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DOCUMENTÁRIO
Tragédia
revisitada
O
filme Ônibus 174 chega
às telas cariocas
Fabio
Brisolla
A pré-estréia
do filme Ônibus 174 emocionou a platéia do Cine
Odeon, há duas semanas, durante o Festival de Cinema Rio
BR. Ao fim da exibição, os convidados aplaudiram de
pé, demoradamente, o documentário sobre a mais retumbante
tragédia carioca de 2000: o seqüestro do ônibus
na Rua Jardim Botânico, que terminou com a morte da refém
Geisa Firmo Gonçalves e de seu algoz, Sandro do Nascimento.
Em uma das poltronas estava Julieta Rosa do Nascimento, tia do assassino,
que foi morto, logo após ser preso, dentro de uma viatura
policial. Sandro é o personagem central do filme. Ao rever
a trajetória do sobrinho, ela não conteve o choro
e foi amparada por José Padilha, roteirista do premiado documentário
Os Carvoeiros, que divide a direção de 174
com Felipe Lacerda. Julieta é uma das testemunhas descobertas
pela produção que, no filme, revelam com detalhes
a história de Sandro. A equipe encontrou fotos e até
um vídeo com Sandro em uma roda de capoeira ao lado de alunos
da PUC-Rio. Também localizou parentes do seqüestrador
apenas a tia aceitou falar , um comparsa ainda "na
ativa" e colegas da época em que Sandro integrava o grupo
de meninos de rua da Candelária turma, aliás,
vítima de outra tragédia, uma chacina em 1993. O filme,
com duas horas e dez minutos, foi eleito pelo público o melhor
documentário do festival do Rio e entrou em cartaz na sexta-feira.
A
origem de Sandro era um dos pontos de interrogação
do roteiro, que começou a ser escrito em janeiro de 2001.
Por intermédio de um detetive particular, os produtores chegaram
ao endereço de sua tia, em São Gonçalo, registrado
em uma passagem de Sandro pelo Instituto Padre Severino, para menores
infratores. "Fui até a casa. Lá descobri que ela morava
em outro lugar e tinha um restaurante em Niterói", diz Padilha.
O diretor seguiu para o local, pediu um dos pratos, apresentou-se
e convenceu Julieta a falar diante da câmera. Para obter o
relato de policiais envolvidos na operação, Padilha
contou com Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope. Ele se afastou
da corporação após receber seguidas punições
por ter dado entrevistas criticando a ação da polícia.
Apesar dos erros na operação, Rodrigo não absolve
o seqüestrador. "Sempre tive a preocupação de
não tornarmos Sandro um herói. E acho que cumprimos
esse objetivo." O ex-capitão tornou-se co-produtor e também
aparece na tela. Além dos depoimentos, a equipe selecionou
imagens entre as trinta horas registradas pelas emissoras de televisão
que acompanharam ao vivo o seqüestro do 174. O resultado é
impactante.
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Crônica
de um desastre anunciado
Rogério
Durst
Divulgação
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| Revelação:
Sandro (à dir.) jogando capoeira na PUC |
O
documentário Ônibus 174 tinha, como o
acontecimento que retrata, tudo para dar errado. Lida com
um fato ainda recente na memória coletiva e exaustivamente
badalado na época. Faz isso com base nas horas de toscas
imagens de TV do dia do seqüestro, usando depoimentos
de participantes falando diante da câmera, parados à
frente de um fundo neutro, registrados da cintura para cima.
Tal equação deveria resultar num filme estático,
repetitivo, feio e chato. Mas, surpresa... O diretor, roteirista
e produtor José Padilha usa de inteligência para
escavar cada vez mais fundo o caso ocorrido em 2000 e consegue
um filme seco, incômodo, arguto e imparcial. Reconstrói
a história do meliante Sandro, de menino esquecido
pela sociedade a vilão da tragédia de erros
encenada, ao vivo e em cadeia nacional, pela polícia
carioca. A argumentação contundente não
chega a uma conclusão. Saímos do cinema com
a desagradável sensação de que o filme
está certo. Errado está o mundo.
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