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REPORTAGEM DE CAPA
Cariocas fazem a festa entre livros Com shows, cinema,
cafés e restaurantes, livrarias transformam-se em animados pontos de encontro
Fátima Sá e Telma Alvarenga
Dilmar Cavalher/Strana
 | Dilmar
Cavalher/Strana
 | Travessa
A maior
loja da rede (à esq.) virou efervescente ponto de
encontro em Ipanema (Rua Visconde
de Pirajá, 572,
3205-9002). As
atrações incluem o
restaurante B!, debates, palestras e uma feira do troca, que deve acontecer todo
mês. "Só esperamos autorização da prefeitura", avisa
Rui Campos (à
dir.), um dos sócios da charmosa livraria, que, segundo ele, "vende
livros e felicidade". Há filiais na Travessa do Ouvidor, com café
e papelaria, e na Avenida Rio Branco, em um lindo prédio tombado, com restaurante.
| Tarde
de sábado. A Livraria Travessa de Ipanema está lotada. Cercada de
livros, a pequena multidão se divide entre a leitura, o bate-papo em torno
de um café, a fila de espera por um lugar no restaurante e o almoço
em família. A Travessa é a mais visível, mas não é
a única livraria que apostou, com sucesso, na diversificação
para atrair público. Do Centro à Barra há aquelas em que
se podem ver filmes, shows, peças de teatro, jantar com bons vinhos e até
fazer aulas de dança. O resultado é que algumas livrarias do Rio
viraram point. Que o diga o autor de novelas Manoel Carlos, que adora reunir a
família no charmoso Café Severino da Argumento, no Leblon. "Venho
com minha mulher, os filhos, os netos. Também faço reuniões
de trabalho aqui. É o escritório ideal", conta, enquanto saboreia
uma cestinha de pães de queijo com café. Maneco compara o Severino
aos cafés das livrarias de Nova York, onde o cliente pode "ficar o dia
inteiro lendo um livro, folheando revistas, e beber só um copo d'água",
sem se tornar vítima de olhares enviesados por não consumir nada
mais. Os
cafés, aliás, foram o primeiro bônus. Fincada no Leblon desde
1979, a Argumento só abriu o Severino em 1996, três anos após
se mudar para o atual endereço. Já havia começado a vender
CDs. "As gravadoras nem nos atendiam. Hoje, estamos entre os principais clientes",
conta Marcus Gasparian, um dos três irmãos que comandam a Argumento.
Depois, vieram atrações mais ousadas. Em 2002, quando a Travessa
abriu sua maior loja, em Ipanema, destinou boa parte do andar superior para o
café-restaurante B!. A idéia pegou. O ambiente, com sessenta lugares,
vive lotado. A Travessona, como é carinhosamente chamada pelos freqüentadores,
tem entre os habitués leitores dos mais variados perfis, como o ex-presidente
português Mario Soares, o ator Du Moscovis, a modelo Isabel Wilker e o humorista
Marcelo Madureira. Com escritório no mesmo bairro, o casseta é tão
assíduo que ganhou status de conselheiro. "A Travessona virou o que a gente
chama de loja destino, um lugar de encontro", diz Rui Campos, um dos sete donos
da rede. Além do sucesso do restaurante B!, animados debates e palestras
têm agitado a livraria. Não bastasse, a loja promoveu recentemente
uma feirinha do troca na calçada em frente, oferecendo objetos antigos
e livros a preços camaradas.
Bruno Veiga/Strana
 | Bruno
Veiga/Strana
 | Letras
& Expressões
Som
de primeira e programação atraente. Com atributos assim, o 3º
andar da loja de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 276,
2521-6110) virou um concorrido palco, com shows, peças e, em breve,
cineclube. O músico Toni Platão (à esq.) é
uma das atrações que lotam a casa, e o Café Ubaldo (à
dir.), no 2º andar, é parada obrigatória. No Leblon, a
Letras funciona 24 horas, com o Café D'Antônio Torres e um cibercafé.
| Além
de gastronomia e produtos cada vez mais diversificados, as livrarias resolveram
investir ainda em programação cultural. É o caso tanto das
maiores, como a Saraiva Mega Store e a Fnac, que têm pocket shows grátis,
quanto das novatas, como a New Books, que abriu as portas no Shopping da Gávea,
em 2004, e no Fashion Mall, em dezembro de 2005. Na filial de São Conrado,
a maior, o espaço do restaurante o Bistrô Pax conta
até com palquinho. Ali, na última segunda-feira, Marcelo D2 fez
um pocket show de meia hora para o lançamento de seu novo CD, Meu Samba
É Assim. Foi sua terceira apresentação em livraria. "É
um encontro com a galera. Fico mais próximo da molecada", diz Marcelo.
Por molecada, entenda-se uma garotada de 12 a 20 anos, que sacolejava no 1º
piso da loja (o 2º é ocupado por livros e instrumentos
musicais, todos à venda). As atrações fazem tanto sucesso
que a New Books começa, neste mês, uma parceria com o Mistura Fina.
"Vamos levar um pouco do que a gente faz na Lagoa para São Conrado, onde
não existe uma casa de shows", conta Christian Lobo, programador e produtor
do Mistura. Hoje, gratuitos e restritos a dois dias na semana, os shows vão
se estender de quarta a domingo, com couvert artístico entre 10 e 40 reais.
A
carência de palcos, aliada à boa programação, talvez
explique o sucesso das apresentações, que têm lotado o 3º
andar da Letras & Expressões de Ipanema. Foi Rafael Bruno, filho de
um dos quatro sócios da casa, quem resolveu reativar o espaço, que
abrigara um piano-bar e estava vazio fazia um ano e meio. Os sócios hesitaram,
mas acabaram concordando, desde que a aventura não desse prejuízo.
O primeiro passo foi o espetáculo Versos de Hollanda, um misto de
sarau, peça e musical, inspirado nas canções de Chico Buarque,
que estreou sem alarde e até hoje, um ano depois, continua em cartaz às
sextas e aos sábados. "A gente notou ali que tinha potencial para algo
mais", comenta Rafael. Com o apoio do músico Pierre Aderne, armou-se uma
programação. Sempre às 21 horas, os shows acontecem às
segundas (Zéu Brito), às terças (Toni Platão) e às
quartas (Pierre Aderne), com ingressos entre 15 e 20 reais. Toni Platão
aportou ali em fevereiro para fazer três ou quatro shows. Não saiu
mais. "O lugar é agradável, tem um jeitão de cabaré,
e o público é bem bacana. Tem sido meu melhor show", diz Toni.
No
Leblon, a livraria Da Conde Arte + Cultura também abriga, no espaço
lounge instalado no 2º andar, shows e encontros dedicados à
poesia e ao cinema. Refestelados nos sofás, os cinéfilos assistem,
numa TV de 32 polegadas, a filmes de diretores consagrados, como Bergman, Fellini
e Almodóvar. As sessões não têm um dia fixo. A única
certeza é que o programa "foge dos filmes comerciais", avisa o gerente
Adriano Kneipp. A Letras de Ipanema também anuncia novidades na área.
Vai lançar seu cineclube em julho. Literatura e cinema, afinal, sempre
fizeram uma boa dobradinha. Tanto que muitas salas de projeção têm
a própria livraria. A novidade é que o movimento, agora, é
inverso. Em agosto de 2004, o Armazém Digital inventou a livraria com cinema.
Abriu sua primeira loja no Shopping Rio Plaza, em Botafogo, com sala em formato
stadium para 100 espectadores. As poltronas são de couro e, o mais importante,
os lugares são marcados. A livraria promove ainda shows de jazz, palestras
e debates, fórmula que se repete na filial do Shopping Rio Design Leblon,
inaugurada em outubro do ano passado. Abriu espaço também para cursos
de música clássica, em Botafogo, e de apreciação de
vinhos, no Leblon. O mais inusitado, porém, são as tardes com dança
de salão, que acontecem nas duas lojas da rede.
Felipe Varanda/Strana
 | Felipe
Varanda/Strana
 | Armazém
Digital
Um
dos trunfos é a boa sala de cinema (à dir.), em formato stadium,
com 100 poltronas e ingressos com lugares marcados. Os outros são a farta
programação, que inclui até aulas de dança de salão
e apreciação de música clássica. Há também
degustações de vinho, shows de jazz e atrações infantis.
O Armazém Digital começou com uma loja em Botafogo (Shopping
Rio Plaza, loja 108,
2101-9300). Hoje, mantém uma filial no Leblon (
2274-5999), onde a psicanalista Cacilda Vieira Bruni (acima, à esq.)
comemorou seu aniversário na semana passada, cercada de amigas, tomando
um chá no bistrô. | Playground
de adultos, as lojas oferecem ainda espaço para que as crianças
se divirtam. A Argumento, a Travessa, a Letras e o Armazém Digital têm
cantinhos só para os pequenos, com livros multicoloridos que eles podem
manusear à vontade. Na Argumento, aos domingos (às 11 horas, no
Leblon, e às 16 horas, na filial do Rio Design Barra) o grupo Tapetes Contadores
de Histórias transforma a livraria num grande happening para crianças.
O setor infantil do Armazém Digital, batizado de Armazoom, tem atrações
variadas a cada fim de semana. No próximo haverá show do músico
Paulo Bi, no sábado (20) em Botafogo e no domingo (21) no Leblon, sempre
às 17 horas.
Dilmar Cavalher/Strana
 | Da
Conde
Bem
no meio da livraria (Rua Conde de Bernadotte, 26, loja 125, Leblon,
2274-0359), um café com balcão e banquinhos em volta divide
o espaço com prateleiras de livros. No 2º andar, onde são vendidos
CDs e DVDs nacionais e importados, um espaçoso lounge com sofás,
piano e TV
de 32 polegadas é cenário de shows, saraus de poesia, encontros
de contistas e exibição de filmes de
diretores consagrados. Quando
não há eventos, o espaço pode ser usado para festas de aniversário.
A programação está no
site www.daconde.art.br.
| Recheadas
de atrativos para pais e filhos, as lojas chegam a virar extensão de casa.
Na semana passada, a psicanalista Cacilda Vieira Bruni reuniu 25 amigas e comemorou
seu aniversário rodeada pelos livros do Armazém Digital do Leblon.
Saiu de lá felicíssima. Sempre que pode, a modelo Isabel Wilker
sai da PUC, onde cursa letras, e estica na Travessona. "Gosto de livraria com
jeito de casa, onde eu posso tomar um café, comer alguma coisa e me sentar
numa poltrona para ler", conta. O ambiente aconchegante, que não inspira
pressa, foi justamente o que arrebatou a psicanalista Elisa Werlang. Freqüentadora
da Argumento do Leblon, ela escreveu sua dissertação de mestrado
nas mesinhas do Café Severino. Com um bebê em casa, todos os dias
Elisa se sentava à mesa do café e rascunhava por duas horas seguidas.
"Vinha atrás de sossego", confessa. Quase dois anos depois, quem se diverte
na livraria é a pequena Sofia. "A gente vem todas as tardes. Ela passa
na porta e pede para entrar", conta. O impulso de Sofia também move Manoel
Carlos. "Quando não estou fazendo novela, venho todos os dias", diz. A
Argumento, aliás, virou seu segundo endereço. Literalmente. "Tem
gente que deixa correspondência para mim aqui. Recebo cartas e currículos
de pessoas interessadas num papel na novela", diverte-se o autor. A
fórmula tem dado tão certo que as livrarias se espalham pela cidade.
A Travessa, que completa duas décadas neste ano e tem mais duas lojas no
Centro, prepara-se para inaugurar outra filial, em novembro, no futuro Shopping
Leblon. Terá o dobro do tamanho da Travessona exatos 1.400 metros
quadrados de área. A Argumento chega a Copacabana no mês que vem,
com seu Café Severino, em uma loja de dois andares. Apesar de tanto investimento,
os empresários são cautelosos. "Nosso negócio é vender
livro, revista e jornal. Não ganhamos dinheiro com as outras atividades",
afirma Rafael Bruno, da Letras. "A livraria é onde estamos ancorados. As
vendas de livros continuam crescendo. Hoje elas representam 60% do faturamento.
CDs e DVDs ficam com 20% e o café, com os outros 20%", calcula Marcus Gasparian,
da Argumento. "A missão do livreiro é promover o encontro do leitor
com o livro", diz Rui Campos, da Travessa. E esse encontro está cada vez
mais agradável.
Humor
e novidades nos sebos Felipe
Varanda/Strana
 | | Al-Fárábi:
cursos até de iorubá |
Como
as livrarias, os sebos também andam ganhando cara nova na cidade. Os livros
amarelados pelo tempo, os LPs usados e os gibis continuam lá, mas agora
dividem o espaço com bazares de moda, encontros regados a cerveja, shows
e até cursos de iorubá. No Le Bon Sebon (
2239-3457), aberto há quase um ano, no Leblon, o cliente é atraído
pelo bom humor. Um cartaz na porta avisa: "Proibida a entrada de ex-big brothers".
No Baratos da Ribeiro (
0800-7017326 ou 2549-3850), em Copacabana, às quintas, depois que a loja
fecha, às 20 horas, integrantes do Clube do Vinil reúnem-se para
ouvir preciosidades de suas coleções e bebericar no bar na
verdade, um antigo banheiro reformado. A loja já abrigou até um
bazar. A idéia é repetir. "Num sábado por mês abriremos
espaço para novos estilistas", anuncia Maurício Gouveia, um dos
sócios. A loja negocia, ainda, com a associação de moradores
do bairro, a retomada dos shows que animaram o lugar até o início
do ano. O agito vai além da Zona Sul. Ficam no Centro o Berinjela (
2532-3646), o pioneiro das novidades, e o Dantes (
2240-2920), além do Al-Fárábi (
2233-0879). Instalado num sobrado do século XIX, na Rua do Rosário,
o Al-Fárábi, que vende gravuras de artistas como Rubens Gerchman
e oferece aulas de iorubá, inaugura, em julho, um café com música
ao vivo. | |