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17 de maio de 2006

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Areias escaldantes

É incerto o futuro dos shows na orla do Rio

Sofia Cerqueira

Fábio Rossi/Ag. O Globo
Rolling Stones: 1,2 milhão de pessoas

Os bastidores dos grandes shows gratuitos nas praias do Rio estão agitados. As divergências entre associações de moradores, produtores, prefeitura e Ministério Público ficaram evidentes depois do show da banda Babado Novo, em janeiro, na orla do Flamengo, que atraiu uma multidão e gerou uma onda de protestos dos moradores. As discussões se acirraram com a apresentação dos Rolling Stones, que levou 1,2 milhão de pessoas a Copacabana. E a situação ficou ainda mais delicada com o cancelamento pela Justiça, na véspera, do show de Zeca Pagodinho, patrocinado pela Petrobras, que aconteceria em 23 de abril, no Flamengo. "As regras do jogo têm de ser mais claras. As empresas não querem investir no Rio e ser surpreendidas em cima da hora", diz o cenógrafo e produtor Abel Gomes, à frente de um grupo de 24 empresas de eventos que pretendem criar uma associação e buscar soluções. "Corremos o risco de vários espetáculos migrarem para outras cidades", afirma Ana Maria Maia, subsecretária de Eventos da prefeitura. Em meio ao bafafá, ela confirma o show de Elton John, em janeiro de 2007, em Copacabana. A promotora do Meio Ambiente Denise Tarin, que, como outros colegas, vem impondo exigências para a realização de eventos na orla, é enfática: "Se depender do Ministério Público, shows do porte do Rolling Stones não vão acontecer mais". É consenso, porém, que é preciso criar normas para que as areias continuem servindo de palco para eventos.

Por enquanto, sobram discussões. Na última quarta-feira, o comandante-geral da PM, coronel Hudson de Aguiar Miranda, se reuniu com a subsecretária de Eventos e solicitou que não ocorressem mais shows na Praia do Flamengo. A vereadora Leila do Flamengo (PFL), paralelamente, elaborou um projeto de lei – ainda não votado – que proíbe eventos com estimativa de público igual ou maior que 30.000 pessoas no bairro. "Se a área não comporta grandes eventos, também não faremos mais a festa de réveillon ali", avisa Ana Maria Maia. A promotora Denise Tarin marcou para o dia 2 de junho uma audiência pública com as associações de moradores. Depois ouvirá os organizadores. "Vamos decidir se entraremos com uma ação na Justiça pedindo a proibição dos eventos ou a criação de normas específicas", afirma.

Que esses eventos causam problemas no trânsito, confusão e danos ao patrimônio, não há dúvida. Mas também beneficiam a rede hoteleira, o comércio e divulgam a imagem da cidade. "Em dia de show, os moradores ficam ilhados e depois sobram depredações, ambulantes e sujeira", reclama Cristina Reis, presidente da Associação de Moradores dos Postos 2, 3, 4 e 5 de Copacabana. Desde março de 2005, época do show de Lenny Kravitz – quando ocorreram tumultos no bairro –, ela vem fazendo representações no MP. "Espetáculos ao ar livre acontecem no mundo todo. Mas aqui há riscos à integridade dos cidadãos", diz Regina Chiaradia, presidente da Associação de Botafogo, que recorreu ao MP contra o show de Zeca Pagodinho. A apresentação no Aterro foi suspensa 48 horas antes sob a alegação de que os organizadores não cumpriram as exigências da PM. Eram esperadas 400.000 pessoas. "Queremos normas viáveis. Não é possível que se exija que os produtores cadastrem ambulantes. Não é atribuição nossa", diz Olivier Ridisser, diretor da New Quality, organizadora do show da Petrobras.

No caso dos Rolling Stones, o MP fez 21 exigências, que incluíam mais banheiros químicos e o término do show à meia-noite, sob o risco de multa de 500.000 reais. Os últimos eventos em Copacabana, o show de 1º de Maio e o enduro da Land Rover, no domingo passado, só foram liberados na véspera. Segundo a Subsecretaria de Eventos, estão em suspense dois grandes shows marcados para este ano. Um na Enseada de Botafogo, para comemorar os 75 anos do Cristo Redentor, e outro em Copacabana, que reuniria cantores internacionais e desfiles de moda. Pelo cenário, dá para ver que o assunto ainda vai render muito.

 

Polêmica à beira-mar

FM O Dia: 500 000 pessoas na Praia de Botafogo, em outubro de 2002.
Por causa dos tumultos, agora só são permitidos no local eventos de música clássica, religiosos ou apresentações internacionais.

Lenny Kravitz: 500 000 pessoas na Praia de Copacabana em março de 2005.
Ocorreram problemas no trânsito e tumultos no metrô, que não vendeu bilhetes antecipados.

Babado Novo: mais de 70 000 pessoas na Praia do Flamengo em janeiro de 2006.
O trânsito parou. Moradores reclamaram que a potência do som causou tremores em prédios.

Skank: 12 dias após o show do Babado Novo.
Os organizadores assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e cumpriram exigências do Ministério Público, como reduzir o volume do som e acabar o show antes das 22 horas.

Rolling Stones: 1,2 milhão de pessoas na Praia de Copacabana em fevereiro de 2006.
Mesmo com o termo de Nada a Opor dos órgãos envolvidos, o Ministério Público fez 21 exigências aos organizadores.

1º de Maio: 40 000 pessoas no show com Fernanda Abreu, DJ Marlboro, Nando Reis e Kid Abelha na Praia de Copacabana.
Só foi autorizado pelo MP depois que os produtores cumpriram 21 exigências.

 

     
   

 

 
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