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REPORTAGEM DE CAPA
Perda total O
que fazer para evitar a tragédia do trânsito no Rio, que mata
um jovem por dia Fabio Brisolla, Sofia
Cerqueira e Telma Alvarenga Gustavo
Stephan/Agência O Globo
 | | Tragédia
na Lagoa: o pai de uma das cinco vítimas, todas entre 16 e 22 anos, é
consolado no local |
O
telefone tocou às 6 horas da manhã na casa de Gabriel Padilla. Ao
telefone, uma amiga da filha dele, chorando, avisava sobre o acidente. Ao chegar
à Lagoa, a dúvida de Gabriel sobre a gravidade da situação
transformou-se em terrível constatação. Encontrou um carro
destroçado e corpos estirados na calçada. Entre eles, o de sua filha,
Ana Clara Rocha Padilla, de 17 anos. A jovem pegou uma carona ao sair de uma boate
na Lagoa. O carro, com os cinco amigos, em alta velocidade, bateu em uma árvore.
Não houve sobreviventes. O desespero das famílias no canteiro central
da Lagoa, na manhã de domingo, 3 de setembro, chocou os cariocas e expôs
um grave problema: há uma repetição de tragédias envolvendo
jovens no trânsito. O engenheiro Fernando Diniz viveu a mesma situação
em março de 2003. Ao chegar à Avenida das Américas, numa
noite de domingo, deparou com as luzes dos veículos do Corpo de Bombeiros,
o carro destruído e um poste derrubado. Cinco jovens estavam no veículo,
três morreram. Um deles era Fabrício Diniz, de 20 anos, filho de
Fernando. "Você fica trêmulo, anestesiado, é um desespero total",
diz o engenheiro. A dor das famílias envolvidas nessas tragédias
é comovente, mas ainda não foi suficiente para mudar coisa alguma.
Na prática, vêem-se a incapacidade da sociedade de identificar seus
erros e uma tendência a simplificar a discussão. "Estão batendo
na tecla bebida e velocidade. Isso é apenas uma parte do problema", alerta
Cynthia Clark, psicóloga da Uerj e pesquisadora da área de comportamento
no trânsito. O jovem alcoolizado ao volante de um carro após uma
noitada é o capítulo final de uma série de equívocos
e omissões. O
comportamento do infrator Boa
parte dos acidentes envolvendo jovens ocorre nos fins de semana. A incidência
de casos na Lagoa, na Avenida das Américas, na Barra, e na Vieira Souto,
em Ipanema, chega a ser previsível se alguém levar em consideração
que esses são três "corredores" do trânsito na noite carioca.
Além de radares aleatórios, porém, o que se percebe é
uma fiscalização falha. Não há presença ostensiva
da polícia nos arredores das casas noturnas de madrugada. "Como é
impossível colocar radares a cada 50 metros, tem de ter patrulhamento.
Na madrugada, as pistas estão liberadas para o excesso", ressalta Paulo
Cezar Ribeiro, responsável pela Coordenação de Programas
de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da UFRJ. O condutor
do veículo envolvido em acidente, em geral, é homem. Nos Estados
Unidos, estudos identificaram um padrão de características nos acidentes
graves com jovens. O resultado é uma boa referência para os casos
registrados por aqui. Por lá, a madrugada também é um período
crítico. Para reduzir o problema, em alguns estados, os jovens recém-habilitados
são proibidos de dirigir nas noites de sexta, sábado e domingo.
"As autoridades evitam que o motorista fique em situação de risco
quando ele ainda não tem experiência", diz a psicóloga Ligia
Gomes, pesquisadora de comportamento no trânsito. Os jovens reunidos em
grupos são citados como outro problema na volta para casa. "As pesquisas
indicam que o risco de acidentes aumenta quando há mais de um jovem no
carro", comenta Cynthia Clark, da Uerj. A conclusão gerou outra decisão
das autoridades americanas: no primeiro ano, o motorista recém-habilitado
não pode dirigir com outro jovem dentro do carro, além de ser proibido
de trafegar por auto-estradas. Se a solução aplicada nos Estados
Unidos vale para o Brasil é um caso a discutir. Mas a estratégia
principal deveria ser copiada: o investimento em pesquisas. Ausência
de estatísticas O primeiro passo
para uma mudança significativa no índice de acidentes no trânsito
é conhecer mais detalhes sobre esses números. Pode parecer óbvio,
mas a questão é sistematicamente negligenciada. Os países
europeus, os Estados Unidos e o Japão reúnem dezenas de institutos
públicos e privados voltados para a coleta de dados sobre o trânsito
e a elaboração de pesquisas baseadas nessas informações.
No Rio, vale citar um exemplo: o Corpo de Bombeiros dispõe de dados sobre
as mortes causadas pelo trânsito. O número, no entanto, exclui casos
de motoristas ou passageiros que morrem no hospital. As notificações
feitas por bombeiros e hospitais deveriam ser enviadas de imediato a uma unidade
central, mas na prática isso não funciona. Os dados são mandados
com atraso para os órgãos públicos e os relatórios
são repletos de falhas. "Não há um órgão federal
que centralize as estatísticas. Não basta contar número de
acidentes e mortos. É preciso ter informações detalhadas
para gerar pesquisas e desenvolver um projeto eficaz para o trânsito", critica
Marilita Braga, professora do programa de engenharia de transportes da Coppe.
"As decisões não podem ser baseadas em achismos, como sempre acontece",
pondera Cynthia Clark. Ligia Gomes faz coro: "Os dados unificados dão a
dimensão da trágedia social". O mapeamento do trânsito é
essencial, por exemplo, para a elaboração das campanhas de conscientização.
Campanhas educativas
aleatórias O Ministério
dos Transportes tem um programa de redução de acidentes no trânsito
conhecido como Pare. Uma de suas finalidades é promover campanhas educativas.
Quando o proprietário de um veículo paga o IPVA, um pequeno porcentual
é destinado a investimentos em campanhas educativas do trânsito.
O Pare deveria receber uma cota dessa verba, e, como isso não vem ocorrendo,
elas não são realizadas. O Ministério das Cidades inclui
em sua estrutura o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e o Conselho
Nacional de Trânsito (Contran). Por reunir dois órgãos importantes,
o ministério também tem verbas para campanhas de trânsito.
A última foi veiculada no Carnaval de 2006. Para reverter a tragédia
nas ruas é preciso fazer mais. "Investir em campanhas esporádicas
é jogar dinheiro fora. Ninguém se conscientiza da noite para o dia",
afirma Adriana Cury, chairwoman da McCann Erickson. Para a publicitária,
a questão do trânsito exige uma campanha com a participação
de toda a sociedade nos moldes da realizada contra o câncer de mama. "A
campanha educativa é o que faz a diferença. O que vai levar um jovem
a andar numa velocidade mais baixa e não dirigir bêbado é
a educação, que deve começar cedo, para que seja criada uma
cultura de respeito às regras do trânsito", afirma o advogado Márcio
Barandier. A
impunidade dos motoristas
Barandier foi contratado pela família do aposentado Cláudio Moniz,
que morreu em junho de 2005, na Avenida Vieira Souto, após seu Vectra ser
atingido por uma picape em alta velocidade. O carro de Moniz estava estacionado.
O outro motorista, Ioannis Amora Papareskos, 23 anos, chegou a ser preso e indiciado
por homicídio doloso (quando existe a intenção de matar).
A juíza não aceitou a acusação, que acabou sendo reformulada
pelo Ministério Público para homicídio culposo (em que há
negligência e imprudência, mas não o desejo de causar mal a
alguém). O réu tem audiência marcada na Justiça na
próxima quinta-feira (14). A punição dos infratores é
outro fator decisivo no trânsito da cidade. Os acidentes mais graves e o
simples avanço de sinal têm a mesma origem: a falta de punição
ou a possibilidade de negociar a infração cometida. "Se o motorista
souber que 10 metros à frente pode ser preso numa blitz por estar dirigindo
alcoolizado, certamente pensará duas vezes antes de beber", avalia Luciano
Rinaldi, sócio do escritório Siqueira Castro Advogados. A lei americana
é citada como uma boa referência para as infrações
de trânsito brasileiras. "Nos Estados Unidos, o motorista que dirige alcoolizado
é preso na hora e a ocorrência entra para a ficha criminal. Essa
informação pode dificultar a obtenção de emprego ou
o acesso à universidade", diz Rinaldi. Segundo o Código de Trânsito
Brasileiro, o motorista flagrado alcoolizado pode ser obrigado a pagar uma multa,
ter a habilitação suspensa e passar por um curso de reciclagem.
O teste do bafômetro, utilizado em outros países, aqui é opcional.
De acordo com a lei brasileira, ninguém é obrigado a produzir provas
contra si mesmo. Crise
de cidadania As tragédias
envolvendo jovens motoristas estão relacionadas ainda aos maus exemplos
dos adultos. Falar ao celular enquanto se está dirigindo, fazer ultrapassagens
no sinal vermelho, desrespeitar o pedestre e estacionar em local proibido são
algumas infrações constantes. "Saber se comportar no trânsito
é saber se comportar como cidadão, com direitos e deveres. Isso
precisa ser trabalhado, estamos vivendo uma crise de valores", diz Marilita Braga,
da Coppe. A conscientização pode começar em casa e deveria
ser tratada também no colégio. "As escolas públicas não
entram em questões importantes no cotidiano de crianças e adolescentes.
As particulares, por sua vez, estão preocupadas com a performance no vestibular",
critica a advogada Elizabeth Sussekind, ex-secretária nacional de Justiça,
ombudsman da empresa de energia elétrica Ampla. A solução
para o caos no trânsito e a preservação dos jovens não
podem ser apenas uma preocupação dos pais, lembra Elizabeth. A sociedade
precisa assumir o problema. O engenheiro Fernando Diniz, que perdeu o filho no
violento trânsito carioca, defende a idéia de que as punições
passem a ser educativas. "Os motoristas que causam vítimas deveriam passar
um período acompanhando as equipes de socorro do Corpo de Bombeiros. Tenho
certeza de que se sensibilizariam mais vendo o mal que provocaram", ressalta.
Desde a morte do filho, há três anos, Diniz acompanha pelos jornais
notícias de acidentes semelhantes ao de Fabrício e faz questão
de prestar solidariedade. É um passo importante, mas o caminho para diminuir
a violência no trânsito é longo.
Raio X da tragédia
De
janeiro a junho, foram registrados 11 612 acidentes de trânsito no
estado do Rio, com 15 950 vítimas 1 134 pessoas morreram
no local. Nesse
período, a maior parcela dos mortos com idade identificada tinha entre
18 e 29 anos, com 179 casos. Os acidentes de trânsito mataram
um jovem por dia no estado. Copacabana
é o bairro da Zona Sul com o maior número de acidentados no primeiro
semestre (144, com 8 mortes), seguido de Botafogo (127 acidentados
e 5 mortes), Leblon (58 acidentados e 2 mortes) e Lagoa (54
feridos e 2 mortes). A
madrugada, mesmo com um fluxo bem menor de veículos, registra 19%
do total de acidentes. De janeiro a junho, foram 254 ocorrências
fatais na madrugada, 295 pela manhã, 226 à tarde e
180 à noite. Em 2005, dos 145 acidentes na Lagoa, 39
ocorreram de madrugada, o que representa 27% do total.
De 2001 a julho
de 2006, 1 088 motoristas fluminenses tiveram a habilitação
suspensa pela Comissão Cidadã do Detran. Até maio de 2005
(data do último levantamento), só 76 motoristas punidos haviam
entregado a carteira ao Detran. Proporcionalmente
à frota, o Rio tem uma taxa de acidentes de trânsito com vítimas
(941 por 100 000) superior à de São Paulo (820) e
de Minas (744). Fontes:
Detran, Denatran, Corpo de Bombeiros e CET-Rio |
Pai de jovem morto na Barra transforma
sua dor em ação André
Nazareth/Strana  | | Fernando
Diniz: filho morto em acidente e motorista foragido |
Fim de noite, março de 2003. Preocupado com o filho que saíra com
quatro jovens entre 17 e 20 anos, o engenheiro Fernando Diniz ligou para o celular
do jovem. "Desculpe, foi engano", disse ao ouvir uma voz estranha. "Senhor, não
desligue. Sou PM e houve um grave acidente na Avenida das Américas." Fabrício,
20 anos, e duas jovens tiveram morte instantânea. "A sobrevivente contou
que o motorista estava brincando de acelerar." O carro bateu num poste. O motorista,
o uruguaio Marcelo Henrique Negrão Kijak, 20 anos, teve prisão preventiva
decretada e está foragido. "Se os jovens entendessem a imensidão
da dor dos pais, jamais desrespeitariam as leis de trânsito." Fernando transformou
a dor em ação. Dá palestras e conforta outras famílias.
"A falta de campanhas educativas e a impunidade contribuem para que tantos jovens
morram." |
Bruno
Veiga /Strana
 | | O
trânsito na noite do Rio: pistas liberadas para o excesso |
O
Rio tem 30 pardais, em 18 vias, que flagram, em média, 50
000 veículos por mês em excesso de velocidade. Nos fins de semana
e feriados, esse número é maior que nos dias úteis (1 600
x 1 700). O município tem também 42 lombadas eletrônicas,
que registram 152 000 infrações por mês.
A
Linha Amarela é a via com pardais que registra o maior número de
multas nos fins de semana por excesso de velocidade, com a média de 927
flagrantes (27% do total), seguida da Avenida das Américas (366),
LagoaBarra (361), Praia do Flamengo (275), Túnel Rebouças
(252) e Avenida Borges de Medeiros (242).
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Imprudência em alta velocidade
na Vieira Souto Dilmar
Cavalher/Strana  | | César
Moniz viu seu pai esmagado por uma picape: dor e revolta |
No
dia 26 de junho de 2005, às 6h30 da manhã, o aposentado Cláudio
Mazzei Moniz, 77 anos, depois de uma caminhada no calçadão de Ipanema,
lia o jornal em seu Vectra, estacionado na Vieira Souto, quando uma picape, dirigida
por Ioannis Amora Papareskos, 23 anos, subiu o canteiro, derrubou dois coqueiros
e atingiu seu carro em cheio. Cláudio morreu na hora. Ioannis voltava de
uma boate e saiu praticamente ileso. "O que mais nos revoltou foi o descaso. Ele
não foi sequer ver o meu pai", diz o engenheiro César Moniz, 46
anos, um dos quatro filhos do aposentado. Ele foi o primeiro a chegar ao local.
"Tirei meu pai do carro literalmente aos pedaços", lembra. A família
está processando Ioannis nas áreas cível e criminal. "Ele
precisa responder pelo que fez." |
André
Nazareth/Strana
 | | Carros
destruídos: retrato da imprudência nas ruas |
Em
certos estados americanos, o motorista recém-habilitado não pode
dirigir nas noites de sexta a domingo nem andar acompanhado por outro jovem no
carro.
No
Japão, a tolerância é zero para o álcool no sangue
do motorista. Se beber e dirigir, o infrator perde a carteira e é preso.
No Brasil, ninguém é obrigado a fazer o teste do bafômetro.
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Tragédia na volta da festa
André
Nazareth/Strana
 | | Lycio:
duas amigas mortas no acidente |
A
única lembrança que o estudante Lycio Magalhães Diniz, 21
anos, tem do acidente que sofreu numa madrugada de agosto de 2004 é abrir
os olhos por alguns segundos e ver a mãe, desesperada, do lado de fora
do carro. O desastre foi na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, próximo
a sua casa. A mãe foi avisada antes que ele fosse retirado das ferragens.
Lycio voltava de uma festa, de carona, com cinco amigos. O carro foi atingido
por uma van, rodou e bateu em uma árvore. O condutor da van fugiu. "O motorista
do meu carro não tinha bebido, mas tudo muda depois de um acidente assim",
diz. "Hoje, quando vejo alguém saindo alto de uma festa, me sinto na obrigação
de falar." Dos ocupantes do carro em que ele estava, todos entre 18 e 23 anos,
duas meninas morreram. Lycio sofreu dezoito fraturas pelo corpo. Passou seis meses
na cama.
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Voto de confiança no filho
André
Nazareth/Strana
 | | Kadu
com os pais: ele já perdeu cinco amigos em acidentes de carro |
Foi
um dilema. Depois de avaliarem riscos e vantagens, Rosana e Carlos Eduardo Couto
decidiram: nesta semana o filho, Carlos Eduardo, o Kadu, 18 anos, ganhou o sonhado
carro. "A gente fica sem saída. Entre andar de carona e dirigir o próprio
carro, optamos por dar um voto de confiança a ele", diz o pai. "Pesou muito
o fato de ele não beber. De resto, é orientar e rezar", diz a mãe.
Kadu, que recebeu a carteira de motorista nesta semana, já viu de perto
as conseqüências trágicas da imprudência ao volante: perdeu
cinco amigos em acidentes. Quatro morreram num único desastre, indo para
uma festa rave. O outro morreu fazendo rali em uma fazenda. Todos tinham entre
16 e 18 anos. |
Experiência que não
se apaga
André
Nazareth/Strana
 | | Aline:
acidente com três mortos |
A
estudante de direito Aline Silva de Macedo, de 21 anos, não dá ouvidos
às brincadeiras dos amigos diante da sua disciplina. É irredutível:
assim que se senta na cadeira do motorista, segue rigorosamente as normas de trânsito.
"Não importa o tempo, quem viveu uma experiência como a minha não
esquece", diz. Ela é sobrevivente de um grave desastre, na Avenida das
Américas, há três anos. No acidente, um rapaz morreu preso
às ferragens e duas meninas foram cuspidas do carro. Também morreram
na hora. Todos tinham menos de 21 anos. "Ninguém bebeu. Mas o motorista,
que também sobreviveu, parecia querer se exibir e corria muito", lembra.
A estudante teve traumatismo craniano e só despertou no hospital, dois
dias depois.
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