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12 de novembro de 2003
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CRÔNICA

O cara que a política não muda

Tutty Vasques

Fernando Gabeira vive em paz com sua biografia, ainda que certas passagens marcantes da história que escreve tenham autoria desconhecida. Já desistiu de tentar esclarecer, por exemplo, que não foi nem de longe o cérebro da operação de seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Assume total responsabilidade pela famosa tanga que abalou Ipanema no fim da década de 70, mas também não imagina quem inventou que o tapa-sexo era de crochê, e não de Lycra Fiorucci, como é correto afirmar. No futuro, quando se lembrarem da ala do PT que primeiro se rebelou contra os rumos do governo Lula, seu nome estará decerto à frente do da senadora Heloísa Helena, e não adianta o nobre deputado brigar com seu carisma a bem da verdade. Ele é o cara, e pronto!

Defensor da legalização da maconha, da regulamentação das prostitutas, da união civil homossexual, da prática do nudismo, dos direitos dos presidiários e da liberdade sexual, entre outros temas que somou à tarefa ecológica na volta do exílio, Gabeira é um fenômeno de projeção política num país que associa tais idéias à inteligência do demônio. Jamais ninguém o viu possuído. A serenidade com que foi flagrado saindo pela porta da frente do PT mereceu do jornalista Elio Gaspari epitáfio de quem vai para o céu: "Bendito o país que tem Gabeiras, gente que sabe dizer quando vai embora". É a glória!

Da geração de esquerda que entrou na vida parlamentar decidida a mudar a cara da política, talvez seja o único que continua com a mesma cara. Aos 62 anos, mistura ainda ousadia e modernidade na fala pausada de quem está curtindo o que diz. Faz charme com seus vícios mais recorrentes, como aquele de linguagem para separar orações: "Entende?", para ele, é vírgula. Não tem embocadura, sotaque, cacoete nem pinta de parlamentar. É um estranho no ninho de Brasília.

É muito chato ser deputado federal? "À tarde, é!" Refere-se às cinco horas diárias de discursos que atura no plenário. "É tudo muito heterogêneo, previsível e moralista, quando não patético." Não entra em bola dividida de discussões inúteis. Aprendeu em seis anos de mandato que no Congresso vigora a máxima de Didi "quem corre não é você, é a bola". Seleciona parceiros para tabelas. Troca passes com Patrus Ananias (PT-MG) sobre história do Brasil, faz dois-um com Maria do Rosário (PT-RS) no campo dos direitos humanos, encosta em Roberto Brandt (PFL-MG) quando procura um bom papo para falar mal dos políticos. Tem gente no PT, ele jura, que acha que Maurício de Nassau é deputado federal por Pernambuco.

Quando não tem algo importante para dizer ou ouvir, faz como Roberto Campos: procura um canto do plenário para ler. Lê muito. À noite, quando políticos, lobistas e michês de toda sorte invadem os bares de Brasília, Gabeira toca sua moto para o acampamento que montou em um apartamento de dois quartos da 107 Norte. "Vivo lá três dias por semana em regime de prisão-albergue." Pela manhã, nada na associação de funcionários do Banco Central e almoça num restaurante natural (não come carne há trinta anos). Diz ele que faz tempo não vai a Amsterdã.

Amsterdã, no dialeto do deputado, é um lugar – não necessariamente a cidade holandesa – onde o consumo de maconha não fere o decoro parlamentar. "Passo períodos longos sem ir a Amsterdã e às vezes vou a Amsterdã todo dia." Entende? Quando volta à realidade do Congresso, tem a sensação de que a democracia representativa está em decadência. Vem daí seu desejo de procurar outros caminhos. A via partidária já era, "o dínamo da mudança do país está em outra parte, está na sociedade". Pode parecer maluquice, mas ele está antenado com "redes anárquicas e autônomas que se unem horizontalmente para a troca de informações sem essa caretice de partido". A internet e as novas tecnologias têm-lhe feito a cabeça.

O deputado cumpre mandato até 2006, não descarta a possibilidade de tentar reeleição, mas já tem planos de escrever um livro avaliando sua passagem pela política convencional, a exemplo das contas que prestou, em O que É Isso, Companheiro?, de sua militância na luta armada, "um sonho errado que me fez perder pedaços do rim, do fígado e do estômago, além de dez anos de exílio".

A saída do PT não doeu nada. Fernando Gabeira jamais manteve com o partido a passionalidade que dramatiza a despedida de Heloísa Helena. A senadora ligou para o colega chorando quando ele anunciou sua partida. Não precisava. A idéia que ela faz de um político sem destino não tem nada a ver com a sensação de liberdade que o momento enseja ao deputado. A luta continua!

 

 

         
     
 
 
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