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15 de fevereiro de 2006

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

A multidão VIP do rock

Tutty Vasques


De vez em quando a gente engana, finge que está podendo, mas, não tem jeito, a evasão de privacidade típica desse ofício mais cedo ou mais tarde dá ao leitor a exata dimensão da falta de importância do cronista. Direto ao assunto: a organização do show dos Rolling Stones selecionou 4 000 lugares (dois Canecões lotadinhos) para formadores de opinião, e nem assim meu nome consta da lista de convidados. Seria humilhante não fosse eu do tempo em que "very important person" – a bobagem que deu origem à sigla VIP – eram trinta, quarenta pessoas, se tanto, destacadas na multidão. Não havia exclusão – pelo menos não o sentimento militante do termo – em escolha tão restrita. Área VIP para 4 000, francamente... Não existem 4 000 pessoas verdadeiramente importantes no mundo, caramba!

No Brasil, parece que é direito constitucional: todo mundo será celebridade ainda que por uma noite e, a continuar nessa batida de camarotização das platéias, não demora muito o melhor lugar para a tudo assistir será a arquibancada, ilha de tranqüilidade cercada de gente esquisita enroscando crachás por uma taça de vinho branco e uma foto na coluna do Joaquim. Área VIP para 4.000 eu nunca tinha visto e nem sei se já criaram essa categoria no Guinness Book, mas periga a indústria brasileira de eventos faturar mais esta: a maior concentração de VIPs em shows dos Rolling Stones. A turma que mexe com isso é louca por um recorde, tipo a maior árvore de Natal do mundo ou o trio elétrico mais alto da Bahia. O marketing da festa virou o segredo do negócio. Foi o tempo em que a Feijoada do Amaral, por exemplo, virava um acontecimento com 500 gatos-pingados. Hoje, o Feijão VIP da Dadá é pra 5 000 camisetas.

Dia desses, um conhecido publicitário chorava no meu ombro: "Quem manda hoje no Brasil são os caras que fazem eventos, rapaz". Não se lamentava da concorrência nos negócios. "Antigamente éramos nós, os publicitários, que namorávamos as moças mais lindas do país. Hoje elas só querem saber deles, dos caras que fazem eventos." Devia estar exagerando. Exagero é serpentina nesse mundo de festas. No réveillon do ano 2000, por exemplo, foram 4 milhões na Avenida Atlântica. Esperam 1,5 milhão de fãs dos Stones no próximo sábado em Copacabana. Nos anos 60/70 cabiam 200 000 pessoas no Maracanã, número que depois caiu para menos da metade. Atualmente em obras, o estádio lota com 45 000 espectadores.

Há flagrantes patéticos de erro calculado de cálculo. É célebre a saia-justa da Bienal do Livro, que primeiro exagerou no número de visitantes para forjar boa aceitação da iniciativa e depois, quando o evento de fato estourou, não pôde contabilizar o sucesso do crescimento de público. Ou teria infringido todos os limites de superlotação do espaço entre estandes.

Matemática das multidões nunca foi o forte dos brasileiros. Houve um tempo em que a soma era quase uma ciência ideológica. A esquerda multiplicava, os militares dividiam e o total de manifestantes nas ruas era questão de ponto de vista. Sabe Deus como foi calculada a Passeata dos Cem Mil, em 1968, mas errar nesses casos é humano. No mundo inteiro manipula-se o tamanho da multidão pesando os prós e contras de cada manifestação. Nos anos 70 os editores de jornais americanos dimensionavam as massas pacifistas reunidas nos EUA contra a Guerra do Vietnã tirando a diferença entre o número dos organizadores e o da polícia.

O máximo que a imprensa dita mais séria pode fazer nessas ocasiões é chutar uma quantidade de cabeças por metro quadrado – quatro é o padrão – e reproduzir tal situação pela área estimada da manifestação. Conta o cronista Joaquim Ferreira dos Santos que já ajudou Zuenir Ventura a medir com barbante a imensa área do Aterro do Flamengo diante do Monumento aos Mortos para contabilizar a multidão que assistira à missa do papa João Paulo ll no Rio de Janeiro, em 1980. "Os soldadinhos do monumento não devem ter entendido nada." Não fosse a distensão lenta e gradual do regime em marcha naquela ocasião, teriam sido presos por atitude suspeita.

O Brasil nunca levou esse tipo de informação muito a sério, exceção talvez na época das grandes manifestações pelas diretas já no Rio e em São Paulo, quando a imprensa mais tomou cuidado com o uso político das multidões estimadas. Depois que o país se democratizou e começou a produzir celebridades aos montes, ninguém mais se preocupou em contar coisa nenhuma. Por exemplo: quantos gays cabem na Avenida Paulista: 1 milhão, 2 milhões, 4 milhões? Não importa, sempre cabe mais um quando o cidadão está vestido com a camiseta do dono do pedaço. Salvo, evidentemente, raras exceções: vai chegar o dia em que só eu, João Kléber e Carla Perez seremos barrados na porta. Eu lá é que não apareço.

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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