Publicidade
 
 


 
 



14 de junho de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
CONSUMO
ARTE
CIDADE
OPINIÃO DO LEITOR
VEJA RIO 15 ANOS
BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
  

CIDADE

Turbulências na Marina

Projeto de ampliação gera polêmica no Parque do Flamengo

Telma Alvarenga e Fabio Fabio Brisolla

 

Foto com simulação da Marina da Glória após a conclusão das obras: mudanças nas duas extremidades da área

As plácidas e belas águas da Baía de Guanabara abrigam uma tormentosa polêmica. De um lado, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), arquitetos e paisagistas renomados, como Fernando Chacel, e moradores indignados. De outro, a prefeitura e a Empresa Brasileira de Terraplenagem e Engenharia (EBTE), responsável por obras de ampliação e reforma da Marina da Glória para os Jogos Pan-Americanos de 2007. Concessionária da área – uma ponta na imensidão verde do Parque do Flamengo –, a EBTE planeja construir ali mais que garagens para barcos e píeres para as competições de iatismo do Pan. Do projeto, orçado em 100 milhões de reais, também constam um complexo gastronômico de 7.200 metros quadrados, um centro de convenções de 9.000 metros quadrados e a ampliação do estacionamento. "Vão transformar uma área pública, de recreação, em área de negócios privados", reclama a arquiteta Claudia Girão, do Iphan. "E ainda privatizarão a vista do Pão de Açúcar, que é de todos", diz. "O que nós queremos é trazer para a marina o usuário do Parque do Flamengo", rebate José Alfredo Corrêa, diretor de planejamento da EBTE. "Vamos oferecer uma gama de opções, como aconteceu com os quiosques da Lagoa."

A briga é antiga e promete render. O centro da questão, para quem luta contra as obras, é que elas avançam sobre área tombada e ferem o projeto original do Parque do Flamengo, jóia paisagística criada nos idos anos 60 por um grupo de notáveis, como o arquiteto Afonso Eduardo Reidy e o paisagista Roberto Burle Marx. Na época, os trabalhos foram coordenados pela lendária Lota de Macedo Soares, influente intelectual carioca, que imaginou fazer daquele paraíso verde de 1,2 milhão de metros quadrados um Central Park. Inspirado no jardim público nova-iorquino e inaugurado em 1965, o Parque do Flamengo foi tombado pelo Iphan no mesmo ano. Em 1996, a Marina da Glória, que já tinha passado do governo federal para o municipal, foi privatizada. O imbróglio começou dois anos depois, quando a concessionária apresentou o atual projeto, reprovado pelo Conselho Consultivo do Iphan. A EBTE entrou com ação na Justiça Federal e conseguiu impedir que o Iphan embargasse a obra. "Temos de respeitar a decisão judicial", conforma-se Mauro Pazzini, superintendente do Iphan no Rio. Isso não significa ficar paralisado enquanto o processo continua correndo na Justiça e as obras avançam. O Iphan encaminhou, nesta semana, à promotora Denise Tarin, da equipe de Meio Ambiente do Ministério Público, parecer contrário ao projeto.

Na semana passada, numa audiência pública na Câmara dos Vereadores, foi lido um texto do conceituado arquiteto e paisagista Fernando Chacel, discípulo de Burle Marx, em que ele se refere ao "sentimento de tristeza ao constatar a falta de consideração e decoro em relação à paisagem da nossa cidade, onde tudo parece ser permitido desde que gere proventos para quem quer que seja". Chacel também expressa sua insatisfação "por não ter sido dada à sociedade a visibilidade necessária desse megaprojeto, através de informações precisas e confiáveis de seus impactos negativos sobre o parque". O prefeito Cesar Maia afirma que o processo sempre foi transparente. "O projeto foi dado a conhecimento público há oito meses, com ampla divulgação. Há pessoas de boa vontade que se convencem. Mas há também os que induzem o conflito e conversam por fora", diz.

O Iphan afirma que o projeto se estende sobre área tombada. "O tombamento não congela. Obras podem ser feitas, mas dentro de limites que precisam ser respeitados. Queremos preservar a escala urbanística do parque, não deixar que ele perca suas características originais", explica o superintendente Mauro Pazzini. A empresa afirma que todas as intervenções obedecem aos limites estabelecidos no contrato de concessão da Marina da Glória. "Além disso, há uma cláusula que exige a revitalização, que inclui atividades comerciais", diz o arquiteto Roberto Garcia Roza, co-autor do projeto. O contrato original, de dez anos, expirou neste ano. Mas foi prorrogado pela prefeitura em razão das obras dos Jogos Pan-Americanos, cujos custos serão arcados pela concessionária. Agora, o contrato vale por mais trinta anos e expira em 2036. Entre os pontos de discórdia em relação ao projeto há duas construções com cerca de 18 metros de altura – o centro de convenções e a garagem para barcos. "Elas vão tirar a vista do Pão de Açúcar de quem estiver caminhando pelo parque, ao longo da enseada", afirma a arquiteta Claudia Girão, do Iphan. "A altura é correspondente à de um prédio de seis andares." O arquiteto Paulo Casé, que também assina o projeto da EBTE, contesta. "É uma visão simplista. Como há um desnível no terreno, a referência muda. As novas construções não ultrapassam a já existente. Determinamos a altura em função da paisagem", garante.

Eduardo Paparguerius, da Associação de Moradores da Glória, reclama que árvores, mesas e banquinhos de granito já foram derrubados na área de piqueniques. Ele admite que o lugar estava degradado, com o mato crescendo, brinquedos quebrados, lixo, falta de policiamento. "Mas faz parte da estratégia", lamenta. "Primeiro, a área é abandonada. Quando está bem degradada, o poder público aparece com a solução: entregar para a iniciativa privada. É perverso demais. Vão impedir as pessoas simples de ter seu lazer para construir um clube de luxo, onde elas não vão passar nem na porta." José Alfredo, diretor da EBTE, garante que tem todas as licenças ambientais para a obra e que a marina é para todos. "Não vamos ter só restaurante classe AA. O objetivo é colocar também fast-food e restaurante por quilo para uso de toda a comunidade." Eduardo não está convencido disso. Neste domingo, ele lidera uma caminhada no Parque do Flamengo, até a marina, em protesto contra as obras, atiçando o fogo da polêmica. Que parece longe do fim.

 

Briga no cais

 
Alexandre Sant'Anna

Técnicos do Iphan afirmam que o projeto de revitalização da Marina da Glória avança sobre área tombada. A EBTE, empresa que administra a marina, diz que as intervenções obedecem aos limites previstos na concessão.

O projeto prevê construções de 18 metros de altura (o equivalente a um prédio de seis andares). Com esse tamanho, dizem os técnicos do Iphan, quem caminhar pela Enseada da Glória não verá o Pão de Açúcar. Os arquitetos da obra garantem que o limite de altura será o do prédio já existente.

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados