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13 de julho de 2005

REPORTAGEM DE CAPA
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CRÔNICA
  

REPORTAGEM DE CAPA

Uma turma cheia de graça

Com pouco dinheiro, humor ágil e forte divulgação boca a boca, peças cativam o público carioca

Débora Ghivelder e Isabel Butcher

 
Fotos Guilherme Paranhos/Divulgação

Mônica Martelli: sucesso como Fernanda, uma mulher à procura do homem para casar

Homens São de Marte... E É pra Lá que Eu Vou

Quem é? Mônica Martelli (autora e atriz).

Quando estreou? Em abril, no Candido Mendes, e fica lá até 28 de agosto. A partir de 1º de setembro, emenda temporada no Teatro Vannucci.

Quantos já viram? 13 340 pessoas.

Custo inicial da produção: 18 000 reais, recolhidos com os parentes.

Trecho

Passei o resto da noite tentando analisar com a Nathalie o recado. "Oi, tudo bom?", ele está sendo simpático. "É Juarez", é um cara que se identifica, ele existe. "Tentei seu celular", é um cara que corre atrás, mostrou interesse em me encontrar, está a fim. "Bom, um beijo", mostrou intimidade, mandou beijo, podia ter mandado um abraço, agora esse final ficou um pouco no ar. "A gente se vê", ele não concluiu nada. O que um homem realmente quer dizer quando fala para uma mulher "a gente se vê"?

Dilmar Cavalher/Strana


A atriz Mônica Martelli (ao lado) quase desistiu da carreira há cinco anos. A gota d'água foi uma participação no programa Videokê, da apresentadora Angélica, em 2000. A atriz, que já tinha no currículo peças e pequenos papéis na TV, viu-se em um estúdio, metida em uma desconfortável fantasia de tartaruga. Sem poder se mexer direito e com dificuldade até para respirar, ela acabou entalada num carro do Projac, a central de produções da Globo. Ali, Mônica cogitou que o melhor a fazer seria pôr em uso o diploma de jornalista. Felizmente, a epopéia não abortou a carreira da atriz e, ironia do destino, até rendeu um dos quadros mais famosos da peça Cócegas, megassucesso da dupla Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães. Hoje, a história provoca risos. E fama. Mônica é autora e atriz do monólogo Homens São de Marte... E É pra Lá que Eu Vou, que estreou em abril, no Teatro Candido Mendes de Ipanema, e virou febre. A produção, de 18.000 reais, bancada por parentes, já foi vista por mais de 13.000 pessoas. As peripécias de Fernanda em busca do homem ideal agradaram tanto que Mônica já esticou a temporada por duas vezes, inseriu sessões extras e se prepara para mudar, em setembro, para o Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea. "Eu não esperava que fosse acontecer assim, de maneira tão integral", diz. Ela não está sozinha no assombro nem no sucesso. Os palcos cariocas apresentam uma nova safra de humoristas que caíram nas graças do público e ganham prêmios e espaço na TV. O quarteto do espetáculo Z.É. – Zenas Emprovisadas encontrou na improvisação a fórmula para levar mais de 20.000 pessoas aos teatros desde 2003, quando estreou no acanhado Café Cultural, no Humaitá, de apenas cinqüenta lugares. Hoje provoca alvoroço no Shopping da Gávea e filas enormes no Teatro dos Quatro, de 402 lugares. Surto, que depois de rodar por vários palcos da cidade está em cartaz também no Teatro dos Quatro, já bateu a marca dos 100.000 espectadores em quase dois anos. Fenômeno parecido – um festival de sessões extras, temporadas prorrogadas e migração para palcos maiores – vivem os espetáculos TV Temas, Nós na Fita e Sátira in Concert. Todos eles têm muito em comum: produções baratas, o boca-a-boca como arma publicitária e gosto por um humor inteligente e carioca.

Mônica Martelli levou três anos para amadurecer as histórias engraçadíssimas de Fernanda, uma mulher que se mete numa sucessão de roubadas enquanto persegue o príncipe encantado. A platéia, maciçamente feminina, se identifica com as situações, na maioria extraídas do dia-a-dia da própria autora. "Apesar de ser uma comédia, eu me identifiquei com a personagem e me emocionei. Já vi duas vezes", diz a atriz e humorista Ingrid Guimarães. "Não é só mulher que gosta. Todo mundo sai satisfeito", opina. Esse "todo mundo" inclui o produtor de cinema Luís Carlos Barreto, que está tentado a levar a história para as telas. "É um dos textos de humor mais brilhantes que já vi. Fui totalmente dominado pelo espetáculo", afirma ele. Independentemente disso, Mônica, um mulherão de 1,80 metro, já garantiu sua estréia nos cinemas. Ela é a protagonista de Só por Hoje, que o diretor Roberto Santucci (Bellini e a Esfinge) está filmando. O cineasta conheceu-a na peça, que rendeu a Mônica também uma indicação ao Prêmio Shell de melhor atriz.

 
Divulgação
Os meninos do TV Temas: espetáculo multimídia faz muita gente lembrar a infância

Dilmar Cavalher/Strana

TV Temas

Quem são? Maurício Rizzo (autor, ator e cantor), Fabiano Krieger (guitarra e voz), Felipe Rizzo (autor e ator), Jorge Bezerra (baixo), Liô Mariz (bateria), Marcelo Rezende (guitarra e voz).

Quando estreou? Em junho de 2002 no Espírito das Artes, na Cobal do Humaitá, e está no Teatro dos Quatro desde 6 de julho. É a quinta temporada.

Quantos já viram? 5 000 pessoas.

Custo inicial da produção: 60 reais, rateados entre os integrantes para pagar o estúdio

Trecho

Horário Eleitoral Gratuito.

Primeiro candidato: Vamos acabar com a pouca-vergonha que impera neste país. Por um Brasil mais justo vote Jair sete dedos 171171

Quarto candidato: Sou Virgílio Manfredi, líder comunitário, ex-jogador de futebol, ativista político e dou aula de balé clássico.

Décimo candidato: Você já teve a sensação de ter vivido uma mesma situação mais de uma vez? Isso é o déjà vu. Vote em Alberto Alberto número 181818 contra o mal do déjà vu.

Os meninos do Z.É. – Zenas Emprovisadas já levaram sua estatueta para casa, no ano passado, como prêmio especial pelo "projeto inovador e pela qualidade da proposta de trabalho". Foi um prêmio justo, que coroa uma trajetória impressionante do quarteto de amigos que se conheceram no curso de interpretação do Teatro Tablado. Fernando Caruso, Gregório Duvivier, Rafael Queiroga e Marcelo Adnet estão na sétima temporada, com duas sessões – às vezes três – às terças, dia de retração nos palcos. Ressalte-se: tudo isso sem nenhum tostão de patrocínio. "A peça se paga com a bilheteria. À medida que ganhávamos grana, comprávamos um objeto ou figurino para o espetáculo", diz Caruso, filho do cartunista Chico. A platéia, apinhada de adolescentes, jovens e alguns adultos curiosos, se contorce de tanto rir com a aula de improviso. Bem ao estilo de seu público-alvo, 1 382 internautas se reúnem na comunidade do Orkut dedicada à peça. Um número para lá de expressivo. "É difícil comparar com outros grupos ou espetáculos. Mas em termos de vivacidade eles são parecidos com o Asdrúbal Trouxe o Trombone", analisa o diretor, professor e incentivador Bernardo Jablonski, citando o antológico grupo teatral carioca dos anos 70 que mexeu com a cena do humor brasileiro. A montagem é simples, bem de acordo com o nome. A cada semana os rapazes convidam um ator e um professor e propõem jogos típicos de uma aula de teatro. A platéia entra em ação com frases e situações que serão vividas pelos atores no palco. E tudo isso por módicos 10 reais. Isso se o sujeito não conseguir uma filipeta, que lhe garante um desconto de 50%.

Nesse mesmo esquema de preço camarada, o grupo Na Rede pelo Lado de Fora estreou há três anos o espetáculo multimídia TV Temas, em cartaz às quartas no Teatro dos Quatro, também a 10 reais. O sexteto teve início ainda na Faculdade de Música da Uni-Rio e aos poucos ganhou a formação atual. Os irmãos Maurício e Felipe Rizzo, mais Fabiano Krieger, Jorge Bezerra, Liô Mariz e Marcelo Rezende, misturam música, jingles, temas de desenhos animados e canções de programas e novelas com vídeos e esquetes para formar uma platéia cativa. No site da galera, a filipeta que dá direito a desconto de 50% no ingresso é o lugar mais acessado e volta e meia dá pane. "Em junho visitaram a página mais de 1.000 pessoas, e muitas não conseguiram imprimir o cupom de desconto", diz Maurício, que já faturou emprego graças ao espetáculo. O roteirista Bruno Mazzeo gostou tanto do que viu que chamou Maurício para escrever esquetes para uma peça e para trabalhar na equipe de roteiristas de A Diarista. "Vi TV Temas três vezes e fiz uma participação. Gosto muito das brincadeiras que eles fazem com desenhos como He-Man e do esquete do Daniel Azulay. Lembram a minha infância", explica Mazzeo.

 

Fotos Guilherme Paranhos
/Divulgação

Surto

Quem são? Os Surtados (Wendell Bendelack, Flávia Guedes, Rodrigo Fagundes, Taís Lopes, Samantha Schumutz e Edmilson Barros, todos autores e atores).
Quando estreou? Em 12 de setembro de 2003, no Centro Cultural Correia Lima, no Catete, e está no Teatro dos Quatro desde 7 de abril, até 28 de agosto. É a oitava temporada.

Quantos já viram? 100 000 pessoas.
Custo inicial da produção: 1 000 reais de "tiotrocínio".

Trecho

Valcirene

Rosuel, é Valcirene. Tem um recado do doutor Fábio pra você. Ele mandou dizer pra você que você só tem três minutos de vida. Bom, o que o doutor pode fazer por você? Bom, com esse tempo, só um miojo.

Jezebel

O ator tem de ter um estado. Um estado. Então abre o mapa. Nada de Rondônia, Piauí ou Santa Catarina. É Rio ou São Paulo, esse é o eixo.

No início, a turma do Surto sofria para atrair convidados ao palco: hoje, há fila de espera


Participações especiais recheiam os espetáculos da rapaziada do Surto, aos domingos no Teatro dos Quatro. Quando a peça estreou, em setembro de 2003, no para lá de alternativo Centro Cultural Correia Lima, no Catete, era preciso insistir muito para que os atores aceitassem o convite. Wendell Bendelack, Flávia Guedes, Rodrigo Fagundes e Taís Lopes, oriundos respectivamente de Belém, Brasília, Juiz de Fora e Magé, se conheceram na Casa de Artes de Laranjeiras, a CAL, em 1998. Cansados de não ver a carreira engrenar, decidiram investir num espetáculo próprio. Conseguiram módicos 1.000 reais graças ao que chamam de "tiotrocínio", ou seja, a popular vaquinha entre os parentes. Do Correia Lima, Surto partiu para uma incansável jornada que inclui apresentações em pubs de Niterói e teatros como o Glória, Ipanema, Casa da Gávea, Laura Alvim. Foi estourar para valer quando chegou ao Candido Mendes, em 2005, já com Samantha Schumutz e Edmilson Barros integrados ao elenco. A casa, aliás, tem fama de ser celeiro desse tipo de espetáculo de humor, desde os tempos do besteirol, nos anos 80. Antes de Surto, o Candido Mendes deu sorte às meninas de Cócegas, espetáculo que, na opinião de muitos, é o pioneiro dessa nova onda de humor carioca. "Este momento bacana teve início com Cócegas", afirma Lúcio Mauro Filho, padrinho de Surto. Lúcio é fã assumido dos tipos hilariantes da peça, como a atriz frustrada Jezebel, que vive de workshops, interpretada por Wendell; Juninho, o playboy marrento defendido por Samantha; Valcirene, a proprietária de um serviço de Disque-Desgraça (ela só dá notícia ruim); ou Patrick Pax, um crente meio efeminado vivido por Rodrigo. Não é o único. O ator Lázaro Ramos já esteve na platéia quatro vezes. O personagem Patrick Pax ganhou quadro no Zorra Total, Wendell e Rodrigo também foram pinçados para a TV – atuaram em Sexo Frágil. Flávia aparece na telinha como a Berenice, de América, a empregada da personagem de Christiane Torloni. Wendell e Rodrigo também filmaram A Máquina, de João Falcão, previsto para estrear em outubro. Surto, que lota o Teatro dos Quatro, dá lucro. Wendell não deixou ainda de ser advogado, mas garante que o grupo está feliz com o cachê, fruto exclusivo da renda da bilheteria. "Posso dizer que dá para viver do que recebemos", comemora. Lembra daqueles convidados difíceis para as participações? Pois é, hoje tem gente que liga para se convidar. Os dias de tartaruga gigante terminaram para todos eles.

 
Rede Globo/Divulgação
Dilmar Cavalher/Strana
"A Mônica Martelli é excelente. A facilidade com que ela se comunica com a platéia foi o que mais me impressionou. Ela não se apressa, tem um tempo ótimo de comédia."
JACQUELINE LAURENCE, atriz e diretora

"Gostei muito do Z.É. Um levanta a bola para o outro e dá muito certo. É entretenimento da melhor qualidade e cumpre bem a função de levar o público adolescente ao teatro."

SÉRGIO MARONE, ator

Cláudia Martins/Strana
Selmy Yassuda

"Fui ver TV Temas sem a menor idéia do que era e gostei bastante. É despretensioso e faz referência a uma porção de coisas da minha infância. Curti muito. Eles fazem tudo muito bem."

MEL LISBOA, atriz

"A Mônica é muito firme. Pode até errar, mas ninguém nota porque ela tem certeza do que diz. É carismática, bonita e decora facilmente os textos. Se Cócegas não foi o pontapé inicial desses espetáculos, foi o mais importante."

CHICO ANYSIO, humorista

Ricardo Fasanello/Strana

"Vi a estréia de Surto ainda em Botafogo e voltei três vezes. Acho superlegal a vitória dessa turma que resolveu fazer teatro apenas com o essencial, a cara e a coragem. É a união de bons atores com um bom texto."

LÁZARO RAMOS, ator

 

Dois espetáculos na fita

 
Fotos Divulgação
Os músicos clássicos e o ator e dublador Sergio Stern: Sátira in Concert
Hassum e Melhem: Nós na Fita

Veja também
Trecho de Sátira in Concert

Nós na Fita e Sátira in Concert são outros espetáculos que apresentam humor de qualidade. Em cartaz há um ano e meio, Nós na Fita, da dupla Marcius Melhem e Leandro Hassum, também começou acanhado, no Teatro do Jockey. Leandro e Marcius desembolsaram 600 reais para levantar a produção. "O dinheiro foi para alugar os smokings e fazer as fotos de divulgação", diz Leandro. Depois, peregrinaram por vários teatros da cidade, percorreram algumas capitais do país e voltaram ao Rio, em 2005, para o Teatro Miguel Falabella, onde ficam em cartaz até o fim de agosto. A perspectiva é encarar o Teatro das Artes e seus 500 lugares a partir de setembro. A julgar pela trajetória, com casa lotada, sessão e cadeiras extras (são mais de 2 000 pessoas por fim de semana), não há o que temer. O que diferencia Nós na Fita, com seu formato de stand-up comedy, é o fato de a dupla já ser conhecida do público pelo televisivo Zorra Total. Sátira in Concert, com os músicos Her Agapito (violino e voz), Luciano Corrêa (violoncelo e voz), Márcio Sanchez (violino e voz) e o ator Sergio Stern, ainda está em fase de incubação, mas promete seguir carreira semelhante às outras. Em cartaz desde 2003, em sua quinta temporada, hoje eles se apresentam no Espaço Café Cultural Petrobras, com temporada prorrogada por quatro vezes. O elenco usa obras clássicas, instrumentos eruditos e interpretação para contar histórias cheias de humor. "As pessoas acham que o mundo da música erudita é sisudo, mas sempre fomos bem-humorados", diz Márcio Sanchez, instrumentista da orquestra Petrobras Sinfônica, com Her Agapito, e do Theatro Municipal.

 

     
  
   

 

 
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