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13 de abril de 2005

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1001 noites com Miele

Histórias da boemia carioca
segundo um de seus protagonistas

Pedro Tinoco

Bruno Veiga /Strana

Miele: piadas e histórias em livro e DVD

Anos 70, uma noite de farra no Monsieur Pujol, bar e restaurante carioca com programação cultural tocada pela prestigiada dupla Ronaldo Bôscoli e Luiz Carlos Miele. Uma mesa com vinte lugares está reservada para o mímico francês Marcel Marceau, que vai comemorar ali o fim da temporada no Theatro Municipal. Entre as atrações escaladas estão Leny Andrade, Wilson Simonal, Ivan Lins e Elis Regina. Sim, na mesma noite. Empolgado, o mais famoso mímico do planeta sobe no piano para um número improvisado: enquanto Miele diz bobagens em português, Marceau, colado atrás dele, gesticula, com os braços no lugar dos de Miele, sublinhando o discurso surreal. A casa está cheia, por isso o porteiro vem avisar que chegou mais gente. Miele vai lá ver quem é e deixa entrar o amigo Mário Priolli, dono do Canecão, acompanhado pelo cantor americano Stevie Wonder e banda. O astro pop também foi para o palco, onde cantou For Once in My Life. Essa foi apenas uma das 1.001 noites de boemia que Luiz Carlos D'Ugo Miele, 66 anos, o popular Miele, viveu para contar no livro Poeira de Estrelas (veja trechos na pág. 10), que lançou com festa no Bar do Tom na semana passada.

As aventuras do showman Miele põem no chinelo o protagonista do filme vencedor do Oscar em 1994, Forrest Gump, aquele sujeito abobalhado que, meio por acaso, participou dos eventos mais marcantes da história do século passado. Bem mais esperto, e sem a ajuda de efeitos especiais, Miele testemunhou momentos históricos de uma geração da boemia carioca que brilhou no finado século XX. Não fez um filme, mas, após a insistência dos companheiros de bar, ouvintes privilegiados de suas histórias e piadas, lança o livro e o DVD Miele, um Showman Brasileiro, gravado ao vivo no ano passado no Teatro Arena. "Quero que as pessoas digam: gostei mais do livro, ou gostei mais do DVD", diz.

O livro é uma delícia. Nele, com o estilo despretensioso de quem conta histórias num bar, Miele lembra o início da carreira, há 55 anos. Filho de Irma D'Ugo Miele, conhecida como a atriz e cantora Regina Macedo, começou menino a trabalhar como ator na rádio Excelsior de São Paulo. Não parou mais. Chegou ao Rio, em 1956, para trabalhar na recém-inaugurada TV Continental. Passou por momentos de dureza que o levaram a dormir um tempo em uma manilha de concreto – cena levada ao cinema por Hugo Carvana em O Homem Nu, numa ponta estrelada por Miele, é claro. Correndo atrás, como ele, estavam jovens como Carvana, Daniel Filho e Ronaldo Bôscoli.

A dupla de produtores de shows Miele & Bôscoli debutou em 1959 no lendário Beco das Garrafas, complexo informal de boates em Copacabana, berço da bossa nova. Um show de Sergio Mendes foi o primeiro de uma série histórica produzida pela dupla que inclui apresentações de Simonal, Elis, o bailarino Lennie Dale, Maria Bethânia, Sarah Vaughan e Roberto Carlos, entre muitos outros. Da manilha para as altas-rodas foi um pulo, com escala providencial na noite carioca. "O Miele sempre foi um sujeito muito engraçado. Quando apareceu, só tinha uma roupa, um smoking que ele pegou emprestado para fazer figuração num programa de TV e nunca devolveu. Ele se enturmou e nunca mais desenturmou", conta o cartunista Jaguar.

Enturmado, fez carreira, ou melhor, carreiras. De contra-regra, dublador, figurante, ator, diretor de espetáculos, humorista, apresentador e o que mais lhe apareceu pela frente. "O mundo tem pessoas e personagens. O Miele é um personagem. Fez de tudo o que é possível fazer no showbusiness brasileiro", diz o empresário da noite Ricardo Amaral. Neste momento, Miele está no elenco da série Mandrake, inspirada no personagem de Rubem Fonseca, em fase de gravação e com estréia prevista para o segundo semestre no canal por assinatura HBO. Desde 1999, trabalha como diretor de projetos especiais da Casa de Cultura da Universidade Estácio de Sá – onde comanda um talk-show às quartas-feiras. Ele também faz shows de humor e música, às vezes solo, às vezes ao lado da cantora Wanda Sá e do violonista Roberto Menescal, e aluga a verve para convenções de empresas.

Grande parte do livro é dedicada a um tempo em que o trabalho de Miele era ainda mais divertido. Entre um show e outro, uma boate e outra, ele testemunhou o melhor do folclore boêmio carioca. "Sinto uma certa nostalgia, sim. A noite hoje é jovem, lá em São Paulo chamam até de balada, seja lá o que isso for. No Rio, eu saía e passava a noite com Vinicius, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino... Quem são os boêmios de hoje?" Ele jura que não desistiu, que ainda dorme tarde e "procura ir aonde a boemia está", mas Jaguar entrega o jogo. "Muita gente sumiu ou encaretou. Para gente como eu e Miele, a carga horária continua a mesma, o que mudou foi o turno. Não ficamos mais até alta madrugada, apenas começamos mais cedo", diz. Essa turma não brinca em serviço. Jaguar conta que, dia desses, Miele, por acaso, voltou para casa tarde – e sóbrio. "Ele tem uns cães de guarda bravos, que, evidentemente, não o reconheceram e o atacaram."

A rotina boêmia que já dura décadas – e, entre outras façanhas, é conciliada com o casamento de quarenta anos com Anita – foi interrompida em 2003. Naquele ano, em julho, Miele conseguiu tropeçar na mureta da varanda da casa onde mora, em São Conrado, e se estatelar 5 metros abaixo, no chão da rua. Bateu com a cabeça no meio-fio, quebrou o meio-fio, fraturou a rótula e foi parar na emergência do Miguel Couto. Do incidente restam algumas piadas e a tristeza de não poder jogar peladas como um zagueiro, na definição do cronista social Jacinto de Thormes, "asmático e sutil". "Fiz fisioterapia com o Filé, no mesmo aparelho que o Ronaldinho usou, mas não dá mais", lamenta.

Quando falam de Miele, amigos como Ricardo Amaral não demoram a lembrar de histórias que não estão no livro. Como a vez em que os dois, mortos de fome, foram parar na casa de uma amiga ricaça em Nova York. "Na geladeira só encontramos um pedacinho de queijo e umas quarenta garrafas de Don Perignon. Jantamos quase tudo." O sujeito que flertou com Dionne Warwick, dirigiu Sarah Vaughan, foi salvo de gripe com uma injeção aplicada no bumbum pelo poetinha Vinicius de Moraes e trocou figurinhas com a nata da boemia carioca ainda tem muita história para contar. Quem sabe, em Poeira de Estrelas Vol. 2.

 

O homem dos sete instrumentos

 
Divulgação

Ronaldo Bôscoli (1928-1994) e Miele: amigos desde 1956, dividiram noitadas e a produção de shows de nomes históricos da MPB como Elis Regina, Wilson Simonal, Sergio Mendes, Nara Leão e Roberto Carlos


Jorge Cysne

O encontro surrealista de Miele e Liza Minnelli: os dois tornaram-se imediatamente grandes amigos durante um longo bate-papo regado a caipirinha e vodca-tônica, no mesmo dia em que foram jurados de um concurso de fantasias carnavalescas


Jorge Cysne

Com Roberto Carlos: Miele e Bôscoli produziram o show no Canecão, em 1970, que se tornou um marco na carreira do cantor


André Lobo

Casamento à prova de boemia: Miele e a portuguesa Anita estão juntos há quarenta anos



Aperitivos do livro

No livro Poeira de Estrelas, Miele conta muitas das histórias que viveu e testemunhou na noite carioca desde os anos 50. A seguir, três delas:  

 
Bruno Veiga /Strana

O showman e o megafone: adereço de seus shows

Acomodado no quarto-e-sala do ator e amigo José Miziara, Miele passou as primeiras noites dormindo no chão, "até que ele começou a receber inúmeros roteiros para ser encenados na TV. Bem, os roteiros tinham centenas de páginas, que passaram a servir de colchão, sendo que o melhor no qual eu dormi foi, sem dúvida, Sindicato dos Ladrões". Quando ficou sem ter onde dormir novamente, Miele conta que encarou "as tubulações que estavam sendo usadas para a construção do Aterro do Flamengo".

"Não sou fã de restaurantes, mas alguns tinham bares maravilhosos. O Flag, de Ricardo Amaral e Zé Hugo Celidônio, era um deles... Não sei bem como, pois o bar tinha quarenta lugares no máximo, lá se apresentaram os shows de Chico Buarque com o MPB4 e Dorival Caymmi, entre outros. Por causa da descontração do local, Carlinhos Niemeyer fez um strip-tease em cima do piano, ficando apenas com a sunga. E, ao lado de Jorge Ben e Chico Buarque de Holanda, tive a honra de dançar o cancã em cima dos sofás, numa coreografia até hoje lembrada pelo público, não só pelo inusitado do palco, como pela categoria dos solistas."

"Madrugada, as pessoas vão indo embora, ficamos eu e ela (a cantora americana Dionne Warrick), o bar vazio, grande clima. Mas eu, infelizmente, numa das minhas piores performances, havia exagerado no alpiste, como diz o Billy Blanco, e fiquei totalmente fora de combate. Ela, uma fera (soube depois, é claro), ajuda o porteiro a me colocar num táxi, recusa o auxílio do mesmo porteiro e sai para tomar um táxi sozinha. Na direção da praia do Leblon, às 5 horas da manhã. Sozinha e a pé. Imagino com qual impressão ela ficou do machus brasiliense."

 

     
  
   

 

 
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