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CRÔNICA
Recordar é viver Manoel
Carlos Minha
mãe adorava essa frase. Vivia mais de lembranças do que de projetos
e planos para o futuro. Na verdade, minha mãe vivia como quem não
tem futuro. Sorvia o presente em longos goles, como se fosse água fresca
no meio de um deserto escaldante. E o passado era o seu pão de cada dia.
Vem daí, certamente, um pouco, ou quase tudo, ou mesmo tudo, da minha melancolia.
Costumo dizer que sou um homem feliz sem alegria. É assim também
que vejo minha mãe. Ela
não era a única a se apagar do próprio futuro, já
que muitas, no meu tempo de criança e adolescente, viviam mais para a família
do que para si mesmas. Ou, mais acertadamente, mais para os filhos, já
que pai, mãe, irmãos e o próprio marido vinham sempre depois.
Isso era bonito de sentir e contar, como faço agora, mas era também
o fim de quase todos os casamentos. Um fim que não significava separação,
já que poucas se separavam, mas afastamento, desinteresse, indiferença.
Infelicidade. A infelicidade que ainda não tinha esse nome. Penso mesmo
que quase todas as mães eram infelizes e não sabiam. Viviam insatisfeitas,
eram trêmulas, choravam à toa, cuidavam-se pouco, mas não
sabiam ainda que o mal era a falta de amor conjugal. O de dar e
o de receber. Iam
ao médico, quase sempre levadas pelos próprios maridos, e saíam
do consultório com a recomendação de tomar água-de-melissa,
que nada mais é do que a erva-cidreira e, como calmante, de efeito igual
ao da água com açúcar. Eu me lembro que minha mãe
tomava água-de-melissa. Minhas tias também. Assim como muitas das
nossas vizinhas. Era fácil saber, já que o vidro esguio era peculiar
e podia ser visto em todas as casas. Mas,
se quase todas as mães se dedicavam mais aos filhos do que a qualquer outra
pessoa ou projeto, minha mãe pelo menos na minha visão
dedicava-se a eles mais do que todas. Exagerava. Eram os filhos em primeiro lugar
e o resto depois. Hoje traduzo esse resto por felicidade. Era ela, a Felicidade,
que vinha depois. Eu
me lembro de um casal de vizinhos que tínhamos no meu tempo de criança.
Como as casas eram geminadas e as cozinhas tinham teto de treliça, ouvíamos
e éramos ouvidos de maneira clara. Numa cozinha daquelas não se
podia ter segredos, pois até o cochicho perigava ser ouvido do outro lado.
Desse casal eu escutava o que os meus pais certamente também falavam, quando
sozinhos:
Você só pensa nos seus filhos.
E você, nos seus negócios.
São os meus negócios que sustentam esta casa com conforto.
Pois eu vivo sem esse conforto, mas não sem os meus filhos.
Esses seus e meus,
em vez de nossos, já eram uma espécie de senha para uma discussão
começar. E, ao longo dela, as queixas de lado a lado, muitas vezes desaguando
no rancor. E, por mais que esse rancor crescesse e até mesmo se transformasse
em ódio, raras, repito, raras eram as separações. Havia o
estigma da mulher separada, "largada", como diziam alguns, maldosamente. E mulher
largada significava também mulher fácil, o que era uma tremenda
injustiça, pois nada era mais difícil para uma mulher, àquela
época, do que viver sem marido.
E diante disso tudo, dessa pressão social, dessa incompreensão geral,
incluindo-se aí os vizinhos, os amigos e a própria família,
como uma mulher podia resistir sem doses cada vez maiores de água-de-melissa?
Sim,
minha mãe tinha razão, recordar é viver. Ainda que muitas
vezes as recordações não sejam boas nem, portanto, desejáveis
de ser vividas outra vez.
PERMITAM-ME
LEMBRAR Nesta
segunda estréia, na TV Globo, Páginas da Vida. É a
novela das 8 que vai ao ar às 9. E-mails
para o cronista: almaviva@uninet.com.br |