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CRÔNICA
Helena, Helenas Manoel
Carlos Sempre
por ocasião de uma nova novela, sou procurado para dar entrevistas sobre
os temas que serão abordados, elenco escolhido, quem será o vilão
etc. Faz parte do lançamento do produto, como se costuma dizer. E uma pergunta,
nesses anos todos de profissão, tem estado permanentemente presente: qual
a razão de eu batizar todas as minhas protagonistas com o nome de Helena?
Aqui,
neste mesmo espaço, já afirmei que se trata de cacoete de autor
e que não há nada de profundo ou de oculto na escolha desse nome.
Agora, diante da estréia de Páginas da Vida, meu próximo
trabalho, não foi diferente das outras vezes, mas com uma extensão
que eu não esperava: por causa da minha crônica quinzenal nesta revista,
a mesma indagação vem sendo endereçada ao cronista, por intermédio
do e-mail ao pé desta página, e não apenas ao autor da novela,
pelos e-mails da TV Globo. Isso significa que leitores, além de telespectadores,
se interessam pela questão e fazem a mesma pergunta: por que Helena? Por
que não Angela, Daisy, Juliana, Leandra, Carolina? E por estar a curiosidade,
desta vez, vinculada à crônica, é através dela que
eu vou responder aos leitores, mais do que aos telespectadores.
Para
início de conversa, devo dizer que não tive nenhum amor com esse
nome. Portanto, nenhuma Helena foi minha namorada ou mulher. Tampouco tenho na
família, à exceção de uma sobrinha-neta de 10 anos,
alguma outra Helena. Esse nome, na verdade, sempre esteve ligado a mim por meio
da ficção. Li Helena, de Machado de Assis, muito cedo, aí
por volta dos 12 anos, e mais tarde, nos anos 50, adaptei o romance para a televisão,
com a personagem interpretada, se não me engano, pela atriz Maria Helena
Dias. E me afeiçoei tanto ao nome que, aí pelos meus 16 anos, me
aventurei a escrever um romance (vejam só!), tendo Helena como personagem
principal. Para o bem da literatura o romance não vingou, mas o nome me
ficou para sempre. O que há com o nome de Helena, finalmente? Respondo:
para mim não existe nome feminino melhor para virar personagem. Já
me parece, logo de cara, um nome fictício, que ninguém tem na vida
real, ainda que eu conheça várias Helenas de carne e osso. Tanto
isso não me convence que, mesmo tendo duas filhas, a nenhuma dei esse nome,
achando que seria literatice da minha parte. Mas
foi quando eu me interessei por mitologia e deparei com a história da Helena
de Tróia que resolvi, de vez, chamar sempre minha protagonista pelo nome
da deusa. Vi no personagem mitológico a verdadeira encarnação
do ser humano feminino, que carrega vida afora as imperfeições
da sua natureza. Chamou-me a atenção encontrar uma deusa tão
cheia de humanidade, tão semelhante a nós, pobres mortais. Pinçando
nas várias versões que existem sobre ela, e misturando umas com
as outras, no que chamarei de miscelânea mitológica, recolhem-se
informações fascinantes de tão reais e de tão atuais.
Para facilitar, trocarei os nomes gregos por nomes corriqueiros, do nosso dia-a-dia.
Vejamos: Helena,
já casada com José, é raptada por Antonio, com seu próprio
consentimento, apaixonando-se por ele. Por causa desse rapto, inicia-se uma guerra
que dura sete anos, e na qual Antonio morre. Helena casa-se então com o
seu cunhado João, a quem trai mais tarde, voltando a casar-se com o primeiro
marido, José. As diversas versões nos dão conta de três
finais para essa mulher: 1)
Viveu com José até a morte, sendo enterrados juntos.
2) Sobreviveu a José
e, perseguida por uma rival, foi enforcada. 3)
Viúva também de José, casou-se com um novo pretendente, Pedro,
com ele vivendo até a velhice. Vocês
hão de concordar comigo que isso é uma história atual, que
bem poderia estar numa das nossas telenovelas. Raptos, paixões desenfreadas,
traições, adultérios, perseguição e morte por
ciúme. O que fica faltando? Absolutamente nada. A novela está pronta.
Se
alguma Helena minha leitora, ainda que ocasional, não conhecia essa história,
que dela tire proveito e alegria. Afinal, ter uma deusa como xará, que
reúna tantas imperfeições humanas, é de envaidecer
qualquer mulher. Um
verdadeiro presente dos deuses. E-mails
para o cronista: almaviva@uninet.com.br |