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CIDADE
Paredes
coloridas
Grafiteiros
fazem arte
nos
muros da Zona Sul
Lívia de Almeida
André
Nazareth/Strana
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| Rafael,
Tomás e Bruno, do FBC: grafiteiros
e estudantes de design |
Nem
só de pichações vivem os muros da Zona Sul
do Rio. O grafite, pinturas feitas com tinta spray, começa
a conquistar as paredes. São letras gigantes, deformadas
a ponto de parecer mais com abstrações, e personagens
surrealistas que dão cor à cidade. Às vezes
surgem também inscrições zangadas contra o
capitalismo e as autoridades. O grafite chegou ao Rio pelos subúrbios.
Veio para a Zona Sul pelas mãos de artistas que moram na
Favela do Pavãozinho e na da Rocinha e caiu no gosto de uma
rapaziada que mora no asfalto, viaja para o exterior e tem curso
universitário. Rodrigo Abranches, 24 anos, estudante de design
da UniverCidade, foi pichador na adolescência. Um belo dia,
já mais velho, passeava de trem pela Holanda quando esbarrou
o olhar em grafites. "Fiquei maluco. Nunca tinha visto nada parecido.
Saí comprando revistas especializadas", recorda-se. De volta
ao Brasil, Rodrigo (ou Rod, como assina) juntou-se aos colegas de
faculdade Tomás Viana ("Tos"), Bruno Boghossian ("Br") e
Rafael Marini e fundou, há três anos, a equipe de grafite
Flesh Back Crew (FBC). "É Flesh Back com E mesmo, para abrasileirar",
diz Tomás.
Rafael e Tomás nunca se esqueceram da primeira vez que ousaram
pintar na rua. Foi em plena luz do dia, em um muro no Corte do Cantagalo,
que passou a ser uma espécie de caderninho de desenho para
o FBC. A polícia, é claro, foi em cima. "Eu falei
que era um trabalho de faculdade", conta Rafael. Saiu-se bem. Encontros
com as autoridades acontecem sempre, mas têm sido, até
agora, civilizados. Certa vez, quando faziam uma pintura de 30 metros
na entrada do Túnel Rebouças, foram convidados a interromper
os trabalhos na hora do rush. A curiosidade dos motoristas estava
causando engarrafamento.
O grafite serviu para deslanchar a carreira de designer dos FBCs.
Com a Zona Sul como vitrine, acabaram recebendo convites para trabalhos
comerciais. Pintaram as boites Bunker e Six, vitrines para a Company.
E, desde outubro, montaram seu escritório de design, o Motim.
Pilotando micros Macintosh, bolam logomarcas, projetos gráficos
e vinhetas para programas esportivos da MTV e da Band. Mas continuam
a fazer pinturas na rua, registradas em vídeo. Com tanto
suporte, entre os grafiteiros, os meninos do FBC costumam ser apontados
como "playboys". "Nós temos cara de playboy, mas somos apenas
classe média decadente", diz Tomás. "Mas é
verdade que temos um conhecimento técnico que a maioria dos
grafiteiros não tem", acrescenta Rafael.
Dilmar Cavalher/Strana
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| Jairo,
da equipe Scrawl: grafite de encomenda
para biblioteca no Leblon |
Os
FBCs não são os únicos que se profissionalizaram.
Carlos Esquivel Gomes da Silva, o "Acme", é um dos artistas
da tinta spray mais conhecidos na cidade. Morador do Pavãozinho,
Acme pintou o antigo Vip Lounge, na Praça General Osório,
e já perdeu a conta do número de lojas de jogos eletrônicos
que grafitou. No momento, ele se divide entre a vida de caserna
é soldado do Exército e as atividades
artísticas. Mas já pediu baixa. "Estou conseguindo
me manter apenas com o grafite", afirma. Acme é autodidata.
Faz figuras soturnas e expressivas. Um exemplo está no muro
do Hospital Rocha Maia, o desenho de um executivo engravatado que
engole outro. "Gosto de fazer figuras porque com elas transmito
melhor minhas idéias", afirma Acme.
Outro artista que batalha em direção ao profissionalismo
é Jairo Torres Gomes, da equipe Scrawl. Morador de Bangu,
Jairo fez um dos mais belos grafites da Zona Sul, encomendado pela
Biblioteca Vinícius de Morais, no Leblon. É uma celebração
em cores vivas do amor à leitura e à cidade. "Quando
eu estava pintando, as pessoas paravam para elogiar", conta Jairo,
que ganhou pelo trabalho apenas as tintas e uma ajuda de custo para
alimentação. Em seu bairro, pintou uma escola inteira.
Ao contrário do pessoal do FBC, Jairo luta para conseguir
sprays cada um custa cerca de 10 reais e por isso
desenvolveu uma técnica para gastar pouca tinta, com uma
base de látex branco misturado com pigmentos azuis. Os trabalhos
em azul viraram sua marca registrada. "A gente precisa usar a criatividade
para continuar praticando nossa arte com pouco dinheiro", diz.
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Lição
de grafite na Mangueira
Dilmar Cavalher/Strana
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| Fábio
Ema na Mangueira:
aulas para trinta garotos |
O
grafiteiro Fábio Guimarães da Silva, o "Ema",
é um dos gurus da arte de colorir paredes no Rio. Costuma
se apresentar com o grupo O Rappa, fazendo pinturas com spray
durante o show. Fora dos palcos, ele decidiu usar o grafite
como um instrumento para fazer a cabeça da meninada
que vive em comunidades carentes. Ele preside a ONG Associação
Sobrados de Arte e Cultura, organizada com a ajuda do amigo
Marcelo Yuka. Desde janeiro, ele abriu as portas de uma escola
de grafite, na Mangueira, que já atende trinta meninos
de 10 anos. "Aqui eles vão descobrir como se expressar
através da arte", diz Ema. A escola funciona em um
vestiário abandonado, colorido por dentro e por fora,
onde também acontecem aulas de jiu-jítsu. No
piso inferior, Ema quer fazer uma sala de vídeo. Por
enquanto, todas as despesas com material são bancadas
exclusivamente por ele. "Como não sustento uma família,
o que sobra do dinheiro que ganho com os shows eu gasto em
papel, hidrocor e lápis de cera", diz o grafiteiro,
que está buscando apoio para estender as lições
a mais garotos. "Quando abrimos as matrículas, fomos
procurados por 120 candidatos. O projeto inclui ainda aulas
de teatro, capoeira e rap", conta.
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