| |
| |  | |
PATRIMÔNIO
O palácio que virou memória Monroe é lembrado na época de
seu centenário Lívia de Almeida
Augusto Malta/Coleção Brascan Cem Anos no
Brasil/Acervo Instituto Moreira Salles
 | | Em
1906, ano de sua inauguração:
novidade na Avenida
Central | Era
uma vez um palácio que nasceu em berço de ouro, premiado com uma
medalha por sua extravagante arquitetura belle époque. Ao contrário
dos contos de fada, a história não acabou bem. Neste mês,
o Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal, estaria completando 100
anos. Em janeiro, houve outra data redonda: trinta anos de sua demolição,
que costuma ser atribuída erroneamente à construção
do metrô. "Não é verdade que o Monroe teve de ser demolido
por causa das obras. A empresa tomou todas as precauções para evitar
que o palácio sofresse qualquer abalo em sua estrutura. O traçado
da linha 1 foi alterado para contornar o prédio", diz o atual presidente
da Rio Trilhos, Alexandre Farah. As escadarias de mármore de Carrara foram
cuidadosamente desmontadas e levadas para o interior do edifício no período
da obra. O trabalho acabou sendo inútil. "Durante um ano, houve uma campanha
nos jornais pela demolição. Havia quem chamasse o Monroe de 'monstrengo
do Passeio'. Apesar dos protestos de entidades como o Clube de Engenharia e o
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o presidente Ernesto
Geisel decidiu derrubá-lo", lamenta o coronel Antonio Souza Aguiar. Antonio
é neto do engenheiro militar que projetou o palácio, o marechal
Francisco Marcelino Souza Aguiar, prefeito do Rio depois de Pereira Passos (veja
quadro abaixo). Entre aqueles que recomendavam a demolição estavam
nomes como os arquitetos Lúcio Costa e Maurício Roberto. As razões
que levaram à demolição permanecem sombrias. Na época,
falou-se em negócios obscuros como a construção de um estacionamento,
perseguições políticas, picuinhas pessoais.
A história
do Monroe, da glória ao desmonte, vai ser lembrada neste ano em uma exposição
que está sendo organizada pela Secretaria Municipal de Patrimônio
e pelo Arquivo Geral da Cidade. As instituições estão reunindo
documentos e alguma coisa que sobreviveu do palácio. Nove balaústres
de mármore que ornavam a fachada do Monroe, assim como uma pedra com nomes
de artistas que trabalharam na construção do palácio, estão
no Memorial Getúlio Vargas, na Glória. A caixa do tempo, uma espécie
de urna em que eram depositados jornais, fotos e documentos da data do início
das obras, ficou no Arquivo Geral da Cidade. A marca registrada do palácio
eram os leões de massa de Carrara, que guardavam a entrada. Hoje eles estão
longe do Rio. Em 1999, foram arrematados por 250.000 dólares em um leilão
pelo colecionador pernambucano Ricardo Brennand e agora ornamentam os portões
do Instituto Brennand em Recife, um castelo que abriga desde um importante acervo
de arte da Europa medieval até obras do Brasil do século XIX. Em
Brasília, o Senado Federal mantém mobiliário do Monroe e
o antigo plenário. Na Praça Mahatma Ghandi, a lembrança do
passado se limita ao chafariz francês de ferro fundido, que já andou
pela Praça da Bandeira e hoje em dia marca o lugar onde um dia existiu
o palácio. Um estacionamento subterrâneo foi inaugurado no local
em 2002. E para os usuários do metrô restou uma misteriosa curva
nas proximidades da Estação Cinelândia.
A
pérola art nouveau de Souza Aguiar
Acervo Rio Trilhos
 | Anibal
Philot/Ag. O Globo
 | | A
obra do metrô (à esq.), no início dos anos 70, passou
ao largo
do palácio: a demolição demorou quase seis meses |
O
Monroe era estrangeiro de nascença. Foi erguido inicialmente como pavilhão
brasileiro na Feira Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1904.
Fez sucesso durante os oito meses em que funcionou como vitrine para produtos
como o café brasileiro. Foi descrito pelo jornal Saint Louis Republic
como "uma pérola no diadema dos edifícios estrangeiros" e "um
poema". Terminada a feira, a estrutura metálica foi transportada para o
Rio e o palácio renasceu na Cinelândia. Ao ser concluído,
em 1906 o primeiro prédio da recém-aberta Avenida Central
, ganhou o nome de Palácio Monroe, para homenagear James Monroe,
ex-presidente americano que iniciou a doutrina do pan-americanismo. O engenheiro
militar Francisco Marcelino Souza Aguiar, que o projetou, tornou-se prefeito depois
de Pereira Passos. Fez outras obras de estilo eclético que até hoje
estão na paisagem carioca, como o Palácio Guanabara, em Laranjeiras,
e a Biblioteca Nacional. Em sua gestão, terminou as obras do Teatro Municipal.
Em sua homenagem, o grande hospital na Praça da República recebeu
seu nome. Em
seus dias de glória, o Monroe foi a estrela de cartões-postais da
cidade, enfeitou suvenires do Rio e sua imagem foi estampada durante anos nas
notas de 200 000 réis. "Era um dos monumentos mais conhecidos da cidade",
diz o antiquário Fernando França, que coleciona objetos ligados
à história do palácio. A demolição, em 1976,
não foi fácil. As paredes eram espessas e resistentes, pois haviam
sido feitas com uma massa cozida com óleo de baleia armada sobre telas
de arame. Ornamentos, vitrais, materiais nobres como bronze foram cuidadosamente
extraídos. Começou em janeiro e levou quase seis meses. "Foi uma
lenta agonia. A empresa que arrematou a demolição pagou 191 000
cruzeiros. Na época, ganhou 9 milhões só com a venda do ferro
e do cobre existentes no Monroe", afirma Antônio Souza Aguiar, neto do engenheiro.
| |