Publicidade
 
 


 
 



13 de setembro de 2006

REPORTAGEM DE CAPA

FESTA
MODA
DEZ MOTIVOS
CIDADE
AS BOAS COMPRAS
VEJA RIO 15 ANOS
BEIRA-MAR
OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

REPORTAGEM DE CAPA

Perda total

O que fazer para evitar a tragédia
do trânsito no Rio, que mata um
jovem por dia

Fabio Brisolla, Sofia Cerqueira e Telma Alvarenga

 
Gustavo Stephan/Agência O Globo
Tragédia na Lagoa: o pai de uma das cinco vítimas, todas entre 16 e 22 anos, é consolado no local

O telefone tocou às 6 horas da manhã na casa de Gabriel Padilla. Ao telefone, uma amiga da filha dele, chorando, avisava sobre o acidente. Ao chegar à Lagoa, a dúvida de Gabriel sobre a gravidade da situação transformou-se em terrível constatação. Encontrou um carro destroçado e corpos estirados na calçada. Entre eles, o de sua filha, Ana Clara Rocha Padilla, de 17 anos. A jovem pegou uma carona ao sair de uma boate na Lagoa. O carro, com os cinco amigos, em alta velocidade, bateu em uma árvore. Não houve sobreviventes. O desespero das famílias no canteiro central da Lagoa, na manhã de domingo, 3 de setembro, chocou os cariocas e expôs um grave problema: há uma repetição de tragédias envolvendo jovens no trânsito. O engenheiro Fernando Diniz viveu a mesma situação em março de 2003. Ao chegar à Avenida das Américas, numa noite de domingo, deparou com as luzes dos veículos do Corpo de Bombeiros, o carro destruído e um poste derrubado. Cinco jovens estavam no veículo, três morreram. Um deles era Fabrício Diniz, de 20 anos, filho de Fernando. "Você fica trêmulo, anestesiado, é um desespero total", diz o engenheiro. A dor das famílias envolvidas nessas tragédias é comovente, mas ainda não foi suficiente para mudar coisa alguma. Na prática, vêem-se a incapacidade da sociedade de identificar seus erros e uma tendência a simplificar a discussão. "Estão batendo na tecla bebida e velocidade. Isso é apenas uma parte do problema", alerta Cynthia Clark, psicóloga da Uerj e pesquisadora da área de comportamento no trânsito. O jovem alcoolizado ao volante de um carro após uma noitada é o capítulo final de uma série de equívocos e omissões.

O comportamento do infrator

Boa parte dos acidentes envolvendo jovens ocorre nos fins de semana. A incidência de casos na Lagoa, na Avenida das Américas, na Barra, e na Vieira Souto, em Ipanema, chega a ser previsível se alguém levar em consideração que esses são três "corredores" do trânsito na noite carioca. Além de radares aleatórios, porém, o que se percebe é uma fiscalização falha. Não há presença ostensiva da polícia nos arredores das casas noturnas de madrugada. "Como é impossível colocar radares a cada 50 metros, tem de ter patrulhamento. Na madrugada, as pistas estão liberadas para o excesso", ressalta Paulo Cezar Ribeiro, responsável pela Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da UFRJ. O condutor do veículo envolvido em acidente, em geral, é homem. Nos Estados Unidos, estudos identificaram um padrão de características nos acidentes graves com jovens. O resultado é uma boa referência para os casos registrados por aqui. Por lá, a madrugada também é um período crítico. Para reduzir o problema, em alguns estados, os jovens recém-habilitados são proibidos de dirigir nas noites de sexta, sábado e domingo. "As autoridades evitam que o motorista fique em situação de risco quando ele ainda não tem experiência", diz a psicóloga Ligia Gomes, pesquisadora de comportamento no trânsito. Os jovens reunidos em grupos são citados como outro problema na volta para casa. "As pesquisas indicam que o risco de acidentes aumenta quando há mais de um jovem no carro", comenta Cynthia Clark, da Uerj. A conclusão gerou outra decisão das autoridades americanas: no primeiro ano, o motorista recém-habilitado não pode dirigir com outro jovem dentro do carro, além de ser proibido de trafegar por auto-estradas. Se a solução aplicada nos Estados Unidos vale para o Brasil é um caso a discutir. Mas a estratégia principal deveria ser copiada: o investimento em pesquisas.

Ausência de estatísticas

O primeiro passo para uma mudança significativa no índice de acidentes no trânsito é conhecer mais detalhes sobre esses números. Pode parecer óbvio, mas a questão é sistematicamente negligenciada. Os países europeus, os Estados Unidos e o Japão reúnem dezenas de institutos públicos e privados voltados para a coleta de dados sobre o trânsito e a elaboração de pesquisas baseadas nessas informações. No Rio, vale citar um exemplo: o Corpo de Bombeiros dispõe de dados sobre as mortes causadas pelo trânsito. O número, no entanto, exclui casos de motoristas ou passageiros que morrem no hospital. As notificações feitas por bombeiros e hospitais deveriam ser enviadas de imediato a uma unidade central, mas na prática isso não funciona. Os dados são mandados com atraso para os órgãos públicos e os relatórios são repletos de falhas. "Não há um órgão federal que centralize as estatísticas. Não basta contar número de acidentes e mortos. É preciso ter informações detalhadas para gerar pesquisas e desenvolver um projeto eficaz para o trânsito", critica Marilita Braga, professora do programa de engenharia de transportes da Coppe. "As decisões não podem ser baseadas em achismos, como sempre acontece", pondera Cynthia Clark. Ligia Gomes faz coro: "Os dados unificados dão a dimensão da trágedia social". O mapeamento do trânsito é essencial, por exemplo, para a elaboração das campanhas de conscientização.

Campanhas educativas aleatórias

O Ministério dos Transportes tem um programa de redução de acidentes no trânsito conhecido como Pare. Uma de suas finalidades é promover campanhas educativas. Quando o proprietário de um veículo paga o IPVA, um pequeno porcentual é destinado a investimentos em campanhas educativas do trânsito. O Pare deveria receber uma cota dessa verba, e, como isso não vem ocorrendo, elas não são realizadas. O Ministério das Cidades inclui em sua estrutura o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e o Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Por reunir dois órgãos importantes, o ministério também tem verbas para campanhas de trânsito. A última foi veiculada no Carnaval de 2006. Para reverter a tragédia nas ruas é preciso fazer mais. "Investir em campanhas esporádicas é jogar dinheiro fora. Ninguém se conscientiza da noite para o dia", afirma Adriana Cury, chairwoman da McCann Erickson. Para a publicitária, a questão do trânsito exige uma campanha com a participação de toda a sociedade nos moldes da realizada contra o câncer de mama. "A campanha educativa é o que faz a diferença. O que vai levar um jovem a andar numa velocidade mais baixa e não dirigir bêbado é a educação, que deve começar cedo, para que seja criada uma cultura de respeito às regras do trânsito", afirma o advogado Márcio Barandier.

A impunidade dos motoristas

Barandier foi contratado pela família do aposentado Cláudio Moniz, que morreu em junho de 2005, na Avenida Vieira Souto, após seu Vectra ser atingido por uma picape em alta velocidade. O carro de Moniz estava estacionado. O outro motorista, Ioannis Amora Papareskos, 23 anos, chegou a ser preso e indiciado por homicídio doloso (quando existe a intenção de matar). A juíza não aceitou a acusação, que acabou sendo reformulada pelo Ministério Público para homicídio culposo (em que há negligência e imprudência, mas não o desejo de causar mal a alguém). O réu tem audiência marcada na Justiça na próxima quinta-feira (14). A punição dos infratores é outro fator decisivo no trânsito da cidade. Os acidentes mais graves e o simples avanço de sinal têm a mesma origem: a falta de punição ou a possibilidade de negociar a infração cometida. "Se o motorista souber que 10 metros à frente pode ser preso numa blitz por estar dirigindo alcoolizado, certamente pensará duas vezes antes de beber", avalia Luciano Rinaldi, sócio do escritório Siqueira Castro Advogados. A lei americana é citada como uma boa referência para as infrações de trânsito brasileiras. "Nos Estados Unidos, o motorista que dirige alcoolizado é preso na hora e a ocorrência entra para a ficha criminal. Essa informação pode dificultar a obtenção de emprego ou o acesso à universidade", diz Rinaldi. Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, o motorista flagrado alcoolizado pode ser obrigado a pagar uma multa, ter a habilitação suspensa e passar por um curso de reciclagem. O teste do bafômetro, utilizado em outros países, aqui é opcional. De acordo com a lei brasileira, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo.

Crise de cidadania

As tragédias envolvendo jovens motoristas estão relacionadas ainda aos maus exemplos dos adultos. Falar ao celular enquanto se está dirigindo, fazer ultrapassagens no sinal vermelho, desrespeitar o pedestre e estacionar em local proibido são algumas infrações constantes. "Saber se comportar no trânsito é saber se comportar como cidadão, com direitos e deveres. Isso precisa ser trabalhado, estamos vivendo uma crise de valores", diz Marilita Braga, da Coppe. A conscientização pode começar em casa e deveria ser tratada também no colégio. "As escolas públicas não entram em questões importantes no cotidiano de crianças e adolescentes. As particulares, por sua vez, estão preocupadas com a performance no vestibular", critica a advogada Elizabeth Sussekind, ex-secretária nacional de Justiça, ombudsman da empresa de energia elétrica Ampla. A solução para o caos no trânsito e a preservação dos jovens não podem ser apenas uma preocupação dos pais, lembra Elizabeth. A sociedade precisa assumir o problema. O engenheiro Fernando Diniz, que perdeu o filho no violento trânsito carioca, defende a idéia de que as punições passem a ser educativas. "Os motoristas que causam vítimas deveriam passar um período acompanhando as equipes de socorro do Corpo de Bombeiros. Tenho certeza de que se sensibilizariam mais vendo o mal que provocaram", ressalta. Desde a morte do filho, há três anos, Diniz acompanha pelos jornais notícias de acidentes semelhantes ao de Fabrício e faz questão de prestar solidariedade. É um passo importante, mas o caminho para diminuir a violência no trânsito é longo.

 

Raio X da tragédia

De janeiro a junho, foram registrados 11 612 acidentes de trânsito no estado do Rio, com 15 950 vítimas – 1 134 pessoas morreram no local.

Nesse período, a maior parcela dos mortos com idade identificada tinha entre 18 e 29 anos, com 179 casos. Os acidentes de trânsito mataram um jovem por dia no estado.

Copacabana é o bairro da Zona Sul com o maior número de acidentados no primeiro semestre (144, com 8 mortes), seguido de Botafogo (127 acidentados e 5 mortes), Leblon (58 acidentados e 2 mortes) e Lagoa (54 feridos e 2 mortes).

A madrugada, mesmo com um fluxo bem menor de veículos, registra 19% do total de acidentes. De janeiro a junho, foram 254 ocorrências fatais na madrugada, 295 pela manhã, 226 à tarde e 180 à noite. Em 2005, dos 145 acidentes na Lagoa, 39 ocorreram de madrugada, o que representa 27% do total.

De 2001 a julho de 2006, 1 088 motoristas fluminenses tiveram a habilitação suspensa pela Comissão Cidadã do Detran. Até maio de 2005 (data do último levantamento), só 76 motoristas punidos haviam entregado a carteira ao Detran.

Proporcionalmente à frota, o Rio tem uma taxa de acidentes de trânsito com vítimas (941 por 100 000) superior à de São Paulo (820) e de Minas (744).

Fontes: Detran, Denatran, Corpo de Bombeiros e CET-Rio



Pai de jovem morto na Barra transforma sua dor em ação

 

André Nazareth/Strana

Fernando Diniz: filho morto em acidente e motorista foragido

Fim de noite, março de 2003. Preocupado com o filho que saíra com quatro jovens entre 17 e 20 anos, o engenheiro Fernando Diniz ligou para o celular do jovem. "Desculpe, foi engano", disse ao ouvir uma voz estranha. "Senhor, não desligue. Sou PM e houve um grave acidente na Avenida das Américas." Fabrício, 20 anos, e duas jovens tiveram morte instantânea. "A sobrevivente contou que o motorista estava brincando de acelerar." O carro bateu num poste. O motorista, o uruguaio Marcelo Henrique Negrão Kijak, 20 anos, teve prisão preventiva decretada e está foragido. "Se os jovens entendessem a imensidão da dor dos pais, jamais desrespeitariam as leis de trânsito." Fernando transformou a dor em ação. Dá palestras e conforta outras famílias. "A falta de campanhas educativas e a impunidade contribuem para que tantos jovens morram."



Bruno Veiga /Strana
O trânsito na noite do Rio: pistas liberadas para o excesso

O Rio tem 30 pardais, em 18 vias, que flagram, em média, 50 000 veículos por mês em excesso de velocidade. Nos fins de semana e feriados, esse número é maior que nos dias úteis (1 600 x 1 700). O município tem também 42 lombadas eletrônicas, que registram 152 000 infrações por mês.

A Linha Amarela é a via com pardais que registra o maior número de multas nos fins de semana por excesso de velocidade, com a média de 927 flagrantes (27% do total), seguida da Avenida das Américas (366), Lagoa–Barra (361), Praia do Flamengo (275), Túnel Rebouças (252) e Avenida Borges de Medeiros (242).



Imprudência em alta velocidade na Vieira Souto

 

Dilmar Cavalher/Strana

César Moniz viu seu pai esmagado por uma picape: dor e revolta

No dia 26 de junho de 2005, às 6h30 da manhã, o aposentado Cláudio Mazzei Moniz, 77 anos, depois de uma caminhada no calçadão de Ipanema, lia o jornal em seu Vectra, estacionado na Vieira Souto, quando uma picape, dirigida por Ioannis Amora Papareskos, 23 anos, subiu o canteiro, derrubou dois coqueiros e atingiu seu carro em cheio. Cláudio morreu na hora. Ioannis voltava de uma boate e saiu praticamente ileso. "O que mais nos revoltou foi o descaso. Ele não foi sequer ver o meu pai", diz o engenheiro César Moniz, 46 anos, um dos quatro filhos do aposentado. Ele foi o primeiro a chegar ao local. "Tirei meu pai do carro literalmente aos pedaços", lembra. A família está processando Ioannis nas áreas cível e criminal. "Ele precisa responder pelo que fez."



André Nazareth/Strana

Carros destruídos: retrato da imprudência nas ruas

Em certos estados americanos, o motorista recém-habilitado não pode dirigir nas noites de sexta a domingo nem andar acompanhado por outro jovem no carro.

No Japão, a tolerância é zero para o álcool no sangue do motorista. Se beber e dirigir, o infrator perde a carteira e é preso. No Brasil, ninguém é obrigado a fazer o teste do bafômetro.



Tragédia na volta da festa

André Nazareth/Strana
Lycio: duas amigas mortas no acidente


A única lembrança que o estudante Lycio Magalhães Diniz, 21 anos, tem do acidente que sofreu numa madrugada de agosto de 2004 é abrir os olhos por alguns segundos e ver a mãe, desesperada, do lado de fora do carro. O desastre foi na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, próximo a sua casa. A mãe foi avisada antes que ele fosse retirado das ferragens. Lycio voltava de uma festa, de carona, com cinco amigos. O carro foi atingido por uma van, rodou e bateu em uma árvore. O condutor da van fugiu. "O motorista do meu carro não tinha bebido, mas tudo muda depois de um acidente assim", diz. "Hoje, quando vejo alguém saindo alto de uma festa, me sinto na obrigação de falar." Dos ocupantes do carro em que ele estava, todos entre 18 e 23 anos, duas meninas morreram. Lycio sofreu dezoito fraturas pelo corpo. Passou seis meses na cama.



Voto de confiança no filho

 

André Nazareth/Strana

Kadu com os pais: ele já perdeu cinco amigos em acidentes de carro

Foi um dilema. Depois de avaliarem riscos e vantagens, Rosana e Carlos Eduardo Couto decidiram: nesta semana o filho, Carlos Eduardo, o Kadu, 18 anos, ganhou o sonhado carro. "A gente fica sem saída. Entre andar de carona e dirigir o próprio carro, optamos por dar um voto de confiança a ele", diz o pai. "Pesou muito o fato de ele não beber. De resto, é orientar e rezar", diz a mãe. Kadu, que recebeu a carteira de motorista nesta semana, já viu de perto as conseqüências trágicas da imprudência ao volante: perdeu cinco amigos em acidentes. Quatro morreram num único desastre, indo para uma festa rave. O outro morreu fazendo rali em uma fazenda. Todos tinham entre 16 e 18 anos.



Experiência que não se apaga

André Nazareth/Strana
Aline: acidente com três mortos


A estudante de direito Aline Silva de Macedo, de 21 anos, não dá ouvidos às brincadeiras dos amigos diante da sua disciplina. É irredutível: assim que se senta na cadeira do motorista, segue rigorosamente as normas de trânsito. "Não importa o tempo, quem viveu uma experiência como a minha não esquece", diz. Ela é sobrevivente de um grave desastre, na Avenida das Américas, há três anos. No acidente, um rapaz morreu preso às ferragens e duas meninas foram cuspidas do carro. Também morreram na hora. Todos tinham menos de 21 anos. "Ninguém bebeu. Mas o motorista, que também sobreviveu, parecia querer se exibir e corria muito", lembra. A estudante teve traumatismo craniano e só despertou no hospital, dois dias depois.

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados