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REPORTAGEM
DE CAPA
A
nova cozinha do Sol Nascente
Combinações
ousadas e ingredientes exóticos reinventam o menu japonês
Livia de Almeida e Fernanda Thedim
André Nazareth/Strana
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| Combinado
light do
Manekineko: o
tofu substitui o arroz
nos rolinhos
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A
nissei Marina Kunyi chegou ao Rio há quinze anos. Nascida
e criada em São Paulo, onde a colônia japonesa é
grande, Marina percebeu com espanto que seus traços orientais
causavam espécie entre os cariocas. "Na rua, as pessoas falavam
em inglês comigo, pensando que eu era estrangeira. Se eu queria
comprar alguma coisa, me diziam o preço em dólares.
Eu chorava, porque queria abrir um restaurante japonês na
cidade e imaginava que, se aquela gente estranhava minha aparência,
o que não diria de minha comida", lembra Marina, dona do
restaurante Madame Butterfly, em Ipanema. O espanto diante do sabor
do peixe cru, da raiz-forte, dos brotos e dos cogumelos de formato
diferente não durou muito. A comida japonesa, novidade nos
anos 80, caiu no gosto do carioca. "É uma culinária
leve, adequada ao clima quente da cidade, que logo agrada a quem
se preocupa com uma alimentação mais saudável",
conta outra Marina, a Tasakhi, que comanda a cozinha do Ben Kei
depois de anos à frente do Kotobuki. Segundo o sindicato
dos restaurantes, em 1993 havia apenas sete estabelecimentos dessa
especialidade na cidade. No levantamento mais recente, de agosto
deste ano, foram contabilizados sessenta. Isso sem contar os restaurantes
por quilo e as churrascarias que incorporam os bolinhos de arroz
e o peixe cru à oferta de seus bufês.
No
decorrer dos anos, o perfil do japonês carioca se diversificou.
A cidade abriga aqueles que cultivam a tradição e
se esmeram em oferecer iguarias importadas diretamente do Japão,
como o Azumi, em Copacabana, e o Ten Kai, em Ipanema. Mas cresce
cada vez mais o número de restaurantes que investem na fusão
da culinária oriental com ingredientes e técnicas
ocidentais, em combinações ousadas, capazes de arrepiar
o coque de qualquer samurai. "Há um público exigente
que não quer mais comer só sushi e sashimi", diz Nao
Hara, 29 anos, chef do Shin Miura, no Centro, e responsável
pelo menu degustação do Madame Butterfly, em Ipanema.
André Nazareth/Strana
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| Importados
do Japão fazem a festa no Ten Kai: novos sabores
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Nao
adora utilizar frutas em suas criações. Recheia linguado
com lichia, monta uma delicada torre de sashimi de atum com damasco,
coco e gelatina de raiz-forte e usa musse de coco, perfume de maracujá
e mostarda japonesa para acompanhar um espetinho de camarão
empanado ao gergelim. São receitas que certamente fariam
seu pai, originalmente um agricultor nascido no Japão, torcer
o nariz. "O Nao ousa com uma certeza impressionante. E eu tinha
medo de que dissessem que eu oferecia uma cozinha japonesa degenerada",
conta Marina Kunyi, sua parceira há três meses no Madame
Butterfly. "Eu conheço bem a cultura e a tradição
orientais. Sei o que pode e o que não pode. Por isso estou
mudando a cara da comida japonesa que se faz no Rio", diz Nao.
Fotos Dilmar Cavalher/Strana
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| Marina
Kunyi e Nao Hara: ousadia
na combinação de peixe com
frutas no menu degustação do
Madame Butterfly, em Ipanema
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Formado
pela prática na cozinha do Shin Miura, modesto restaurante
do edifício Avenida Central, no Centro, Nao passou um ano
em Tóquio no fim da década passada. Foi lá
que descobriu a cozinha contemporânea. Ao voltar para o Brasil,
ainda timidamente, implantou no Shin Miura um menu degustação
de quatro pratos, em que explorava combinações mais
ousadas. A fórmula ficou conhecida na casa como "esqueminha"
e hoje responde por 30% das vendas do restaurante que pertence à
família de Nao. São mais de sessenta "esqueminhas"
vendidos no almoço. As receitas mudam diariamente e são
inventadas no próprio dia por Nao. "A intuição
é o melhor tempero da culinária", garante ele.
André Nazareth/Strana
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Dilmar Cavalher/Strana
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| Marina,
Carolina e Bia, do Sushi
Leblon: Nobu como inspiração
e ousadia em
pratos como o sashimi morno
com cítricos
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Enquanto
o chef nissei inventava novidades no Centro, as sócias Ana
Carolina Gayoso, Bia Stewart e Marina Hirsch, do Sushi Leblon, também
investiam na pesquisa de uma culinária oriental e contemporânea.
"Ficávamos encantadas com as criações de chefs
como o Nobu, de Nova York", diz Ana. Voltavam de viagem cheias de
idéias, mas esbarravam na resistência dos próprios
chefs. "Só conseguimos fazer mudanças depois que deixamos
de ter chefs japoneses. Eles são muito conservadores e resistentes
às novidades", lembra Marina. A potiguar Graça, ex-mulher
do veterano sushiman Yasuto Tanaka e dona do Miss Tanaka, no Jardim
Botânico, passou pela mesma experiência. "Minha equipe
só queria fazer o tradicional. Demorou, mas acabou aceitando
minha proposta de misturar elementos da cozinha nordestina e japonesa",
conta Graça, que introduziu no menu o acarajapa (casquinha
frita de tofu recheada) e a tempura de jaca.
Fotos Cláudia Martins/Strana
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| Graça
Tanaka: invenções nipo-nordestinas,
como a salada
sashimi de atum com manga,
um dos pratos de verão
do Miss Tanaka
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Fotos Dilmar Cavalher/Strana
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| Felipe
Bronze: sem medo de
ousar em combinações como
o sashimi de polvo
cozido no xerez com
presunto serrano
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Enquanto
no Miss Tanaka as novidades ficaram por conta da bagagem de vida
e do temperamento arretado de Graça, no Sushi Leblon a revolução
durante dois anos foi promovida pela criatividade do consultor gastronômico
Felipe Bronze, 25 anos. Formado pelo Culinary Institute of America,
em Nova York, com passagem pela cozinha do Nobu, Bronze colocou
o foie gras na lista de compras do restaurante carioca. Seu menu,
que ainda está em vigor no Sushi Leblon, tem enrolados de
foie gras com brunoise de manga, salmão marinado com foie
gras, tempura de vieiras e foie gras e, para variar um pouco, sashimi
morno marinado em cítricos. Sem um pingo de sangue nipônico,
Felipe Bronze nem sabe o que são as crises de descendentes
como Marina Kunyi, preocupados com o delicado equilíbrio
entre a tradição e a inovação. "Não
tenho o menor compromisso com a tradição. Para falar
a verdade, não entendo bulhufas da técnica deles.
O que me interessa é aproveitar certos conceitos dessa culinária",
diz Bronze, que abre em janeiro um restaurante de culinária
asiática contemporânea em Ipanema. Ele promete ficar
bem longe da mesmice. "Tempura de camarão e legumes e rolinho
primavera com molho agridoce cor-de-rosa não passam nem na
porta", dispara. Não vão faltar receitas com foie
gras, é claro, além de pratos novos com arroz arbóreo
e trufas. Felipe planeja também novidades em relação
aos molhos que acompanham os enrolados. Ele considera tedioso o
molho de soja usado costumeiramente. "É bobo ter um molho
universal para 150 tipos de sushi", afirma.
Fotos André Nazareth/Strana
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| Fernanda
Garritano, do Manekineko:
sucesso em quatro endereços
com sugestões que mudam
trimestralmente, como o
yakisoba de salmão ao pesto
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Uma
demonstração da disposição camarada
do carioca para as inovações com sotaque oriental
é o crescimento da rede Manekineko, iniciada em 1999 e hoje
com quatro casas na cidade. Desde o início, a dona, Fernanda
Garritano, fez questão de colocar no menu sugestões
incrementadas, ao lado dos rolinhos mais populares. O menu de sugestões
varia a cada três meses. Recentemente, ela inventou, por exemplo,
um combinado light, que leva tofu no lugar do arroz. Outras novidades
de Garritano misturam ingredientes de procedências variadas.
Ela fez um yakisoba de salmão com pesto de nori (um tipo
de alga), temperado com endro fresco e manjericão. "Procuro
dar um toque contemporâneo às receitas e adaptá-las
ao nosso clima", diz.
Cláudia Martins/Strana
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| Yasuto
Tanaka: nada de misturar salmão e tapioca
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Nem
todo mundo demonstra entusiasmo diante de tanto experimentalismo
no reino dos hashis. Yasuto Tanaka, dono do Tanaka-San, bem que
resistiu ao califórnia, recheado com manga e kani, e aos
enrolados recheados com cream cheese, como o philadelphia. Acabou
capitulando, mas mantém a desconfiança diante das
misturas ousadas propostas por outros chefs. "A culinária
oriental tem uma tradição que deve ser respeitada.
Não consigo misturar tapioca com sashimi de salmão",
diz Tanaka. César Hasky, do Ten Kai, mesmo sem ter traços
de sangue japonês, também cultiva a tradição
até no corte do peixe, servido mais grosso do que em outros
estabelecimentos. "O sabor tem de explodir no céu da boca.
Se a fatia é fina demais, isso não acontece", afirma.
As meninas do Sushi Leblon defendem o corte mais fino. "Fizemos
o sushi com uma fatia mais fina e menos arroz e ele ficou mais agradável
para a boca", garante Marina Hirsch. César, do Ten Kai, prefere
cativar os paladares ávidos por novidades com produtos que
importa a cada dois meses do Japão, como o idako, um minipolvo,
diversos tipos de conserva e até gafanhotos crocantes. Mantém
pelo menos oito peixes no cardápio, além de ostras,
crustáceos e moluscos. "Mas boa parte da clientela ainda
se limita ao atum e ao salmão", conta.
Dilmar Cavalher/Strana
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| Alissa
Ohara, do Azumi: defesa da tradição
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O
bastião da tradição japonesa na cidade é
o Azumi, em Copacabana. Enquanto os brasileiros formam a clientela
majoritária da maioria dos restaurantes japoneses, no Azumi
eles dividem a freqüência com os orientais. "Não
fazemos essas mudanças sem pé nem cabeça que
acontecem por aí", diz Alissa Ohara, que comanda a casa.
Ninguém deve sequer pensar em pedir aqui uma porção
de hot philadelphia, rolinho empanado e recheado com cream cheese
e salmão que faz sucesso pela cidade. "Não utilizamos
nenhum tipo de queijo, a não ser o tofu", explica Alissa.
E nem só de sushi e sashimi vive o menu. Alissa calcula que
70% das vendas são de pratos quentes. Algumas vezes, mal-entendidos
ocorrem. Certa vez, Alissa caprichou em uma sopa de peixe para um
cliente especial. Quando o caldo chegou à mesa, com a cabeça
do peixe boiando, o cliente não escondeu sua decepção.
"Ele disse que esperava que eu fizesse a sopa com a carne nobre.
Mas, para nós, orientais, o pescoço do peixe é
a parte mais nobre", conta. Tradicional ou contemporânea,
a cozinha oriental ainda reserva muitas surpresas a quem ouse explorá-la.
"Não são só os restaurantes franceses e italianos
que são capazes de oferecer uma gastronomia sofisticada.
Os japoneses vieram para ficar", avisa Nao Hara.
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O
império oriental no Rio
As
quatro casas da rede Manekineko utilizam 8 toneladas de peixe
por mês
O menu do Ten Kai oferece 180
pratos diferentes, do combinado
de atum e salmão à porção de gafanhotos
crocantes
O chef Nao Hara, do Shin Miura, prepara diariamente 60 menus
degustação com quatro pratinhos
Yasuto Tanaka serve, mensalmente, 32 000 sushis no Tanaka-San
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Serviço
Azumi, Rua Ministro Viveiros de Castro, 127, Copacabana,
2541-4294 (70 lugares). 19h/0h (ter. a qui. e dom.) e 19h/1h
(sex. e sáb.). Cc.: todos.
Benkei, Rua Henrique Dumont, 71, Ipanema,
2540-4830 (80 lugares). 19h/0h (seg.), 12h/16h30 e 19h/0h
(ter. a qui.), 12h/16h30 e 19h/1h30 (sex.), 12h/1h30 (sáb.)
e 12h/22h (dom.). Cc.: D, M e V. T.: T e V.
Madame Butterfly, Rua Barão da Torre, 472, Ipanema,
2267-4347 (50 lugares). 12h/0h (seg. a dom.). Cc.: todos.
Manekineko Garden, Casashopping, Avenida Ayrton Senna, 2150,
Barra,
2430-8033 (100 lugares). 12h/1h (seg. a qui. e dom.) e 12h/3h
(sex. e sáb.). Cc.: todos. T.: Ch, T, Tc e V.
Miss Tanaka, Rua Pacheco Leão, 758, Jardim Botânico,
3205-7322 (50 lugares). 18h/0h (seg.), 18h/2h (ter. a sex.),
12h/1h (sáb.) e 12h/0h (dom.). Cc.: todos.
Shin Miura, Edifício Avenida Central, Avenida Rio Branco,
156, Centro
2262-3043 (89 lugares). 11h/15h (seg. a sex.) Cc.: todos.
T.: Ch, T e V.
Sushi Leblon, Rua Dias Ferreira, 256, Leblon,
2512-7830 (80 lugares). 12h/16h e 19h/1h30 (seg. a sáb.)
e 13h30/0h (dom.). Cc.: A, M e V.
Tanaka-San, Avenida Epitácio Pessoa, 1.210, Lagoa,
2522-9006 (150 lugares). 12h/1h (seg. a qui. e dom.) e 12h/2h30
(sex. e sáb.). Cc.: A e M.
Ten Kai, Rua Barão da Torre, 667, Ipanema,
2540-5100 (100 lugares). 19h/1h (ter. a sex.), 13h/1h (sáb.)
e 13h/0h (dom.). Cc.: todos.
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