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16 de abril de 2003
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CRÔNICA

Loucura organizada

João Emanuel Carneiro

Loucura planejada, alucinação programada, desbunde agendado. Vivemos num mundo burocraticamente louco. É como tomar a primeira dose de uísque pontualmente às 7 da manhã, ao acordar. Quebrar o vaso chinês da sala à 1 em ponto. Sair pelado na rua entre 2 e 2h15. Assassinar a mulher com uma dose mínima diária de cianureto no café-da-manhã ao longo de seis meses.

Parece não haver mais espaço para nossos amigos Rimbaud e Artaud nem para qualquer maldito de verdade. Hoje em dia, a maluquice foi subornada, absorvida pela mídia. A loucura, domesticada, vendida em cápsulas. O mundo, esse sim, ficou doido de vez, lançando-se numa guerra inexplicável, ensandecida, justificada por discursos seriíssimos de homens de paletó que aparecem na televisão.

Ninguém mais é careta, todo mundo é "maluco beleza". Nem o Pinochet é de direita. Somos todos "meio de esquerda". Vivemos num ardiloso terreno intermediário em tons pastel, cheio de boas intenções, onde tudo pode ser que sim ou que não.

Um mexicano uma vez me explicou o significado da palavra colocón. Colocón é o louco moderno, colocado, o sujeito que pira, apronta todas, mas volta para casa como a Cinderela, à meia-noite, põe seu pijaminha, o talquinho debaixo do braço e vai dormir, porque precisa acordar às 7 para ir pro trabalho. Em outras palavras, a mensagem é: "Você pode muito bem sair por aí, injetar heroína e atropelar criancinhas, desde que pague em dia seu IPTU". A quintessência do colocón é o Ozzy Osbourne, que no palco pisoteia pintinhos, vestindo uma roupa decotada de couro preto. Terminado o show, ele remove a fantasia e volta para a casa num agradável subúrbio americano em que vive com a mulher e os filhos.

Temos ainda as reservas indígenas da loucura institucionalizada. Coisas como o Carnaval, sete dias em que o ensandecimento é permitido e até incentivado, patrocinado. Ou como as festas de despedida de solteiro, em que mocinhas de boa família, que no Rio de Janeiro usam minissaias mais curtas que as das prostitutas, podem ficar apalpando à vontade, e sem constrangimento, os músculos dos go-go boys.

Outro dia tive a oportunidade de assistir na TV Pinel a um vídeo sensacional, roteirizado, dirigido e editado pelos internos daquele hospício. Um deles sai às ruas como repórter, entrevistando qualquer pessoa que apareça em seu caminho. Ele pára num ponto de ônibus e pergunta a um garotão bem-vestido, com jeito de playboy:

– E aí, mermão, você é louco?

O garotão responde, convicto:

– Pô, cara, sou muito louco, muito doido, aí...

O nosso entrevistador do Pinel vira-se para a câmera e diz:

– Eu, não. Tô controlado.

Também acho que estou apenas controlado. Por enquanto.

         
     
 
 
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