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12 de outubro de 2005

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CRÔNICA

Pulando a cerca

Manoel Carlos


– Eu sempre traí minha mulher. Sempre me comportei de maneira não apenas infiel, mas desleal, o que é ainda mais grave. Fiz coisas horríveis, baixas, como levar mulheres lá pra casa, quando ela estava no hospital, ainda se restabelecendo da primeira cirurgia, lembra? O que é que você acha? Já viu coisa mais vil? Mais desprezível? Eu sou um monstro e tenho até vergonha de olhar nos olhos dos meus filhos!

O que é que eu podia falar? Realmente, o comportamento do Deodato tinha sido péssimo naqueles dois últimos anos do seu casamento com a Clarinha. Para dizer a verdade, ele nunca se comportou bem, desde que se casou – e isso já ia para treze anos, mas naqueles dois últimos... bem, era tão descarado que fazia questão de se exibir como marido infiel para todos os amigos. E até para os vizinhos! Mesmo assim, diante daquele desabafo entre lágrimas, eu me vi na obrigação de dizer algumas palavras de consolo, procurando tirar dele aquela grande angústia, aquele peso insuportável que vergava meu pobre amigo, como se fosse uma vara de pescar.

– Calma, Deo, você está arrependido, isso já lhe tira um grande peso da consciência – disse eu.

– Daria um braço, os dois até – continuou se lamentando – se eu pudesse voltar atrás e ser fiel. Ou pelo menos se eu pudesse cair de joelhos, rastejar mesmo, implorando o seu perdão!

Marcinho, que tudo escutara até então, resolveu minimizar o problema de maneira radical:

– Tá sofrendo à toa, cara! O que você deu foi umas puladas de cerca, como todo marido dá! Quem, neste mundo, pode atirar a primeira pedra? Quem não traiu a mulher, pelo menos uma vez na vida? Quem?

Como resposta a essa indagação do amigo, Deodato redobrou seus soluços, as lágrimas caindo sobre a gravata escura. Era tão patético, tão sonora era a sua dor, que já começava a chamar a atenção de algumas pessoas que participavam do velório. Ah, sim, eu me esqueci de dizer que estávamos no velório de Clarinha, a esposa traída, a vítima da deslealdade e da infidelidade conjugal, que não resistiu à segunda cirurgia. Pois é. O arrependimento chegava tarde para o pedido de perdão de Deodato e, conseqüentemente, chegava tarde para ele ser perdoado. De nada adiantaria ajoelhar-se ou rastejar diante da imóvel e branca Clarinha. A morte impedia qualquer generosidade da ofendida. E, consciente disso, meu amigo chorava ainda mais, se é que isso era possível. Era um momento que plagiava, modesta e involuntariamente, uma cena de Nelson Rodrigues.

***

Deus, segundo se diz, escreve direito por linhas tortas. Se isso é verdade, o Criador caprichou na caligrafia ao escrever a história do Deodato. E me pareceu que de torto não havia nada na escrita divina. Não é que passado um mês, talvez nem tanto, o arrependido viúvo, ainda disfarçando um soluço quando olhava uma foto da finada mulher ou quando o nome dela era citado, encontrou, bem escondidinha no fundo falso de uma gaveta de calcinhas de seda da falecida, um maço de cartas de Hugo para... Exatamente o que vocês pensaram! Cartas de amor de Hugo para Clarinha! E, depois de devorar todas elas, imagino que com as mãos trêmulas e os olhos esgazeados, irrompeu minha casa adentro, brandindo no ar a papelada romântica, com suas letrinhas feias e cheias de erros gramaticais. E Deodato esbravejava sua indignação contra a defunta de trinta dias. Foram palavrões impublicáveis, que jorravam caudalosamente dos seus lábios trêmulos. Peguei um copo de água, fechei as janelas e ainda liguei o rádio para abafar o desabafo de ódio. E ele repetia:

– E com o Hugo, o primo, um rapaz que eu praticamente criei, tratei como filho. Primo-irmão, cara! Primo-irmão!

– Mas, se você estava sofrendo tanto por causa da sua infidelidade, agora que sabe que ela lhe dava o troco, devia sentir-se aliviado. Afinal, estão quites!

– Mas eu sou homem! Dei minhas puladas de cerca, como todo marido! Mas ela... mãe dos meus filhos... não tinha esse direito! Com o Hugo! Logo com ele! Primo-irmão! Pra quem eu emprestei dinheiro, que ele jamais me pagou! Ah, não dá pra perdoar, nem mesmo ela estando morta!

***

Isso tudo foi há bastante tempo. Deodato, machista empedernido, casou-se ainda mais duas vezes. E com ambas as mulheres foi um marido infiel, vorazmente infiel. Não era um defeito de caráter, penso eu, mas um estilo. Hoje, com 65 anos, está diabético, meio esclerosado e... sozinho. Minto: uma cadelinha vira-lata, que atende pelo nome de Brigite, dorme sempre ao pé da sua cama de solteiro. Fiel.

 

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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