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Dez perguntas para...
...Ezio Manzini, especialista
em design sustentável
Patrick Moraes
O professor italiano Ezio Manzini
é um homem preocupado com o mito de que a reciclagem pode
resolver muitos dos problemas do mundo moderno. "Para viver melhor,
consuma menos", ele costuma dizer. Como diretor de pesquisa em design
e inovação para sustentabilidade do Instituto Politécnico
de Milão, Manzini passou duas semanas no Rio dando aulas
na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação
de Engenharia da UFRJ (Coppe).
Selmy Yassuda
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| O italiano Manzini: "Para
viver melhor, consuma menos" |
1
Quando a discussão sobre a sustentabilidade despertou
seu interesse?
No início, nós, designers,
pensávamos em redesenhar produtos e adaptá-los sob
o ponto de vista ambiental. Embora eles tenham ficado mais eficientes,
o consumo aumentou. O relógio que uso é melhor do
que o do meu pai. Mas ele usou um relógio a vida inteira,
enquanto eu não sei quantos já tive. Nem todos os
passos do ecodesign são um passo à frente para a sustentabilidade.
2
Como o design pode ajudar a promover o desenvolvimento sustentável?
A noção de design
sofreu mudanças. Hoje se busca unir a tecnologia com a cultura
em busca de soluções para que o mundo funcione melhor.
Se você quiser tornar a ocupação dos carros
mais eficiente, isso é um assunto para o design estratégico.
Consideramos o sistema e não apenas o produto.
3
Até que ponto a reciclagem de produtos é eficiente
para a sustentabilidade?
Claro que temos de reciclar, mas isso tem permitido equívocos.
"Não se preocupe, consuma porque temos condições
de recuperar e recriar tudo." Isso é impossível. Meu
slogan é: "Para viver melhor, consuma menos".
4
Que outras mudanças a sustentabilidade pede?
Ela depende de transformações radicais nos padrões
não sustentáveis. Por exemplo, melhorar a eficiência
dos carros custa caro. Cerca de 90% deles leva apenas um passageiro.
Se levar dois, o problema diminui pela metade. É simples,
mas também complexo, porque não se muda um hábito
com facilidade. Trata-se de uma discussão tão importante
quanto falar em hidrogênio como combustível alternativo.
5
A discussão sobre a sustentabilidade está muito
atrasada no Brasil?
Não só aqui. Na Itália,
onde moro, a mentalidade dominante é a da sociedade de consumo
dos anos 60. Como você pode mudar o mundo se seu modelo de
referência se tornou tão ultrapassado?
6
Quais os maiores mal-entendidos que se cometem em nome da sustentabilidade?
Algumas pessoas pensam, até com boa vontade, que usar
produtos que reduzam o impacto ambiental representa um enorme passo
para a sustentabilidade. Quando entendem que a mudança deve
ser maior, ter âmbito global, dizem que é radical demais
para ser executada imediatamente.
7
E não é verdade?
Isso é mais fácil do que
gastar milhões em pesquisas tecnológicas. Por que
não ter casas vizinhas com serviços em comum em vez
de esperar por uma nova geração de eletrodomésticos
que controlará tudo e, no fim, reduzirá o consumo
de energia em apenas 2%? Não é fácil fazer
mudanças sistêmicas.
8
Quais são os maiores entraves para a adoção
de uma política sustentável?
Algumas vezes, falta vontade. Em
outras, faltam incentivos. Vou usar o exemplo do carro: quem circulasse
com duas ou mais pessoas teria estacionamento gratuito. Há
mais um argumento que ouço: viveríamos uma crise econômica,
e esse não seria o momento para uma política sustentável.
Discordo. É mais fácil mudar na crise do que quando
as máquinas estão a pleno vapor.
9
Encontrou bons exemplos de sustentabilidade no Rio?
Sim. A Rede Ecológica (grupos de consumidores que
se reúnem para comprar alimentos, geralmente orgânicos,
diretamente de pequenos produtores rurais, diminuindo o desperdício)
é uma idéia simples, que dá certo e pode ser
reproduzida em qualquer lugar do mundo.
10
Como se passa de uma experiência dessas para uma inovação
em maior escala?
A maior dificuldade é o número
limitado de heróis que temos, pois esses projetos são
levados adiante por pessoas enérgicas e criativas, dispostas
a mudar o mundo. Ainda assim, essas propostas podem amadurecer no
futuro. E tudo fica mais fácil quando não se começa
do zero.
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