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REPORTAGEM
DE CAPA Luxo,
glamour e alfinetadas Três
anos após a volta ao Brasil, Ocimar Versolato abre megaloja no Rio
Sofia Cerqueira
André
Nazareth/Strana
 | | Versolato
no Rio: além dos vestidos de festa, as lojas terão 800 artigos de
luxo |
O
estilista Ocimar Versolato não colocava os pés na praia havia quase
vinte anos. Nas últimas duas décadas, viveu boa parte do tempo em
Paris, figurou entre as maiores estrelas da moda internacional, conheceu a glória
e o fracasso, o sucesso estrondoso e uma montanha de dívidas. Depois de
ter quebrado e deixado para trás as glamourosas temporadas parisienses
de alta-costura, Versolato ressurge, inaugurando uma rede de lojas de luxo sem
precedentes no país. Nessa nova fase, ele não só pisou nas
areias de Ipanema (está certo que apenas para fazer as fotos desta reportagem)
como também decidiu fincar raízes profissionais na cidade. Das sete
butiques da grife Ocimar Versolato, a maior ficará no Rio, junto à
Praça Nossa Senhora da Paz. Com cinco andares, um pórtico com 12
metros de altura, paredes de mármore romano, elevador panorâmico
e 1 000 metros quadrados de área, a loja abrirá as portas na quarta
(15). No mesmo dia será inaugurada a filial do Fashion Mall, em São
Conrado.
André
Nazareth/Strana
 | | Sandra
Habib: a sócia do estilista |
A
ousada investida de Versolato no Rio consumirá mais de um terço
dos 15 milhões de reais investidos na marca pela sócia Sandra Habib,
representante da Jaguar no Brasil. "A cidade merece lojas imponentes. É
a segunda do país economicamente e a primeira em turismo", diz o estilista.
Para quem não acreditava que depois de fechar o ateliê em Paris e
voltar a São Paulo, em 2001, Versolato se reergueria em grande estilo,
ele alfineta: "Não tenho o que falar, estou mostrando. Nunca me preocupei
com a vida de ninguém. Se os outros se preocupam com a minha, o que posso
fazer?". Fotos
Dilmar Cavalher/Strana
 | Blusa
de cotton com bordados
R$ 890,00 Calça
jeans R$
450,00 Sandálias
com tiras de náilon
R$ 1 050,00 Bolsa
de couro
R$ 1 450,00 |  | Cache-coeur
rosa
R$ 990,00 Saia
com pregas R$
990,00 Sandálias
de couro de jacaré
R$ 3 900,00 |
Não
restam dúvidas de que o estilista, tão ágil com a tesoura
quanto afiado nas respostas, voltou. E com planos ambiciosos. Depois de lançar
sua marca no Brasil além das lojas no Rio, são quatro em
São Paulo e uma em Brasília , pretende montar, em 2006, um
showroom em Paris e outro em Nova York. Há planos ainda de abrir lojas
em Milão, Londres e Tóquio. Loucura, extravagância ou mais
um capricho de monsieur Versolato? Nenhuma das opções, garante
o estilista. "Foram feitos um estudo para avaliar a receptividade e um business
plan. Eles mostraram que para viabilizar o negócio são necessárias
várias lojas", diz. O número de artigos luxuosos também está
longe de ser modesto: 800 itens, do jeans aos vestidos de noite, passando por
acessórios e alfaiataria. Os preços partem de 98 reais, por uma
camiseta básica, e chegam a 28 000, pelo mais caro dos vestidos de luxo.
Os modelos de alta-costura (a partir de 10.000 dólares)
são exclusividade do ateliê, hoje instalado em um prédio de
nove andares em São Paulo. O imponente endereço já é
fruto da sociedade com Sandra Habib. "O negócio foi planejado nos últimos
dois anos. Não tenho nenhum receio. O Ocimar é o único brasileiro
que cria luxo. Os outros copiam", dispara ela. Para minimizarem os riscos de rusgas
futuras, Versolato e Sandra montaram uma rede com trinta fábricas fornecedoras.
"A dificuldade em cumprir prazos foi a maior falha em Paris. No último
desfile tive 10 milhões de dólares em pedidos e não consegui
entregar nem 200.000 dólares em peças."
Diante do fracasso logístico, só restou baixar as portas do ateliê
na Place Vendôme, região das mais caras da capital francesa.
André
Nazareth/Strana
 | | Loja
do Fashion Mall: ambiente com muita sofisticação |
Com
talento incontestável para criar roupas, o estilista não demonstra
a mesma destreza nos negócios. Para piorar, sempre falou o que vem à
cabeça, e sem poupar ninguém. "Não sou o polêmico que
tentam passar. Respeitem meu espaço, que respeito o do outro", minimiza.
Versolato deixou o país aos 26 anos para tentar a sorte em Paris. Com algum
dinheiro no bolso e nenhuma fluência no francês, matriculou-se num
curso de moda. O talento excepcional logo chamou a atenção de dois
mestres da costura, Gianni Versace e Hervé Léger, dos quais foi
assistente. Era só o começo. Já em sua primeira coleção,
em 1994, o estilista conheceu a glória e ingressou no seletíssimo
mundo fashion parisiense. Com vestidos sensuais, leves e de caimento perfeito,
prometia uma carreira estrondosa. "Tinha mais modelos desfilando para mim do que
para grandes maisons. E olhe que no início nem tinha como pagar cachê.
Eram nomes como Linda Evangelista, Naomi Campbell, Gisele Bündchen, Fernanda
Tavares, Carla Bruni e Carmen Kass", lembra. Suas criações foram
compradas por grandes redes, como a americana Bergdoff Godman, a inglesa Harrods
e a asiática Joyce. O sucesso meteórico o levou a uma gangorra de
êxitos e fracassos. Até hoje Versolato é o único brasileiro
a ter dirigido uma maison francesa, a Lanvin. A experiência durou só
dois anos. Na época em que foi dispensado, enfrentava mais problemas: sua
grife entrou em concordata e devia à previdência francesa. Em 1998,
ancorado numa sociedade com o grupo pernambucano Pessoa Queiroz, o estilista voltou
à cena parisiense ao abrir o sofisticadíssimo ateliê da Place
Vendôme. Foram mais dois anos e novas turbulências econômicas.
"Não tenho nada para falar sobre essa pessoa", delimita Tereza Pessoa de
Queiroz.
Dilmar Cavalher/Strana
 | Vestido
drapeado no busto
R$ 7 900,00 | Heudes
Regis
 | Terno
R$ 4 950,00 Blusa
de gola alta R$ 850,00
Mocassim
R$ 890,00 |
Para
quem apostava que aquele seria o ponto final de sua carreira, o estilista, de
43 anos, reaparece poderoso. "Ele está mais maduro e minha empresa é
muito sólida", confia Sandra Habib. Carlos Ferreirinha, ex-diretor da Louis
Vuitton no Brasil e consultor do setor de luxo, vê com algumas ressalvas
o projeto. "Nesse segmento, uma grife é trabalhada ao longo de anos. Não
entendo por que tantas filiais e com tanta rapidez", diz. Apesar da investida
grandiosa, Versolato parece mais comedido com as palavras. "Ele tem uma
atitude defensiva, às vezes mal compreendida. Não precisava, seu
talento é inquestionável", diz Ney Matogrosso, que há dez
anos divide com o estilista a criação dos figurinos de seus shows.
"Em Paris disse coisas de que não me arrependo, mas que não diria
mais", admite Versolato. Certa vez, declarou que Yves Saint Laurent devia se aposentar.
"Ele é genial, mas deveria ter parado no auge. As pessoas ficam chamando
ele de coitado", disse. Desencadeou uma saraivada de críticas. "Pegou mal,
mas não era tão idiota. Ele parou depois, né?" Em outra ocasião
mandou um bilhetinho irônico para o estilista Karl Lagerfeld, da Chanel:
"Muita coincidência nós termos os mesmos modelos, só que eu
fiz com três meses de antecedência". Também retrucava qualquer
crítica. Isso até aprender uma lição com a estilista
inglesa Vivienne Westwood: "Moda é uma família, e problemas são
resolvidos em casa, e não na rua". A fama de polêmico e arrogante,
porém, estava sacramentada. Quando se pergunta a Versolato se ele aceita
a pecha de arrogante, responde com a franqueza dos tempos de Paris. "Acho difícil...
(risos) dizer que não. Eu dito moda, não é uma profissão
de gente simples", diz. André
Nazareth/Strana
 | | Megaloja:
cinco andares em Ipanema |
Luxo,
aliás, é a marca de Versolato. Nas criações e fora
das passarelas. "Como já disse Karl Lagerfeld, não se consegue fazer
luxo morando numa favela", cita. Nascido em São Bernardo do Campo, ele
teve uma infância distante desse universo. Ficou órfão de
pai aos 4 anos e foi criado, junto com cinco irmãos, pela mãe, uma
costureira com quem aprendeu as primeiras lições. Ao chegar a Paris,
em 1987, morou num quarto de 15 metros quadrados. Ao quebrar, desfrutava um apartamento
de 400 metros quadrados. Hoje vive numa casa no Morumbi com o dobro do tamanho
e seis empregados. Para driblar a eterna insônia, joga videogame e chega
a ver dez DVDs por semana. Também adora música, de todos os gêneros.
"Ocimar é superdivertido. Passei uma noite com ele em Paris ouvindo música
kitsch. De manhã cedo, ele já estava trabalhando", conta a atriz
Camila Pitanga. Com reconhecida dedicação à labuta, às
vésperas de abrir as duas lojas no Rio, projetos do arquiteto Paulo Jacobsen,
o estilista tem trabalhado dezesseis horas por dia. "Representei o Versolato no
Rio e vendia até quinze vestidos num mês. Eles têm um corte
excepcional", diz a empresária Regina Lundgren. O estilista está
confiante de que sua grife terá boa receptividade. "A carioca não
está preocupada se se encontra um pouco acima do peso, ela se veste de
acordo com a cidade. Tem identidade própria", elogia. Com raízes
profissionais fincadas, pegará a ponte aérea pelo menos uma vez
por mês. "Adoro a cidade, e esse clima de inverno está maravilhoso.
Não fico derretendo", diz. Quem sabe agora Versolato pise com mais freqüência
nas areias de Ipanema. |