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CRÔNICA
O Louvre do futebol
Tutty Vasques
No
tempo em que Waldir Amaral era o Galvão Bueno do rádio,
um de seus inesquecíveis bordões talvez o que
mais marcou minha adolescência de torcedor encerrava
assim as transmissões esportivas das tardes de domingo no
Rio de Janeiro: "Está deserto e adormecido o gigante do Maracanã".
Tinha gente que descia as rampas do estádio ouvindo os comentários
finais de João Saldanha e Mário Vianna, entre uma
e outra entrevista de vestiário. Alguns já tinham
até chegado em casa quando o locutor se despedia sempre com
a mesma licença poética. Estádios, como se
sabe, não adormecem, e o Maraca nunca estava completamente
deserto na hora do "boa noite" de Waldir Amaral. Lembro que a turminha
do meu pai era uma das que ficavam coladas ao radinho de pilha nas
arquibancadas até se apagarem as luzes das cabines de imprensa.
Aos pequenos grupelhos se somava um sem-número de fogueirinhas
ateadas sobre o concreto com serpentina, papel picado, às
vezes uma bandeira, restos de festa esportiva. Não sei por
quê, mas achava aquilo triste.
O locutor, sua definição
melancólica para o estádio vazio, essas lembranças
de moleque dos anos 70 voltaram todas juntas quando chegamos, eu
e meus filhos, ao cercado para visitantes entre as áreas
delimitadas para os técnicos no gramado do Maracanã.
Como nos dias em que fomos ao Corcovado ou ao Pão de Açúcar,
desfrutávamos naquela bela tarde de sexta-feira o prazer
de ser turista na própria cidade. De repente, estávamos
nós três ali, sozinhos, girando o olhar pelo anel superior,
num silêncio que só os quero-queros ousavam desrespeitar.
Nada mais dava sinal de vida na nova paisagem colorida azul,
verde, branco, vermelho e amarelo que os setores de cadeiras
emprestaram ao concreto aparente. Como está lindo o Maraca
vazio!
E pensar que chegamos ali sem
nenhum problema para estacionar o carro numa área arborizada
dentro dos muros do estádio. Atendidos por recepcionistas
educados, orientados a seguir o passeio sem a companhia de guias
eles estariam no caminho para qualquer esclarecimento ,
pegamos direto o caminho dos vestiários, depois o túnel,
o campo. "Aqui embaixo tudo parece menor, pai!" Parece mesmo. O
silêncio é maior que tudo num estádio vazio.
Quando a porta do elevador se
abriu no 6º andar, em vez do burburinho da massa, só
o vento. Tem lanchonete vazia para os visitantes, banheiros limpos,
sensação de segurança total. Circula-se pelos
bastidores da tribuna de honra, um grande espaço para recepção
de celebridades como a rainha Elizabeth e o papa João Paulo
II. Uma exposição fotográfica no saguão
do estádio reúne outros astros que deram brilho a
esse palco: Pelé, Garrincha, Frank Sinatra, Ronaldinho, Gérson,
Romário, Zico, Rivelino, Madonna, Paul McCartney, Mick Jagger,
Zagallo...
Tá lá também
a bola do frango que o governador Sérgio Cabral engoliu em
cobrança de pênalti sofrível do presidente Lula
em 13 de julho de 2007, data da inauguração do "novo"
Maracanã. Troféu que merecia menos destaque entre
tantos lances imortalizados pelas pegadas dos craques na calçada
da fama. A calma em volta é tanta que o lugar parece mesmo
habitado por fantasmas do futebol, visíveis apenas pelos
pés de monstros sagrados da bola. Para um mané tijucano
como eu, que só tem se aborrecido nas últimas vezes
que levou os filhos à arquibancada, aquela hora e meia que
passamos no estádio será para sempre inesquecível.
Com todo o respeito ao ser humano, sem ele o Maracanã é
lugar muito mais civilizado. O Louvre do futebol, diriam os arqueólogos
do futuro.
É um programa que todo
carioca aí incluídos os que não gostam
de futebol ou temem pela segurança nos estádios
deveria experimentar. Qualquer um pode visitar o Maracanã
de domingo a domingo das 9 às 17 horas, exceto nos dias de
jogos, quando o tour é suspenso quatro horas antes do início
da partida. É só chegar no portão 15 (voltado
para a linha férrea) e se anunciar como visitante. Crianças
até 11 anos e a galera da terceira idade não pagam;
estudantes e adultos com atestado de residência no Rio de
Janeiro pagam meia (10 reais). Informações pelo telefone
2299-2941 ou no site da Suderj (www.suderj.rj.gov.br).
Na volta para casa fiquei pensando
que se existe uma coisa que não muda nunca no futebol é
essa relação de amor e ódio generalizada do
torcedor com o Galvão Bueno da vez. Lembro que com Waldir
Amaral era a mesma coisa. Implicavam com sua pronúncia nasalada,
deram-lhe o apelido de Waldir Narramal, mas sua voz parecia sintonizada
em todos os radinhos de pilha do Maracanã quando anunciava
o tempo de jogo com o característico "o relóóógio
maarcaaa". Será que um dia também vamos nos lembrar
com carinho do Galvão Bueno? Futebol, como se sabe, é
uma caixinha de surpresas.
e-mail: tuttyvasques@uol.com.br
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