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CRÔNICA
O
cara que a política não muda
Tutty
Vasques
Fernando
Gabeira vive em paz com sua biografia, ainda que certas passagens
marcantes da história que escreve tenham autoria desconhecida.
Já desistiu de tentar esclarecer, por exemplo, que não
foi nem de longe o cérebro da operação de seqüestro
do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Assume total responsabilidade
pela famosa tanga que abalou Ipanema no fim da década de
70, mas também não imagina quem inventou que o tapa-sexo
era de crochê, e não de Lycra Fiorucci, como é
correto afirmar. No futuro, quando se lembrarem da ala do PT que
primeiro se rebelou contra os rumos do governo Lula, seu nome estará
decerto à frente do da senadora Heloísa Helena, e
não adianta o nobre deputado brigar com seu carisma a bem
da verdade. Ele é o cara, e pronto!
Defensor
da legalização da maconha, da regulamentação
das prostitutas, da união civil homossexual, da prática
do nudismo, dos direitos dos presidiários e da liberdade
sexual, entre outros temas que somou à tarefa ecológica
na volta do exílio, Gabeira é um fenômeno de
projeção política num país que associa
tais idéias à inteligência do demônio.
Jamais ninguém o viu possuído. A serenidade com que
foi flagrado saindo pela porta da frente do PT mereceu do jornalista
Elio Gaspari epitáfio de quem vai para o céu: "Bendito
o país que tem Gabeiras, gente que sabe dizer quando vai
embora". É a glória!
Da
geração de esquerda que entrou na vida parlamentar
decidida a mudar a cara da política, talvez seja o único
que continua com a mesma cara. Aos 62 anos, mistura ainda ousadia
e modernidade na fala pausada de quem está curtindo o que
diz. Faz charme com seus vícios mais recorrentes, como aquele
de linguagem para separar orações: "Entende?", para
ele, é vírgula. Não tem embocadura, sotaque,
cacoete nem pinta de parlamentar. É um estranho no ninho
de Brasília.
É
muito chato ser deputado federal? "À tarde, é!" Refere-se
às cinco horas diárias de discursos que atura no plenário.
"É tudo muito heterogêneo, previsível e moralista,
quando não patético." Não entra em bola dividida
de discussões inúteis. Aprendeu em seis anos de mandato
que no Congresso vigora a máxima de Didi "quem corre não
é você, é a bola". Seleciona parceiros para
tabelas. Troca passes com Patrus Ananias (PT-MG) sobre história
do Brasil, faz dois-um com Maria do Rosário (PT-RS) no campo
dos direitos humanos, encosta em Roberto Brandt (PFL-MG) quando
procura um bom papo para falar mal dos políticos. Tem gente
no PT, ele jura, que acha que Maurício de Nassau é
deputado federal por Pernambuco.
Quando
não tem algo importante para dizer ou ouvir, faz como Roberto
Campos: procura um canto do plenário para ler. Lê muito.
À noite, quando políticos, lobistas e michês
de toda sorte invadem os bares de Brasília, Gabeira toca
sua moto para o acampamento que montou em um apartamento de dois
quartos da 107 Norte. "Vivo lá três dias por semana
em regime de prisão-albergue." Pela manhã, nada na
associação de funcionários do Banco Central
e almoça num restaurante natural (não come carne há
trinta anos). Diz ele que faz tempo não vai a Amsterdã.
Amsterdã,
no dialeto do deputado, é um lugar não necessariamente
a cidade holandesa onde o consumo de maconha não fere
o decoro parlamentar. "Passo períodos longos sem ir a Amsterdã
e às vezes vou a Amsterdã todo dia." Entende? Quando
volta à realidade do Congresso, tem a sensação
de que a democracia representativa está em decadência.
Vem daí seu desejo de procurar outros caminhos. A via partidária
já era, "o dínamo da mudança do país
está em outra parte, está na sociedade". Pode parecer
maluquice, mas ele está antenado com "redes anárquicas
e autônomas que se unem horizontalmente para a troca de informações
sem essa caretice de partido". A internet e as novas tecnologias
têm-lhe feito a cabeça.
O
deputado cumpre mandato até 2006, não descarta a possibilidade
de tentar reeleição, mas já tem planos de escrever
um livro avaliando sua passagem pela política convencional,
a exemplo das contas que prestou, em O que É Isso, Companheiro?,
de sua militância na luta armada, "um sonho errado que me
fez perder pedaços do rim, do fígado e do estômago,
além de dez anos de exílio".
A
saída do PT não doeu nada. Fernando Gabeira jamais
manteve com o partido a passionalidade que dramatiza a despedida
de Heloísa Helena. A senadora ligou para o colega chorando
quando ele anunciou sua partida. Não precisava. A idéia
que ela faz de um político sem destino não tem nada
a ver com a sensação de liberdade que o momento enseja
ao deputado. A luta continua!
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