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15 de fevereiro de 2006

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REPORTAGEM DE CAPA

Mar de gente em Copacabana

Uma multidão verá o show dos Rolling Stones na praia

Fátima Sá e Gustavo Autran

André Valentim/Strana
Juliana Paes: beleza natural na Orla Bardot

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Mapa da festa
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No próximo sábado, dia 18, quando Mick Jagger, 62 anos, Keith Richards, 62, Charlie Watts, 64, e Ron Wood, 58, subirem ao palco montado na Praia de Copacabana, em frente ao hotel Copacabana Palace, a cidade estará diante de uma apresentação digna do livro dos recordes. Os organizadores falam em um público de até 1 milhão de pessoas, número que não faria feio se reduzido à metade. Dezesseis torres de som – sete delas equipadas também com telões de alta definição – serão espalhadas ao longo de 600 metros, do palco até a Avenida Princesa Isabel. O custo total da produção beira os 10 milhões de reais, 1,6 milhão bancado pela prefeitura. Para minimizar o caos, está sendo preparado um esquema de trânsito e policiamento só visto no réveillon. Como na festa da virada do ano, cerca de 10 000 policiais estarão de serviço, a circulação de carros de passeio será proibida e o metrô terá esquema especial (veja quadro). "Todos os olhos estarão voltados para Copacabana. Este verão vai ficar conhecido como o verão dos Rolling Stones", aposta o carioca Luiz Oscar Niemeyer, dono da produtora Planmusic, responsável pela vinda da banda. "É uma propaganda incrível para a cidade. Se der tudo certo, são pelo menos quinze anos de glória", arrisca Philip Carruthers, diretor-superintendente do Copacabana Palace. E se der errado? "Imprevistos podem acontecer, mas estamos nos preparando desde maio", diz Ana Maria Maia, subsecretária de eventos da prefeitura, parceira na produção.

O palco, que começou a ser montado no dia 23 de janeiro, tem estrutura faraônica. São 22 metros de altura – o correspondente a um prédio de sete andares – e 60 de largura. Não bastasse, a frente do palco é móvel e avançará 60 metros em direção ao público. Longe dos mortais comuns, convidados vip de todo o país e até do exterior devem desfilar por uma área exclusiva com capacidade para mais de 3.500 pessoas. A lista inclui os atores Javier Barden, Luana Piovani e Christiane Torloni, a socialite Chiara Magalhães, a jogadora de vôlei Virna, o deputado ACM Neto, o ministro Gilberto Gil. A procura pelo melhor lugar se espalha pelos hotéis da orla. A maior parte deles já reservou 95% de seus quartos. Outros estão lotados desde outubro. O rebuliço é tamanho que vai reunir gente de Guapimirim, cidadezinha ao pé da serra de Teresópolis, onde cartazes anunciam excursões para ver o show dos "Rowlystones" a 20 reais; de Botucatu, cidade do interior paulista com 110.000 habitantes, de onde virão dez ônibus lotados de fãs, e de Nova York, de onde a modelo brasileira Alessandra Ambrósio promete vir "cercada de amigas".

 
Frank Micelotta/Getty Images
Wood (à esq.), Jagger, Watts e Richards: shows lotados por onde passam

Os Stones desembarcam no Rio na véspera do show e ocupam as suítes presidenciais do Copa, com 140 metros quadrados, varanda debruçada sobre o mar e um bocado de mordomias – a 5.000 reais a diária. O hotel servirá de quartel-general da banda. Vai abrigar os camarins, um lounge equipado com mesa de sinuca e uma área reservada para convidados especiais. De lá, uma passarela conduzirá os roqueiros para o palco, decorado com flores e folhas, que remetem ao clima tropical brasileiro. Como a maioria das celebridades estrangeiras que visitam a cidade, os roqueiros também têm seus caprichos. O grupo exigiu a montagem de uma cozinha japonesa no camarim e fez questão de trazer o chef. O rol dos pedidos inclui ainda nove carrinhos de golfe movidos a bateria e uma pista de corrida montada especialmente para Mick Jagger se exercitar longe de olhares curiosos. Trinta homens cuidarão da segurança da banda. Dez deles são guarda-costas que acompanham os integrantes durante toda a turnê. A festa pós-show será regada a muita vodca, uísque e vinho.

A turnê mundial de A Bigger Bang estreou em agosto, em Boston. No Brasil, o quarteto fará única apresentação no Rio e, no dia seguinte, segue para Buenos Aires. O show em Copacabana será o terceiro da banda na cidade (os outros dois foram em 1995, no Maracanã, e em 1998, com show de abertura de Bob Dylan, na Apoteose). O espetáculo de sábado será transmitido ao vivo pela TV Globo e também dará origem a um DVD, com lançamento previsto para este semestre. A festa na praia começa às 18h30, com um set do DJ Janot, e segue noite adentro com os grupos Afroreggae (19h30) e Titãs (às 20h20). Os Stones prometem um repertório concentrado em grandes clássicos, como (I Can't Get No) Satisfaction, Gimme Shelter, Jumpin' Jack Flash e Simpathy for the Devil. Do novo disco, estão previstas apenas quatro faixas: Oh No, Not You Again, Rain Fall Down, This Place Is Empty e Rough Justice (veja quadro na pág. 14).

Mas nada impede que, na hora H, os caras aprontem surpresas. A modelo Alexia Deschamps que o diga. Minutos antes de a banda subir ao palco da Apoteose, em 1998, ela foi abordada no backstage por um afoito Mick Jagger, que queria descobrir quais eram as canções preferidas do público brasileiro. "Fiquei tão atônita que respondi o óbvio: Satisfaction", conta. Alexia também guarda uma relíquia que faria qualquer fã babar de inveja: um vídeo de 1974 que mostra a intimidade do vocalista, quando ele esteve hospedado na casa da mãe dela, em Búzios. "Ele aparece tocando violão, nadando e até pulando corda", conta. Se Alexia pôde conhecer a intimidade do astro, o empresário Nelson Sendas, fanático pela banda, não economiza para vê-lo no palco. Nelson já assistiu a mais de cinqüenta apresentações dos Rolling Stones e viu sete vezes o espetáculo que será mostrado na praia. "É imperdível. Aos 60 anos, eles estão em plena forma", conta Nelson, que já garantiu seu lugar para ver o show pela oitava vez.

 
Fotos Divulgação

Luxo à beira-mar: o grupo ficará hospedado no Copacabana Palace

As negociações para o espetáculo começaram em março. "Fiz a proposta ao empresário Michael Cohl em Miami. A escolha de Copacabana foi decisiva", diz Luiz Oscar, produtor que ajudou a incluir o Brasil na rota dos grandes shows internacionais – em 1985, foi coordenador-geral do Rock in Rio e, cinco anos depois, trouxe Paul McCartney e Eric Clapton à cidade. Além da habilidade de Luiz Oscar como negociador, a experiência com o cantor americano Lenny Kravitz, que fez show na Praia de Copacabana em março de 2005, entusiasmou os Stones. "O espetáculo foi exibido em diversos países e abriu muitas portas", conta Ana Maria Maia. No mesmo dia em que foi feito o anúncio oficial da escala carioca, começou a romaria atrás de um convite vip (veja quadro). Os sortudos poderão conferir tudo no gargarejo. "Stones na Praia de Copacabana é um evento histórico. É a única banda que merece um sacrifício desses", comenta a atriz Alessandra Negrini, referindo-se ao mar de gente que terá de atravessar para chegar à área vip com o marido, o compositor pernambucano Otto. "Sempre que eles tocaram aqui eu estava fora do Brasil", lamenta a atriz Christiane Torloni. "Desta vez calhou de o show ser no dia do meu aniversário. Vou comemorar lá, com marido, filho, cunhado", diz a atriz. O empresário Marcos Buaiz estará com a namorada, Wanessa Camargo, e os sogros Zilú e Zezé Di Camargo.

No fim da semana passada, o Ministério Público Estadual fez uma série de exigências aos organizadores para evitar tumultos. Uma delas foi o aumento do número de banheiros químicos. A organização anunciou que haveria 200 cabines, mas o MP argumenta que seriam necessárias quatro vezes mais. Tem gente que não se importa com possíveis contratempos. "Para mim, está tranqüilo. Já fui muito imprensado em estádio de futebol", brinca Otto. "Todo mundo que eu conheço com menos de 50 anos estará lá", arrisca o empresário Rick Amaral. As pedras vão rolar.

 

Brasil, um destino habitual

Seja a passeio ou a trabalho, a relação dos Stones com o Brasil vem de longa data. O vaivém e as andanças dos integrantes da banda são contados por Nélio Rodrigues no livro Os Rolling Stones no Brasil – Do Descobrimento à Conquista (1968-1999), lançado em 2002. "O Jagger chegou a gravar uma música aqui no Rio, em 1976, no estúdio da Polygram, que nunca foi lançada", diz Nélio. Eis as passagens stoneanas pelo país relatadas no livro:

Mick Jagger foi o primeiro da banda a vir ao Brasil. Em janeiro de 1968, ele, a mulher, Marianne Faithfull, e o filho dela, Nicholas, se hospedaram no Copacabana Palace. O segundo destino da viagem turística foi Salvador, onde o batuque o inspirou a criar Simpathy for the Devil. No fim do mesmo ano, o casal retornou ao Rio, acompanhado de Keith Richards e sua mulher, Anita. Depois de algumas semanas na cidade, rumaram para a fazenda do banqueiro Walther Moreira Salles, em Matão (SP). Lá foi composta Honky Tonk Woman.

Em janeiro de 1974, outro stone chegava ao Rio como turista. O guitarrista Mick Taylor ficou hospedado na casa do roqueiro Arnaldo Brandão, seu amigo de Londres. No fim daquele ano, Taylor se desligou dos Stones. Em 1990, ele fez show em São Paulo com sua nova banda.

Mais uma vez no verão, em dezembro de 1975, Mick Jagger iniciava sua terceira visita ao país e a mais longa delas, com um mês de duração. Já casado com Bianca e pai de Jade, o trio ficou na casa de Florinda Bolkan, na Joatinga, e circulou pela alta-roda carioca. O astro foi à quadra da Mangueira e participou do programa de Big Boy na Rádio Mundial. O trajeto incluiu Búzios.

Em julho de 1976, o baterista Charlie Watts veio ao Rio em viagem de férias com a família. Ele ficou fascinado com a bateria da Portela. A má lembrança foi ter sido barrado numa boate. Em 1992, ele retornou ao Brasil para shows de seu Charlie Watts Quintet, voltado para o jazz.

Depois de nove anos de ausência, em 1984 Jagger voltou ao Rio, pela primeira vez a trabalho. Veio com sua terceira mulher, a modelo Jerry Hall, para fazer Running out of Luck, filme promocional de seu primeiro disco-solo. Ele gravou na Enseada de Botafogo, na sede do Fluminense, num presídio e na Costa Verde.

 
Marizilda Cruppe/Ag. O Globo

Depois de vários rumores desde os anos 70, enfim o grupo anunciou seus primeiros shows no Brasil, dentro da turnê mundial de Voodoo Lounge. Eles foram realizados no fim de janeiro e no começo de fevereiro de 1995, no Pacaembu e no Maracanã. Um ano depois, Ron Wood desembarcou no Rio com a mulher para ver o desfile das escolas de samba.

 
Roberto Valverde

Em abril de 1998, a banda repetiu a dose e se apresentou no Rio (Praça da Apoteose) e em São Paulo (Ibirapuera), na turnê Bridges to Babylon. O baixista Ron Wood levou um susto em sua estada carioca. Num passeio pela Baía da Ilha Grande, a lancha em que estava pegou fogo e ele foi resgatado por um barco de jornalistas. Foi nesse período que Jagger conheceu Luciana Gimenez, numa festa na mansão do empresário Olavo Monteiro de Carvalho.


Batalhão de vips

 
Área vip: 3 500 convidados

Semanas atrás, a promoter Alicinha Cavalcanti recebeu um e-mail enigmático. O remetente era um checheno obcecado por um convite para o show dos Rolling Stones em Copacabana. Para comprovar seu prestígio, anexou a capa de uma revista People estampada por um homem que o checheno jurava ser ele próprio. Essa foi apenas uma das mil mensagens eletrônicas que diariamente têm chegado para Alicinha. Tem sido assim desde dezembro, quando ela foi contratada para elaborar a lista de convidados vip do show. E olha que não são poucos: 3.500 very important people já confirmaram presença no pedaço mais concorrido da praia no sábado (18), e há uma lista de espera de mais de 4 000 pessoas.

Atores, políticos, músicos, empresários e demais convidados poderão circular pela área gradeada localizada atrás do palco e pelo nobilíssimo espaço delimitado em frente à boca de cena. "Boa parte do PIB nacional estará aqui", arrisca José Carlos Cinelli, diretor regional da Claro, uma das patrocinadoras do evento. A informalidade será norma no minifúndio. Os vips circularão pela areia em meio a vendedores de mate, biscoitos Globo e queijo de coalho na brasa, numa reprodução do clima praiano em dia ensolarado. A confecção das pulserinhas e camisas que identificarão a turma envolve tática de guerra. As pulseiras serão feitas em Londres, e haverá uma série de barreiras na entrada. "Teremos pulseira, credencial, cartão com código de barra e camiseta. Há um quinto elemento que não revelo nem sob tortura", diz a promoter.


Eu vou ­ Quem já garantiu presença na área vip do show

 
Rodrigo Santoro Luana Piovani Javier Barden Camila Pitanga
Zezé Di Camargo Debora Falabella Dênis Carvalho Michelle Alves
Cléo Pires Bruno Gagliasso Glória Maria Washington Olivetto
Leticia Birkheuer Virna Gilberto Gil Alessandra Negrini
Christiane: aniversário Alexia: nos bastidores

Fotos: Reginaldo Teixeira, André Valentim/Strana, André Brant, Divulgação, Rodrigo Braga, Divulgação, Leonardo Lemos, Ricardo Fasanello/Strana, Bruno Veiga/Strana, Ricardo Fasanello/Strana, Ricardo Fasanello/Strana, Daniela Toviansky, André Nazareth/Strana, André Valentim/Strana, Leonardo Lemos, Cintia Ssanches e Wagner Santos.


Show do milhão

Estima-se que o custo do show ultrapasse 10 milhões de reais.

A expectativa de público é de 1 milhão de pessoas.
Mais de 1 500 profissionais trabalham diretamente na produção.
O esquema de segurança vai mobilizar até 10 000 policiais.
O palco possui 22 metros de altura (o equivalente a um prédio de sete andares), 60 metros de largura e 30 metros de profundidade.
As 16 torres de som têm alcance de 900 metros.
Som, vídeo e iluminação do palco devem consumir 3 350 kVA, o suficiente para iluminar a orla do Leme ao Leblon.
Os equipamentos serão trazidos por 2 aviões: um 747 (com 100 toneladas) e um MD 11 (70 toneladas).
Essa parafernália se junta às 91 toneladas de equipamentos de luz e som locais.
A área vip terá 3 500 convidados.


Seleção musical

Abaixo, a base do repertório do show, com disco e ano de lançamento:

Jumpin' Jack Flash (Through the Past Darkly, 1969); Let's Spend the Night Together (Between the Buttons, 1967); It's Only Rock & Roll (But I Like It) (It's Only Rock'N'Roll, 1974); Oh No, Not You Again (A Bigger Bang, 2005); As Tears Go By (December's Children – And Everybody's, 1965); Rain Fall Down (A Bigger Bang, 2005); Midnight Rambler (Let It Bleed, 1969); Tumbling Dice (Exile On Main St., 1972); Gimme Shelter (Let It Bleed, 1969); This Place Is Empty (A Bigger Bang, 2005); Happy (Exile on Main St., 1972); Miss You (Some Girls, 1978); Rough Justice (A Bigger Bang, 2005); Get off of My Cloud (December's Children (And Everybody's, 1965); Honky Tonk Women (Through the Past Darkly, 1969); Simpathy for the Devil (Beggars Banquet, 1968); Start Me Up (Tatoo You, 1981); Paint It, Black (Aftermath, 1966); Brown Sugar (Sticky Fingers, 1971); You Can't Always Get What You Want (Let It Bleed, 1969); (I Can't Get No) Satisfaction (Out of Our Heads, 1965)

     
  
   

 

 
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