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CRÔNICA
Como era gostoso o meu argentino
Tutty
Vasques
Quando
a baía vira oceano, uma hora de barco pra lá de Parati
Mirim, o estômago vem à boca e a Praia Deserta salta
aos olhos logo no primeiro solavanco. Depois some, reaparece, some
de novo, entra em quadro sempre que a traineira de pesca atinge
o topo das vagas que seguem curso de colisão com rochas a
boreste. Quinze minutos inferno adentro, ei-la, a visão completa
do paraíso: 250 metros de areia branca arrodeada de montanhas
cobertas pela exuberância da Mata Atlântica, duas mães-d'água
correndo para o mar, a casinha branca de pau-a-pique, redes à
sombra de amendoeiras, coqueiros, caranguejos gigantes à
luz do dia (da jaguatirica só ouvi dizer), fogão a
lenha, lampião a gás, o barquinho vai, a tardinha
cai, e a noite é mais que uma criança: Taís,
10 anos, e Sandrinha, 5, moram nesse início de mundo desde
janeiro com os pais, o arquiteto argentino Carlos Cermelli, 62 anos,
e sua fiel companheira, Sandra, 39. Sem vizinhos, televisão,
escola, geladeira, CD-player, pipoqueiro ou internet. "Grandes coisas!"
diria Robson Crusoé.
Quem
nunca foi náufrago acha aquilo meio esquisito. Quem conhece
Carlos, nem tanto. Cermelli tem espírito desertor. Saiu da
Argentina há 43 anos convocado para o serviço militar
e, desde então, contrariar expectativas é sua marca
registrada. Foi anticomunista na época em que isso era feio
e, logo agora que ninguém é doido a esse ponto, rompeu
com a civilização. Não é mais propriamente
argentino. Brasileiro, tampouco. Reage quase ofendido ao engano
de quem já o imaginava naturalizado após tantos anos
em nossas praias. "Eu sou extrandjêeero", capricha
no sotaque para que não reste dúvida a respeito de
seu caráter forasteiro. Pátria, Estado, sociedade,
comunidade, cidadania, plano de saúde, aposentadoria, acha
tudo isso ridículo. Seria só mais um doidão
remanescente da tribo de argentinos que invadiu Santa Teresa nos
anos 60 não estivesse ele, naquela época, se formando
nos escritórios de Sérgio Bernardes e Wit-Olaff Prochnik,
biscoitos finos da arquitetura carioca de então.
Boas
companhias não lhe faltaram. Carlos Cermelli construiu para
Eduardo Suplicy e um punhado de ricos interessantes, raça
que considera em extinção. "Quando cheguei ao Rio
de Janeiro, em 1962, o Brasil era um deslumbramento: aqui se fazia
a melhor arquitetura, o melhor cinema, a melhor música, as
pessoas eram as mais bonitas..." Elegeu Iná Meirelles, filha
do sertanista Francisco Meirelles, a mais linda de todas nos idos
de 1966. "Era uma mulher estupidamente bela e, é claro, não
me dava a menor bola." Desistiu dela e, no embalo da desilusão,
renunciou a tudo. "Fui ser hippie."
Dividido
entre Búzios e Parati, escolheu a cidade histórica
para viver. Pesou contra a península o fato de ser um lugar
de maioria protestante. "As meninas de lá não podiam
sair com a gente." Parati era uma farra, mas logo, logo Carlos só
tinha olhos para Maria Isabel, uma caiçara de 15 anos, cabelo
abaixo da cintura, pele curtida de sol, instinto selvagem. "Tive
com ela a mesma sensação que me dá a jaguatirica
que ronda à noite aqui por perto." Toda vez que tentava se
aproximar da menina, ela saía correndo, caía no mar
e nadava, nadava até muito além do princípio
de afogamento de Carlos. Um ano depois, ele a alcançou. O
casamento durou quinze anos e das cinco filhas nascidas em Parati
a mais nova está hoje com 24 anos.
No
stress! O trabalho nunca foi roda-viva para o arquiteto. Se
ganhava uma boa grana numa construção, não
voltava a suar a camisa enquanto lhe restasse dinheiro no bolso.
Tirou certa vez seis meses de férias na França e já
estava casado com Karen Worcman, vinte anos mais nova que ele, quando
resolveu radicalizar: "Fiquei seis anos só estudando". Pesquisava
chances de uma saída estrutural para o mundo via máquina
empresarial no lugar de aparelho de Estado... Deu no que deu: tomado
por uma incontrolável diz ele que inexplicável
crise de ciúme, Cermelli voltou a Parati. Pulou do
casamento com Karen, já então uma mulher determinada,
para o colo das meninas. Sempre elas.
Só
não foi preso em flagrante na companhia de pirralhas de 13,
14 anos tinha virado moda em Parati brigar com a mãe
e buscar abrigo na casa daquele gringo gente fina por causa
do advento de Sandra em sua vida. Casados desde 1994, parecem em
lua-de-mel na Praia Deserta. "Somos como passarinhos, só
precisamos comer e fazer sexo." Entre uma coisa e outra, ele cata
minhocas na horta, ela areia panelas na varanda, as meninas estudam
na sala, e toda preguiça é tolerável. "As pessoas,
assim como os vinhos, envelhecem bem quando ficam deitadas na posição
certa."
Toda
segunda-feira, sempre que o mar permite, a família vai a
Parati comprar mantimentos. O sobrado reformado no centro histórico
continua sendo uma referência de pouso importante, ainda que
franqueado a aluguel. O mais tardar na quarta-feira eles voltam
à Deserta. O nome da praia soa como verbo imperativo aos
ouvidos de Carlos Cermelli: "Deserta, te desalinha, cai fora, seja
você mesmo!". Procura não decepcionar o chamado. "Acho
que hoje já não tenho mais nada a ver com nada." Será?
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