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REPORTAGEM DE CAPA
Uma turma cheia de graça Com
pouco dinheiro, humor ágil e forte divulgação boca a boca, peças cativam o público
carioca Débora
Ghivelder e Isabel Butcher
Fotos
Guilherme Paranhos/Divulgação
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 | Mônica
Martelli: sucesso como Fernanda,
uma mulher à procura
do homem para casar |
Homens
São de Marte... E É pra Lá que Eu Vou
Quem é?
Mônica Martelli (autora e atriz).
Quando
estreou? Em abril, no Candido Mendes, e fica lá até 28 de agosto.
A partir de 1º de setembro, emenda temporada no Teatro Vannucci.
Quantos já
viram? 13 340 pessoas.
Custo
inicial da produção: 18 000 reais, recolhidos com os parentes.
| Trecho
Passei
o resto da noite tentando analisar com a Nathalie o recado. "Oi, tudo bom?", ele
está sendo simpático. "É Juarez", é um cara que se
identifica, ele existe. "Tentei seu celular", é um cara que corre atrás,
mostrou interesse em me encontrar, está a fim. "Bom, um beijo", mostrou
intimidade, mandou beijo, podia ter mandado um abraço, agora esse final
ficou um pouco no ar. "A gente se vê", ele não concluiu nada. O que
um homem realmente quer dizer quando fala para uma mulher "a gente se vê"?
| Dilmar
Cavalher/Strana
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A
atriz Mônica Martelli (ao lado) quase desistiu da carreira há
cinco anos. A gota d'água foi uma participação no programa
Videokê, da apresentadora Angélica, em 2000. A atriz, que
já tinha no currículo peças e pequenos papéis na TV,
viu-se em um estúdio, metida em uma desconfortável fantasia
de tartaruga. Sem poder se mexer direito e com dificuldade até para respirar,
ela acabou entalada num carro do Projac, a central de produções
da Globo. Ali, Mônica cogitou que o melhor a fazer seria pôr em uso
o diploma de jornalista. Felizmente, a epopéia não abortou a carreira
da atriz e, ironia do destino, até rendeu um dos quadros mais famosos da
peça Cócegas, megassucesso da dupla Heloísa Périssé
e Ingrid Guimarães. Hoje, a história provoca risos. E fama. Mônica
é autora e atriz do monólogo Homens São de Marte... E
É pra Lá que Eu Vou, que estreou em abril, no Teatro Candido
Mendes de Ipanema, e virou febre. A produção, de 18.000 reais, bancada
por parentes, já foi vista por mais de 13.000 pessoas. As peripécias
de Fernanda em busca do homem ideal agradaram tanto que Mônica já
esticou a temporada por duas vezes, inseriu sessões extras e se prepara
para mudar, em setembro, para o Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea.
"Eu não esperava que fosse acontecer assim, de maneira tão integral",
diz. Ela não está sozinha no assombro nem no sucesso. Os palcos
cariocas apresentam uma nova safra de humoristas que caíram nas graças
do público e ganham prêmios e espaço na TV. O quarteto do
espetáculo Z.É. Zenas Emprovisadas encontrou na improvisação
a fórmula para levar mais de 20.000 pessoas aos teatros desde 2003, quando
estreou no acanhado Café Cultural, no Humaitá, de apenas cinqüenta
lugares. Hoje provoca alvoroço no Shopping da Gávea e filas enormes
no Teatro dos Quatro, de 402 lugares. Surto, que depois de rodar por vários
palcos da cidade está em cartaz também no Teatro dos Quatro, já
bateu a marca dos 100.000 espectadores em quase dois anos. Fenômeno parecido
um festival de sessões extras, temporadas prorrogadas e migração
para palcos maiores vivem os espetáculos TV Temas, Nós
na Fita e Sátira in Concert. Todos eles têm muito em comum:
produções baratas, o boca-a-boca como arma publicitária e
gosto por um humor inteligente e carioca.
Mônica
Martelli levou três anos para amadurecer as histórias engraçadíssimas
de Fernanda, uma mulher que se mete numa sucessão de roubadas enquanto
persegue o príncipe encantado. A platéia, maciçamente feminina,
se identifica com as situações, na maioria extraídas do dia-a-dia
da própria autora. "Apesar de ser uma comédia, eu me identifiquei
com a personagem e me emocionei. Já vi duas vezes", diz a atriz e humorista
Ingrid Guimarães. "Não é só mulher que gosta. Todo
mundo sai satisfeito", opina. Esse "todo mundo" inclui o produtor de cinema Luís
Carlos Barreto, que está tentado a levar a história para as telas.
"É um dos textos de humor mais brilhantes que já vi. Fui totalmente
dominado pelo espetáculo", afirma ele. Independentemente disso, Mônica,
um mulherão de 1,80 metro, já garantiu sua estréia nos cinemas.
Ela é a protagonista de Só por Hoje, que o diretor Roberto
Santucci (Bellini e a Esfinge) está filmando. O cineasta
conheceu-a na peça, que rendeu a Mônica também uma indicação
ao Prêmio Shell de melhor atriz. Divulgação
 | | Os
meninos do TV Temas: espetáculo
multimídia faz muita
gente lembrar a infância |
Dilmar Cavalher/Strana
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TV
Temas Quem
são? Maurício Rizzo (autor, ator e cantor), Fabiano Krieger
(guitarra e voz), Felipe Rizzo (autor e ator), Jorge Bezerra (baixo), Liô
Mariz (bateria), Marcelo Rezende (guitarra e voz).
Quando estreou?
Em junho de 2002 no Espírito das Artes, na Cobal do Humaitá, e está
no Teatro dos Quatro desde 6 de julho. É a quinta temporada.
Quantos já
viram? 5 000 pessoas.
Custo
inicial da produção: 60 reais, rateados entre os integrantes
para pagar o estúdio | Trecho
Horário
Eleitoral Gratuito.
Primeiro
candidato: Vamos
acabar com a pouca-vergonha que impera neste país. Por um Brasil mais justo
vote Jair sete dedos 171171
Quarto
candidato: Sou Virgílio Manfredi, líder comunitário,
ex-jogador de futebol, ativista político e dou aula de balé clássico.
Décimo
candidato: Você já teve a sensação de ter vivido
uma mesma situação mais de uma vez? Isso é o déjà
vu. Vote em Alberto Alberto número 181818 contra o mal do déjà
vu. | Os
meninos do Z.É. Zenas Emprovisadas já levaram sua
estatueta para casa, no ano passado, como prêmio especial pelo "projeto
inovador e pela qualidade da proposta de trabalho". Foi um prêmio justo,
que coroa uma trajetória impressionante do quarteto de amigos que se conheceram
no curso de interpretação do Teatro Tablado. Fernando Caruso, Gregório
Duvivier, Rafael Queiroga e Marcelo Adnet estão na sétima temporada,
com duas sessões às vezes três às terças,
dia de retração nos palcos. Ressalte-se: tudo isso sem nenhum tostão
de patrocínio. "A peça se paga com a bilheteria. À medida
que ganhávamos grana, comprávamos um objeto ou figurino para o espetáculo",
diz Caruso, filho do cartunista Chico. A platéia, apinhada de adolescentes,
jovens e alguns adultos curiosos, se contorce de tanto rir com a aula de improviso.
Bem ao estilo de seu público-alvo, 1 382 internautas se reúnem na
comunidade do Orkut dedicada à peça. Um número para lá
de expressivo. "É difícil comparar com outros grupos ou espetáculos.
Mas em termos de vivacidade eles são parecidos com o Asdrúbal Trouxe
o Trombone", analisa o diretor, professor e incentivador Bernardo Jablonski, citando
o antológico grupo teatral carioca dos anos 70 que mexeu com a cena do
humor brasileiro. A montagem é simples, bem de acordo com o nome. A cada
semana os rapazes convidam um ator e um professor e propõem jogos típicos
de uma aula de teatro. A platéia entra em ação com frases
e situações que serão vividas pelos atores no palco. E tudo
isso por módicos 10 reais. Isso se o sujeito não conseguir uma filipeta,
que lhe garante um desconto de 50%. Nesse
mesmo esquema de preço camarada, o grupo Na Rede pelo Lado de Fora estreou
há três anos o espetáculo multimídia TV Temas,
em cartaz às quartas no Teatro dos Quatro, também a 10 reais. O
sexteto teve início ainda na Faculdade de Música da Uni-Rio e aos
poucos ganhou a formação atual. Os irmãos Maurício
e Felipe Rizzo, mais Fabiano Krieger, Jorge Bezerra, Liô Mariz e Marcelo
Rezende, misturam música, jingles, temas de desenhos animados e canções
de programas e novelas com vídeos e esquetes para formar uma platéia
cativa. No site da galera, a filipeta que dá direito a desconto de 50%
no ingresso é o lugar mais acessado e volta e meia dá pane. "Em
junho visitaram a página mais de 1.000 pessoas, e muitas não conseguiram
imprimir o cupom de desconto", diz Maurício, que já faturou emprego
graças ao espetáculo. O roteirista Bruno Mazzeo gostou tanto do
que viu que chamou Maurício para escrever esquetes para uma peça
e para trabalhar na equipe de roteiristas de A Diarista. "Vi TV Temas
três vezes e fiz uma participação. Gosto muito das brincadeiras
que eles fazem com desenhos como He-Man e do esquete do Daniel Azulay.
Lembram a minha infância", explica Mazzeo. Fotos
Guilherme Paranhos
 | /Divulgação
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Surto
Quem
são? Os Surtados (Wendell Bendelack, Flávia Guedes, Rodrigo
Fagundes, Taís Lopes, Samantha Schumutz e Edmilson Barros, todos autores
e atores). Quando
estreou? Em 12 de setembro de 2003, no Centro Cultural Correia Lima, no Catete,
e está no Teatro dos Quatro desde 7 de abril, até 28 de agosto.
É a oitava temporada.
Quantos
já viram? 100 000 pessoas. Custo
inicial da produção: 1 000 reais de "tiotrocínio".
| Trecho
Valcirene
Rosuel,
é Valcirene. Tem um recado do doutor Fábio pra você. Ele mandou
dizer pra você que você só tem três minutos de vida.
Bom, o que o doutor pode fazer por você? Bom, com esse tempo, só
um miojo. Jezebel
O
ator tem de ter um estado. Um estado. Então abre o mapa. Nada de Rondônia,
Piauí ou Santa Catarina. É Rio ou São Paulo, esse é
o eixo. |  | | No
início, a turma do Surto
sofria para atrair convidados
ao palco: hoje, há
fila de espera |
Participações
especiais recheiam os espetáculos da rapaziada do Surto, aos domingos
no Teatro dos Quatro. Quando a peça estreou, em setembro de 2003, no para
lá de alternativo Centro Cultural Correia Lima, no Catete, era preciso
insistir muito para que os atores aceitassem o convite. Wendell Bendelack, Flávia
Guedes, Rodrigo Fagundes e Taís Lopes, oriundos respectivamente de Belém,
Brasília, Juiz de Fora e Magé, se conheceram na Casa de Artes de
Laranjeiras, a CAL, em 1998. Cansados de não ver a carreira engrenar, decidiram
investir num espetáculo próprio. Conseguiram módicos 1.000
reais graças ao que chamam de "tiotrocínio", ou seja, a popular
vaquinha entre os parentes. Do Correia Lima, Surto partiu para uma incansável
jornada que inclui apresentações em pubs de Niterói e teatros
como o Glória, Ipanema, Casa da Gávea, Laura Alvim. Foi estourar
para valer quando chegou ao Candido Mendes, em 2005, já com Samantha Schumutz
e Edmilson Barros integrados ao elenco. A casa, aliás, tem fama de ser
celeiro desse tipo de espetáculo de humor, desde os tempos do besteirol,
nos anos 80. Antes de Surto, o Candido Mendes deu sorte às meninas
de Cócegas, espetáculo que, na opinião de muitos,
é o pioneiro dessa nova onda de humor carioca. "Este momento bacana teve
início com Cócegas", afirma Lúcio Mauro Filho, padrinho
de Surto. Lúcio é fã assumido dos tipos hilariantes
da peça, como a atriz frustrada Jezebel, que vive de workshops, interpretada
por Wendell; Juninho, o playboy marrento defendido por Samantha; Valcirene, a
proprietária de um serviço de Disque-Desgraça (ela só
dá notícia ruim); ou Patrick Pax, um crente meio efeminado vivido
por Rodrigo. Não é o único. O ator Lázaro Ramos já
esteve na platéia quatro vezes. O personagem Patrick Pax ganhou quadro
no Zorra Total, Wendell e Rodrigo também foram pinçados para
a TV atuaram em Sexo Frágil. Flávia aparece na telinha
como a Berenice, de América, a empregada da personagem de Christiane
Torloni. Wendell e Rodrigo também filmaram A Máquina, de
João Falcão, previsto para estrear em outubro. Surto, que
lota o Teatro dos Quatro, dá lucro. Wendell não deixou ainda de
ser advogado, mas garante que o grupo está feliz com o cachê, fruto
exclusivo da renda da bilheteria. "Posso dizer que dá para viver do que
recebemos", comemora. Lembra daqueles convidados difíceis para as participações?
Pois é, hoje tem gente que liga para se convidar. Os dias de tartaruga
gigante terminaram para todos eles.
Rede
Globo/Divulgação
 | Dilmar
Cavalher/Strana
 | "A
Mônica Martelli é excelente. A facilidade com que ela se comunica
com a platéia foi o que mais me impressionou. Ela não se apressa,
tem um tempo ótimo de comédia." JACQUELINE
LAURENCE, atriz e diretora | "Gostei
muito do Z.É. Um levanta a bola para o outro e dá muito certo.
É entretenimento da melhor qualidade e cumpre bem a função
de levar o público adolescente ao teatro."
SÉRGIO
MARONE, ator | Cláudia
Martins/Strana
 | Selmy
Yassuda
 | "Fui
ver TV Temas sem a menor idéia do que era e gostei bastante. É
despretensioso e faz referência a uma porção de coisas da
minha infância. Curti muito. Eles fazem tudo muito bem."
MEL
LISBOA, atriz | "A
Mônica é muito firme. Pode até errar, mas ninguém nota
porque ela tem certeza do que diz. É carismática, bonita e decora
facilmente os textos. Se Cócegas não foi o pontapé
inicial desses espetáculos, foi o mais importante."
CHICO
ANYSIO, humorista | Ricardo
Fasanello/Strana
 | "Vi
a estréia de Surto ainda em Botafogo e voltei três vezes.
Acho superlegal a vitória dessa turma que resolveu fazer teatro apenas
com o essencial, a cara e a coragem. É a união de bons atores com
um bom texto." LÁZARO
RAMOS, ator |
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Dois
espetáculos na fita Fotos
Divulgação
 | | Os
músicos clássicos e o ator e dublador Sergio Stern: Sátira
in Concert |
 | | Hassum
e Melhem: Nós na Fita |
Nós
na Fita e Sátira in Concert são outros espetáculos
que apresentam humor de qualidade. Em cartaz há um ano e meio, Nós
na Fita, da dupla Marcius Melhem e Leandro Hassum, também começou
acanhado, no Teatro do Jockey. Leandro e Marcius desembolsaram 600 reais para
levantar a produção. "O dinheiro foi para alugar os smokings e fazer
as fotos de divulgação", diz Leandro. Depois, peregrinaram por vários
teatros da cidade, percorreram algumas capitais do país e voltaram ao Rio,
em 2005, para o Teatro Miguel Falabella, onde ficam em cartaz até o fim
de agosto. A perspectiva é encarar o Teatro das Artes e seus 500 lugares
a partir de setembro. A julgar pela trajetória, com casa lotada, sessão
e cadeiras extras (são mais de 2 000 pessoas por fim de semana), não
há o que temer. O que diferencia Nós na Fita, com seu formato
de stand-up comedy, é o fato de a dupla já ser conhecida
do público pelo televisivo Zorra Total. Sátira in Concert,
com os músicos Her Agapito (violino e voz), Luciano Corrêa (violoncelo
e voz), Márcio Sanchez (violino e voz) e o ator Sergio Stern, ainda está
em fase de incubação, mas promete seguir carreira semelhante às
outras. Em cartaz desde 2003, em sua quinta temporada, hoje eles se apresentam
no Espaço Café Cultural Petrobras, com temporada prorrogada por
quatro vezes. O elenco usa obras clássicas, instrumentos eruditos e interpretação
para contar histórias cheias de humor. "As pessoas acham que o mundo da
música erudita é sisudo, mas sempre fomos bem-humorados", diz Márcio
Sanchez, instrumentista da orquestra Petrobras Sinfônica, com Her Agapito,
e do Theatro Municipal. | |