, se repelem, se alcançam em manobras arriscadas, que incluem uma
queda livre que deixa a platéia sem ar. A alusão é às
vitrines de Amsterdã, à idéia do sexo fácil e da solidão.
"Ela trabalha o contemporâneo, o agora", sublinha a fã Fernanda Montenegro.
"Adoro
os espetáculos da Deborah, a emoção, a criatividade. Admiro
também a iniciativa. Ela põe a dança no calendário
do país e do mundo. E esse é um território ainda inóspito
no Brasil."
MARCO
NANINI | Para
o Corpo, todo o conceito do espetáculo nasce da música quase
sempre composta para as apresentações. "Está na tradição
do balé que as peças musicais precedam as coreografias. No caso
do Corpo, nem o tema é sugerido aos autores da música", conta Caetano
Veloso. A companhia contrata o músico e dá a ele total liberdade
de criação. Só depois que boa parte dos temas está
alinhavada é que a direção do grupo entra em cena com palpites,
idéias e complementações. Foi assim em Benguelê,
em que João Bosco mostrou o caminho para a África, em Parabelo,
quando Tom Zé e Wisnik conduziram o grupo pelo sertão, e em O
Corpo, com Arnaldo Antunes dando a tônica urbana de uma viagem pelo
corpo humano. "Eles trabalham as heranças míticas brasileiras",
aponta Fernanda, que também não perde nenhuma apresentação
do grupo. Lecuona, o espetáculo exibido no ano passado, que volta
dividindo o palco com Onqotô, é exceção. A coreografia
foi criada com base em músicas do cubano Ernesto Lecuona, morto em 1963,
que deixaram apaixonado Rodrigo Pederneiras. Lecuona,
movido a paixão, latino na alma, generoso nos decotes dos figurinos coloridos
e diáfanos, arrancou suspiros do público. Onqotô promete
ir além. "Há três semanas vi o ensaio em Belo Horizonte. Todo
mundo chorou. Caetano então chorou de se debulhar", conta o cineasta Fabio
Barreto, que, ao lado de Marcelo Santiago, produz um documentário sobre
a companhia, recheado de cenas de bastidores e entrevistas de fãs como
o ex-presidente Fernando Henrique. Onqotô fala da criação
do universo, do homem que se percebe pequenino diante da vastidão do mundo.
"O espetáculo trata das perguntas que a gente sempre se faz desde que o
mundo é mundo: 'onqotô?', 'pronqovô?', 'quemqosô?' ",
explica, em mineirês, Rodrigo Pederneiras, que desta vez elaborou
coreografias muito próximas do chão. "Aproveitei letras de Caetano
em que ele fala coisas como 'de costas para o planeta' para construir os movimentos",
diz Rodrigo. Na emocionante trilha há desde um rap sobre o Big Bang até
um trecho musicado de Os Lusíadas, de Camões. "Falamos de
nós, da nossa posição, do nosso jeito de ser. A idéia
é levar o Brasil para o mundo e demolir o crédito conferido sempre,
sobre tudo, aos anglo-saxões. É como diz Caetano: 'Eles criaram
até o início de tudo, o Big Bang'", teoriza Rodrigo. Para levar
a cabo essa aventura pela gênese do universo, Paulo Pederneiras criou um
cenário inusitado: um imenso espaço côncavo, coberto por tiras
de borracha cinza-chumbo, que remete à idéia de um buraco negro.
Por causa disso, toda a iluminação teve de ser repensada, assim
como os figurinos de Freusa Zechmeister. Ou seja, deu um trabalhão. A brincadeira
de criação, afinal, requer suor até para quem habita o olimpo
da dança. "O Corpo e a Deborah honram o mundo da dança no Brasil",
diz Fernanda Montenegro. "Toda vez que eu vejo o Corpo, fico patriota", já
escreveu Luiz Fernando Verissimo. Todos nós.
Movimentos
do Corpo
O grupo capitaneado pelos irmãos Pederneiras nasceu em 1975 em Belo Horizonte.
Reúne 60 profissionais, incluindo 22 bailarinos, que ganham,
em média, 3 300 reais.
Consome por ano 7 milhões de reais (70% deles financiados pela Petrobras).
Mantém uma escola de dança e um projeto social que atende 700
crianças de quatro favelas de Belo Horizonte.
Já montou 32 espetáculos e mantém 7 deles em
repertório.
Apresentou-se em 25 países, incluindo Finlândia, Austrália,
Líbano, Luxemburgo e Israel.
Do Rio segue para Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. No fim de outubro,
apresenta-se em Nova York e, em novembro, em Lyon. Um espetáculo com música
de Carlinhos Brown está nos planos do grupo. |
De
Minas para o mundo O
grupo festeja trinta anos de sucesso José
Luiz Pederneiras
 | | Maria
Maria, de 1976: com música
composta
por Milton Nascimento, foi a estréia do Corpo, criado um ano antes. Ficou
seis anos em cartaz e rodou catorze países |
José
Luiz Pederneiras
 | | 21,
de 1992: a volta do grupo à trilha exclusiva, com
música de Marco Antônio Guimarães, do Uakti,
foi um divisor de águas e consagrou o estilo
cheio de brasilidade da companhia |
 | | Santagustin,
de 2002: pop e com humor,
homenageava Santo Agostinho
ao som de Tom Zé e com
figurino de Ronaldo Fraga |
 | | Lecuona,
de 2004: balé que volta
neste ano foi dos poucos a
usar trilha não original |
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A
força de Deborah
A trupe nasceu em 1994 no Rio de Janeiro.
Reúne 60 profissionais, incluindo 16 bailarinos, que recebem,
no mínimo, 2 500 reais.
Consome por ano 4 milhões de reais (50% deles financiados pela Petrobras).
Inaugurou sua escola de dança no ano passado. Hoje tem 450 alunos.
Já montou 7 espetáculos, todos mantidos em repertório.
Apresentou-se em 21 países, incluindo Alemanha, Áustria e
Itália.
Do Rio segue para Brasília, São Paulo, Goiânia e Belo Horizonte.
No ano que vem faz turnê pela Europa. Foi convidada para rodar a Alemanha
durante a Copa do Mundo de 2006 com um espetáculo sobre futebol. Está
trabalhando nele. |
Ousadias
com estilo Vigor
carioca tipo exportação  | | Velox,
de 1995: o espetáculo em que
os bailarinos escalavam um paredão
consagrou definitivamente a
dança atlética da companhia |
 | | Rota,
de 1997: com uma roda-gigante no palco e embalada por valsa de Strauss, mesclava
força e suavidade e produziu o balé mais popular da carreira do
grupo |
 | | 4
x 4, de 2002: a Cia. flerta
com as artes
plásticas e deslumbra
a platéia dançando entre
vasos de porcelana |
 | | Nó:
coreografia inspirada
no desejo brinca
com as cordas, que
unem e aprisionam
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