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CIDADE
Turbulências na Marina Projeto de ampliação gera polêmica
no Parque do Flamengo Telma Alvarenga e Fabio Fabio Brisolla
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com simulação da Marina da Glória após a conclusão
das obras: mudanças nas duas extremidades da área |
As
plácidas e belas águas da Baía de Guanabara abrigam uma tormentosa
polêmica. De um lado, o Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan), arquitetos e paisagistas renomados, como Fernando
Chacel, e moradores indignados. De outro, a prefeitura e a Empresa Brasileira
de Terraplenagem e Engenharia (EBTE), responsável por obras de ampliação
e reforma da Marina da Glória para os Jogos Pan-Americanos de 2007. Concessionária
da área uma ponta na imensidão verde do Parque do Flamengo
, a EBTE planeja construir ali mais que garagens para barcos e píeres
para as competições de iatismo do Pan. Do projeto, orçado
em 100 milhões de reais, também constam um complexo gastronômico
de 7.200 metros quadrados, um centro de convenções de 9.000 metros
quadrados e a ampliação do estacionamento. "Vão transformar
uma área pública, de recreação, em área de
negócios privados", reclama a arquiteta Claudia Girão, do Iphan.
"E ainda privatizarão a vista do Pão de Açúcar, que
é de todos", diz. "O que nós queremos é trazer para a marina
o usuário do Parque do Flamengo", rebate José Alfredo Corrêa,
diretor de planejamento da EBTE. "Vamos oferecer uma gama de opções,
como aconteceu com os quiosques da Lagoa." A
briga é antiga e promete render. O centro da questão, para quem
luta contra as obras, é que elas avançam sobre área tombada
e ferem o projeto original do Parque do Flamengo, jóia paisagística
criada nos idos anos 60 por um grupo de notáveis, como o arquiteto Afonso
Eduardo Reidy e o paisagista Roberto Burle Marx. Na época, os trabalhos
foram coordenados pela lendária Lota de Macedo Soares, influente intelectual
carioca, que imaginou fazer daquele paraíso verde de 1,2 milhão
de metros quadrados um Central Park. Inspirado no jardim público nova-iorquino
e inaugurado em 1965, o Parque do Flamengo foi tombado pelo Iphan no mesmo ano.
Em 1996, a Marina da Glória, que já tinha passado do governo federal
para o municipal, foi privatizada. O imbróglio começou dois anos
depois, quando a concessionária apresentou o atual projeto, reprovado pelo
Conselho Consultivo do Iphan. A EBTE entrou com ação na Justiça
Federal e conseguiu impedir que o Iphan embargasse a obra. "Temos de respeitar
a decisão judicial", conforma-se Mauro Pazzini, superintendente do Iphan
no Rio. Isso não significa ficar paralisado enquanto o processo continua
correndo na Justiça e as obras avançam. O Iphan encaminhou, nesta
semana, à promotora Denise Tarin, da equipe de Meio Ambiente do Ministério
Público, parecer contrário ao projeto.
Na semana passada, numa audiência pública na Câmara dos Vereadores,
foi lido um texto do conceituado arquiteto e paisagista Fernando Chacel, discípulo
de Burle Marx, em que ele se refere ao "sentimento de tristeza ao constatar a
falta de consideração e decoro em relação à
paisagem da nossa cidade, onde tudo parece ser permitido desde que gere proventos
para quem quer que seja". Chacel também expressa sua insatisfação
"por não ter sido dada à sociedade a visibilidade necessária
desse megaprojeto, através de informações precisas e confiáveis
de seus impactos negativos sobre o parque". O prefeito Cesar Maia afirma que o
processo sempre foi transparente. "O projeto foi dado a conhecimento público
há oito meses, com ampla divulgação. Há pessoas de
boa vontade que se convencem. Mas há também os que induzem o conflito
e conversam por fora", diz. O
Iphan afirma que o projeto se estende sobre área tombada. "O tombamento
não congela. Obras podem ser feitas, mas dentro de limites que precisam
ser respeitados. Queremos preservar a escala urbanística do parque, não
deixar que ele perca suas características originais", explica o superintendente
Mauro Pazzini. A empresa afirma que todas as intervenções obedecem
aos limites estabelecidos no contrato de concessão da Marina da Glória.
"Além disso, há uma cláusula que exige a revitalização,
que inclui atividades comerciais", diz o arquiteto Roberto Garcia Roza, co-autor
do projeto. O contrato original, de dez anos, expirou neste ano. Mas foi prorrogado
pela prefeitura em razão das obras dos Jogos Pan-Americanos, cujos custos
serão arcados pela concessionária. Agora, o contrato vale por mais
trinta anos e expira em 2036. Entre os pontos de discórdia em relação
ao projeto há duas construções com cerca de 18 metros de
altura o centro de convenções e a garagem para barcos. "Elas
vão tirar a vista do Pão de Açúcar de quem estiver
caminhando pelo parque, ao longo da enseada", afirma a arquiteta Claudia Girão,
do Iphan. "A altura é correspondente à de um prédio de seis
andares." O arquiteto Paulo Casé, que também assina o projeto da
EBTE, contesta. "É uma visão simplista. Como há um desnível
no terreno, a referência muda. As novas construções não
ultrapassam a já existente. Determinamos a altura em função
da paisagem", garante. Eduardo
Paparguerius, da Associação de Moradores da Glória, reclama
que árvores, mesas e banquinhos de granito já foram derrubados na
área de piqueniques. Ele admite que o lugar estava degradado, com o mato
crescendo, brinquedos quebrados, lixo, falta de policiamento. "Mas faz parte da
estratégia", lamenta. "Primeiro, a área é abandonada. Quando
está bem degradada, o poder público aparece com a solução:
entregar para a iniciativa privada. É perverso demais. Vão impedir
as pessoas simples de ter seu lazer para construir um clube de luxo, onde elas
não vão passar nem na porta." José Alfredo, diretor da EBTE,
garante que tem todas as licenças ambientais para a obra e que a marina
é para todos. "Não vamos ter só restaurante classe AA. O
objetivo é colocar também fast-food e restaurante por quilo para
uso de toda a comunidade." Eduardo não está convencido disso. Neste
domingo, ele lidera uma caminhada no Parque do Flamengo, até a marina,
em protesto contra as obras, atiçando o fogo da polêmica. Que parece
longe do fim.
Briga
no cais
Alexandre Sant'Anna
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Técnicos do Iphan afirmam que o projeto de revitalização
da Marina da Glória avança sobre área tombada. A EBTE, empresa
que administra a marina, diz que as intervenções obedecem aos limites
previstos na concessão.
O projeto prevê construções de 18 metros de altura (o equivalente
a um prédio de seis andares). Com esse tamanho, dizem os técnicos
do Iphan, quem caminhar pela Enseada da Glória não verá o
Pão de Açúcar. Os arquitetos da obra garantem que o limite
de altura será o do prédio já existente. |
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