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14 de maio de 2003
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Casados X Solteiros

João Emanuel Carneiro

Casados e solteiros são raças tão distintas como répteis e mamíferos. Para começar, vivem em bandos, como os elefantes na África: solteiros com solteiros, casados com casados. Solteiros desprezam a vida medíocre e sem sal de seus amigos casados. Casados dividem-se entre a piedade e o desprezo por aquela existência vã e desesperada que têm os solteiros.

É claro que existem gradações e níveis dentro das duas categorias. Temos, por exemplo, os solteiros e os casados que não são tão solteiros nem tão casados assim. Temos casados e solteiros que, apesar de sua condição civil, conseguem transitar livremente entre as duas legiões. Mesmo casados ainda têm tempo para os amigos e peito aberto para o que a vida lhes trouxer de novo. Ou mesmo solteiros não descartam a possibilidade de se casar eventualmente, se esse for o chamado de seu coração. Mas esse tipo está ficando escasso.


Cada vez mais, observa-se a proliferação de solteiros e casados xiitas. Para essas criaturas, ser casado ou solteiro não é uma condição, é um ato de fé, uma missão a ser cumprida nesta encarnação que Alá garante ser o único caminho do paraíso. Casados e solteiros são praticamente dois grupos extremistas islâmicos radicais que vivem em guerra permanente não declarada entre si. Os casados convivem com outros casais casados, vão a ceias de réveillon para 100 casais ou fazem cruzeiros pelo Caribe só para duplas conjugais. O macho e a fêmea dessa espécie costumam descartar as antigas amizades, que são rapidamente substituídas por casais que eles conhecem no trabalho. Afinal, a fêmea não quer dar intimidade para que nenhuma de suas amigas se aproxime muito de seu marido e o macho, por sua vez, não quer que sua mulher fique muito amiguinha de nenhum amigo solteiro dele. Para os casados xiitas, não é que as amizades, a profissão, a religião ou mesmo o resto do cosmo fiquem em segundo plano. Simplesmente não há segundo plano.

Já o solteiro xiita sustenta a teoria de que está à frente de seu tempo, rompendo com a tradição moralista burguesa da tradição, família e propriedade. Entusiasta maior do one night stand, a esse personagem são atribuídas as frases "a gente nasce e morre mesmo só", "adoro poder ficar sozinho em casa no fim de semana sem fazer nada" ou "a maioria das pessoas se casa porque não consegue conviver consigo mesma".

O mais curioso é que geralmente um casado radical já foi um solteiro xiita. Todos nós tivemos aquela amiga que dizia que "casamento é coisa do passado", mas quando conseguiu agarrar um homem desapareceu para sempre nas estepes distantes do matrimônio.

Pior ainda é aquela pessoa que era solteira xiita, desapareceu do mapa depois que se tornou casada fundamentalista, mas quando seu casamento acabou ressurgiu das cinzas como se nada tivesse acontecido e passou a ligar todo dia para os amigos que nunca mais havia visto. Aí é humilhação pública. Esse tipo reincidente de solteiro xiita adota novamente o discurso inicial contra essa "caretice" de casamento, costuma dizer que acabou de passar por isso e agora tem certeza de que nunca mais quer casar. Um ano e meio depois, já está ele ou ela com um novo cônjuge, fazendo compras no supermercado e discutindo plano de saúde.

Tenho uma amiga solteira xiita que diz que casamento é como ter uma vaca dentro de casa. Toma-se o leite, mas há que se cuidar do animal. Mas às vezes até que é bom cuidar da vaquinha...

         
     
 
 
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