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17 de maio de 2006

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Mocinhas & vilăs

Manoel Carlos

O mundo está perdido. Guerras, poluição, intolerância, infância abandonada, juventude mergulhada nas drogas, filhos assassinando pais, mães abandonando filhos em lixeiras, prostituição infantil, pedofilia, indiferença pelos velhos, além do estado de miséria em que vive grande parte da população do planeta. Como se dizia antigamente, a vida está pela hora da morte!

Fico pensando: será que é por isso, por causa dessa mudança para pior, no mundo todo, que nas novelas de televisão o Mal faz mais sucesso do que o Bem? Vocês me dirão que sim, que, estando a vida tão ruim, a novela segue seus passos. Mas eu pergunto: e a ficção? Será que não se pode salvar o mundo pelo menos na ficção?

Todas as atrizes querem ser vilãs. Elas acham que as personagens do bem não estão com nada, que sofrem muito, choram por amor e – o mais importante entre os argumentos – aparecem pouco na mídia. Jornais e revistas dão mais espaço às vilãs, às que fazem maldades incríveis e que em outras épocas eram crucificadas em praça pública, recebiam cusparadas no rosto, cartas ameaçadoras e envergonhavam os parentes diante de amigos e vizinhos. Eu me lembro de uma família que teve de desaparecer do bairro em que morava, em São Paulo, quando a novela em que a filha fazia uma dessas vilãs entrou na fase final. E, mesmo na ausência da família, houve quem apedrejasse a casa e escrevesse nomes feios nas paredes externas.

Hoje não. Hoje, quanto mais maldades a personagem fizer, mais festejada será a atriz que lhe der vida. E encherá de orgulho os parentes, amigos e vizinhos. Se ainda for estudante, será a atração da escola, com muitas mães regozijando-se da proximidade:

– Minha filha estuda na escola X, onde estuda a Alzirinha, aquela menina má da novela das 8.

. – Jura? – perguntarão as pessoas, mal acreditando naquela revelação.

– Ela até vem aqui de vez em quando, fazer o dever com a Marininha!

E a família, assim, enquanto durar a novela, viverá alguns momentos de glória, despertando admiração e até mesmo inveja.

Num outro caso, um rapaz dirá numa roda de amigos:

– Sabe a Judith, da novela das 7? Aquela que no capítulo de ontem envenenou a mãe e cortou as duas mãos do irmão mais novo?

– Claro que sei. O maior sucesso!

– É minha prima!

– Não acredito!

E esse rapaz então será convidado para festas, almoços e jantares, nos quais o apresentarão com toda a pompa:

– Este é o Marcelo, primo da Judith, da novela das 7!

E se abrirão olhos e bocas de admiração. Um frêmito percorrerá os convivas, os jovens experimentarão uma agradável excitação e uma senhora de cabelos brancos, quem diria?, exigirá, ansiosa:

– Senta aqui perto de mim, meu amor. Quero saber tudo sobre a sua priminha. Um encanto de vilã!

Também com a ajuda inestimável da mídia, convencionou-se que papel de vilã é mais difícil de fazer do que o de mocinha. Claro que as atrizes escolhidas para esse trabalho colaboram para a propagação dessa lenda e declaram aos repórteres:

– Agora que me deram uma vilã pra fazer é que eu vou mostrar todo o meu potencial. Vou ter a chance de apresentar um trabalho que, antes, com as mocinhas, eu não podia fazer!

A afirmação de que vilões exigem atores mais talentosos do que mocinhos é discutível. Já no cinema, desde os primórdios, quando as vilãs eram raras, quase inexistentes, pois ainda se pensava que as mulheres não podiam ser más; já naquela época, entre os vilões nunca se consideraram Boris Karloff e Vincent Price, por exemplo, mais talentosos do que Cary Grant e James Stewart. Poderão argumentar que Bete Davis fazia melhor papel de má do que de boa. É verdade, mas não se pode esquecer que um dos seus maiores desempenhos foi em A Malvada, em que o papel de má não é dela, como muitas pessoas pensam, mas de Anne Baxter.

Como acabamos de escalar a minha próxima novela, ouvi este pedido por parte de muitas atrizes:

– Quero ser a grande canalha da sua história!

De qualquer modo, elenco e público sabem que uma vilã só existe se existir uma mocinha como vítima.

Filósofos, sociólogos e psicólogos de plantão! Vocês, que sempre aparecem na mídia palpitando sobre a televisão, me respondam: o que está acontecendo? Será a vitória do Mal sobre o Bem? Ou isso é apenas coisa de novela?

Antes as atrizes me perguntavam:

– Com quem eu caso no final?

Agora perguntam:

– Quem eu mato?

Sinal dos tempos!

 

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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