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14 de maio de 2003
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O salão de festa é o palco

Sérgio Britto comemora 80 anos
com peça autobiográfica

Debora Ghivelder


André Valentim/Strana
Sérgio na casa nova, em Santa Teresa: longe dos engarrafamentos
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A memória de Sérgio Britto é prodigiosa. Já inspirou espetáculos como Na Era do Rádio, que lembrava a época de ouro do dial nacional, e o musical Meninos, Eu Vivi, e ainda o livro Fábrica de Ilusão (1996), sobre os cinqüenta anos de carreira do ator. A memória de Sérgio Britto é quase tão prodigiosa quanto sua carreira. O ator completará 80 anos no dia 29 de junho. E já colocou as recordações a serviço das comemorações. Antes da sucessão de festas e jantares prometidos por amigos, Sérgio celebra o aniversário do jeito que mais gosta: no palco. Com os refletores só para si, ele vai dividir com a platéia mais uma cota de histórias autobiográficas, que, em boa parte, se misturam com a própria história do teatro brasileiro. Sérgio 80, monólogo escrito e dirigido por Domingos Oliveira, tem estréia marcada para sábado (17), no intimista Teatro Cândido Mendes.

Sérgio narra episódios como sua rápida passagem profissional pela emergência de hospitais (sim, ele é médico formado); o parto que teve de fazer, no susto; a surdez que o surpreendeu em 1950 e as duas operações de ouvido; a estreita amizade com o ator Sérgio Cardoso; a cena e a vida compartilhadas com Fernanda Montenegro, Natália Thimberg e Ítalo Rossi; a criação do Teatro dos Sete e do Teatro dos Quatro; a televisão; e o Grande Teatro Tupi. "Sou fã de Sérgio Britto por causa do Grande Teatro Tupi. Fui formado por ele", diz Domingos Oliveira. "Eu vinha de uma boa casa burguesa onde não se lia. Foi o Grande Teatro que me jogou na cara os O'Neills e os Williams da vida", completa o autor, que dividiu o espetáculo em blocos: prólogo, primeiros tempos, os diretores, as três coisas que valem a pena fazer na vida (a saber: teatro, sexo e viajar), televisão, Teatro dos Sete, Teatro dos Doze, Teatro dos Quatro, Brecht, meu encontro com Deus, surdez, Sérgio Cardoso e finale. No decorrer da montagem, Sérgio dedica trinta minutos à platéia para que faça perguntas. Para ajudar, ele mesmo elaborou uma lista com mais de sessenta indagações que estará anexada ao programa. Dependendo da escolha, as pessoas vão deixar o teatro sabendo que Sérgio Britto assume o homossexualismo, não acredita em bissexualismo e não teme a morte.


"Sou um homem com certa inteligência, algum talento, mas com uma vocação enorme para o teatro"

A intenção é tornar o espetáculo um encontro íntimo. Chez Britto. Como se o público na verdade estivesse na sala de estar de Sérgio. Inclusive, a casa do ator, desde os tempos em que morava em Vila Isabel, com os pais, sempre foi aberta aos amigos. Ele gosta de receber e de presentear os mais chegados com a apetitosa comida feita por sua fiel escudeira, Francisca. Quatro anos atrás trocou o confortável apartamento no Leblon por uma ampla casa em Santa Teresa. "Fiquei assustada por ele sair de perto da gente. Depois achei a troca mais que perfeita. Ele agora tem mais espaço para os livros, os vídeos. Ele fecha um ciclo", conta a amiga Fernanda Montenegro. O ator justifica a mudança. "Queria qualidade de vida. Não agüentava mais os engarrafamentos do Leblon." A casa é cheia de escadas, mas o octogenário Sérgio não liga. "Só comecei a sentir a idade há dois anos", entrega. Foi mais ou menos nessa época que se diagnosticou uma forte anemia, que o obriga até agora a tomar remédios diariamente e a ter cuidado com os horários e com a alimentação.

Sérgio tem prazer em ficar em casa. Nem sequer caminhou pelo novo bairro. A vantagem de Santa Teresa, destaca ele, é a rapidez com que de lá se vai ao Centro ou à Zona Sul. Fala com um entusiasmo incrível. "A animação de fazer tudo com que está envolvido parecer a melhor coisa do mundo é a grande qualidade de Sérgio", opina Domingos Oliveira. "A vibração dele contagia", reforça Natália Thimberg, outra amiga da vida inteira. A atriz ressalta ainda mais duas virtudes do aniversariante: a generosidade e a sinceridade. "Sérgio nunca teve papas na língua e tem autoridade para falar o que pensa", afirma Ítalo Rossi. A autoridade nasce de uma conta superlativa na carreira: 120 peças, 400 teleteatros, vinte novelas, nove prêmios e – mistério – a alma de um menino.

 

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Serviço

Sérgio 80. Estréia no sábado (17), 21h. Teatro Cândido Mendes (100 lugares). Rua Joana Angélica, 63, Ipanema, 2267-7295. Qui. a sáb., 21h. Dom., 20h. R$ 20,00.

 

 

 

         
     
 
 
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