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CRÔNICA
A
rainha
Adriana
Falcão
Dona Ana de Ouro Preto, um subúrbio do Recife, Pernambuco,
quando teve mais um bebê, parou um pouco e pensou.
Colocou então todas as sílabas que existem dentro
de um saco.
Balançou,
balançou, balançou e sorteou.
Na.
Ta.
Ra.
Ney.
E assim ficou o nome da menina.
Natara Ney não entendia muito bem uma coisa ou outra.
Por que seus irmãos tinham nomes normais?
Por que entre as pessoas do mundo também existiam as más?
Por que, meu Pai, tanta dificuldade?
Porque sim.
Então vamos lá.
E haja aperreio, calor, muriçoca, Grupo Escolar, intriga,
fofoca, uma danação que só vendo. E haja necessidade.
E haja coragem.
E Natara cresceu.
Mudou.
Lá se foi.
Trabalhou feito uma
condenada.
Amou, chorou, deu gargalhadas, acendeu muita vela, Graças
a Deus, que era pra ver se o "vamos lá" ia um pouquinho mais
fácil.
Problemas com bebida? Nenhum. Ela bebia. Problemas com a vida? Vivia.
Problemas existenciais? Roberto Carlos.
"Olha,
você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim."
Ela sonhou com ele desde pequena.
Coisa de menina.
Despropósito.
Besteira.
E tinha todos os discos.
E sabia todas as letras.
Gostava de todas as músicas.
Colava foto em agenda.
Não perdia especial de fim de ano.
Vestia azul freqüentemente.
E suspirava.
Primeiro de fevereiro, Rio de Janeiro, show do Rei, vinte e duas
e trinta.
Imagina se ela ia perder.
Tá doida?
Foi e pronto.
Sentou longe, infelizmente.
Mas, na hora em que ele entrou, deu aquele negócio lá
dentro dela, aquele negócio de sempre.
"Eu
te amo, Roberto."
Só se ouviu foi o berro.
Um segundo, dois segundos, dois e meio, dois e setenta e cinco...
"Eu
também te amo."
Ele respondeu pra ela.
Roberto Carlos.
Ele mesmo.
Não acredita?
Pois eu juro.
Agora finalmente ela entendeu.
A sorte de dona Ana sorteou Na Ta Ra Ney só mesmo pra rimar
com Rei.
Parece até que ela sabia que a menina ainda ia ser Rainha
um dia.
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