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12 de setembro de 2007

CULTURA

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CRÔNICA

O Louvre do futebol

Tutty Vasques

No tempo em que Waldir Amaral era o Galvão Bueno do rádio, um de seus inesquecíveis bordões – talvez o que mais marcou minha adolescência de torcedor – encerrava assim as transmissões esportivas das tardes de domingo no Rio de Janeiro: "Está deserto e adormecido o gigante do Maracanã". Tinha gente que descia as rampas do estádio ouvindo os comentários finais de João Saldanha e Mário Vianna, entre uma e outra entrevista de vestiário. Alguns já tinham até chegado em casa quando o locutor se despedia sempre com a mesma licença poética. Estádios, como se sabe, não adormecem, e o Maraca nunca estava completamente deserto na hora do "boa noite" de Waldir Amaral. Lembro que a turminha do meu pai era uma das que ficavam coladas ao radinho de pilha nas arquibancadas até se apagarem as luzes das cabines de imprensa. Aos pequenos grupelhos se somava um sem-número de fogueirinhas ateadas sobre o concreto com serpentina, papel picado, às vezes uma bandeira, restos de festa esportiva. Não sei por quê, mas achava aquilo triste.

O locutor, sua definição melancólica para o estádio vazio, essas lembranças de moleque dos anos 70 voltaram todas juntas quando chegamos, eu e meus filhos, ao cercado para visitantes entre as áreas delimitadas para os técnicos no gramado do Maracanã. Como nos dias em que fomos ao Corcovado ou ao Pão de Açúcar, desfrutávamos naquela bela tarde de sexta-feira o prazer de ser turista na própria cidade. De repente, estávamos nós três ali, sozinhos, girando o olhar pelo anel superior, num silêncio que só os quero-queros ousavam desrespeitar. Nada mais dava sinal de vida na nova paisagem colorida – azul, verde, branco, vermelho e amarelo – que os setores de cadeiras emprestaram ao concreto aparente. Como está lindo o Maraca vazio!

E pensar que chegamos ali sem nenhum problema para estacionar o carro numa área arborizada dentro dos muros do estádio. Atendidos por recepcionistas educados, orientados a seguir o passeio sem a companhia de guias – eles estariam no caminho para qualquer esclarecimento –, pegamos direto o caminho dos vestiários, depois o túnel, o campo. "Aqui embaixo tudo parece menor, pai!" Parece mesmo. O silêncio é maior que tudo num estádio vazio.

Quando a porta do elevador se abriu no 6º andar, em vez do burburinho da massa, só o vento. Tem lanchonete vazia para os visitantes, banheiros limpos, sensação de segurança total. Circula-se pelos bastidores da tribuna de honra, um grande espaço para recepção de celebridades como a rainha Elizabeth e o papa João Paulo II. Uma exposição fotográfica no saguão do estádio reúne outros astros que deram brilho a esse palco: Pelé, Garrincha, Frank Sinatra, Ronaldinho, Gérson, Romário, Zico, Rivelino, Madonna, Paul McCartney, Mick Jagger, Zagallo...

Tá lá também a bola do frango que o governador Sérgio Cabral engoliu em cobrança de pênalti sofrível do presidente Lula em 13 de julho de 2007, data da inauguração do "novo" Maracanã. Troféu que merecia menos destaque entre tantos lances imortalizados pelas pegadas dos craques na calçada da fama. A calma em volta é tanta que o lugar parece mesmo habitado por fantasmas do futebol, visíveis apenas pelos pés de monstros sagrados da bola. Para um mané tijucano como eu, que só tem se aborrecido nas últimas vezes que levou os filhos à arquibancada, aquela hora e meia que passamos no estádio será para sempre inesquecível. Com todo o respeito ao ser humano, sem ele o Maracanã é lugar muito mais civilizado. O Louvre do futebol, diriam os arqueólogos do futuro.

É um programa que todo carioca – aí incluídos os que não gostam de futebol ou temem pela segurança nos estádios – deveria experimentar. Qualquer um pode visitar o Maracanã de domingo a domingo das 9 às 17 horas, exceto nos dias de jogos, quando o tour é suspenso quatro horas antes do início da partida. É só chegar no portão 15 (voltado para a linha férrea) e se anunciar como visitante. Crianças até 11 anos e a galera da terceira idade não pagam; estudantes e adultos com atestado de residência no Rio de Janeiro pagam meia (10 reais). Informações pelo telefone 2299-2941 ou no site da Suderj (www.suderj.rj.gov.br).

Na volta para casa fiquei pensando que se existe uma coisa que não muda nunca no futebol é essa relação de amor e ódio generalizada do torcedor com o Galvão Bueno da vez. Lembro que com Waldir Amaral era a mesma coisa. Implicavam com sua pronúncia nasalada, deram-lhe o apelido de Waldir Narramal, mas sua voz parecia sintonizada em todos os radinhos de pilha do Maracanã quando anunciava o tempo de jogo com o característico "o relóóógio maarcaaa". Será que um dia também vamos nos lembrar com carinho do Galvão Bueno? Futebol, como se sabe, é uma caixinha de surpresas.

e-mail: tuttyvasques@uol.com.br

         
     

 

 
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