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17 de março de 2004
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CRÔNICA

Como era gostoso o meu argentino

Tutty Vasques

Quando a baía vira oceano, uma hora de barco pra lá de Parati Mirim, o estômago vem à boca e a Praia Deserta salta aos olhos logo no primeiro solavanco. Depois some, reaparece, some de novo, entra em quadro sempre que a traineira de pesca atinge o topo das vagas que seguem curso de colisão com rochas a boreste. Quinze minutos inferno adentro, ei-la, a visão completa do paraíso: 250 metros de areia branca arrodeada de montanhas cobertas pela exuberância da Mata Atlântica, duas mães-d'água correndo para o mar, a casinha branca de pau-a-pique, redes à sombra de amendoeiras, coqueiros, caranguejos gigantes à luz do dia (da jaguatirica só ouvi dizer), fogão a lenha, lampião a gás, o barquinho vai, a tardinha cai, e a noite é mais que uma criança: Taís, 10 anos, e Sandrinha, 5, moram nesse início de mundo desde janeiro com os pais, o arquiteto argentino Carlos Cermelli, 62 anos, e sua fiel companheira, Sandra, 39. Sem vizinhos, televisão, escola, geladeira, CD-player, pipoqueiro ou internet. "Grandes coisas!" – diria Robson Crusoé.

Quem nunca foi náufrago acha aquilo meio esquisito. Quem conhece Carlos, nem tanto. Cermelli tem espírito desertor. Saiu da Argentina há 43 anos convocado para o serviço militar e, desde então, contrariar expectativas é sua marca registrada. Foi anticomunista na época em que isso era feio e, logo agora que ninguém é doido a esse ponto, rompeu com a civilização. Não é mais propriamente argentino. Brasileiro, tampouco. Reage quase ofendido ao engano de quem já o imaginava naturalizado após tantos anos em nossas praias. "Eu sou extrandjêeero", capricha no sotaque para que não reste dúvida a respeito de seu caráter forasteiro. Pátria, Estado, sociedade, comunidade, cidadania, plano de saúde, aposentadoria, acha tudo isso ridículo. Seria só mais um doidão remanescente da tribo de argentinos que invadiu Santa Teresa nos anos 60 não estivesse ele, naquela época, se formando nos escritórios de Sérgio Bernardes e Wit-Olaff Prochnik, biscoitos finos da arquitetura carioca de então.

Boas companhias não lhe faltaram. Carlos Cermelli construiu para Eduardo Suplicy e um punhado de ricos interessantes, raça que considera em extinção. "Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1962, o Brasil era um deslumbramento: aqui se fazia a melhor arquitetura, o melhor cinema, a melhor música, as pessoas eram as mais bonitas..." Elegeu Iná Meirelles, filha do sertanista Francisco Meirelles, a mais linda de todas nos idos de 1966. "Era uma mulher estupidamente bela e, é claro, não me dava a menor bola." Desistiu dela e, no embalo da desilusão, renunciou a tudo. "Fui ser hippie."

Dividido entre Búzios e Parati, escolheu a cidade histórica para viver. Pesou contra a península o fato de ser um lugar de maioria protestante. "As meninas de lá não podiam sair com a gente." Parati era uma farra, mas logo, logo Carlos só tinha olhos para Maria Isabel, uma caiçara de 15 anos, cabelo abaixo da cintura, pele curtida de sol, instinto selvagem. "Tive com ela a mesma sensação que me dá a jaguatirica que ronda à noite aqui por perto." Toda vez que tentava se aproximar da menina, ela saía correndo, caía no mar e nadava, nadava até muito além do princípio de afogamento de Carlos. Um ano depois, ele a alcançou. O casamento durou quinze anos e das cinco filhas nascidas em Parati a mais nova está hoje com 24 anos.

No stress! O trabalho nunca foi roda-viva para o arquiteto. Se ganhava uma boa grana numa construção, não voltava a suar a camisa enquanto lhe restasse dinheiro no bolso. Tirou certa vez seis meses de férias na França e já estava casado com Karen Worcman, vinte anos mais nova que ele, quando resolveu radicalizar: "Fiquei seis anos só estudando". Pesquisava chances de uma saída estrutural para o mundo via máquina empresarial no lugar de aparelho de Estado... Deu no que deu: tomado por uma incontrolável – diz ele que inexplicável – crise de ciúme, Cermelli voltou a Parati. Pulou do casamento com Karen, já então uma mulher determinada, para o colo das meninas. Sempre elas.

Só não foi preso em flagrante na companhia de pirralhas de 13, 14 anos – tinha virado moda em Parati brigar com a mãe e buscar abrigo na casa daquele gringo gente fina – por causa do advento de Sandra em sua vida. Casados desde 1994, parecem em lua-de-mel na Praia Deserta. "Somos como passarinhos, só precisamos comer e fazer sexo." Entre uma coisa e outra, ele cata minhocas na horta, ela areia panelas na varanda, as meninas estudam na sala, e toda preguiça é tolerável. "As pessoas, assim como os vinhos, envelhecem bem quando ficam deitadas na posição certa."

Toda segunda-feira, sempre que o mar permite, a família vai a Parati comprar mantimentos. O sobrado reformado no centro histórico continua sendo uma referência de pouso importante, ainda que franqueado a aluguel. O mais tardar na quarta-feira eles voltam à Deserta. O nome da praia soa como verbo imperativo aos ouvidos de Carlos Cermelli: "Deserta, te desalinha, cai fora, seja você mesmo!". Procura não decepcionar o chamado. "Acho que hoje já não tenho mais nada a ver com nada." Será?

 

 

 

 

         
     
 
 
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