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17 de abril de 2002
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REPORTAGEM DE CAPA

O vôo de BoninhoO vôo de Boninho

O sucesso de Big Brother Brasil eleva
o filho de Boni ao primeiro time da Globo

Fabio Brisolla e Sofia Cerqueira

Ricardo Fasanello/Strana
"Fiz o programa da Angélica, que foi um supersucesso, assim como o TV Colosso, mas também fiz o TV Zona, que foi um superfracasso. Na televisão, você tem de saber lidar com o fracasso, que nem sempre significa incompetência."
Boninho

Dentro de um contêiner adaptado, um grupo de pessoas mantém os olhos fixos no conjunto de pequenos monitores a sua frente. É a semana de estréia do programa Big Brother Brasil e, em poucos segundos, o apresentador Pedro Bial, postado no estúdio ao lado do contêiner, vai conversar ao vivo com os doze moradores da casa. Na hora H, o áudio não funciona. Ninguém na casa ouve o apresentador. Mas, no contêiner dos monitores, em outro colocado ao lado e no ponto instalado no ouvido de Bial, os gritos do diretor do programa, Boninho, são bastante audíveis. Técnicos correm enlouquecidos e dão o o.k. Bial volta a chamar o pessoal da casa. Nada. O problema se repete cinco vezes. Nervoso, Boninho costuma gaguejar. E aí é que ninguém consegue entender mesmo o que ele está dizendo. A situação renderia boas gargalhadas se não fosse tão tensa e o temperamento difícil do diretor, tão conhecido nos corredores da Globo. Nos três últimos meses, momentos de stress como aquele aconteceram aos borbotões. Sobre as costas de Boninho pesava a responsabilidade de comandar o programa que tinha a obrigação de derrotar o maior trunfo da concorrência, a Casa dos Artistas. Foram noites e mais noites de sono perdidas. Boninho passava, no mínimo, catorze horas por dia no Projac acompanhando os moradores do Big Brother. Ao chegar em casa, ligava a televisão para continuar a vigília. O sacrifício, que rendeu 6 quilos a mais ao rechonchudo diretor, foi recompensado. O último capítulo atingiu 57 pontos de audiência média e picos de 62 pontos, recorde para o horário. Foi o melhor resultado da emissora desde fevereiro de 2001, quando o último capítulo de Laços de Família alcançou 60 pontos de audiência média e picos de 64 pontos.

Rede Globo/divulgação
Big Brother: sucesso de audiência tornou Boninho diretor requisitado

Só não foi possível deitar sobre os louros do sucesso. Mal terminada a primeira edição de Big Brother, Boninho já ocupava seus dias com o planejamento da segunda, com estréia prevista para maio. Nos intervalos, grava a toque de caixa o programa Hipertensão, espécie de gincana de aventuras com estréia prevista para domingo (14). O ritmo é de gagueira constante. Às 7 da manhã de terça-feira, ele cortava os mares de Angra dos Reis rumo ao cenário em que os seis participantes da prova, cada um na garupa de um jet-ski em movimento, tentariam saltar para um helicóptero. Disputavam um prêmio de 50.000 reais. Deu tudo certo. Pouco depois de meio-dia, o helicóptero levava o diretor para Petrópolis, onde checaria locações para outra prova. Boninho terminou o dia no Projac, resolvendo pendências das duas atrações. José Bonifácio Brasil de Oliveira – "O Brasil é nome, não sobrenome. Foi uma brincadeira de meu pai" –, o Boninho, 40 anos, conquistou seu espaço e, melhor, saiu da sombra do pai. Ele é filho de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-todo-poderoso da Rede Globo e atual consultor da emissora. "Para mim, é um privilégio ser filho do Boni. Tive um cara que me ajudou muito e me dá toques até hoje", diz Boninho. O pai discorda um pouquinho. "Só falo quando estou na posição de chefe. Ele não pede nem gosta que dêem opinião. Tem uma herança espanhola, do tipo dejame solo", define Boni.

Ricardo Fasanello/Strana
"Ele é rígido porque é extremamente exigente. Se quem estiver ao lado dele for um profissional com o mesmo empenho, não vai ter problema algum."
Ana Furtado, atriz, casada com Boninho

Boninho cresceu nos bastidores (do poder) da emissora de televisão. Menino ainda, dava palpites nos desenhos animados que o pai escolhia para as outras crianças assistirem. Aos 16 anos, mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar na Globo. Dirigiu o Clip Clip, produziu clipes para o Fantástico. Quando Xuxa decidiu parar de fazer sua atração infantil diária, ele foi escalado para bolar o que entraria no lugar. Surgiu ali o elogiado TV Colosso. Mais dois anos, assumia o cargo de diretor de núcleo da Rede Globo. O projeto seguinte foi formatar um programa para Angélica, que acabara de ser contratada pela emissora. "Foi um supersucesso, assim como o TV Colosso", diz ele. Para acrescentar, modesto: "Mas também fiz o TV Zona, um superfracasso, e o programa do Sérgio Malandro".

No estúdio, Boninho é considerado um profissional concentrado e centralizador, que perde a linha facilmente quando algo sai errado. "Ele é condescendente com o bom profissional e duro com quem não se encaixa no esquema. Não tem meias palavras", diz Roberto Costa, gerente de produção do BBB. Essa postura lhe rendeu muitos desafetos. Como a irmã da apresentadora Angélica, Márcia Marba, para quem ele é "nervoso e, quando qualquer coisa dá errado, vai logo culpando alguém". Boninho reage dizendo que saiu do programa após três anos "porque tinha um acerto para trabalhar com a Angélica e não queria trabalhar com a irmã dela". Na lista de desafetos de Boninho, o mais conhecido é Daniel Filho, diretor da Central Globo de Criação. A antipatia, recíproca e pública, rendeu uma frase que ainda ecoa nos corredores da Globo. "O Boni já fez muita coisa boa, mas também fez o Boninho", dizia Daniel. Para Boninho, a crise entre os dois cresceu com a troca de poder na Globo. Quando Boni se afastou, em 1997, "eu sobrei de pele do Daniel. Fiquei na geladeira, de castigo", afirma. Daniel Filho, até hoje um grande amigo de Boni, não gosta de alimentar o assunto. Procurado por Veja Rio, limitou-se a mandar um recado: "Se o Boninho acha que fui eu que o coloquei na geladeira, pode me chamar de Frigidaire".

 
"Se o Boninho acha que fui eu que o coloquei na geladeira, pode me chamar de Frigidaire."
Daniel Filho, diretor
da TV Globo
Sérgio Zalis/ZNZ

Fora dos estúdios, Boninho já dividiu a geladeira com a socialite Narcisa Tamborindeguy. Foi seu primeiro casamento. Na época, ele tinha 21 anos e deixou o velho Boni amargurado. O pai nem compareceu ao casamento. "Esse assunto eu pulo. É passado. Meu pai estava certo", analisa Boninho. Narcisa também não quer papo. "Com ele não falo nem oi. Quando o encontro na rua, é como se ele não existisse", é o mínimo que diz a socialite. Com ela, Boninho teve uma filha, Mariana, 17 anos. Do segundo casamento, com a coreógrafa Kátia D'Ávila, nasceu Pedro, 6 anos. A terceira união, com a atriz Ana Furtado, foi oficializada dois anos atrás. Os dois compartilham um apartamento na Zona Sul, com vista para o mar. "Em casa, ele é tranqüilo, simpático, engraçado e amável. No trabalho, é muito exigente e extremamente profissional", conta Ana.

 
"Não falo nem oi com o Boninho. Quando o encontro na rua, num restaurante, é como se ele não existisse. Ou melhor, ele sai do lugar porque sabe que vou jogar um balde de gelo nele."
Narcisa Tamborindeguy, socialite, ex-mulher de Boninho
Renata C. Branco

Talvez por isso, Boninho tenha optado por deixar de ser Boninho nos créditos dos programas de TV há muito tempo. Mudou para J.B. de Oliveira, a conselho do amigo Roberto Talma, também diretor de núcleo da Rede Globo. "Ele tem muito talento e é bastante sério para ser chamado só de Boninho", observa Talma. Evandro Carlos de Andrade, diretor-geral da Central Globo de Jornalismo até morrer, em junho de 2001, foi outro a apostar no talento do diretor. Evandro bancou o projeto do programa No Limite, idéia de Boninho, inspirado no sucesso do reality show americano Survival. "Saí da geladeira graças a ele", diz Boninho, referindo-se tanto a Evandro quanto ao projeto. Em sua primeira edição, No Limite foi um sucesso. Na segunda, passou despercebido, mas Boninho não estava mais no comando da atração. A terceira fornada do programa voltou a ser dirigida por ele. Mas Boninho virou mesmo o rei dos reality shows da Globo quando fez Big Brother.

 
Bia Parreiras
"Não tenho afinidade com esse formato de programa, mas meu filho realizou um belo trabalho. Pegou um limão e fez uma limonada."
Boni, consultor da TV Globo, pai do diretor

O melhor momento do programa, de acordo com o diretor, foi fruto do acaso somado à malícia. Ocorreu quando o vencedor do programa, Kléber de Paula, caiu em prantos porque a produção retirou da casa a boneca Maria Eugênia. "Não foi proposital, mas, quando percebemos que ele estava louco atrás da boneca, mandei não entregar." Boninho chamou Kléber ao confessionário, onde conversava com os participantes do programa, porém agiu de forma diferente da usual. "Fiquei em silêncio, uns dois minutos quieto, porque sabia que ele ia explodir. Aí ele se abriu – 'pô, cadê minha boneca?' –, chorou. Foi hilário", diverte-se. Kléber sofreu, mas só tem elogios ao diretor. "O cara gostou de mim. O proprietário do Big Brother é muito bacana", diz. Alessandra Beglionini, a "Leka", lembra outro aspecto da convivência. "A gente se perguntava se o Big God (apelido dado a Boninho) não dormia. A voz dele entrava no sistema de som às 2 da manhã, ao amanhecer, ao meio-dia, de tarde e à noite", conta. A falta de sono continua. Na semana seguinte ao fim do programa, Boninho iniciou a batelada de oitenta entrevistas de uma hora com os candidatos pré-selecionados para a segunda edição. Realista, Boninho saboreia o sucesso. "Big Brother não é um projeto genial. Mas a televisão precisa de projetos que funcionem e captem audiência", diz.

 

Erros e acertos de Boninho

O primeiro programa de Boninho na Rede Globo foi Clip Clip, de 1980. Pouco depois, começou a dirigir clipes para o Fantástico. Ajudou a criar o canal Multishow. Comandou a transmissão de shows e, além das atrações ao lado, dirigiu uma temporada de Malhação.


Armando Gonçalves
SHOW DO MALANDRO – Estreou em julho de 1991 e ficou poucos meses no ar. Para Boninho, Sérgio Malandro é o responsável pelo fracasso. "Foi insuportável trabalhar com ele"

 

TV COLOSSO – Sucesso em 1993, no lugar do Xou da Xuxa. Boninho teve a idéia de usar bonecos e Boni sugeriu que fossem cachorros
Fotos divulgação/Rede Globo

 

TV ZONA – Boninho e Rogério Gallo dirigiram o VJ Thunderbird na Globo em 1994. A atração não deu certo e o VJ voltou para a MTV

 

reira
Marcia Moreira
ANGÉLICA – Em 1996, ele criou o programa da loirinha na Globo. Três anos depois, brigou com a irmã da apresentadora GENTE INOCENTE – O diretor elaborou o projeto a pedido de Daniel Filho, mas saiu antes da estréia, em 1999. Passou então uma temporada na geladeira

 

NO LIMITE – Boninho deu a volta por cima na Globo, já na era Marluce, com a primeira edição do programa, que foi um dos sucessos de 2000 e deu início à febre dos reality shows

 

         
     
 
 
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