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15 de setembro de 2004
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REPORTAGEM DE CAPA

Luxo, glamour e alfinetadas

Três anos após a volta ao Brasil, Ocimar Versolato abre megaloja no Rio

Sofia Cerqueira

 
André Nazareth/Strana
Versolato no Rio: além dos vestidos de festa, as lojas terão 800 artigos de luxo

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O estilista Ocimar Versolato não colocava os pés na praia havia quase vinte anos. Nas últimas duas décadas, viveu boa parte do tempo em Paris, figurou entre as maiores estrelas da moda internacional, conheceu a glória e o fracasso, o sucesso estrondoso e uma montanha de dívidas. Depois de ter quebrado e deixado para trás as glamourosas temporadas parisienses de alta-costura, Versolato ressurge, inaugurando uma rede de lojas de luxo sem precedentes no país. Nessa nova fase, ele não só pisou nas areias de Ipanema (está certo que apenas para fazer as fotos desta reportagem) como também decidiu fincar raízes profissionais na cidade. Das sete butiques da grife Ocimar Versolato, a maior ficará no Rio, junto à Praça Nossa Senhora da Paz. Com cinco andares, um pórtico com 12 metros de altura, paredes de mármore romano, elevador panorâmico e 1 000 metros quadrados de área, a loja abrirá as portas na quarta (15). No mesmo dia será inaugurada a filial do Fashion Mall, em São Conrado.

 
André Nazareth/Strana
Sandra Habib: a sócia do estilista

A ousada investida de Versolato no Rio consumirá mais de um terço dos 15 milhões de reais investidos na marca pela sócia Sandra Habib, representante da Jaguar no Brasil. "A cidade merece lojas imponentes. É a segunda do país economicamente e a primeira em turismo", diz o estilista. Para quem não acreditava que depois de fechar o ateliê em Paris e voltar a São Paulo, em 2001, Versolato se reergueria em grande estilo, ele alfineta: "Não tenho o que falar, estou mostrando. Nunca me preocupei com a vida de ninguém. Se os outros se preocupam com a minha, o que posso fazer?".

 
Fotos Dilmar Cavalher/Strana

Blusa de cotton com bordados
R$ 890,00

Calça jeans
R$ 450,00

Sandálias com tiras de náilon
R$ 1 050,00

Bolsa de couro
R$ 1 450,00

Cache-coeur rosa
R$ 990,00

Saia com pregas
R$ 990,00

Sandálias de couro de jacaré
R$ 3 900,00

Não restam dúvidas de que o estilista, tão ágil com a tesoura quanto afiado nas respostas, voltou. E com planos ambiciosos. Depois de lançar sua marca no Brasil – além das lojas no Rio, são quatro em São Paulo e uma em Brasília –, pretende montar, em 2006, um showroom em Paris e outro em Nova York. Há planos ainda de abrir lojas em Milão, Londres e Tóquio. Loucura, extravagância ou mais um capricho de monsieur Versolato? Nenhuma das opções, garante o estilista. "Foram feitos um estudo para avaliar a receptividade e um business plan. Eles mostraram que para viabilizar o negócio são necessárias várias lojas", diz. O número de artigos luxuosos também está longe de ser modesto: 800 itens, do jeans aos vestidos de noite, passando por acessórios e alfaiataria. Os preços partem de 98 reais, por uma camiseta básica, e chegam a 28 000, pelo mais caro dos vestidos de luxo. Os modelos de alta-costura (a partir de 10.000 dólares) são exclusividade do ateliê, hoje instalado em um prédio de nove andares em São Paulo. O imponente endereço já é fruto da sociedade com Sandra Habib. "O negócio foi planejado nos últimos dois anos. Não tenho nenhum receio. O Ocimar é o único brasileiro que cria luxo. Os outros copiam", dispara ela. Para minimizarem os riscos de rusgas futuras, Versolato e Sandra montaram uma rede com trinta fábricas fornecedoras. "A dificuldade em cumprir prazos foi a maior falha em Paris. No último desfile tive 10 milhões de dólares em pedidos e não consegui entregar nem 200.000 dólares em peças." Diante do fracasso logístico, só restou baixar as portas do ateliê na Place Vendôme, região das mais caras da capital francesa.

 
André Nazareth/Strana
Loja do Fashion Mall: ambiente com muita sofisticação

Com talento incontestável para criar roupas, o estilista não demonstra a mesma destreza nos negócios. Para piorar, sempre falou o que vem à cabeça, e sem poupar ninguém. "Não sou o polêmico que tentam passar. Respeitem meu espaço, que respeito o do outro", minimiza. Versolato deixou o país aos 26 anos para tentar a sorte em Paris. Com algum dinheiro no bolso e nenhuma fluência no francês, matriculou-se num curso de moda. O talento excepcional logo chamou a atenção de dois mestres da costura, Gianni Versace e Hervé Léger, dos quais foi assistente. Era só o começo. Já em sua primeira coleção, em 1994, o estilista conheceu a glória e ingressou no seletíssimo mundo fashion parisiense. Com vestidos sensuais, leves e de caimento perfeito, prometia uma carreira estrondosa. "Tinha mais modelos desfilando para mim do que para grandes maisons. E olhe que no início nem tinha como pagar cachê. Eram nomes como Linda Evangelista, Naomi Campbell, Gisele Bündchen, Fernanda Tavares, Carla Bruni e Carmen Kass", lembra. Suas criações foram compradas por grandes redes, como a americana Bergdoff Godman, a inglesa Harrods e a asiática Joyce. O sucesso meteórico o levou a uma gangorra de êxitos e fracassos. Até hoje Versolato é o único brasileiro a ter dirigido uma maison francesa, a Lanvin. A experiência durou só dois anos. Na época em que foi dispensado, enfrentava mais problemas: sua grife entrou em concordata e devia à previdência francesa. Em 1998, ancorado numa sociedade com o grupo pernambucano Pessoa Queiroz, o estilista voltou à cena parisiense ao abrir o sofisticadíssimo ateliê da Place Vendôme. Foram mais dois anos e novas turbulências econômicas. "Não tenho nada para falar sobre essa pessoa", delimita Tereza Pessoa de Queiroz.

 

Dilmar Cavalher/Strana

Vestido drapeado no busto
R$ 7 900,00

Heudes Regis

Terno
R$ 4 950,00

Blusa de gola alta
R$ 850,00

Mocassim
R$ 890,00

Para quem apostava que aquele seria o ponto final de sua carreira, o estilista, de 43 anos, reaparece poderoso. "Ele está mais maduro e minha empresa é muito sólida", confia Sandra Habib. Carlos Ferreirinha, ex-diretor da Louis Vuitton no Brasil e consultor do setor de luxo, vê com algumas ressalvas o projeto. "Nesse segmento, uma grife é trabalhada ao longo de anos. Não entendo por que tantas filiais e com tanta rapidez", diz. Apesar da investida grandiosa, Versolato parece mais comedido – com as palavras. "Ele tem uma atitude defensiva, às vezes mal compreendida. Não precisava, seu talento é inquestionável", diz Ney Matogrosso, que há dez anos divide com o estilista a criação dos figurinos de seus shows. "Em Paris disse coisas de que não me arrependo, mas que não diria mais", admite Versolato. Certa vez, declarou que Yves Saint Laurent devia se aposentar. "Ele é genial, mas deveria ter parado no auge. As pessoas ficam chamando ele de coitado", disse. Desencadeou uma saraivada de críticas. "Pegou mal, mas não era tão idiota. Ele parou depois, né?" Em outra ocasião mandou um bilhetinho irônico para o estilista Karl Lagerfeld, da Chanel: "Muita coincidência nós termos os mesmos modelos, só que eu fiz com três meses de antecedência". Também retrucava qualquer crítica. Isso até aprender uma lição com a estilista inglesa Vivienne Westwood: "Moda é uma família, e problemas são resolvidos em casa, e não na rua". A fama de polêmico e arrogante, porém, estava sacramentada. Quando se pergunta a Versolato se ele aceita a pecha de arrogante, responde com a franqueza dos tempos de Paris. "Acho difícil... (risos) dizer que não. Eu dito moda, não é uma profissão de gente simples", diz.

 
André Nazareth/Strana
Megaloja: cinco andares em Ipanema

Luxo, aliás, é a marca de Versolato. Nas criações e fora das passarelas. "Como já disse Karl Lagerfeld, não se consegue fazer luxo morando numa favela", cita. Nascido em São Bernardo do Campo, ele teve uma infância distante desse universo. Ficou órfão de pai aos 4 anos e foi criado, junto com cinco irmãos, pela mãe, uma costureira com quem aprendeu as primeiras lições. Ao chegar a Paris, em 1987, morou num quarto de 15 metros quadrados. Ao quebrar, desfrutava um apartamento de 400 metros quadrados. Hoje vive numa casa no Morumbi com o dobro do tamanho e seis empregados. Para driblar a eterna insônia, joga videogame e chega a ver dez DVDs por semana. Também adora música, de todos os gêneros. "Ocimar é superdivertido. Passei uma noite com ele em Paris ouvindo música kitsch. De manhã cedo, ele já estava trabalhando", conta a atriz Camila Pitanga. Com reconhecida dedicação à labuta, às vésperas de abrir as duas lojas no Rio, projetos do arquiteto Paulo Jacobsen, o estilista tem trabalhado dezesseis horas por dia. "Representei o Versolato no Rio e vendia até quinze vestidos num mês. Eles têm um corte excepcional", diz a empresária Regina Lundgren. O estilista está confiante de que sua grife terá boa receptividade. "A carioca não está preocupada se se encontra um pouco acima do peso, ela se veste de acordo com a cidade. Tem identidade própria", elogia. Com raízes profissionais fincadas, pegará a ponte aérea pelo menos uma vez por mês. "Adoro a cidade, e esse clima de inverno está maravilhoso. Não fico derretendo", diz. Quem sabe agora Versolato pise com mais freqüência nas areias de Ipanema.

     
   

 

 
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