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REPORTAGEM DE CAPA
O pólo carioca Profissionais da animação que brilham
a cada festival Fotos
Felipe Varanda/Strana, Cláudia Martins/Strana
 | Personagens
do pólo de animação do Rio: Allan Sieber (acima, à
esq.) quer ganhar dinheiro, como Fábio Soares (no alto, à
dir.), que, por sua vez, é fã da arte defendida por Castelão
(abaixo, à esq.), Marão (abaixo, no centro) e Rosaria
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O
Anima Mundi, com as longas filas que antecedem cada sessão, é um
óbvio e concorrido ponto de encontro dos fãs de filmes de animação.
Serve também para reunir em clima de festa a turma que faz os filmes, um
grupo de profissionais que, no Rio, cresce a cada dia. Esses craques do traço
e do computador fazem da cidade um prestigiado pólo de animação
e trabalham o ano inteiro. Allan Sieber, autor do curta Santa de Casa, um
dos destaques do festival, ganhou fama com desenhos personalíssimos de
humor mordaz e traço marcante. Mas avisa: "Se me pagarem, também
posso fazer desenhos fofinhos". Enquanto propostas mais comerciais não
aparecem, Sieber, gaúcho, radicado no Rio com sua produtora, a Toscographics,
desde 1999, vai vivendo de arte. "O que paga a roupa e a comida são nossos
filmes", explica, mas sem perder a piada. "Se me pagarem, eu crio até a
turma do Zé Repolho e os vegetais felizes."
De
modo geral, a rotina de um animador profissional no Rio é trabalhar em
peças publicitárias, como a do fictício Zé Repolho,
enquanto tenta tocar seus projetos individuais. É o caso de uma caçula
do grupo, Rosaria Maria Moreira Tavares Ferreira, que, assinando só Rosaria,
participa do Anima Mundi com seu primeiro projeto pessoal, o infantil Tem um
Dragão no Meu Baú, e no coletivo EngoleDuasErvilhas.
Aos 22 anos, ela parece ter 17, idade com que começou na animação.
"Foi tudo muito rápido. Eu já desenhava e, antes de fazer vestibular,
decidi participar de uma oficina do Anima Mundi", conta. Lá, foi indicada
para um curso com os diretores do festival, enturmou-se e já voltou para
casa com trabalho. Hoje atua no ramo de publicidade e faz vinhetas para TV. Volta
ao festival na condição de atração. "Eu me enrolei
toda para criar meu primeiro filme, nunca tinha produzido nada meu, atrasei e
fiz tudo sozinha. Mas foi uma experiência ótima." Parceiro
de Rosaria no curta EngoleDuasErvilhas e autor de Seu Dente e Meu Bico,
também no festival, Marcelo Marão é veterano na profissão
e em participações no Anima Mundi. Ele fundou, em maio de 2003,
a Associação Brasileira de Cinema de Animação e, nos
dias de festival, hospeda um punhado de colegas de outros estados em casa. "A
associação tem cerca de sessenta participantes no Rio, número
equivalente ao de São Paulo, que possui um mercado maior e mais rico",
diz. Os dois lados da ponte aérea têm características distintas,
opina César Coelho, diretor do Anima Mundi. "A produção carioca
sempre foi mais voltada para o trabalho autoral e o humor, enfim, a manifestação
artística. Em São Paulo a produção é mais comercial",
conta. Marcelo Marão já esteve lá e cá. "Formei-me
em desenho industrial na UFRJ, em 1996, fui para São Paulo, que era onde
existia mercado, e, assim que a coisa melhorou no Rio, em 2000, voltei", relata.
Segundo Marão, a evolução de computadores e programas que
baratearam os custos de produção foi fundamental para aumentar o
número de colegas animadores. "Acabou aquela coisa de truca, película,
pagar laboratório. O computador tornou mais simples e barata a formação
de um animador." As
facilidades da tecnologia trouxeram André Castelão para o time de
criadores do Anima Mundi. Ele emplacou o curta de estréia, O Primeiro
João, na programação deste ano. Castelão, 26 anos,
formou-se em desenho industrial, fez cursos de design digital e trabalha com produção
de filmes técnicos em 3D na Petrobras. No ano passado, decidiu cursar pós-graduação
em animação na PUC, na qual são professores os diretores
do Anima Mundi Aida Queiroz, César Coelho e Marcos Magalhães e o
animador Marão. "Tinha de apresentar meu projeto de fim de curso, e a idéia
surgiu de uma conversa com meu vizinho Gerson Soares, enteado de Garrincha, autor
de várias crônicas sobre a vida do jogador. Desenvolvi o projeto
e apresentei, além da monografia, um trailer do filme", conta. Depois que
o projeto foi aprovado, André se empolgou. "Até o ano passado nunca
tinha feito nada em animação, mas resolvi terminar o curta para
o Anima Mundi deste ano. Foi um trabalho enorme que fiz completamente sozinho.
Valeu a pena, pois animação só se aprende fazendo, no dia-a-dia."
A veia artística
de nomes como Allan Sieber, Marcelo Marão, Rosaria e André Castelão
volta e meia serve de matéria-prima para Fábio Soares, diretor da
Conspiração Digital, braço da produtora carioca dedicado
a efeitos para comerciais. "A maioria dos nossos contratos vem de São Paulo,
e lá também se concentra o melhor trabalho de finalização.
Mas, se o assunto é animação, contamos com os parceiros no
Rio", diz. Fábio, bamba em computação gráfica, participa
do Anima Mundi na mostra Porfolio, dedicada a comerciais, com aquele anúncio
em que tatuagens passeiam pelo corpo da modelo Gisele Bündchen. Com longa
carreira na realização de comerciais e efeitos digitais para cinema,
ele ensaia, para breve, um promissor projeto autoral. "Estou me preparando para
dirigir meu primeiro longa-metragem, Pluft, o Fantasminha", revela.
Sucesso comercial
daqueles que fariam inveja ao gaúcho Sieber, Fábio Soares se empolga
como qualquer espectador quando o assunto é o Anima Mundi. "O festival
é o lugar onde as pessoas são apresentadas a um universo rico em
diferentes técnicas e estilos. Fico orgulhoso de participar, logo ali ao
lado dos melhores do mundo. O efeito dessa programação é
maravilhoso, tanto nas minhas filhas pequenas quanto na cabeça de um jovem
disposto a enveredar pela carreira de animador", explica. Em mais uma edição
do Anima Mundi, crianças pequenas, como as filhas de Fábio, e grandes,
como o pai delas e os colegas Sieber, Marão, Rosaria e Castelão,
voltarão a sonhar acordados diante da tela. |