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16 de abril de 2003
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REPORTAGEM DE CAPA

Portugal na mesa carioca

Do boteco ao contemporâneo radical,
o Rio saboreia a boa mesa lusitana

Lívia de Almeida


Fotos André Nazareth/Strana
O chef Leonel Pereira, do Cais da Ribeira, montou o cardápio com pratos bem conhecidos do carioca, como o bacalhau ao brás (à dir.) e o arroz de pato desfiado com embutidos (à esq.), apresentados com visual inspirado na cozinha francesa. "Em Portugal, podia ousar mais. Aqui estou sendo mais tradicional em consideração à comunidade", diz. O sabor, ele garante, respeita as receitas originais. "Não iria viajar 10 000 quilômetros para apresentar uma versão deturpada da cozinha portuguesa." Se suas inovações forem bem-aceitas, ele promete um menu ainda mais arrojado para daqui a quatro meses.

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Diz o fado que uma casa portuguesa com certeza deve ter paredes caiadas, cheirinho de alecrim, um São José de azulejos e sobre a mesa, no mínimo, pão, vinho e um caldo verde quentinho. A casa portuguesa do chef Leonel Pereira não deixa de ter a tradicional sopa. Mas posta sobre uma mesa com tampo de vidro e serviço americano, por garçons vestidos de preto dos pés à cabeça. Não há xales rendados nas paredes, cerâmicas coloridas, nem réstias de cebola e cabeças de alho penduradas à guisa de decoração. Também não se vêem aquelas travessas de barro transbordando com postas de bacalhau e batata. "O barro está condenado na Europa por motivos higiênicos, assim como a colher de pau", diz Leonel. O bacalhau ao brás chega em doses modestas, arrumadinho no centro do prato, adornado por um punhado de batata palha. O arroz de pato, sequinho, parece um tijolinho enfeitado com um dente de alho. "Para a apresentação ser boa, é preciso ver o branco do prato", justifica o chef. Dividir prato? Nem pensar. Leonel, 34 anos, natural de Faro, no Algarve, comanda as caçarolas no novíssimo Cais da Ribeira, recém-inaugurado restaurante do hotel Pestana Rio Atlântica, em Copacabana. "Queremos oferecer uma cozinha portuguesa criativa e com apresentação esmerada", comenta. Com sua proposta, o Cais enriquece o panorama dos portugueses da cidade, amplo o bastante para abrigar sob a mesma especialidade bons botecos do Centro e da Zona Norte e o aristocrático Antiquarius, no Leblon.

Leonel começou a trabalhar ainda adolescente. A princípio, morria de vergonha de que os amigos soubessem o que fazia. "Naqueles tempos, em Portugal, cozinheiro tinha de ser barrigudo, ter bigodes retorcidos, gostar de vinho tinto e se chamar Manoel ou Joaquim", brinca. Depois de cursar a escola de hotelaria, estudou no Instituto Lenôtre, na França, e trabalhou oito anos para a rede Orient Express. Quando foi atuar nos resorts da rede Pestana, no Algarve, pôde pôr em prática suas concepções. "A situação da gastronomia em Portugal mudou muito. Já existe uma geração de chefs preocupada em fazer cozinha contemporânea", diz. "Como nas artes plásticas, na gastronomia também Portugal deu um tremendo salto. Pulou do acadêmico para o contemporâneo sem passar pelo moderno", compara a curadora de arte e gourmet Vanda Klabin.

André Nazareth/Strana
André Nazareth/Strana
Alexandre Sant'Anna
O maître Manoelzinho e Carlos Perico comandam o aristocrático Antiquarius desde 1976. Em Portugal, trabalhavam juntos em Elvas, no Alentejo, até a Revolução dos Cravos. Em mais de vinte anos no Rio, fizeram cuidadosas modificações no menu de sotaque internacional. O clássico arroz de pato (à dir.) foi adaptado ao paladar carioca e, nos últimos anos, surgiram sugestões como o robalo com camarão ao molho caseiro (à esq.) e santola gratinado. "O carioca perdeu o medo de experimentar novidades", diz Perico.

Há um ano e oito meses, Leonel chegou ao país para coordenar os restaurantes da rede Pestana. Depois de breve escala em Salvador – que ele adorou –, veio para o Rio. Teve tempo, pois, para visitar os compatriotas na cidade. "Estive no Adegão Português e na Adega do Valentim. Não me identifico com esse tipo de cozinha. São casas que pararam na década de 50. Para mim, significaria uma grande frustração ser forçado a produzir aqueles pratos." E o Antiquarius? "Bom, mas clássico." O Arjamolho, domínio do chef José dos Santos, na Lagoa, arranca elogios. "É bem regional. Tem um interessante sabor português." Ainda assim, Leonel faz ressalvas: "Mas a apresentação dos pratos..." Depois das visitas, ele concluiu que a cidade bem poderia contar com mais um restaurante lusitano. "Existem muitos franceses e italianos. Mas há lacunas para a cozinha portuguesa de alto nível", acredita.

O chef Santos, 50 anos, não se abala com a crítica feita por Leonel à aparência dos pratos que prepara. O Arjamolho, à beira da Lagoa, tem decoração clean, arte contemporânea nas paredes, cozinha à mostra e poucas concessões ao folclore. Mas, na hora de encher a pança, predomina a tradição da fartura. A comida surge em porções que servem duas pessoas com facilidade, muitas vezes oferecidas em fumegantes panelas de barro. "O freguês tem de comer e ainda levar a sobra na quentinha", diz Santos, outro português do Algarve, que chegou ao país há oito anos e está no Rio há três. "Faço a verdadeira comida portuguesa artesanal, coisa que o Antiquarius não faz porque se adaptou aos padrões brasileiros", explica.

Com 26 anos de idade, o Antiquarius é o português favorito de nove entre dez vips cariocas ou visitantes. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Jorginho Guinle, Renato Aragão, Fausto Silva e Roberto Carlos vão lá. Desde que Veja Rio instituiu a eleição dos melhores restaurantes da cidade, em 1998, nunca deixou de vencer em sua categoria. No ano passado, por sua doçaria tradicional, ganhou também como a melhor sobremesa. No entanto, seu dono Carlos Perico, que migrou para o Brasil depois da Revolução dos Cravos, em 1975, não define seu estabelecimento como português: "Fazemos cozinha internacional, com um jeitinho do Alentejo. Em São Paulo, aliás, nos classificam como restaurante carioca". Moqueca, carne-seca e o picadinho mais caro da cidade (48 reais, porção individual) convivem no menu com bacalhaus e cataplanas de lulas grelhadas.

A decoração da casa é a mesma desde a inauguração, com antiguidades nas paredes, madeiras pintadas de laranja e cantinhos discretos para aqueles que não fazem questão de ser vistos. Já a cozinha mudou. "O carioca, nos últimos anos, passou a conhecer e a gostar de carnes como a de pato, perdiz, cabrito. Até queixo de porco está tendo saída. Ao mesmo tempo, tivemos de passar a fazer uma cozinha mais leve, menos condimentada, com menos refogados", conta. Aumentou a preocupação com o visual dos pratos. Até o clássico bolinho de bacalhau mudou. "Antes ele era mais rijo, mais macho. Hoje está mais maricas", descreve Perico. Mudanças no Antiquarius são feitas suavemente, com cuidado, para não desagradar à estrelada (e conservadora) clientela. Há anos, Perico tentou eliminar os ovinhos de codorna do couvert. Teve de recuar diante dos protestos. Outras mudanças, feitas em consideração ao gosto da turma, deram mais certo. O arroz de pato, um dos carros-chefe da casa, é exemplo de receita adaptada ao paladar nacional. "Depois que passamos a servi-lo molhadinho, tornou-se sucesso", diz Perico. Outros portugueses consideraram a adaptação um sacrilégio. "A versão do arroz de pato do Antiquarius lembra mais o risoto italiano do que o prato português", fazem coro o chef do Cais da Ribeira e o do Arjamolho.

André Nazareth/Strana
O chef José dos Santos, do Arjamolho, aprendeu a cozinhar com a avó. Hoje, em uma casa com vista deslumbrante para a Lagoa, ele procura fazer a cozinha regional portuguesa, na qual cabem invenções suas como o bacalhau do chef Santos (à esq.), com molho de mostarda, vinho do Porto e conhaque. Sua clientela, garante, tem perfil semelhante ao dos freqüentadores do Antiquarius. "Desde que me instalei aqui, acho que mexi com eles", diz.

Alterações no menu e preocupação com a estética dos pratos e a elegância do salão passam ao largo dos portugueses mais simples e despretensiosos do Centro e da Zona Norte. "Não fizemos nenhuma mudança no menu desde 1974", comenta o arquiteto Alfredo Mendes, segunda geração dos donos do Rei do Bacalhau, no Encantado. O peixe é a grande estrela dessa casa simples, que existe desde 1965. Está no famoso bolinho, que nos anos 70 e 80 fazia muita gente deixar a Zona Sul para uma excursão ao subúrbio, e em onze receitas que servem facilmente dois ou três comensais. "Arrumação e beleza complementam, mas não satisfazem. Nossa clientela gosta de saber que vai sair satisfeita", diz Alfredo. Os sambistas Noca da Portela e Zeca Pagodinho são alguns dos habitués.

No Adegão Português, em São Cristóvão, fundado em 1964, os sinais do tempo também são poucos. "O bolinho de bacalhau continua macho", garante Marcelo Riveiro Barcia, também da segunda geração de donos. O peixe reina em 22 receitas. Mesmo com a alta do dólar e o conseqüente encarecimento do produto, a casa utiliza 1,5 tonelada de bacalhau por mês. Apesar do nome, o Adegão foi fundado por três espanhóis da Galícia. "Se eles tivessem chamado a casa de Adegão Espanhol, ela não daria certo", explica Marcelo. É verdade que o bacalhau à lagareira, com brócolis e alho dourado, passou à frente do tradicionalíssimo zé do pipo, aquele com purê de batata, na preferência da clientela. "Principalmente as mulheres acham que é uma receita mais leve. No domingo, em compensação, as famílias só querem o zé do pipo", comenta.

Enfrentar a cultura da fartura, freqüentemente associada à gastronomia portuguesa, vai ser talvez o maior desafio do chef Leonel Pereira no Cais da Ribeira. "Não sei como o público vai reagir. Receio principalmente os viajantes portugueses, que costumam ser mais conservadores", diz. No período de um mês e meio em que o restaurante esteve em experiência, houve alguns estranhamentos em relação à quantidade. "É pouquinho, você sabe, comida servida à francesa", dá de ombros Manoel Francisco Belchior Pires, o maître Manoelzinho, do Antiquarius. A portuguesa Maria Adelaide Assis de Almeida, que reside no Brasil desde 1975 e participa da Confraria dos Amigos da Boa Mesa, elogia a vontade de inovar do chef. "Merece aplausos porque quer fazer uma nova cozinha portuguesa." Mas faz uma ressalva. "Ele deve tomar cuidado para não perder o sotaque."

 

Herança farta e saborosa

Rodolfo Garcia

Alexandre Sant'Anna
A Lisboeta: fartura e simplicidade que marcaram época


E
m tempos remotos, quando a culinária do Rio ainda não havia conhecido os dourados caminhos da fama, a forte presença da mesa portuguesa era a prova marcante do tanto que nos unia à cultura dos velhos colonizadores. E não só nos fogões domésticos essa influência foi indiscutível. Estendia-se aos restaurantes, concentrados no Centro, onde reinavam com absoluto prestígio. Em sua simplicidade, essas cozinhas não faziam a menor questão de mostrar receitas elaboradas, muito menos originais. O cardápio esbanjava fartura e se compunha invariavelmente das mesmas coisas: sardinha frita, polvo, bacalhau, cabrito, leitão, iscas de fígado, só para citar algumas das pratadas mais robustas.

E, também por conviver com pálida representação de outras culinárias típicas, nada realmente perturbava a hegemonia dos paladares coloridos de verde e vermelho.

Faz parte dessa memória uma fase, lá nos anos 70, em que bons ventos sopraram nesse campo. Por conta da Revolução dos Cravos, Portugal fez aportar aqui três expoentes da especialidade. Chegaram o Antiquarius, o Aviz e o Guarda Mor, que prometiam, além de excelência, sofisticação. Foi como se estivéssemos sendo compensados pela perda que o Rio vinha sofrendo com a sistemática absorção das velhas mesas portuguesas por mãos galegas, mais tendentes à massificação dos cardápios intermináveis. Dos três, só o Antiquarius fez contínua e vitoriosa carreira, embora muitas lágrimas tenham sido derramadas com a partida do Aviz.

Hoje restam poucos sobreviventes daquele gênero mais antigo, que com alguma bravura resistem às transformações dos tempos atuais. Mas outros nomes reforçam o time, e a visão agora é de uma culinária lusitana mais eclética e diferente do modelo das petisqueiras. Vale ainda invocar razões de tradição e de afeto para credenciar a gastronomia carioca como a verdadeira herdeira dos sabores lusitanos no Brasil.

 

Endereços dos sabores de Portugal

André Nazareth/Strana
Adegão Português: fartura

ADEGA DO VALENTIM, Rua da Passagem, 178, Botafogo, 2541-1166 (270 lugares). 12h/1h (seg. a dom.). Cc.: todos. T.: T. Manobr. Depois da morte do comendador Valentim, no ano passado, a viúva, Neide de Souza, dirige a casa, que manteve a decoração típica e o serviço eficiente. Pratos de bacalhau, como o lagareira e o adega (com batatas coradas, ervilhas, tomate e purê de pimentão), custam R$ 78,90 (para dois).
ADEGÃO PORTUGUÊS, Campo de São Cristóvão, 212-A, São Cristóvão, 2580-7288 (150 lugares). 12h/23h (seg. a sáb.). Cc.: A, D, M e V. T.: nenhum. Mantém o ar de boteco e as porções generosas. Fazem sucesso o bacalhau à lagareira (R$ 92,00), ao zé do pipo (R$ 92,00) e à gomes de sá (R$ 88,00). Passou a oferecer também porções individuais (entre R$ 58,00 e R$ 62,00).
ALFAIA, Rua Inhangá, 30, loja B, Copacabana, 2236-1222 (55 lugares). 11h/0h (seg. a sáb.), 11h/23h (dom. e feriados). Cc.: todos. T.: T. Há catorze anos, a pequenina casa de ambiente confortável serve bolinhos (R$ 2,30 a unidade) e vários pratos de bacalhau. O carro-chefe é a patuscada (R$ 79,80), com batata cozida, brócolis, ovo, alho e muito azeite (porções para dois).
ANTIQUARIUS, Rua Aristides Espínola, 19, Leblon, 2294-1049 (74 lugares). 12h/2h (seg. a dom.). Cc.: D. T.: nenhum. Manobr. Clássicos como o arroz de pato (R$ 48,00) convivem com novas sugestões como o robalo com camarão (R$ 48,00) e o lombo de bacalhau ao queijo da serra (R$ 89,00). Os doces portugueses (R$ 13,00) são imperdíveis.
ARJAMOLHO, Av. Epitácio Pessoa, 864, Lagoa, 2294-8028 (120 lugares). 12h/último cliente (ter. a dom.). Cc.: nenhum. T.: nenhum. Manobr. No menu, bacalhau ao murro (R$ 61,00), postas grelhadas, com brócolis cozido, batatas ao murro, tomate e pimentão assados, e bacalhau do chef Santos (R$ 61,00). Atenção para os melhores pastéis de nata da cidade (R$ 8,00 a porção com duas unidades).
BARRACUDA, Marina da Glória, Av. Infante Dom Henrique, s/nº, loja 28, Glória, 2556-4641 e 2205-3346 (74 lugares). 12h/0h (seg. a sáb.) e 12h/18h (dom.). Cc.: todos. T.: nenhum. No almoço, as mesas são tomadas por executivos engravatados, atrás dos pescados fresquinhos e espetadas. O tridente de frutos do mar é impressionante (por R$ 195,00, para dois). Vem com lagosta, peixe, camarões e lulas.
CAIS DA RIBEIRA, Av. Atlântica, 2967, Copacabana, Hotel Pestana Rio Atlântica, 2548-6332 (58 lugares). 19h30/0h (seg. a dom.). Cc.: todos. T.: nenhum. Estac. com manobr. Leonel Pereira prepara entradas como salada de bacalhau com pasta de grão-de-bico (R$ 21,00) e pratos como bacalhau com natas (R$ 41,00), ao brás (R$ 41,50) e arroz de pato (R$ 33,00).
CÂNDIDO'S, Av. Ayrton Senna, 2150, loja 104 e 105, Barra, 2430-8100 (110 lugares). 12h/último cliente (seg. a dom.). Cc.: todos. T.: T e V. Estac. Filhote mais chique do homônimo de Pedra de Guaratiba, oferece pratos como a açorda de mariscos (R$ 25,00) e frutos do mar grelhados (R$ 79,00).
DA SILVA, Rua Barão da Torre, 386, Ipanema, 2521-1289 (100 lugares). 11h/16h (seg.), 11h/16h e 18h/2h (ter. a dom.). Cc.: A, D e M. T.: todos (só no almoço). O maître Manoelzinho é um dos sócios da casa. De dia, funciona como restaurante por quilo. À noite, o menu à la carte tem especialidades do Antiquarius, como o arroz de pato, a preços menores (R$ 34,00, para duas pessoas).
REI DO BACALHAU, Rua Guilhermina, 596, Encantado, 2596-5988 (124 lugares). 11h30/22h (ter. a qui.). 11h30/23h (sex. e sáb.) e 11h30/16h30 (dom.). Cc.: todos. T.: nenhum. Estac. Famoso pelo bolinho de bacalhau (R$ 1,70 a unidade), tem ambiente simples, porções fartas e menu imutável: bacalhau à gomes de sá (R$ 62,00), com arroz e brócolis (R$ 62,00) e ao zé do pipo (R$ 59,00). O polvo com arroz e brócolis (R$ 45,00) tem seus seguidores.

 

         
     
 
 
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