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15 de setembro de 2004
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CRÔNICA

Vantagem feminina

Manoel Carlos

Lá venho eu novamente falando de e sobre mulheres! Não é falta de assunto, embora todos saibam não existir nenhum mais fascinante e atraente. Não. Neste caso trata-se apenas de uma tentativa de manter a atualidade desta crônica. Leram os jornais da semana? Se leram, ficaram sabendo que as mulheres vivem mais que os homens, o que significa que elas levam vantagem em tudo, inclusive na morte. Por causa da esperança de vida entre os dois sexos, em que o feminino viverá em média sete anos mais que o masculino, as mulheres, dentro de quarenta anos, se tanto, serão 6 milhões a mais do que nós. Está certo que vivemos menos inclusive por causa da violência generalizada. Estamos mais expostos a acidentes de trânsito e homicídios, entre outras causas externas de morte, ou seja, aquelas que não são naturais. São informações textuais do IBGE, afirmando que a taxa de mortalidade masculina pode chegar a ser, em 2050, cinco vezes maior que a feminina. Não há o que reclamar. Na minha opinião, elas merecem essa vantagem.

Com um amigo meu, o IBGE quebrou a cara, digamos assim, já que a esposa morreu há oito anos, deixando-o vivinho da silva. Quando comentei com ele esses dados que favorecem a mulher, ele saltou, fervoroso e discursivo, como se eu fosse contra:

– Muito merecido! Afinal, são elas que carregam a humanidade na barriga. Que se deixam deformar, engordando, enjoando, criando estrias e varizes, além de nos alimentar com suas mamas, que – por causa da nossa precoce voracidade – acabam murchas, penduradas como chocalhos!

E continuou, agora didático:

– Sabemos que, entre os índios, os homens descansam na rede quando as mulheres engravidam. Pensando bem, nós, os pretensamente civilizados, fazemos mais ou menos a mesma coisa, acompanhando, como espectadores da primeira fila, o espetáculo da gravidez feminina. E só quando o pano desce e o bebê dá seu primeiro vagido é que nos aproximamos e aplaudimos.

E, com mais ardor, emendou sem pausa:

– E quantas vezes somos infiéis e desleais com elas, justamente nesse período sagrado dos seus corpos? Estatisticamente, é durante a gravidez da mulher que o marido dá sua primeira pulada de cerca. Ele pensa: ela está gorda, lenta, enjoada, certamente sem tesão, e eu não sou de ferro! E, devido a isso, passa a cortejar a vizinha do lado, a cunhada, a amiga até então vista como uma irmã! Pois é – continuou Alfredo –, "ser mãe é andar chorando num sorriso! Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! Ser mãe é padecer num paraíso!", como escreveu o vetusto Coelho Neto. E eu acrescento, menos romântico que o poeta, que ser mãe é – quase sempre – ficar privada de sexo, pelos menos nos três últimos meses de gestação, e depois do parto passar a ser tratada apenas como a sacrossanta e intocável mãe dos nossos filhos. Pô, é uma enorme sacanagem! Mãe tem tesão como qualquer outra mulher!

E encerrou, apoteótico:

– Portanto, ainda que seja só por isso, elas merecem mais tempo de vida que nós, no mínimo para se vingar da incompreensão masculina!

Entendo o Alfredo. Foi com ele na direção do carro, sonolento depois de uma festa em que todos beberam um pouquinho demais, que Marta, a sacrossanta mãe dos seus quatro filhos, morreu num terrível desastre. Por essa razão carrega um justificado sentimento de culpa, que terapia nenhuma consegue eliminar. Mas não penso como ele. Não acho que as mulheres tenham, obrigatoriamente, de engordar, enjoar e criar estrias e varizes por causa da gravidez. Nem que suas mamas devam virar chocalhos, depois de sugadas por um ou dois anos. Menos ainda que sejam levadas a um jejum de sexo por ser mães dos nossos filhos. Não. As mães de hoje são muito diferentes das cantadas por Coelho Neto no início do século XX, ainda que continuem padecendo num paraíso. Atualmente, mesmo com um barrigão de nove meses, elas vão à luta e muitas dirigem seu próprio carro até a casa de saúde, quando sentem as primeiras contrações. Mas concordo com o Alfredo que gravidez e maternidade não diminuem o tesão. Muito pelo contrário. Obviamente, sempre existirão as mulheres-vítimas, que se deixam apagar e perdem seus homens quando ganham os filhos. Mas já não se pode afirmar que sejam a maioria. E, da minha parte, mesmo sem ser radical como o meu amigo, repito: as mulheres merecem esse segundo tempo. E devemos, até por egoísmo, dar graças a Deus que seja assim, já que sabemos que elas rezam com maior fervor e que existem, também pelo privilégio da maternidade, mais possibilidades de suas preces serem ouvidas e seus pedidos atendidos do que se fôssemos nós a rogar. Sendo assim, se ficam neste mundo, enquanto nos mandamos, elas podem, piedosamente, nos estender a mão mais uma vez, pedindo perdão aos céus pelos nossos pecados e luz para as nossas pobres almas.

     
   

 

 
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