Há muito tempo nas águas da Guanabara...

Faz 500 anos que navegadores chegaram
à baía de águas límpidas e flora exuberante

Sofia Cerqueira

 

Entrada da baía, vista do Forte do Leme: relatos do século XVI descrevem a região como um paraíso

A visão era paradisíaca. Águas cristalinas, peixes em abundância, enseadas de areia branca e vegetação exuberante. Tudo emoldurado em montanhas singulares. Para completar o cenário de Éden, árvores frutíferas, pássaros de vistosas plumagens e homens e mulheres nus sem nenhum pudor. A imagem idílica inundou os olhos dos tripulantes de três caravelas portuguesas que, há exatos 500 anos, singravam pelo litoral brasileiro quando avistaram um grande espelho d'água, com entrada estreita e bem protegido. Era a descoberta da Baía de Guanabara e do próprio Rio de Janeiro. Os registros de chegada às terras cariocas são controversos. Faltam documentos e sobram versões. A começar pelo seu batismo. Alguns historiadores acreditam que o navegador italiano Américo Vespúcio, que participou da expedição, tenha confundido a entrada da baía com a foz de um rio. Como na data não se comemorava nenhum santo, o nome dado à descoberta foi Rio de Janeiro (mês de chegada da esquadra). Outros pesquisadores asseguram que Vespúcio, o melhor cartógrafo da época, jamais cometeria tal erro. O nome correto seria Ria – termo usado no século XVI para definir entrada de baía – de Janeiro. O fato é que não se tem sequer o diário de bordo da expedição. Existe um consenso, porém, de que o descobrimento ocorreu em 1º de janeiro de 1502, façanha relatada em cartas escritas por Vespúcio. Para comemorar cinco séculos de história, entre outros eventos, será aberta no próximo dia 17 a maior exposição que a Biblioteca Nacional já fez sobre o Rio de Janeiro.

Material sobre a terra vislumbrada na primeira viagem pelo litoral após a descoberta do Brasil é o que não falta. Só na biblioteca há um acervo de 20.000 peças que fazem referências a sua história. Para a exposição O Rio e a Biblioteca Nacional Um Caso de Amor foram selecionados 100 objetos, de 1502 aos dias de hoje. São manuscritos, mapas, gravuras, desenhos, fotos, caricaturas, panorâmicas, livros e até partituras originais. "Conseguimos fazer a reconstituição visual da história da cidade, com suas lutas, conquistas e seu cotidiano", diz Eduardo Portela, presidente da Fundação Biblioteca Nacional. "Demos prioridade às peças nunca mostradas ao público", explica Georgina Staneck, coordenadora do Acervo Especializado. Entre as preciosidades está a cópia manuscrita do ofício que Mem de Sá, então governador-geral do Brasil, enviou ao feitor Jácome Pinheiro, em 1563, determinando que ele percorresse a costa do Rio para povoá-la. Há ainda mapas originais, como um de 1698, e uma reprodução do Terra Brasilis, de 1519, o primeiro mapa em que é feita uma referência ao Rio de Janeiro. Os festejos dos 500 anos da Guana-bará (nome dado pelos índios e que significa seio do mar) não param aí. A prefeitura está montando um calendário de eventos para o ano todo.

 
Fotos reproduções do acervo da Biblioteca Nacional
A visão do francês Jean de Léry, em 1557: nativos executando um prisioneiro Mapa francês de 1578: um dos mais antigos registros do entorno da baía

Os festejos começam em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade, quando será lançado o slogan "Rio de 500 janeiros". Na mesma semana, a prefeitura lança o livro Rio de Janeiro: as Primeiras Reportagens Relatos do Século 16. A publicação é uma coletânea de relatos dos primeiros viajantes sobre a terra povoada por selvagens desnudos, cheia de macacos e papagaios, rica em pau-brasil e que tinha até "árvores com ostras", como descreve o frei francês André Thevet. Foram selecionadas impressões, entre outras, do missionário francês Jean de Léry, do colonizador Nicolas Durand de Villegagnon e do viajante alemão Hans Staden. Aprazível, formosa e paraíso terrestre são alguns dos atributos associados à descoberta, mas, apesar dos encantos, o Rio não despertou interesse imediato. "Portugal não tinha como investir na ocupação e estava interessado nas especiarias do Oriente", diz o historiador Milton Teixeira. Daquela expedição se sabe que as três naus partiram de Lisboa, em 1501, e que percorreram a costa batizando os acidentes geográficos com nome de santos. O comandante da viagem – que também resultou na descoberta de Angra dos Reis – é um mistério. Entre os nomes apontados estão Gonçalo Coelho, Gaspar de Lemos e Nuno Manuel. "Não se sabe se os diários foram perdidos ou se chegaram a ser escritos para que não caíssem nas mãos de outras nações", observa Ana Lúcia Bulcão, pesquisadora do Arquivo-Geral da Cidade.

 
Registro do frei e cosmógrafo André Thevet: índios fumando charuto junto a um pé de tabaco Ilustração do viajante Hans Staden: primeiro desenho conhecido da baía

Isso não impediu, no entanto, uma grande movimentação na Baía de Guanabara. Em 1503, outra nau portuguesa aportou por aqui. Seus integrantes fizeram a primeira feitoria, uma casa no Flamengo que tinha como finalidade impedir o roubo de pau-brasil. A construção despertou a curiosidade dos nativos, que a chamavam de carioca (casa de branco). "No século XVI, a baía era muito visitada por contrabandistas e piratas franceses", conta Milton Teixeira. Se das duas primeiras expedições portuguesas faltam documentos, das aventuras seguintes, uma em 1511 e a outra em 1519, há registros minuciosos. Os diários da última expedição, por exemplo, relatam um fato curioso: o piloto João Lopes de Carvalho levou para Portugal o filho que tivera com uma índia. "Era o primeiro carioca", diz o pesquisador Nireu Cavalcanti, professor da Universidade Federal Fluminense. Nos anos seguintes, diminui o interesse dos portugueses pelo Rio. "O pau-brasil não gerava divisas que justificassem a ocupação", acrescenta Nireu. Com os portugueses distantes, outros navegantes estavam prontos para ocupar a região. Em 1555, desembarcou na baía o comandante francês Villegaignon, disposto a fundar a França Antártica, um refúgio para calvinistas perseguidos na Europa. Os franceses ocuparam a Ilha de Serijipe, hoje Villegagnon. Desde o início, contaram com a simpatia dos "selvagens".


Os índios, inclusive, merecem destaque na história das águas da Guanabara. Quando os portugueses chegaram havia no entorno da baía pelo menos 26 aldeias. Eram tupinaés, temiminós e tupinambás, todos do ramo tupi-guarani. Eles andavam como vieram ao mundo e alimentavam-se de mandioca, grãos e da caça e da pesca. "A ocupação do Rio foi marcada por ações políticas aliadas à tecnologia dos índios. Sem eles, os portugueses não teriam sobrevivido", avalia o historiador José Neves, do Museu Histórico Nacional. "A principal arma do português contra o índio foi o próprio índio. Eram dominados e depois usados nas batalhas", completa Ondemar Dias, arqueólogo especialista em índios. Para o escritor Antônio Torres, autor de Meu Querido Canibal, os nativos não eram contra os portugueses, mas contra o escravagismo imposto. "Os índios eram simpáticos aos franceses, que não lhes impunham esse regime", diz Torres, que relata em seu livro os rituais de antropofagia, comuns entre os nativos, e a saga da Confederação dos Tamoios, uma união de tribos que defendiam principalmente a liberdade indígena. Em 1560, preocupados com a expansão do domínio francês na região, os portugueses voltaram a marcar presença na Baía de Guanabara. Cinco anos mais tarde, para garantir a posse da terra, a cidade foi fundada por Estácio de Sá.

 

Mapa de 1698: raro, está no acervo da Biblioteca Nacional

A história e seus desfechos no decorrer de cinco séculos prometem ser extensamente comemorados. Além da exposição na Biblioteca Nacional, as secretarias municipais das Culturas, do Turismo e da Educação já têm atividades programadas. "Vamos aproximar o carioca de sua história com exposições, vídeos, peças e até uma ópera ao ar livre", afirma o secretário de Culturas, Ricardo Macieira. O G15, grupo que reúne os municípios margeados pela Baía de Guanabara, programou debates para marcar a data. Aos domingos, uma barca especial sai da estação da Praça Quinze para um passeio pela baía. Durante duas horas, guias contam a história da descoberta e da ocupação da área.


Quando a questão é ambiental, há pouco que comemorar. "A despoluição, sem interrupção nos programas, vai demorar mais de vinte anos. A baía continua sofrendo despejos de lixo, esgoto e efluentes químicos", diz o geógrafo Elmo Amador, coordenador da ONG Baía Viva. Uma realidade bem diferente do paraíso encontrado pelos portugueses.

 

Uma história de cinco séculos

 

Desenho inglês, datado de 1765, com a perspectiva da Baía de Guanabara

A exposição O Rio e a Biblioteca Nacional – Um Caso de Amor é uma viagem pela história da cidade. O percurso começa nos dias de hoje, com fotos recentes, registros das primeiras favelas, imagens de uma romântica Copacabana e até curiosidades que desapareceram das ruas, como um ônibus de dois andares apelidado de chope duplo. "Aproveitamos os 500 anos do Rio para mostrar esse acervo e traçar um panorama da cidade desde 1502", afirma Graça Coutinho, chefe de gabinete da biblioteca. A exposição conta com caricaturas de J. Carlos, fotos de Augusto Malta e Marc Ferrez, ilustrações de Rugendas e Debret, entre muitos outros. Um salto no tempo e serão exibidos manuscritos, mapas, gravuras e livros dos séculos XVI e XVII, alguns nunca exibidos ao público. Há ainda um módulo de música e outro de projeções na mostra que inaugura o Espaço Cultural Eliseu Visconti, um lugar específico para exposições na Biblioteca Nacional.

 
A valign="top">A gravura francesa registra o Passeio Público em 1800 O desenho do vendedor de leite do século XIX é de autor desconhecido

Favela às margens da Lagoa em 1962 A foto da Fortaleza de São João, de Juan Gutierrez, é de 1832

 

Paraíso destruído por lixo e esgoto

As águas translúcidas e o ambiente paradisíaco já deixaram o cenário para virar história. Do lado ambiental, não há muito que festejar nos 500 anos da Baía de Guanabara. Com 380 quilômetros quadrados de superfície e dezesseis cidades em seu entorno, ela chegou ao limite. De acordo com o geógrafo Elmo Amador, coordenador da ONG Baía Viva, são depositadas por dia 12.000 toneladas de lixo a sua volta, lançadas dentro dela 465 toneladas de esgoto, sem falar na poluição industrial e nos vazamentos de óleo, como o 1,3 milhão de litros que tomou a baía no início de 2000. A primeira etapa do Programa de Despoluição, que deveria ter terminado em 1999, só deve acabar em 2003. "Ao final, a questão industrial estará razoavelmente resolvida e a do esgoto, acima da meta. O lixo é o item mais atrasado", diz o secretário estadual de Saneamento Básico, Luiz Henrique Lima. "O programa, que deveria ser também ambiental, é meramente de saneamento", critica o ambientalista Sérgio Ricardo. A segunda etapa deverá começar em 2004. Estima-se que, sem interrupção nos programas, as águas só estarão despoluídas em trinta anos. A história da baía está longe de ter um ponto final.