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CRÔNICA
O
vencedor
João
Emanuel Carneiro
Eduardo
Jorge tinha 38 anos, era vice-presidente de uma multinacional, morava
num excelente apartamento de um por andar e era casado com uma mulher
deslumbrante que o amava. Em suma, uma vida mais que perfeita.
Uma
vez, almoçando num restaurante perto do trabalho, Eduardo
deu de cara com Fabrício, colega de faculdade que tinha sido
admitido na mesma época que ele na firma. Eduardo tornou-se
um executivo importante e Fabrício não passava de
um anônimo funcionário. O pobre Fabrício chorava
em bicas na mesinha do restaurante. Sua mulher o tinha abandonado.
E ele ainda a amava desesperadamente.
O
encontro com Fabrício gerou um estranho sentimento em Eduardo.
Ao invés de ficar com pena daquele pobre perdedor, Eduardo
ficou com inveja. Há muito tempo ele não sentia nada
tão forte por ninguém, nem por nada. Fabrício,
em sua tragédia, estava absolutamente vivo; ele, completamente
anestesiado pela sua vidinha conveniente.
Ninguém
entendeu o súbito acesso de depressão de Eduardo,
que se trancou no quarto por dias a fio, recusava-se a comer e a
trocar qualquer palavra com sua deslumbrante amorosa esposa.
Três
dias depois, Eduardo saiu do quarto. Estava pálido e magro.
A primeira coisa que fez foi apanhar o telefone e discar para o
doutor Barbosa Pereira, presidente da empresa em que ele trabalhava:
Alô, doutor Barbosa, sou eu, Eduardo Jorge.
Pois não, Eduardo...
Estou ligando pra mandar o senhor se catar!
Como é que é!?
Vai se catar, velho babão!
E
bateu o telefone na cara do patrão. A mulher de Eduardo estava
boquiaberta diante dele:
O que foi que você fez? Ficou maluco?
Quero ficar desempregado, dá licença!? E tem mais:
vou me separar de você!
Como é que é?
Me apaixonei por outra mulher.
Era
mentira. Não havia outra mulher. Mas Eduardo não queria
dar a menor chance para que ele mesmo pudesse voltar atrás
em sua decisão radical de subverter o jogo de sua própria
vida. Xingar o patrão e dizer à mulher que se apaixonou
por outra era o melhor atalho para um caminho sem volta.
O
próximo passo era a venda do apartamento. O corretor que
Eduardo chamou percebeu logo que ele estava louco para vender o
apartamento e fez uma avaliação por baixo:
Acho que dá pra conseguir uns 600.000
neste apartamento.
O
corretor ficou esperando que Eduardo subisse o preço, mas
Eduardo responde calmamente:
Eu vendo por menos.
O
corretor quase caiu pra trás:
Quatrocentos mil?
Menos.
Trezentos mil?
É muito.
Duzentos?
Duzentos está ótimo.
O
apartamento foi vendido em quatro horas.
A
partir desse ponto, o que dizer da vida de Eduardo? Ele não
foi para o sul da Bahia virar pescador. Não se tornou ator
de filme erótico nem dançarino de um espetáculo
em Las Vegas. Sua vida não teve nenhum grande clímax,
nenhum plot dramático interessante.
É
certo que ele sofreu, chorou muito, fez das tripas coração,
se arrependeu diversas vezes por ter deixado aquela vida tranqüila
de executivo pra trás. Deu com os burros na água,
com a cara no muro, com os cornos no chão. Em suma, deu errado.
Na
noite em que sua quarta mulher o abandonou, lá estava Eduardo
completamente bêbado, chorando em bicas, exatamente como seu
colega Fabrício anos atrás. Triste, bêbado,
mas completamente vivo.
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