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12 de julho de 2006

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CRÔNICA

Recordar é viver

Manoel Carlos

Minha mãe adorava essa frase. Vivia mais de lembranças do que de projetos e planos para o futuro. Na verdade, minha mãe vivia como quem não tem futuro. Sorvia o presente em longos goles, como se fosse água fresca no meio de um deserto escaldante. E o passado era o seu pão de cada dia. Vem daí, certamente, um pouco, ou quase tudo, ou mesmo tudo, da minha melancolia. Costumo dizer que sou um homem feliz sem alegria. É assim também que vejo minha mãe.

Ela não era a única a se apagar do próprio futuro, já que muitas, no meu tempo de criança e adolescente, viviam mais para a família do que para si mesmas. Ou, mais acertadamente, mais para os filhos, já que pai, mãe, irmãos e o próprio marido vinham sempre depois. Isso era bonito de sentir e contar, como faço agora, mas era também o fim de quase todos os casamentos. Um fim que não significava separação, já que poucas se separavam, mas afastamento, desinteresse, indiferença. Infelicidade. A infelicidade que ainda não tinha esse nome. Penso mesmo que quase todas as mães eram infelizes e não sabiam. Viviam insatisfeitas, eram trêmulas, choravam à toa, cuidavam-se pouco, mas não sabiam – ainda – que o mal era a falta de amor conjugal. O de dar e o de receber.

Iam ao médico, quase sempre levadas pelos próprios maridos, e saíam do consultório com a recomendação de tomar água-de-melissa, que nada mais é do que a erva-cidreira e, como calmante, de efeito igual ao da água com açúcar. Eu me lembro que minha mãe tomava água-de-melissa. Minhas tias também. Assim como muitas das nossas vizinhas. Era fácil saber, já que o vidro esguio era peculiar e podia ser visto em todas as casas.

Mas, se quase todas as mães se dedicavam mais aos filhos do que a qualquer outra pessoa ou projeto, minha mãe – pelo menos na minha visão – dedicava-se a eles mais do que todas. Exagerava. Eram os filhos em primeiro lugar e o resto depois. Hoje traduzo esse resto por felicidade. Era ela, a Felicidade, que vinha depois.

Eu me lembro de um casal de vizinhos que tínhamos no meu tempo de criança. Como as casas eram geminadas e as cozinhas tinham teto de treliça, ouvíamos e éramos ouvidos de maneira clara. Numa cozinha daquelas não se podia ter segredos, pois até o cochicho perigava ser ouvido do outro lado. Desse casal eu escutava o que os meus pais certamente também falavam, quando sozinhos:

– Você só pensa nos seus filhos.

– E você, nos seus negócios.

– São os meus negócios que sustentam esta casa com conforto.

– Pois eu vivo sem esse conforto, mas não sem os meus filhos.

Esses seus e meus, em vez de nossos, já eram uma espécie de senha para uma discussão começar. E, ao longo dela, as queixas de lado a lado, muitas vezes desaguando no rancor. E, por mais que esse rancor crescesse e até mesmo se transformasse em ódio, raras, repito, raras eram as separações. Havia o estigma da mulher separada, "largada", como diziam alguns, maldosamente. E mulher largada significava também mulher fácil, o que era uma tremenda injustiça, pois nada era mais difícil para uma mulher, àquela época, do que viver sem marido.

E diante disso tudo, dessa pressão social, dessa incompreensão geral, incluindo-se aí os vizinhos, os amigos e a própria família, como uma mulher podia resistir sem doses cada vez maiores de água-de-melissa?

Sim, minha mãe tinha razão, recordar é viver. Ainda que muitas vezes as recordações não sejam boas nem, portanto, desejáveis de ser vividas outra vez.

 

PERMITAM-ME LEMBRAR

Nesta segunda estréia, na TV Globo, Páginas da Vida. É a novela das 8 que vai ao ar às 9.

 

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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