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CRÔNICA
A multidão VIP do rock Tutty
Vasques

De
vez em quando a gente engana, finge que está podendo, mas, não tem
jeito, a evasão de privacidade típica desse ofício mais cedo
ou mais tarde dá ao leitor a exata dimensão da falta de importância
do cronista. Direto ao assunto: a organização do show dos Rolling
Stones selecionou 4 000 lugares (dois Canecões lotadinhos) para formadores
de opinião, e nem assim meu nome consta da lista de convidados. Seria humilhante
não fosse eu do tempo em que "very important person" a bobagem que
deu origem à sigla VIP eram trinta, quarenta pessoas, se tanto,
destacadas na multidão. Não havia exclusão pelo menos
não o sentimento militante do termo em escolha tão restrita.
Área VIP para 4 000, francamente... Não existem 4 000 pessoas verdadeiramente
importantes no mundo, caramba! No
Brasil, parece que é direito constitucional: todo mundo será celebridade
ainda que por uma noite e, a continuar nessa batida de camarotização
das platéias, não demora muito o melhor lugar para a tudo assistir
será a arquibancada, ilha de tranqüilidade cercada de gente esquisita
enroscando crachás por uma taça de vinho branco e uma foto na coluna
do Joaquim. Área VIP para 4.000 eu nunca tinha visto e nem sei se já
criaram essa categoria no Guinness Book, mas periga a indústria
brasileira de eventos faturar mais esta: a maior concentração de
VIPs em shows dos Rolling Stones. A turma que mexe com isso é louca por
um recorde, tipo a maior árvore de Natal do mundo ou o trio elétrico
mais alto da Bahia. O marketing da festa virou o segredo do negócio. Foi
o tempo em que a Feijoada do Amaral, por exemplo, virava um acontecimento com
500 gatos-pingados. Hoje, o Feijão VIP da Dadá é pra 5 000
camisetas. Dia
desses, um conhecido publicitário chorava no meu ombro: "Quem manda hoje
no Brasil são os caras que fazem eventos, rapaz". Não se lamentava
da concorrência nos negócios. "Antigamente éramos nós,
os publicitários, que namorávamos as moças mais lindas do
país. Hoje elas só querem saber deles, dos caras que fazem eventos."
Devia estar exagerando. Exagero é serpentina nesse mundo de festas. No
réveillon do ano 2000, por exemplo, foram 4 milhões na Avenida Atlântica.
Esperam 1,5 milhão de fãs dos Stones no próximo sábado
em Copacabana. Nos anos 60/70 cabiam 200 000 pessoas no Maracanã, número
que depois caiu para menos da metade. Atualmente em obras, o estádio lota
com 45 000 espectadores. Há
flagrantes patéticos de erro calculado de cálculo. É célebre
a saia-justa da Bienal do Livro, que primeiro exagerou no número de visitantes
para forjar boa aceitação da iniciativa e depois, quando o evento
de fato estourou, não pôde contabilizar o sucesso do crescimento
de público. Ou teria infringido todos os limites de superlotação
do espaço entre estandes. Matemática
das multidões nunca foi o forte dos brasileiros. Houve um tempo em que
a soma era quase uma ciência ideológica. A esquerda multiplicava,
os militares dividiam e o total de manifestantes nas ruas era questão de
ponto de vista. Sabe Deus como foi calculada a Passeata dos Cem Mil, em 1968,
mas errar nesses casos é humano. No mundo inteiro manipula-se o tamanho
da multidão pesando os prós e contras de cada manifestação.
Nos anos 70 os editores de jornais americanos dimensionavam as massas pacifistas
reunidas nos EUA contra a Guerra do Vietnã tirando a diferença entre
o número dos organizadores e o da polícia.
O máximo que
a imprensa dita mais séria pode fazer nessas ocasiões é chutar
uma quantidade de cabeças por metro quadrado quatro é o padrão
e reproduzir tal situação pela área estimada da manifestação.
Conta o cronista Joaquim Ferreira dos Santos que já ajudou Zuenir Ventura
a medir com barbante a imensa área do Aterro do Flamengo diante do Monumento
aos Mortos para contabilizar a multidão que assistira à missa do
papa João Paulo ll no Rio de Janeiro, em 1980. "Os soldadinhos do monumento
não devem ter entendido nada." Não fosse a distensão lenta
e gradual do regime em marcha naquela ocasião, teriam sido presos por atitude
suspeita. O
Brasil nunca levou esse tipo de informação muito a sério,
exceção talvez na época das grandes manifestações
pelas diretas já no Rio e em São Paulo, quando a imprensa mais tomou
cuidado com o uso político das multidões estimadas. Depois que o
país se democratizou e começou a produzir celebridades aos montes,
ninguém mais se preocupou em contar coisa nenhuma. Por exemplo: quantos
gays cabem na Avenida Paulista: 1 milhão, 2 milhões, 4 milhões?
Não importa, sempre cabe mais um quando o cidadão está vestido
com a camiseta do dono do pedaço. Salvo, evidentemente, raras exceções:
vai chegar o dia em que só eu, João Kléber e Carla Perez
seremos barrados na porta. Eu lá é que não apareço.
E-mails
para o cronista:
tutty@nominimo.com.br |