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17 de maio de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
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REPORTAGEM DE CAPA

Cariocas fazem a festa
entre livros

Com shows, cinema, cafés e restaurantes,
livrarias transformam-se em animados
pontos de encontro

Fátima Sá e Telma Alvarenga

Dilmar Cavalher/Strana
Dilmar Cavalher/Strana

Travessa
A maior loja da rede (à esq.) virou efervescente ponto de encontro em Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572, 3205-9002). As atrações incluem o restaurante B!, debates, palestras e uma feira do troca, que deve acontecer todo mês. "Só esperamos autorização da prefeitura", avisa Rui Campos (à dir.), um dos sócios da charmosa livraria, que, segundo ele, "vende livros e felicidade". Há filiais na Travessa do Ouvidor, com café e papelaria, e na Avenida Rio Branco, em um lindo prédio tombado, com restaurante.

Tarde de sábado. A Livraria Travessa de Ipanema está lotada. Cercada de livros, a pequena multidão se divide entre a leitura, o bate-papo em torno de um café, a fila de espera por um lugar no restaurante e o almoço em família. A Travessa é a mais visível, mas não é a única livraria que apostou, com sucesso, na diversificação para atrair público. Do Centro à Barra há aquelas em que se podem ver filmes, shows, peças de teatro, jantar com bons vinhos e até fazer aulas de dança. O resultado é que algumas livrarias do Rio viraram point. Que o diga o autor de novelas Manoel Carlos, que adora reunir a família no charmoso Café Severino da Argumento, no Leblon. "Venho com minha mulher, os filhos, os netos. Também faço reuniões de trabalho aqui. É o escritório ideal", conta, enquanto saboreia uma cestinha de pães de queijo com café. Maneco compara o Severino aos cafés das livrarias de Nova York, onde o cliente pode "ficar o dia inteiro lendo um livro, folheando revistas, e beber só um copo d'água", sem se tornar vítima de olhares enviesados por não consumir nada mais.

Os cafés, aliás, foram o primeiro bônus. Fincada no Leblon desde 1979, a Argumento só abriu o Severino em 1996, três anos após se mudar para o atual endereço. Já havia começado a vender CDs. "As gravadoras nem nos atendiam. Hoje, estamos entre os principais clientes", conta Marcus Gasparian, um dos três irmãos que comandam a Argumento. Depois, vieram atrações mais ousadas. Em 2002, quando a Travessa abriu sua maior loja, em Ipanema, destinou boa parte do andar superior para o café-restaurante B!. A idéia pegou. O ambiente, com sessenta lugares, vive lotado. A Travessona, como é carinhosamente chamada pelos freqüentadores, tem entre os habitués leitores dos mais variados perfis, como o ex-presidente português Mario Soares, o ator Du Moscovis, a modelo Isabel Wilker e o humorista Marcelo Madureira. Com escritório no mesmo bairro, o casseta é tão assíduo que ganhou status de conselheiro. "A Travessona virou o que a gente chama de loja destino, um lugar de encontro", diz Rui Campos, um dos sete donos da rede. Além do sucesso do restaurante B!, animados debates e palestras têm agitado a livraria. Não bastasse, a loja promoveu recentemente uma feirinha do troca na calçada em frente, oferecendo objetos antigos e livros a preços camaradas.

 
Bruno Veiga/Strana
Bruno Veiga/Strana

Letras & Expressões

Som de primeira e programação atraente. Com atributos assim, o 3º andar da loja de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 276, 2521-6110) virou um concorrido palco, com shows, peças e, em breve, cineclube. O músico Toni Platão (à esq.) é uma das atrações que lotam a casa, e o Café Ubaldo (à dir.), no 2º andar, é parada obrigatória. No Leblon, a Letras funciona 24 horas, com o Café D'Antônio Torres e um cibercafé.

Além de gastronomia e produtos cada vez mais diversificados, as livrarias resolveram investir ainda em programação cultural. É o caso tanto das maiores, como a Saraiva Mega Store e a Fnac, que têm pocket shows grátis, quanto das novatas, como a New Books, que abriu as portas no Shopping da Gávea, em 2004, e no Fashion Mall, em dezembro de 2005. Na filial de São Conrado, a maior, o espaço do restaurante – o Bistrô Pax – conta até com palquinho. Ali, na última segunda-feira, Marcelo D2 fez um pocket show de meia hora para o lançamento de seu novo CD, Meu Samba É Assim. Foi sua terceira apresentação em livraria. "É um encontro com a galera. Fico mais próximo da molecada", diz Marcelo. Por molecada, entenda-se uma garotada de 12 a 20 anos, que sacolejava no 1º piso da loja (o 2º é ocupado por livros e instrumentos musicais, todos à venda). As atrações fazem tanto sucesso que a New Books começa, neste mês, uma parceria com o Mistura Fina. "Vamos levar um pouco do que a gente faz na Lagoa para São Conrado, onde não existe uma casa de shows", conta Christian Lobo, programador e produtor do Mistura. Hoje, gratuitos e restritos a dois dias na semana, os shows vão se estender de quarta a domingo, com couvert artístico entre 10 e 40 reais.

 
Felipe Varanda/Strana

Argumento

No charmoso Café Severino da loja do Leblon (Rua Dias Ferreira, 417, 2239-5294), Manoel Carlos (acima) encontra tranqüilidade para ler um livro e até fazer reuniões de trabalho. A psicanalista Elisa Werlang (abaixo) vai ali todas as tardes com a pequena Sofia, de 2 anos. Além de um cantinho com livros para os pequenos, a livraria tem contadores de histórias aos domingos de manhã. No Café Severino da filial da Barra ( 2438-7644), um grupo de chorinho anima as noites de terça-feira, na varanda.

Felipe Varanda/Strana

A carência de palcos, aliada à boa programação, talvez explique o sucesso das apresentações, que têm lotado o 3º andar da Letras & Expressões de Ipanema. Foi Rafael Bruno, filho de um dos quatro sócios da casa, quem resolveu reativar o espaço, que abrigara um piano-bar e estava vazio fazia um ano e meio. Os sócios hesitaram, mas acabaram concordando, desde que a aventura não desse prejuízo. O primeiro passo foi o espetáculo Versos de Hollanda, um misto de sarau, peça e musical, inspirado nas canções de Chico Buarque, que estreou sem alarde e até hoje, um ano depois, continua em cartaz às sextas e aos sábados. "A gente notou ali que tinha potencial para algo mais", comenta Rafael. Com o apoio do músico Pierre Aderne, armou-se uma programação. Sempre às 21 horas, os shows acontecem às segundas (Zéu Brito), às terças (Toni Platão) e às quartas (Pierre Aderne), com ingressos entre 15 e 20 reais. Toni Platão aportou ali em fevereiro para fazer três ou quatro shows. Não saiu mais. "O lugar é agradável, tem um jeitão de cabaré, e o público é bem bacana. Tem sido meu melhor show", diz Toni.

No Leblon, a livraria Da Conde Arte + Cultura também abriga, no espaço lounge instalado no 2º andar, shows e encontros dedicados à poesia e ao cinema. Refestelados nos sofás, os cinéfilos assistem, numa TV de 32 polegadas, a filmes de diretores consagrados, como Bergman, Fellini e Almodóvar. As sessões não têm um dia fixo. A única certeza é que o programa "foge dos filmes comerciais", avisa o gerente Adriano Kneipp. A Letras de Ipanema também anuncia novidades na área. Vai lançar seu cineclube em julho. Literatura e cinema, afinal, sempre fizeram uma boa dobradinha. Tanto que muitas salas de projeção têm a própria livraria. A novidade é que o movimento, agora, é inverso. Em agosto de 2004, o Armazém Digital inventou a livraria com cinema. Abriu sua primeira loja no Shopping Rio Plaza, em Botafogo, com sala em formato stadium para 100 espectadores. As poltronas são de couro e, o mais importante, os lugares são marcados. A livraria promove ainda shows de jazz, palestras e debates, fórmula que se repete na filial do Shopping Rio Design Leblon, inaugurada em outubro do ano passado. Abriu espaço também para cursos de música clássica, em Botafogo, e de apreciação de vinhos, no Leblon. O mais inusitado, porém, são as tardes com dança de salão, que acontecem nas duas lojas da rede.

 

Felipe Varanda/Strana
Felipe Varanda/Strana

Armazém Digital

Um dos trunfos é a boa sala de cinema (à dir.), em formato stadium, com 100 poltronas e ingressos com lugares marcados. Os outros são a farta programação, que inclui até aulas de dança de salão e apreciação de música clássica. Há também degustações de vinho, shows de jazz e atrações infantis. O Armazém Digital começou com uma loja em Botafogo (Shopping Rio Plaza, loja 108, 2101-9300). Hoje, mantém uma filial no Leblon ( 2274-5999), onde a psicanalista Cacilda Vieira Bruni (acima, à esq.) comemorou seu aniversário na semana passada, cercada de amigas, tomando um chá no bistrô.

Playground de adultos, as lojas oferecem ainda espaço para que as crianças se divirtam. A Argumento, a Travessa, a Letras e o Armazém Digital têm cantinhos só para os pequenos, com livros multicoloridos que eles podem manusear à vontade. Na Argumento, aos domingos (às 11 horas, no Leblon, e às 16 horas, na filial do Rio Design Barra) o grupo Tapetes Contadores de Histórias transforma a livraria num grande happening para crianças. O setor infantil do Armazém Digital, batizado de Armazoom, tem atrações variadas a cada fim de semana. No próximo haverá show do músico Paulo Bi, no sábado (20) em Botafogo e no domingo (21) no Leblon, sempre às 17 horas.

 
Dilmar Cavalher/Strana

Da Conde

Bem no meio da livraria (Rua Conde de Bernadotte, 26, loja 125, Leblon, 2274-0359), um café com balcão e banquinhos em volta divide o espaço com prateleiras de livros. No 2º andar, onde são vendidos CDs e DVDs nacionais e importados, um espaçoso lounge com sofás, piano e TV de 32 polegadas é cenário de shows, saraus de poesia, encontros de contistas e exibição de filmes de diretores consagrados. Quando não há eventos, o espaço pode ser usado para festas de aniversário. A programação está no site www.daconde.art.br.

Recheadas de atrativos para pais e filhos, as lojas chegam a virar extensão de casa. Na semana passada, a psicanalista Cacilda Vieira Bruni reuniu 25 amigas e comemorou seu aniversário rodeada pelos livros do Armazém Digital do Leblon. Saiu de lá felicíssima. Sempre que pode, a modelo Isabel Wilker sai da PUC, onde cursa letras, e estica na Travessona. "Gosto de livraria com jeito de casa, onde eu posso tomar um café, comer alguma coisa e me sentar numa poltrona para ler", conta. O ambiente aconchegante, que não inspira pressa, foi justamente o que arrebatou a psicanalista Elisa Werlang. Freqüentadora da Argumento do Leblon, ela escreveu sua dissertação de mestrado nas mesinhas do Café Severino. Com um bebê em casa, todos os dias Elisa se sentava à mesa do café e rascunhava por duas horas seguidas. "Vinha atrás de sossego", confessa. Quase dois anos depois, quem se diverte na livraria é a pequena Sofia. "A gente vem todas as tardes. Ela passa na porta e pede para entrar", conta. O impulso de Sofia também move Manoel Carlos. "Quando não estou fazendo novela, venho todos os dias", diz. A Argumento, aliás, virou seu segundo endereço. Literalmente. "Tem gente que deixa correspondência para mim aqui. Recebo cartas e currículos de pessoas interessadas num papel na novela", diverte-se o autor.

 

Dilmar Cavalher/Strana

New Books

As duas lojas, do Shopping da Gávea ( 3874-3964) e do Fashion Mall, têm atrações musicais. A de São Conrado (Estrada da Gávea, 899, loja 122 3322-7499) é bem maior e tem até um palquinho no espaço do restaurante ­ o Bistrô Pax ­, onde o músico Marcelo D2 (abaixo) se apresentou. No 2º andar (acima), além de livros, são vendidos instrumentos musicais. O café da livraria da Gávea, além de pocket shows, abriga palestras e tem dois computadores.

Dilmar Cavalher/Strana

A fórmula tem dado tão certo que as livrarias se espalham pela cidade. A Travessa, que completa duas décadas neste ano e tem mais duas lojas no Centro, prepara-se para inaugurar outra filial, em novembro, no futuro Shopping Leblon. Terá o dobro do tamanho da Travessona – exatos 1.400 metros quadrados de área. A Argumento chega a Copacabana no mês que vem, com seu Café Severino, em uma loja de dois andares. Apesar de tanto investimento, os empresários são cautelosos. "Nosso negócio é vender livro, revista e jornal. Não ganhamos dinheiro com as outras atividades", afirma Rafael Bruno, da Letras. "A livraria é onde estamos ancorados. As vendas de livros continuam crescendo. Hoje elas representam 60% do faturamento. CDs e DVDs ficam com 20% e o café, com os outros 20%", calcula Marcus Gasparian, da Argumento. "A missão do livreiro é promover o encontro do leitor com o livro", diz Rui Campos, da Travessa. E esse encontro está cada vez mais agradável.

 

Humor e novidades nos sebos

 
Felipe Varanda/Strana
Al-Fárábi: cursos até de iorubá

Como as livrarias, os sebos também andam ganhando cara nova na cidade. Os livros amarelados pelo tempo, os LPs usados e os gibis continuam lá, mas agora dividem o espaço com bazares de moda, encontros regados a cerveja, shows e até cursos de iorubá. No Le Bon Sebon ( 2239-3457), aberto há quase um ano, no Leblon, o cliente é atraído pelo bom humor. Um cartaz na porta avisa: "Proibida a entrada de ex-big brothers". No Baratos da Ribeiro ( 0800-7017326 ou 2549-3850), em Copacabana, às quintas, depois que a loja fecha, às 20 horas, integrantes do Clube do Vinil reúnem-se para ouvir preciosidades de suas coleções e bebericar no bar – na verdade, um antigo banheiro reformado. A loja já abrigou até um bazar. A idéia é repetir. "Num sábado por mês abriremos espaço para novos estilistas", anuncia Maurício Gouveia, um dos sócios. A loja negocia, ainda, com a associação de moradores do bairro, a retomada dos shows que animaram o lugar até o início do ano. O agito vai além da Zona Sul. Ficam no Centro o Berinjela ( 2532-3646), o pioneiro das novidades, e o Dantes ( 2240-2920), além do Al-Fárábi ( 2233-0879). Instalado num sobrado do século XIX, na Rua do Rosário, o Al-Fárábi, que vende gravuras de artistas como Rubens Gerchman e oferece aulas de iorubá, inaugura, em julho, um café com música ao vivo.

 

     
   

 

 
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