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12 de fevereiro de 2003
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Paredes coloridas

Grafiteiros fazem arte
nos muros da Zona Sul

Lívia de Almeida

 
André Nazareth/Strana
Rafael, Tomás e Bruno, do FBC: grafiteiros e estudantes de design

Nem só de pichações vivem os muros da Zona Sul do Rio. O grafite, pinturas feitas com tinta spray, começa a conquistar as paredes. São letras gigantes, deformadas a ponto de parecer mais com abstrações, e personagens surrealistas que dão cor à cidade. Às vezes surgem também inscrições zangadas contra o capitalismo e as autoridades. O grafite chegou ao Rio pelos subúrbios. Veio para a Zona Sul pelas mãos de artistas que moram na Favela do Pavãozinho e na da Rocinha e caiu no gosto de uma rapaziada que mora no asfalto, viaja para o exterior e tem curso universitário. Rodrigo Abranches, 24 anos, estudante de design da UniverCidade, foi pichador na adolescência. Um belo dia, já mais velho, passeava de trem pela Holanda quando esbarrou o olhar em grafites. "Fiquei maluco. Nunca tinha visto nada parecido. Saí comprando revistas especializadas", recorda-se. De volta ao Brasil, Rodrigo (ou Rod, como assina) juntou-se aos colegas de faculdade Tomás Viana ("Tos"), Bruno Boghossian ("Br") e Rafael Marini e fundou, há três anos, a equipe de grafite Flesh Back Crew (FBC). "É Flesh Back com E mesmo, para abrasileirar", diz Tomás.

Rafael e Tomás nunca se esqueceram da primeira vez que ousaram pintar na rua. Foi em plena luz do dia, em um muro no Corte do Cantagalo, que passou a ser uma espécie de caderninho de desenho para o FBC. A polícia, é claro, foi em cima. "Eu falei que era um trabalho de faculdade", conta Rafael. Saiu-se bem. Encontros com as autoridades acontecem sempre, mas têm sido, até agora, civilizados. Certa vez, quando faziam uma pintura de 30 metros na entrada do Túnel Rebouças, foram convidados a interromper os trabalhos na hora do rush. A curiosidade dos motoristas estava causando engarrafamento.

O grafite serviu para deslanchar a carreira de designer dos FBCs. Com a Zona Sul como vitrine, acabaram recebendo convites para trabalhos comerciais. Pintaram as boites Bunker e Six, vitrines para a Company. E, desde outubro, montaram seu escritório de design, o Motim. Pilotando micros Macintosh, bolam logomarcas, projetos gráficos e vinhetas para programas esportivos da MTV e da Band. Mas continuam a fazer pinturas na rua, registradas em vídeo. Com tanto suporte, entre os grafiteiros, os meninos do FBC costumam ser apontados como "playboys". "Nós temos cara de playboy, mas somos apenas classe média decadente", diz Tomás. "Mas é verdade que temos um conhecimento técnico que a maioria dos grafiteiros não tem", acrescenta Rafael.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Jairo, da equipe Scrawl: grafite de encomenda para biblioteca no Leblon

Os FBCs não são os únicos que se profissionalizaram. Carlos Esquivel Gomes da Silva, o "Acme", é um dos artistas da tinta spray mais conhecidos na cidade. Morador do Pavãozinho, Acme pintou o antigo Vip Lounge, na Praça General Osório, e já perdeu a conta do número de lojas de jogos eletrônicos que grafitou. No momento, ele se divide entre a vida de caserna – é soldado do Exército – e as atividades artísticas. Mas já pediu baixa. "Estou conseguindo me manter apenas com o grafite", afirma. Acme é autodidata. Faz figuras soturnas e expressivas. Um exemplo está no muro do Hospital Rocha Maia, o desenho de um executivo engravatado que engole outro. "Gosto de fazer figuras porque com elas transmito melhor minhas idéias", afirma Acme.

Outro artista que batalha em direção ao profissionalismo é Jairo Torres Gomes, da equipe Scrawl. Morador de Bangu, Jairo fez um dos mais belos grafites da Zona Sul, encomendado pela Biblioteca Vinícius de Morais, no Leblon. É uma celebração em cores vivas do amor à leitura e à cidade. "Quando eu estava pintando, as pessoas paravam para elogiar", conta Jairo, que ganhou pelo trabalho apenas as tintas e uma ajuda de custo para alimentação. Em seu bairro, pintou uma escola inteira. Ao contrário do pessoal do FBC, Jairo luta para conseguir sprays – cada um custa cerca de 10 reais – e por isso desenvolveu uma técnica para gastar pouca tinta, com uma base de látex branco misturado com pigmentos azuis. Os trabalhos em azul viraram sua marca registrada. "A gente precisa usar a criatividade para continuar praticando nossa arte com pouco dinheiro", diz.

 

Lição de grafite na Mangueira

 
Dilmar Cavalher/Strana
Fábio Ema na Mangueira: aulas para trinta garotos

O grafiteiro Fábio Guimarães da Silva, o "Ema", é um dos gurus da arte de colorir paredes no Rio. Costuma se apresentar com o grupo O Rappa, fazendo pinturas com spray durante o show. Fora dos palcos, ele decidiu usar o grafite como um instrumento para fazer a cabeça da meninada que vive em comunidades carentes. Ele preside a ONG Associação Sobrados de Arte e Cultura, organizada com a ajuda do amigo Marcelo Yuka. Desde janeiro, ele abriu as portas de uma escola de grafite, na Mangueira, que já atende trinta meninos de 10 anos. "Aqui eles vão descobrir como se expressar através da arte", diz Ema. A escola funciona em um vestiário abandonado, colorido por dentro e por fora, onde também acontecem aulas de jiu-jítsu. No piso inferior, Ema quer fazer uma sala de vídeo. Por enquanto, todas as despesas com material são bancadas exclusivamente por ele. "Como não sustento uma família, o que sobra do dinheiro que ganho com os shows eu gasto em papel, hidrocor e lápis de cera", diz o grafiteiro, que está buscando apoio para estender as lições a mais garotos. "Quando abrimos as matrículas, fomos procurados por 120 candidatos. O projeto inclui ainda aulas de teatro, capoeira e rap", conta.

         
     
 
 
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