Publicidade
 
 


 
 



12 de julho de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
MEMÓRIA
PATRIMÔNIO
CIDADE
OPINIÃO DO LEITOR
VEJA RIO 15 ANOS
BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
VEJA RIO RECOMENDA
ARREDORES
BARES
CINEMAS
CONCERTOS
DANÇA
EXPOSIÇÕES

em destaque
FILMES

em destaque
PARA AS CRIANÇAS
PARA DANÇAR
RESTAURANTES

em destaque
SHOWS

em destaque
TEATRO

em destaque
TV POR ASSINATURA
  

PATRIMÔNIO

O palácio que virou memória

Monroe é lembrado na época de seu centenário

Lívia de Almeida

 

Augusto Malta/Coleção Brascan Cem Anos no Brasil/Acervo Instituto Moreira Salles
Em 1906, ano de sua inauguração: novidade na Avenida Central

Era uma vez um palácio que nasceu em berço de ouro, premiado com uma medalha por sua extravagante arquitetura belle époque. Ao contrário dos contos de fada, a história não acabou bem. Neste mês, o Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal, estaria completando 100 anos. Em janeiro, houve outra data redonda: trinta anos de sua demolição, que costuma ser atribuída erroneamente à construção do metrô. "Não é verdade que o Monroe teve de ser demolido por causa das obras. A empresa tomou todas as precauções para evitar que o palácio sofresse qualquer abalo em sua estrutura. O traçado da linha 1 foi alterado para contornar o prédio", diz o atual presidente da Rio Trilhos, Alexandre Farah. As escadarias de mármore de Carrara foram cuidadosamente desmontadas e levadas para o interior do edifício no período da obra. O trabalho acabou sendo inútil. "Durante um ano, houve uma campanha nos jornais pela demolição. Havia quem chamasse o Monroe de 'monstrengo do Passeio'. Apesar dos protestos de entidades como o Clube de Engenharia e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o presidente Ernesto Geisel decidiu derrubá-lo", lamenta o coronel Antonio Souza Aguiar. Antonio é neto do engenheiro militar que projetou o palácio, o marechal Francisco Marcelino Souza Aguiar, prefeito do Rio depois de Pereira Passos (veja quadro abaixo). Entre aqueles que recomendavam a demolição estavam nomes como os arquitetos Lúcio Costa e Maurício Roberto. As razões que levaram à demolição permanecem sombrias. Na época, falou-se em negócios obscuros como a construção de um estacionamento, perseguições políticas, picuinhas pessoais.

A história do Monroe, da glória ao desmonte, vai ser lembrada neste ano em uma exposição que está sendo organizada pela Secretaria Municipal de Patrimônio e pelo Arquivo Geral da Cidade. As instituições estão reunindo documentos e alguma coisa que sobreviveu do palácio. Nove balaústres de mármore que ornavam a fachada do Monroe, assim como uma pedra com nomes de artistas que trabalharam na construção do palácio, estão no Memorial Getúlio Vargas, na Glória. A caixa do tempo, uma espécie de urna em que eram depositados jornais, fotos e documentos da data do início das obras, ficou no Arquivo Geral da Cidade. A marca registrada do palácio eram os leões de massa de Carrara, que guardavam a entrada. Hoje eles estão longe do Rio. Em 1999, foram arrematados por 250.000 dólares em um leilão pelo colecionador pernambucano Ricardo Brennand e agora ornamentam os portões do Instituto Brennand em Recife, um castelo que abriga desde um importante acervo de arte da Europa medieval até obras do Brasil do século XIX. Em Brasília, o Senado Federal mantém mobiliário do Monroe e o antigo plenário. Na Praça Mahatma Ghandi, a lembrança do passado se limita ao chafariz francês de ferro fundido, que já andou pela Praça da Bandeira e hoje em dia marca o lugar onde um dia existiu o palácio. Um estacionamento subterrâneo foi inaugurado no local em 2002. E para os usuários do metrô restou uma misteriosa curva nas proximidades da Estação Cinelândia.

 

A pérola art nouveau de Souza Aguiar

 
Acervo Rio Trilhos
Anibal Philot/Ag. O Globo
A obra do metrô (à esq.), no início dos anos 70, passou ao largo do palácio: a demolição demorou quase seis meses

O Monroe era estrangeiro de nascença. Foi erguido inicialmente como pavilhão brasileiro na Feira Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1904. Fez sucesso durante os oito meses em que funcionou como vitrine para produtos como o café brasileiro. Foi descrito pelo jornal Saint Louis Republic como "uma pérola no diadema dos edifícios estrangeiros" e "um poema". Terminada a feira, a estrutura metálica foi transportada para o Rio e o palácio renasceu na Cinelândia. Ao ser concluído, em 1906 – o primeiro prédio da recém-aberta Avenida Central –, ganhou o nome de Palácio Monroe, para homenagear James Monroe, ex-presidente americano que iniciou a doutrina do pan-americanismo. O engenheiro militar Francisco Marcelino Souza Aguiar, que o projetou, tornou-se prefeito depois de Pereira Passos. Fez outras obras de estilo eclético que até hoje estão na paisagem carioca, como o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, e a Biblioteca Nacional. Em sua gestão, terminou as obras do Teatro Municipal. Em sua homenagem, o grande hospital na Praça da República recebeu seu nome.

Em seus dias de glória, o Monroe foi a estrela de cartões-postais da cidade, enfeitou suvenires do Rio e sua imagem foi estampada durante anos nas notas de 200 000 réis. "Era um dos monumentos mais conhecidos da cidade", diz o antiquário Fernando França, que coleciona objetos ligados à história do palácio. A demolição, em 1976, não foi fácil. As paredes eram espessas e resistentes, pois haviam sido feitas com uma massa cozida com óleo de baleia armada sobre telas de arame. Ornamentos, vitrais, materiais nobres como bronze foram cuidadosamente extraídos. Começou em janeiro e levou quase seis meses. "Foi uma lenta agonia. A empresa que arrematou a demolição pagou 191 000 cruzeiros. Na época, ganhou 9 milhões só com a venda do ferro e do cobre existentes no Monroe", afirma Antônio Souza Aguiar, neto do engenheiro.

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados