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15 de março de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
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O queridinho dos palcos

O argentino Victor Garcia Peralta
é o diretor do momento

Débora Ghivelder*

 
Felipe Varanda /Strana
Victor, na Lagoa, exibe o figurino favorito: bermuda

Nada de cabelo longo à la Caniggia, o carrasco da seleção brasileira. Nada da habitual empáfia que acompanha Diego Maradona. Quem acha que todo argentino cabe no estereótipo "cabeludo, metido e mal-educado" precisa conhecer o diretor de teatro Victor Garcia Peralta, 46 anos. O homem é a antítese desse perfil. É um lorde. Tudo bem que ele, filho de diplomata, nasceu em Palma de Maiorca, na Espanha, e morou em boa parte do mundo. O português fluente, quase sem sotaque, se deve aos dois anos passados em Porto Alegre, quando cursava o primário, em mais uma das trocas de endereço da família. "Eu me alfabetizei em português", explica Victor, hoje o diretor mais disputado do meio teatral carioca. O alvoroço procede, já que ele assina dois sucessos da temporada: os divertidos monólogos Os Homens São de Marte... e É para Lá que Eu Vou, que em abril completa um ano em cartaz e foi visto por 45.000 pessoas, e Não Sou Feliz mas Tenho Marido, blockbuster deste verão, com sessões esgotadas até 26 de março, quando troca o Rio por São Paulo. No primeiro, conta-se a história de uma mulher em busca do parceiro ideal. No segundo, a personagem é uma mulher casada há 27 anos. Nos dois, percebe-se a mão de Victor, que marca os trabalhos com concepção enxuta, estética limpa e direção generosa para com o ator.

A generosidade de Victor, de acordo com os amigos, está presente em pequenos e em grandes gestos. "Eu era uma atriz desconhecida. Ele acreditou em mim, no meu talento e no espetáculo", diz uma grata Mônica Martelli, a impagável Fernanda de Os Homens São de Marte... "Ele se preocupa com você. Quando te vê triste, vem logo perguntar a razão. E não é para ter um bom espetáculo, não. É porque é solidário mesmo", diz Zezé Polessa, estrela de Não Sou Feliz... Zezé nem desconfia, mas foi essa solidariedade que levou o diretor a acompanhá-la, noite dessas, no samba embalado pelo Monobloco, que evoluiu até as 6 da manhã, apesar de uma crise de coluna. Ele estava incomodado, mas tinha prometido.

Embora goste de uma farra, Victor, que hoje passa mais tempo em Ipanema do que em Palermo, em Buenos Aires, está mais para o bloco dos tranqüilos. "O que ele mais gosta de fazer é ir à Livraria da Travessa para comprar DVDs. A segunda coisa de que mais gosta é ver os DVDs que comprou", diz Mônica Martelli. Victor disfarça, dá uma de carioca, e diz que adora é poder ir à praia antes do trabalho e de ensaiar de bermuda. "Este figurino na Argentina é impensável", conta. Também gosta de jantar fora e conversar com os amigos. "Jantamos sempre juntos. Pelo menos uma vez na semana", conta Miguel Falabella, o amigo mais antigo. "Conheço o Victor desde que fazia O Despertar da Primavera, há 26 anos." A amizade firmou uma parceria teatral Brasil–Argentina. Diretor famoso na capital portenha desde que dirigiu As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder, em 1982, Victor adaptou e montou por lá A Partilha, Querido Mundo, O Submarino, Síndromes e Como Encher um Biquíni Selvagem. "Acho que fui a pessoa que mais montou o Miguel depois do Miguel", arrisca. O amigo concorda. "Acho que foi, sim. E ele adaptou com muita propriedade as peças para a realidade argentina."

Falabella não foi o único autor brasileiro dirigido por Victor em palcos portenhos. A lista inclui Millôr Fernandes, Bosco Brasil e a dupla Ingrid Guimarães e Heloísa Périssé. Neste ano, ele leva para lá o sucesso outonal Intimidade Indecente. É seu único compromisso neste ano em Buenos Aires. O resto da agenda está tomado até 2007 com produções cariocas: vai dirigir O Marido Ideal, de Oscar Wilde, com Herson Capri, Edwin Luisi e Jacqueline Laurence, um monólogo com Edwin Luisi ainda sem título e um projeto com Beth Goulart, que já dirigiu em Decadência e Dorotéia Minha. Problema, só um: enfrentar a Copa do Mundo com o fantasma de uma partida entre Brasil e Argentina. "Vou ficar dividido", admite. A gente quase perdoa.

*Colaborou Lívia de Almeida

 

Em lados opostos da vida

Uma é louca para se casar. A outra tem 27 anos de casamento no currículo. Personagens de dois dos maiores sucessos da temporada – ambos dirigidos por Victor Peralta –, Fernanda, interpretada por Mônica Martelli em Os Homens São de Marte... e É prá Lá que Eu Vou, e Viviana, de Zezé Polessa em Não Sou Feliz mas Tenho Marido, trocam idéias sobre a vida.

De Fernanda para Viviana

 
Divulgação
Zezé: Viviana foi casada por 27 anos

Fernanda: Você se formou em jornalismo, mas optou pelo casamento e pela família. Foi uma escolha ou um caminho natural seguido por tantas mulheres?

Viviana: Eu queria ser escritora, dirigir uma revista importante. Mas no meio do caminho algo previsível aconteceu: conheci um homem, o destino de toda mulher, sua tábua de salvação.

Fernanda: Quais os sentimentos femininos ao ver as marcas da idade chegando e o marido optando por uma mulher bem mais jovem?

Viviana: Quando vi meu marido olhando para a nova mulher de um amigo, uma ninfeta, perguntei: "O que está acontecendo com você? Estão nascendo seus dentes de leite?". Ele respondeu: "Por quê?". "Pela baba", eu disse. O que pode querer uma moça de 20 anos com um homem de 60?

Fernanda: Você gostaria de encontrar um novo amor? Se encontrasse, casaria novamente?

Viviana: Sim, sim, mas sem querer que seja para sempre. Sem esquecer Groucho Marx: "O casamento é uma instituição maravilhosa, mas quem quer viver a vida inteira numa instituição?".

 

De Viviana para Fernanda

 
Dilmar Cavalher /Strana
Mônica: a solteira Fernanda quer se casar

Viviana: A grande cilada do meu casamento foi vivê-lo como se ele tivesse de ser para sempre. Como fazer diferente?

Fernanda: Vivendo o presente. Estamos sempre vivendo no passado ou com grandes expectativas no futuro, o que faz com que sempre nos decepcionemos. Sei que tudo se transforma, mas vou tentar fazer com que se transforme da melhor forma. Posso não sentir mais aquele frisson, mas posso sentir outras coisas tão boas ou melhores.

Viviana: O casamento foi para mim um lugar seguro em que me escondi do mundo. Você também vive esse conflito?

Fernanda: Sim. Estou sempre desejando um lugar ou alguém que me dê segurança. Mas já entendi que a segurança que eu desejo não existe.

Viviana: Por que casar?

Fernanda: Para celebrar o amor! No Oriente as pessoas evoluem praticando ioga, aqui nós evoluímos nos relacionando, na marra. Eu, como nunca fui casada, quero casar, fazer festa, morar junto, usar aliança! Pode ser que daqui a alguns anos a gente se encontre e eu fale: "Em que roubada eu me meti, me separei!" E que você me responda: "Estou apaixonada, me casei novamente!".

     
   

 

 
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