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16 de agosto de 2006

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REPORTAGEM DE CAPA

O continente redescoberto

Curtas da Atlântida lembram histórias de um passado recente

Telma Alvarenga

 
FotosReprodução de Flávio Lopes/Arquivo Nacional

Copacabana, 1965: cenas de Bossa Nova Beach, feito para exportação, com trilha de Tom Jobim

As luzes se apagavam na sala de exibição. Entre sacos de pipoca e caixinhas de chiclete, o público se acomodava melhor nas poltronas e aceitava com resignação o fato de que antes da atração principal vinha inevitavelmente um cinejornal. Por quarenta anos, a Atlântida Cinematográfica registrou os acontecimentos da época, da abertura de uma agência bancária à inauguração do Aterro do Flamengo, em 1966; dos desfiles de escola de samba na rua à passagem do Salgueiro durante recepção a lord Mountbatten, em 1963; do turismo de celebridades como Marlene Dietrich ao lazer domingueiro de cariocas anônimos nas areias de Copacabana; de novas obras na Cidade do Aço à malhação do judas no subúrbio. E, é claro, muito futebol. "Eram cinco ou seis filmes por semana. E, quando a gente ia para a rua para uma reportagem, tinha a liberdade de registrar outra coisa qualquer que achasse interessante", recorda-se Vanderci Chagas de Aguiar, ex-cinegrafista da Atlântida, que hoje trabalha na preservação do arquivo de imagens. Dessa produção, sobraram 20 000 rolos de filmes. "Estima-se que seja menos de 30% de todo o material. É o que sobreviveu a um incêndio em 1952, uma inundação em 1970 e a anos de armazenamento inadequado", afirma a pesquisadora Aluf Elias, coordenadora do projeto de preservação, acesso e difusão do acervo.

 

Vanderci (com a câmera) filma o ator Roger Moore: 37 anos de Atlântida

 

A importância dos cinejornais foi ofuscada durante muitos anos pela produção de longas dos estúdios Atlântida, que funcionaram no Rio entre 1941 e 1962 (veja quadro). Não há brasileiro de cabelo grisalho que não associe o nome Atlântida às comédias e aos musicais estrelados por Oscarito e Grande Otelo. Amadas pelo público e olhadas inicialmente com certo desdém pela crítica, as chanchadas entraram para a memória afetiva do país. "O Homem do Sputnik, de 1959, teve 15 milhões de espectadores. Titanic, em 1998, megassucesso sob todos os aspectos, teve 16 milhões", conta Luiz Henrique Severiano Ribeiro Baez, um dos herdeiros da Atlântida, que se tem dedicado quase que em tempo integral aos cuidados e estudos do acervo. Gente como Eva Todor, Zezé Macedo, Eliana, Cyll Farney e Renata Fronzi emprestou o talento às produções. Jô Soares, sob o nome de Joe Soares, estava no elenco de O Homem do Sputnik também, na pele de um espião americano. Foram 66 longas produzidos nos estúdios, outros 102 feitos em regime de co-produção, mas, mesmo na faceta mais conhecida da empresa, as cicatrizes do tempo foram perversas. Apenas 25 filmes estão no Arquivo Nacional. Perderam-se obras como o drama Luz dos Meus Olhos, de 1947, com Cacilda Becker e Grande Otelo, fita sobre preconceito racial com cenas pioneiras em favelas cariocas. Para deleite do público, até o fim do ano está previsto o lançamento de um pacote de oito títulos em DVD, pela Europa Filmes. "Alguns foram lançados em vídeo nos anos 80", conta Severiano Ribeiro.

 

A miss Bahia Marta Rocha desfila no concurso Miss Brasil de 1954, ainda sem se preocupar com as tais polegadas a mais

Longas e cinejornais chegaram ao Arquivo Nacional depois de uma temporada de nove anos na cinemateca do MAM. Os rolos foram armazenados em depósitos climatizados e separados de acordo com o estado de degradação, para evitar contaminação. "Os herdeiros instalaram um equipamento que permite o controle de temperatura e umidade na sala e a exaustão de gases nocivos à saúde que são emanados pelas cópias que já estão danificadas. Esse tipo de parceria foi novidade para nós", diz Jaime Antunes da Silva, diretor-geral do Arquivo Nacional. Nesse período, o material foi catalogado e suas condições de conservação, descritas e avaliadas. Há duas semanas, ele começou a ser trabalhado por um grupo de estudantes de história da Universidade Gama Filho, que está analisando e identificando seu conteúdo. Com a ajuda dos roteiros que sobreviveram, os documentários, muitas vezes fragmentados, serão remontados como eram. "Setenta por cento dos filmes estão sem o som original, porque rolos foram descartados por falta de espaço nos depósitos da empresa. Não se sabia seu valor", diz Aluf. E esse material, ao mesmo tempo curioso e histórico, está prestes a voltar a público, para ser observado com outros olhos. Duas semanas atrás, entrou no ar o site www.atlantidacinematografica.com.br, com pérolas como o resumo dos roteiros dos curtas, um documentário de oito minutos sobre a produção dos longas e muitas informações a respeito das chanchadas. Até o fim do ano, vem por aí a série A Atlântida É Nossa, de 52 curtas, com dez minutos de duração, para serem veiculados no Canal Brasil, com direção de Oscar Maron, com base nas descobertas que estão sendo feitas nos arquivos.

 

A porta-estandarte Isabel Valença, do Salgueiro, caracterizada como Chica da Silva, saúda lord Mountbatten em recepção em 1963

"Até agora vi cerca de cinqüenta horas desse material, principalmente fragmentos. E as cenas aparentemente insignificantes podem conter surpresas", diz Maron. Um exemplo de boa surpresa é o curta feito para exportação Bossa Nova Beach, com música de Tom Jobim na trilha sonora, que revive um dia de sol de 1965 na Praia de Copacabana. Para um historiador, lá está o visual da Avenida Atlântica nos tempos em que havia apenas uma pista. Lá estão os (então) ousados maiôs de duas peças, as barracas de lona, o vendedor de mate e de pipas em forma de gaivota, registro de hábitos e costumes de então. "O babado do biquíni, o tamanho da peça, uma prancha de madeira, tudo isso é informação", afirma o diretor, que quer registrar na série de curtas também o trabalho de estudos e os cuidados com os originais. "A idéia é revelar as descobertas assim que os pesquisadores as fizerem ao manipular o acervo." A missão dos estudantes da Gama Filho vai ser montar um verdadeiro quebra-cabeça: relacionar os roteiros com fragmentos de cinejornais sem som. "Para isso, eles vão precisar observar as vestimentas, os cabelos, os personagens históricos retratados", diz o professor Eduardo Parga, da Gama Filho.

 

Em 1966, quando o Parque do Flamengo foi inaugurado, o lago para nautimodelismo, hoje abandonado, atraía multidões

Um capítulo que vai merecer atenção especial é o futebol. "Quando se pensa em futebol no cinema, todo mundo se lembra do Canal 100, mas na verdade temos muito mais horas de material filmado", conta Luiz Henrique Severiano Ribeiro. Maron, que também trabalha para o Canal 100, concorda e explica as diferenças no estilo. "O futebol no Atualidades Atlântida era captado de uma forma mais intimista, com closes nas expressões dos jogadores e da torcida. No Canal 100, a ênfase era nos planos gerais, em mostrar como a jogada havia se desenvolvido até o gol", afirma. Outra diferença: enquanto os jogos do Canal 100 eram acompanhados pela música Que Bonito É, na Atlântida os embates eram encenados com uma hipnotizante batucada. Vanderci Chagas de Aguiar, que atuou como cinegrafista na Atlântida desde o fim dos anos 60, confirma. "Em alguns jogos, iam até cinco cinegrafistas. Eu costumava ficar no fosso, com uma teleobjetiva, com instruções de pegar as expressões faciais", lembra. Não era um trabalho fácil. "O povo que ficava na geral jogava todo tipo de coisa em cima da gente", recorda-se. Em compensação, Vanderci viveu momentos bem mais amenos. Na época das filmagens de James Bond e o Foguete da Morte na cidade, ele foi escalado para acompanhar as Bond-girls em um passeio de saveiro pela Baía de Guanabara.

 

Do modelo do biquíni aos automóveis de época: informações em película

Os planos para a divulgação da memória da Atlântida e também do grupo Severiano Ribeiro, que completa noventa anos em 2007, são ambiciosos. Um livro está sendo escrito pelo pesquisador Vinícius Chiappeta Braga. Luiz Henrique Severiano Ribeiro quer instalar no Cine Palácio, no Centro, um museu do cinema, onde o público poderia ter acesso a imagens digitalizadas e haveria um auditório para exibição dos filmes, a Sala Carlos Manga. Para erguer a estrutura, são necessários 950.000 reais. As boas idéias esbarram na falta de dinheiro. A lei de incentivos fiscais não permite que seus recursos sejam utilizados por uma empresa para preservar ou desenvolver projetos a partir de seu acervo particular. "Até agora, todos os investimentos têm sido feitos com dinheiro da família e com o que a Atlântida arrecada com o aluguel de suas imagens", diz Luiz Henrique Severiano Ribeiro Baez. São gastos por mês cerca de 50.000 reais, e novas despesas surgem o tempo todo: só de ponta branca para os filmes serão usados 26.000 metros, o equivalente a 90.000 reais. Para mudar as latas enferrujadas que abrigavam os rolos por estojos de plástico, lá se vão mais 75.000 reais. O investimento mais ambicioso deste ano é a compra de uma ilha de telecinagem, que vai ser montada nos escritórios da Atlântida, no Centro, onde os filmes recém-identificados serão digitalizados. A empresa mantém uma equipe de oito funcionários envolvidos no projeto de cuidados com o acervo. É um trabalho que não tem data para acabar. Afinal, leva tempo para explorar e conhecer bem um continente de memórias.

 

Ricardo Fasanello/Strana

Luiz Henrique e André Severiano Ribeiro Baez: com o sputnik cenográfico

 

 

A morada do cinema brasileiro

 
Ricardo Fasanello/Strana

Arquivo Nacional: filmes no frio

Nos anos 80, o Arquivo Nacional recebeu o embrião de sua coleção de imagens em movimento. Eram 12 000 rolos de filmes produzidos pela antiga Agência Nacional. Mas foi a partir de 2002 que o acervo foi ampliado drasticamente. Nessa época, a cinemateca do MAM se desfez do material que até então lhe havia sido confiado. Metade das fitas, ou melhor, 45 000 rolos, foi destinada por seus herdeiros e criadores ao prédio da Praça da República. A outra metade deixou a cidade e foi para São Paulo, na Cinemateca Brasileira. "Não tinha cabimento transferir para São Paulo um acervo como o da Atlântida, que tem tanta relação com a cidade", conta Luiz Henrique Severiano Ribeiro Baez.

Boa parte do material veio desse acervo, mas existem muitas outras preciosidades nos depósitos refrigerados, mantidos a 18 graus. É lá que se encontram guardados a obra completa do cineasta Nelson Pereira dos Santos, material da Cinédia e muitos filmes realizados por agências do governo. Há também um pequeno tesouro: a coleção do finado Departamento Nacional de Censura. Lá estão matrizes de filmes que jamais chegaram aos cinemas e as cenas cortadas por serem consideradas picantes demais ou subversivas demais. Hoje, a menina-dos-olhos do diretor do Arquivo, Jaime Antunes da Silva, é a construção de um prédio climatizado, com câmaras a 3 graus negativos, para servir de banco de matrizes, um projeto de 14 milhões de reais, inédito na América Latina.



Assim era a Atlântida

 
Reprodução de Flávio Lopes/Arquivo Nacional

Oscarito e Eva Todor: cena antológica do filme Dois Ladrões

Em 1941, Moacyr Fenelon e os irmãos José Carlos e Paulo Burle decidiram o futuro do cinema nacional em conversas de botequim na Avenida Rio Branco, pertinho do Jornal do Brasil, onde trabalhava José Carlos. O resultado foi a criação da Atlântida Empresa Cinematográfica Brasileira S.A., que juntou as idéias e a disposição dos já citados, o apoio de amigos e a inestimável participação do conde Pereira Carneiro, dono do JB. O nome grandiloqüente vingou. O território do cinema nacional já havia visto ilhas de prosperidade como a Cinédia. E, em termos de produção, a paulista Vera Cruz, fundada anos depois, foi muito mais moderna e competente. Mas foi o estúdio carioca, com suas popularíssimas comédias carnavalescas, galãs, comediantes e cantores, que se tornou a Metro tropical, a Hollywood carioca e, hoje, o continente infelizmente perdido do cinema brasileiro.

 
Reprodução de Flávio Lopes/Arquivo Nacional

Cartazes de chanchadas: Oscarito era a grande estrela da Atlântida

Instalada num terreno na Praça da República, onde antes se jogavam boliche e pelota basca, a empresa começou sua produção com as Atualidades Atlântida, que logo disputavam o importante mercado dos cinejornais, notícias em movimento que complementavam as sessões de cinema naqueles tempos pré-TV. Além de darem retorno imediato, os cinejornais forneciam acervo de imagens de arquivo para aproveitamento na realização de longas. A Atlântida começou na ficção com projetos pessoais de Fenelon, É Proibido Sonhar, e de Burle, Moleque Tião, ambos de 1943. Em 1947, a companhia se associa a Luís Severiano Ribeiro, o que faz com que a Atlântida passe a ter controle da produção de filmes da realização ao circuito exibidor. A palavra de ordem era chanchada. No período áureo que se seguiu, o estúdio carioca tinha a antológica dupla Oscarito e Grande Otelo, o querido par romântico Cyll Farney e Eliana e os diretores Watson Macedo, J.B. Tanko e Carlos Manga. O resultado eram filmes como Carnaval no Fogo, Aviso aos Navegantes e Carnaval Atlântida, que, anos 50 adentro, geravam filas de espectadores nas portas dos cinemas.

Não que as fitas fossem grandes obras da sétima arte. Essas chanchadas eram mal-arrumadas sucessões de bons momentos. Direção só mesmo nas tomadas de Oscarito, que, dizem, tinha total controle de suas cenas cômicas e musicais. Foi o jovem diretor Carlos Manga quem inseriu na chanchada a fina arte do corte e costura cinematográficos em clássicos como Dupla do Barulho, Nem Sansão Nem Dalila, Matar ou Correr, De Vento em Popa e, último grande título do gênero, Dois Ladrões (de 1960). Seja a causa a TV, o golpe militar ou a mudança do gosto do público, as chanchadas da Atlântida pararam de ser produzidas em 1962. Em Carnaval Atlântida, a curvilínea rumbeira Maria Antonieta Pons pergunta ao sisudo Professor Xenofontes (Oscarito) se ela daria uma boa professora. A resposta dele define aquela fase do cinema brasileiro: "Muuuito boa!"

Rogério Durst

 

     
   

 

 
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