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16 de outubro de 2002
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DOCUMENTÁRIO

Tragédia revisitada

O filme Ônibus 174 chega
às telas cariocas

Fabio Brisolla

A pré-estréia do filme Ônibus 174 emocionou a platéia do Cine Odeon, há duas semanas, durante o Festival de Cinema Rio BR. Ao fim da exibição, os convidados aplaudiram de pé, demoradamente, o documentário sobre a mais retumbante tragédia carioca de 2000: o seqüestro do ônibus na Rua Jardim Botânico, que terminou com a morte da refém Geisa Firmo Gonçalves e de seu algoz, Sandro do Nascimento. Em uma das poltronas estava Julieta Rosa do Nascimento, tia do assassino, que foi morto, logo após ser preso, dentro de uma viatura policial. Sandro é o personagem central do filme. Ao rever a trajetória do sobrinho, ela não conteve o choro e foi amparada por José Padilha, roteirista do premiado documentário Os Carvoeiros, que divide a direção de 174 com Felipe Lacerda. Julieta é uma das testemunhas descobertas pela produção que, no filme, revelam com detalhes a história de Sandro. A equipe encontrou fotos e até um vídeo com Sandro em uma roda de capoeira ao lado de alunos da PUC-Rio. Também localizou parentes do seqüestrador – apenas a tia aceitou falar –, um comparsa ainda "na ativa" e colegas da época em que Sandro integrava o grupo de meninos de rua da Candelária – turma, aliás, vítima de outra tragédia, uma chacina em 1993. O filme, com duas horas e dez minutos, foi eleito pelo público o melhor documentário do festival do Rio e entrou em cartaz na sexta-feira.

A origem de Sandro era um dos pontos de interrogação do roteiro, que começou a ser escrito em janeiro de 2001. Por intermédio de um detetive particular, os produtores chegaram ao endereço de sua tia, em São Gonçalo, registrado em uma passagem de Sandro pelo Instituto Padre Severino, para menores infratores. "Fui até a casa. Lá descobri que ela morava em outro lugar e tinha um restaurante em Niterói", diz Padilha. O diretor seguiu para o local, pediu um dos pratos, apresentou-se e convenceu Julieta a falar diante da câmera. Para obter o relato de policiais envolvidos na operação, Padilha contou com Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope. Ele se afastou da corporação após receber seguidas punições por ter dado entrevistas criticando a ação da polícia. Apesar dos erros na operação, Rodrigo não absolve o seqüestrador. "Sempre tive a preocupação de não tornarmos Sandro um herói. E acho que cumprimos esse objetivo." O ex-capitão tornou-se co-produtor e também aparece na tela. Além dos depoimentos, a equipe selecionou imagens entre as trinta horas registradas pelas emissoras de televisão que acompanharam ao vivo o seqüestro do 174. O resultado é impactante.

 

Crônica de um desastre anunciado

Rogério Durst


Divulgação
Revelação: Sandro (à dir.) jogando capoeira na PUC

O documentário Ônibus 174 tinha, como o acontecimento que retrata, tudo para dar errado. Lida com um fato ainda recente na memória coletiva e exaustivamente badalado na época. Faz isso com base nas horas de toscas imagens de TV do dia do seqüestro, usando depoimentos de participantes falando diante da câmera, parados à frente de um fundo neutro, registrados da cintura para cima. Tal equação deveria resultar num filme estático, repetitivo, feio e chato. Mas, surpresa... O diretor, roteirista e produtor José Padilha usa de inteligência para escavar cada vez mais fundo o caso ocorrido em 2000 e consegue um filme seco, incômodo, arguto e imparcial. Reconstrói a história do meliante Sandro, de menino esquecido pela sociedade a vilão da tragédia de erros encenada, ao vivo e em cadeia nacional, pela polícia carioca. A argumentação contundente não chega a uma conclusão. Saímos do cinema com a desagradável sensação de que o filme está certo. Errado está o mundo.

         
     
 
 
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