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15 de fevereiro de 2006

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ARTE

Heróis dos bastidores

Preparadores de atores ganham cada vez mais espaço na TV

Telma Alvarenga

Fotos André Valentim/Strana
Roumer e Alinne: o coach virou colega no elenco da novela Bang Bang

Desde o começo das gravações de Belíssima, a trama das 21 horas da Globo, Cauã Reymond, Maria Flor, Bianca Comparato e Enrica Duncan freqüentam o estúdio de Rossella Terranova, em Ipanema. Fazem exercícios corporais, pesquisam, trabalham as relações entre os personagens, passam o texto. Rossella chega a acompanhá-los nos estúdios do Projac em algumas cenas. "Ela fica atrás da câmera, fazendo sinais", diverte-se Bianca. Não é só o elenco jovem que conta com a mestra. Para viver o grego Nikos, o consagrado Tony Ramos teve encontros com ela. Claudia Raia e Camila Pitanga também. Rossella faz parte de um time cada vez mais valorizado na TV: o de instrutores de dramaturgia, ou coaches, como são chamados em Hollywood. Resumindo: são eles que preparam os atores para trabalhos específicos, como uma novela, uma minissérie e até programas de vendas na TV.

Reinaldo Rocha, apresentador do Shoptime há dez anos, está encantado. Desde que a equipe começou a ter aulas com Rossella, seis meses atrás, tudo mudou. "Estamos muito mais seguros, ousando mais", diz. A professora se autodefine como "mera indicadora de caminhos". "Isso é o mais legal nela", aplaude Cauã Reymond, 25 anos. "Ela mostra o caminho. Faz com que a gente acabe descobrindo como percorrê-lo, não nos leva até ele." Com formação em dança e vasta experiência como preparadora de atores no teatro – tem mais de quarenta peças no currículo –, Rossella atua nos bastidores da TV desde 1997. Criou um método particular. "Dou instrumentos para que os atores decifrem o que está sendo pedido pelos diretores", diz. "Trabalho, por exemplo, só uma ou duas frases do texto, mas com todas as possibilidades. Às vezes, é só uma questão de respiração."

 
Rossella (a quarta da esq. para a dir.), entre Maria Flor, Bianca, Cauã, Enrica e Reinaldo: parceria

Foi com Rossella que Bianca Comparato, de 20 anos, pesquisou elementos para compor sua Maria João, personagem que vive às turras com a irmã, Giovana (Paola Oliveira). "Poderíamos cair no clichê das irmãs briguentas." Os atores também contam com o olhar crítico da instrutora para corrigir falhas. "É importante ter esse feedback", comenta Maria Flor, de 22 anos. "O diretor nem sempre tem tempo." Rossella só não trabalha com o elenco mirim de Belíssima. As crianças da trama entram no set sob o olhar atento de Rosana Garcia, que fez sucesso como a Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo, na década de 70. "Quando comecei, não existia coach. Meu pai, Gilberto Garcia, que foi ator de rádio, fazia esse trabalho comigo e com a Isabela, minha irmã", conta. Seu primeiro trabalho como instrutora de dramaturgia foi em Estrela Guia, em 2001. Desde então, emenda uma novela na outra. Sempre com o elenco infantil. Ela prepara as cenas com as crianças, ajuda a decorar os textos, acompanha as gravações.

Rosana começou a trabalhar com Mariana Ruy Barbosa, de 10 anos, um mês antes da estréia da novela. Não demorou para descobrir que a bela ruivinha tem talento. "É tão esperta e concentrada que já está voando com as próprias asas", orgulha-se. A menina emociona o público quando sua Sabina sofre e as lágrimas escorrem pelo rosto sardento. Mas como ajudar uma criança a chorar diante das câmeras? Rosana jamais usa a técnica de pedir para que os pequenos imaginem algo triste, como a morte da mãe. Sílvia Pareja, instrutora da meninada do Sítio do Picapau Amarelo, também abomina a idéia. "É o fim da picada", diz. "A criança vai deprimir-se, mais que se emocionar. Depois, precisará de vinte anos de análise. Deus me livre!", esconjura. "Tento fazer com que ela entenda a situação, a emoção daquela cena." Funciona. "As crianças choram de verdade. Não tem colírio nem cristal japonês", afirma. Sílvia também começou a carreira de atriz ainda criança. Com 11 anos, fazia teatro em Aracaju. Trabalhou na Oficina de Atores da Globo e chegou a ter o próprio curso, fechado há três anos, quando passou a se dedicar só à turminha do Sítio.

Foi na oficina de interpretação do irmão, Antonio Amancio, que Roumer Canhães, 26 anos, aprendeu o ofício de coach. Primeiro, como assistente. Eles dividiram, por exemplo, a preparação de Alinne Moraes para sua primeira novela, Coração de Estudante. Quando a atriz fez Da Cor do Pecado, teve aulas com Roumer. Eles, agora, são colegas em Bang Bang, trama das 19 horas da Globo. É a estréia de Roumer em novelas. "O desafio é colocar em prática tudo o que eu dizia aos alunos." O irmão é um coach informal. E exigente. "Sou mais rigoroso com ele do que com os outros", admite Amancio, que se especializou em trabalhar com jovens. Mas acha um erro associar os coaches apenas aos iniciantes. "É natural que grandes atores tenham seu coach", defende.

Camila Amado recebe tanto atores consagrados como estreantes na escola que abriu em seu apartamento, na Gávea. "Não sou coach", ressalva. "Dou aulas de interpretação há muitos anos." Ela também prepara alunos para obras específicas. Foi assim com Daniel Oliveira, quando filmou Cazuza. É assim com Angelita Feijó, que faz uma participação em Belíssima. "Fico muito mais segura quando consigo passar o texto com a Camila antes de gravar", diz Angelita. Para atores como ela, totalmente inexperientes e que precisam preparar-se rapidamente para um papel, Camila tem um método radical. "Dou Hamlet", diz. "Assim, enfrentam logo todos os fantasmas."

     
  
   

 

 
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