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CRÔNICA
Casados
X Solteiros
João
Emanuel Carneiro
Casados
e solteiros são raças tão distintas como répteis
e mamíferos. Para começar, vivem em bandos, como os
elefantes na África: solteiros com solteiros, casados com
casados. Solteiros desprezam a vida medíocre e sem sal de
seus amigos casados. Casados dividem-se entre a piedade e o desprezo
por aquela existência vã e desesperada que têm
os solteiros.
É
claro que existem gradações e níveis dentro
das duas categorias. Temos, por exemplo, os solteiros e os casados
que não são tão solteiros nem tão casados
assim. Temos casados e solteiros que, apesar de sua condição
civil, conseguem transitar livremente entre as duas legiões.
Mesmo casados ainda têm tempo para os amigos e peito aberto
para o que a vida lhes trouxer de novo. Ou mesmo solteiros não
descartam a possibilidade de se casar eventualmente, se esse for
o chamado de seu coração. Mas esse tipo está
ficando escasso.
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Cada
vez mais, observa-se a proliferação de solteiros e
casados xiitas. Para essas criaturas, ser casado ou solteiro não
é uma condição, é um ato de fé,
uma missão a ser cumprida nesta encarnação
que Alá garante ser o único caminho do paraíso.
Casados e solteiros são praticamente dois grupos extremistas
islâmicos radicais que vivem em guerra permanente não
declarada entre si. Os casados convivem com outros casais casados,
vão a ceias de réveillon para 100 casais ou fazem
cruzeiros pelo Caribe só para duplas conjugais. O macho e
a fêmea dessa espécie costumam descartar as antigas
amizades, que são rapidamente substituídas por casais
que eles conhecem no trabalho. Afinal, a fêmea não
quer dar intimidade para que nenhuma de suas amigas se aproxime
muito de seu marido e o macho, por sua vez, não quer que
sua mulher fique muito amiguinha de nenhum amigo solteiro dele.
Para os casados xiitas, não é que as amizades, a profissão,
a religião ou mesmo o resto do cosmo fiquem em segundo plano.
Simplesmente não há segundo plano.
Já
o solteiro xiita sustenta a teoria de que está à frente
de seu tempo, rompendo com a tradição moralista burguesa
da tradição, família e propriedade. Entusiasta
maior do one night stand, a esse personagem são atribuídas
as frases "a gente nasce e morre mesmo só", "adoro poder
ficar sozinho em casa no fim de semana sem fazer nada" ou "a maioria
das pessoas se casa porque não consegue conviver consigo
mesma".
O
mais curioso é que geralmente um casado radical já
foi um solteiro xiita. Todos nós tivemos aquela amiga que
dizia que "casamento é coisa do passado", mas quando conseguiu
agarrar um homem desapareceu para sempre nas estepes distantes do
matrimônio.
Pior
ainda é aquela pessoa que era solteira xiita, desapareceu
do mapa depois que se tornou casada fundamentalista, mas quando
seu casamento acabou ressurgiu das cinzas como se nada tivesse acontecido
e passou a ligar todo dia para os amigos que nunca mais havia visto.
Aí é humilhação pública. Esse
tipo reincidente de solteiro xiita adota novamente o discurso inicial
contra essa "caretice" de casamento, costuma dizer que acabou de
passar por isso e agora tem certeza de que nunca mais quer casar.
Um ano e meio depois, já está ele ou ela com um novo
cônjuge, fazendo compras no supermercado e discutindo plano
de saúde.
Tenho
uma amiga solteira xiita que diz que casamento é como ter
uma vaca dentro de casa. Toma-se o leite, mas há que se cuidar
do animal. Mas às vezes até que é bom cuidar
da vaquinha...
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