| |
| |  | |
REPORTAGEM DE CAPA
O continente redescoberto Curtas da Atlântida lembram histórias
de um passado recente Telma Alvarenga
FotosReprodução de Flávio Lopes/Arquivo
Nacional
 | Copacabana,
1965: cenas de Bossa Nova Beach, feito para exportação, com
trilha de Tom Jobim |  |
As
luzes se apagavam na sala de exibição. Entre sacos de pipoca e caixinhas
de chiclete, o público se acomodava melhor nas poltronas e aceitava com
resignação o fato de que antes da atração principal
vinha inevitavelmente um cinejornal. Por quarenta anos, a Atlântida Cinematográfica
registrou os acontecimentos da época, da abertura de uma agência
bancária à inauguração do Aterro do Flamengo, em 1966;
dos desfiles de escola de samba na rua à passagem do Salgueiro durante
recepção a lord Mountbatten, em 1963; do turismo de celebridades
como Marlene Dietrich ao lazer domingueiro de cariocas anônimos nas areias
de Copacabana; de novas obras na Cidade do Aço à malhação
do judas no subúrbio. E, é claro, muito futebol. "Eram cinco ou
seis filmes por semana. E, quando a gente ia para a rua para uma reportagem, tinha
a liberdade de registrar outra coisa qualquer que achasse interessante", recorda-se
Vanderci Chagas de Aguiar, ex-cinegrafista da Atlântida, que hoje trabalha
na preservação do arquivo de imagens. Dessa produção,
sobraram 20 000 rolos de filmes. "Estima-se que seja menos de 30% de todo o material.
É o que sobreviveu a um incêndio em 1952, uma inundação
em 1970 e a anos de armazenamento inadequado", afirma a pesquisadora Aluf Elias,
coordenadora do projeto de preservação, acesso e difusão
do acervo.
 | Vanderci
(com a câmera) filma o ator Roger Moore: 37 anos de Atlântida
|
A
importância dos cinejornais foi ofuscada durante muitos anos pela produção
de longas dos estúdios Atlântida, que funcionaram no Rio entre 1941
e 1962 (veja quadro). Não há
brasileiro de cabelo grisalho que não associe o nome Atlântida às
comédias e aos musicais estrelados por Oscarito e Grande Otelo. Amadas
pelo público e olhadas inicialmente com certo desdém pela crítica,
as chanchadas entraram para a memória afetiva do país. "O Homem
do Sputnik, de 1959, teve 15 milhões de espectadores. Titanic,
em 1998, megassucesso sob todos os aspectos, teve 16 milhões", conta Luiz
Henrique Severiano Ribeiro Baez, um dos herdeiros da Atlântida, que se tem
dedicado quase que em tempo integral aos cuidados e estudos do acervo. Gente como
Eva Todor, Zezé Macedo, Eliana, Cyll Farney e Renata Fronzi emprestou o
talento às produções. Jô Soares, sob o nome de Joe
Soares, estava no elenco de O Homem do Sputnik também, na pele de
um espião americano. Foram 66 longas produzidos nos estúdios, outros
102 feitos em regime de co-produção, mas, mesmo na faceta mais conhecida
da empresa, as cicatrizes do tempo foram perversas. Apenas 25 filmes estão
no Arquivo Nacional. Perderam-se obras como o drama Luz dos Meus Olhos,
de 1947, com Cacilda Becker e Grande Otelo, fita sobre preconceito racial com
cenas pioneiras em favelas cariocas. Para deleite do público, até
o fim do ano está previsto o lançamento de um pacote de oito títulos
em DVD, pela Europa Filmes. "Alguns foram lançados em vídeo nos
anos 80", conta Severiano Ribeiro.
 | A
miss Bahia Marta Rocha desfila no concurso Miss Brasil de 1954, ainda sem se preocupar
com as tais polegadas a mais |
Longas
e cinejornais chegaram ao Arquivo Nacional depois de uma temporada de nove anos
na cinemateca do MAM. Os rolos foram armazenados em depósitos climatizados
e separados de acordo com o estado de degradação, para evitar contaminação.
"Os herdeiros instalaram um equipamento que permite o controle de temperatura
e umidade na sala e a exaustão de gases nocivos à saúde que
são emanados pelas cópias que já estão danificadas.
Esse tipo de parceria foi novidade para nós", diz Jaime Antunes da Silva,
diretor-geral do Arquivo Nacional. Nesse período, o material foi catalogado
e suas condições de conservação, descritas e avaliadas.
Há duas semanas, ele começou a ser trabalhado por um grupo de estudantes
de história da Universidade Gama Filho, que está analisando e identificando
seu conteúdo. Com a ajuda dos roteiros que sobreviveram, os documentários,
muitas vezes fragmentados, serão remontados como eram. "Setenta por cento
dos filmes estão sem o som original, porque rolos foram descartados por
falta de espaço nos depósitos da empresa. Não se sabia seu
valor", diz Aluf. E esse material, ao mesmo tempo curioso e histórico,
está prestes a voltar a público, para ser observado com outros olhos.
Duas semanas atrás, entrou no ar o site www.atlantidacinematografica.com.br,
com pérolas como o resumo dos roteiros dos curtas, um documentário
de oito minutos sobre a produção dos longas e muitas informações
a respeito das chanchadas. Até o fim do ano, vem por aí a série
A Atlântida É Nossa, de 52 curtas, com dez minutos de duração,
para serem veiculados no Canal Brasil, com direção de Oscar Maron,
com base nas descobertas que estão sendo feitas nos arquivos.
 | A
porta-estandarte Isabel Valença, do Salgueiro, caracterizada como Chica
da Silva, saúda lord Mountbatten em recepção em 1963
|
"Até
agora vi cerca de cinqüenta horas desse material, principalmente fragmentos.
E as cenas aparentemente insignificantes podem conter surpresas", diz Maron. Um
exemplo de boa surpresa é o curta feito para exportação Bossa
Nova Beach, com música de Tom Jobim na trilha sonora, que revive um
dia de sol de 1965 na Praia de Copacabana. Para um historiador, lá está
o visual da Avenida Atlântica nos tempos em que havia apenas uma pista.
Lá estão os (então) ousados maiôs de duas peças,
as barracas de lona, o vendedor de mate e de pipas em forma de gaivota, registro
de hábitos e costumes de então. "O babado do biquíni, o tamanho
da peça, uma prancha de madeira, tudo isso é informação",
afirma o diretor, que quer registrar na série de curtas também o
trabalho de estudos e os cuidados com os originais. "A idéia é revelar
as descobertas assim que os pesquisadores as fizerem ao manipular o acervo." A
missão dos estudantes da Gama Filho vai ser montar um verdadeiro quebra-cabeça:
relacionar os roteiros com fragmentos de cinejornais sem som. "Para isso, eles
vão precisar observar as vestimentas, os cabelos, os personagens históricos
retratados", diz o professor Eduardo Parga, da Gama Filho.
 | Em
1966, quando o Parque do Flamengo foi inaugurado, o lago para nautimodelismo,
hoje abandonado, atraía multidões
|
Um
capítulo que vai merecer atenção especial é o futebol.
"Quando se pensa em futebol no cinema, todo mundo se lembra do Canal 100, mas
na verdade temos muito mais horas de material filmado", conta Luiz Henrique Severiano
Ribeiro. Maron, que também trabalha para o Canal 100, concorda e explica
as diferenças no estilo. "O futebol no Atualidades Atlântida era
captado de uma forma mais intimista, com closes nas expressões dos jogadores
e da torcida. No Canal 100, a ênfase era nos planos gerais, em mostrar como
a jogada havia se desenvolvido até o gol", afirma. Outra diferença:
enquanto os jogos do Canal 100 eram acompanhados pela música Que Bonito
É, na Atlântida os embates eram encenados com uma hipnotizante
batucada. Vanderci Chagas de Aguiar, que atuou como cinegrafista na Atlântida
desde o fim dos anos 60, confirma. "Em alguns jogos, iam até cinco cinegrafistas.
Eu costumava ficar no fosso, com uma teleobjetiva, com instruções
de pegar as expressões faciais", lembra. Não era um trabalho fácil.
"O povo que ficava na geral jogava todo tipo de coisa em cima da gente", recorda-se.
Em compensação, Vanderci viveu momentos bem mais amenos. Na época
das filmagens de James Bond e o Foguete da Morte na cidade, ele foi escalado
para acompanhar as Bond-girls em um passeio de saveiro pela Baía de Guanabara.
 | Do
modelo do biquíni aos automóveis de época: informações
em película |
Os
planos para a divulgação da memória da Atlântida e
também do grupo Severiano Ribeiro, que completa noventa anos em 2007, são
ambiciosos. Um livro está sendo escrito pelo pesquisador Vinícius
Chiappeta Braga. Luiz Henrique Severiano Ribeiro quer instalar no Cine Palácio,
no Centro, um museu do cinema, onde o público poderia ter acesso a imagens
digitalizadas e haveria um auditório para exibição dos filmes,
a Sala Carlos Manga. Para erguer a estrutura, são necessários 950.000
reais. As boas idéias esbarram na falta de dinheiro. A lei de incentivos
fiscais não permite que seus recursos sejam utilizados por uma empresa
para preservar ou desenvolver projetos a partir de seu acervo particular. "Até
agora, todos os investimentos têm sido feitos com dinheiro da família
e com o que a Atlântida arrecada com o aluguel de suas imagens", diz Luiz
Henrique Severiano Ribeiro Baez. São gastos por mês cerca de 50.000
reais, e novas despesas surgem o tempo todo: só de ponta branca para os
filmes serão usados 26.000 metros, o equivalente a 90.000 reais. Para mudar
as latas enferrujadas que abrigavam os rolos por estojos de plástico, lá
se vão mais 75.000 reais. O investimento mais ambicioso deste ano é
a compra de uma ilha de telecinagem, que vai ser montada nos escritórios
da Atlântida, no Centro, onde os filmes recém-identificados serão
digitalizados. A empresa mantém uma equipe de oito funcionários
envolvidos no projeto de cuidados com o acervo. É um trabalho que não
tem data para acabar. Afinal, leva tempo para explorar e conhecer bem um continente
de memórias.
Ricardo Fasanello/Strana
 | Luiz
Henrique e André Severiano Ribeiro Baez: com o sputnik cenográfico
|
A
morada do cinema brasileiro
Ricardo Fasanello/Strana
 | Arquivo
Nacional: filmes no frio
|
Nos
anos 80, o Arquivo Nacional recebeu o embrião de sua coleção
de imagens em movimento. Eram 12 000 rolos de filmes produzidos pela antiga Agência
Nacional. Mas foi a partir de 2002 que o acervo foi ampliado drasticamente. Nessa
época, a cinemateca do MAM se desfez do material que até então
lhe havia sido confiado. Metade das fitas, ou melhor, 45 000 rolos, foi destinada
por seus herdeiros e criadores ao prédio da Praça da República.
A outra metade deixou a cidade e foi para São Paulo, na Cinemateca Brasileira.
"Não tinha cabimento transferir para São Paulo um acervo como o
da Atlântida, que tem tanta relação com a cidade", conta Luiz
Henrique Severiano Ribeiro Baez. Boa
parte do material veio desse acervo, mas existem muitas outras preciosidades nos
depósitos refrigerados, mantidos a 18 graus. É lá que se
encontram guardados a obra completa do cineasta Nelson Pereira dos Santos, material
da Cinédia e muitos filmes realizados por agências do governo. Há
também um pequeno tesouro: a coleção do finado Departamento
Nacional de Censura. Lá estão matrizes de filmes que jamais chegaram
aos cinemas e as cenas cortadas por serem consideradas picantes demais ou subversivas
demais. Hoje, a menina-dos-olhos do diretor do Arquivo, Jaime Antunes da Silva,
é a construção de um prédio climatizado, com câmaras
a 3 graus negativos, para servir de banco de matrizes, um projeto de 14 milhões
de reais, inédito na América Latina. |
Assim
era a Atlântida
Reprodução de Flávio Lopes/Arquivo Nacional
 | Oscarito
e Eva Todor: cena antológica do filme Dois Ladrões
|
Em
1941, Moacyr Fenelon e os irmãos José Carlos e Paulo Burle decidiram
o futuro do cinema nacional em conversas de botequim na Avenida Rio Branco, pertinho
do Jornal do Brasil, onde trabalhava José Carlos. O resultado foi
a criação da Atlântida Empresa Cinematográfica Brasileira
S.A., que juntou as idéias e a disposição dos já citados,
o apoio de amigos e a inestimável participação do conde Pereira
Carneiro, dono do JB. O nome grandiloqüente vingou. O território
do cinema nacional já havia visto ilhas de prosperidade como a Cinédia.
E, em termos de produção, a paulista Vera Cruz, fundada anos depois,
foi muito mais moderna e competente. Mas foi o estúdio carioca, com suas
popularíssimas comédias carnavalescas, galãs, comediantes
e cantores, que se tornou a Metro tropical, a Hollywood carioca e, hoje, o continente
infelizmente perdido do cinema brasileiro.
Reprodução de Flávio Lopes/Arquivo Nacional
 | Cartazes
de chanchadas: Oscarito era a grande estrela da Atlântida
|
Instalada
num terreno na Praça da República, onde antes se jogavam boliche
e pelota basca, a empresa começou sua produção com as Atualidades
Atlântida, que logo disputavam o importante mercado dos cinejornais,
notícias em movimento que complementavam as sessões de cinema naqueles
tempos pré-TV. Além de darem retorno imediato, os cinejornais forneciam
acervo de imagens de arquivo para aproveitamento na realização de
longas. A Atlântida começou na ficção com projetos
pessoais de Fenelon, É Proibido Sonhar, e de Burle, Moleque Tião,
ambos de 1943. Em 1947, a companhia se associa a Luís Severiano Ribeiro,
o que faz com que a Atlântida passe a ter controle da produção
de filmes da realização ao circuito exibidor. A palavra de ordem
era chanchada. No período áureo que se seguiu, o estúdio
carioca tinha a antológica dupla Oscarito e Grande Otelo, o querido par
romântico Cyll Farney e Eliana e os diretores Watson Macedo, J.B. Tanko
e Carlos Manga. O resultado eram filmes como Carnaval no Fogo, Aviso aos Navegantes
e Carnaval Atlântida, que, anos 50 adentro, geravam filas de
espectadores nas portas dos cinemas. Não
que as fitas fossem grandes obras da sétima arte. Essas chanchadas eram
mal-arrumadas sucessões de bons momentos. Direção só
mesmo nas tomadas de Oscarito, que, dizem, tinha total controle de suas cenas
cômicas e musicais. Foi o jovem diretor Carlos Manga quem inseriu na chanchada
a fina arte do corte e costura cinematográficos em clássicos como
Dupla do Barulho, Nem Sansão Nem Dalila, Matar ou Correr, De Vento em
Popa e, último grande título do gênero, Dois Ladrões
(de 1960). Seja a causa a TV, o golpe militar ou a mudança do gosto
do público, as chanchadas da Atlântida pararam de ser produzidas
em 1962. Em Carnaval Atlântida, a curvilínea rumbeira Maria
Antonieta Pons pergunta ao sisudo Professor Xenofontes (Oscarito) se ela daria
uma boa professora. A resposta dele define aquela fase do cinema brasileiro: "Muuuito
boa!" Rogério
Durst | |