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CIDADE
Areias escaldantes É incerto o futuro dos shows na orla
do Rio Sofia Cerqueira
Fábio Rossi/Ag. O Globo
 | | Rolling
Stones: 1,2 milhão de pessoas | Os
bastidores dos grandes shows gratuitos nas praias do Rio estão agitados.
As divergências entre associações de moradores, produtores,
prefeitura e Ministério Público ficaram evidentes depois do show
da banda Babado Novo, em janeiro, na orla do Flamengo, que atraiu uma multidão
e gerou uma onda de protestos dos moradores. As discussões se acirraram
com a apresentação dos Rolling Stones, que levou 1,2 milhão
de pessoas a Copacabana. E a situação ficou ainda mais delicada
com o cancelamento pela Justiça, na véspera, do show de Zeca Pagodinho,
patrocinado pela Petrobras, que aconteceria em 23 de abril, no Flamengo. "As regras
do jogo têm de ser mais claras. As empresas não querem investir no
Rio e ser surpreendidas em cima da hora", diz o cenógrafo e produtor Abel
Gomes, à frente de um grupo de 24 empresas de eventos que pretendem criar
uma associação e buscar soluções. "Corremos o risco
de vários espetáculos migrarem para outras cidades", afirma Ana
Maria Maia, subsecretária de Eventos da prefeitura. Em meio ao bafafá,
ela confirma o show de Elton John, em janeiro de 2007, em Copacabana. A promotora
do Meio Ambiente Denise Tarin, que, como outros colegas, vem impondo exigências
para a realização de eventos na orla, é enfática:
"Se depender do Ministério Público, shows do porte do Rolling Stones
não vão acontecer mais". É consenso, porém, que é
preciso criar normas para que as areias continuem servindo de palco para eventos.
Por
enquanto, sobram discussões. Na última quarta-feira, o comandante-geral
da PM, coronel Hudson de Aguiar Miranda, se reuniu com a subsecretária
de Eventos e solicitou que não ocorressem mais shows na Praia do Flamengo.
A vereadora Leila do Flamengo (PFL), paralelamente, elaborou um projeto de lei
ainda não votado que proíbe eventos com estimativa
de público igual ou maior que 30.000 pessoas no bairro. "Se a área
não comporta grandes eventos, também não faremos mais a festa
de réveillon ali", avisa Ana Maria Maia. A promotora Denise Tarin marcou
para o dia 2 de junho uma audiência pública com as associações
de moradores. Depois ouvirá os organizadores. "Vamos decidir se entraremos
com uma ação na Justiça pedindo a proibição
dos eventos ou a criação de normas específicas", afirma.
Que
esses eventos causam problemas no trânsito, confusão e danos ao patrimônio,
não há dúvida. Mas também beneficiam a rede hoteleira,
o comércio e divulgam a imagem da cidade. "Em dia de show, os moradores
ficam ilhados e depois sobram depredações, ambulantes e sujeira",
reclama Cristina Reis, presidente da Associação de Moradores dos
Postos 2, 3, 4 e 5 de Copacabana. Desde março de 2005, época do
show de Lenny Kravitz quando ocorreram tumultos no bairro , ela vem
fazendo representações no MP. "Espetáculos ao ar livre acontecem
no mundo todo. Mas aqui há riscos à integridade dos cidadãos",
diz Regina Chiaradia, presidente da Associação de Botafogo, que
recorreu ao MP contra o show de Zeca Pagodinho. A apresentação no
Aterro foi suspensa 48 horas antes sob a alegação de que os organizadores
não cumpriram as exigências da PM. Eram esperadas 400.000 pessoas.
"Queremos normas viáveis. Não é possível que se exija
que os produtores cadastrem ambulantes. Não é atribuição
nossa", diz Olivier Ridisser, diretor da New Quality, organizadora do show da
Petrobras. No
caso dos Rolling Stones, o MP fez 21 exigências, que incluíam mais
banheiros químicos e o término do show à meia-noite, sob
o risco de multa de 500.000 reais. Os últimos eventos em Copacabana, o
show de 1º de Maio e o enduro da Land Rover, no domingo passado, só
foram liberados na véspera. Segundo a Subsecretaria de Eventos, estão
em suspense dois grandes shows marcados para este ano. Um na Enseada de Botafogo,
para comemorar os 75 anos do Cristo Redentor, e outro em Copacabana, que reuniria
cantores internacionais e desfiles de moda. Pelo cenário, dá para
ver que o assunto ainda vai render muito.
Polêmica
à beira-mar
FM O Dia: 500 000 pessoas na Praia de Botafogo, em outubro de 2002.
Por causa dos tumultos, agora só são permitidos no local eventos
de música clássica, religiosos ou apresentações internacionais.
Lenny Kravitz: 500 000 pessoas na Praia de Copacabana em março de
2005. Ocorreram problemas no trânsito e tumultos no metrô, que
não vendeu bilhetes antecipados.
Babado Novo: mais de 70 000 pessoas na Praia do Flamengo em janeiro
de 2006. O trânsito parou. Moradores reclamaram que a potência
do som causou tremores em prédios.
Skank: 12 dias após o show do Babado Novo. Os organizadores
assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e cumpriram exigências
do Ministério Público, como reduzir o volume do som e acabar o show
antes das 22 horas.
Rolling Stones: 1,2 milhão de pessoas na Praia de Copacabana em
fevereiro de 2006. Mesmo com o termo de Nada a Opor dos órgãos
envolvidos, o Ministério Público fez 21 exigências aos organizadores.
1º de Maio: 40 000 pessoas no show com Fernanda Abreu, DJ Marlboro,
Nando Reis e Kid Abelha na Praia de Copacabana. Só foi autorizado pelo
MP depois que os produtores cumpriram 21 exigências. | |