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11 de junho de 2003
REPORTAGEM DE CAPA
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CIDADE
BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
   

CRÔNICA

O vencedor

João Emanuel Carneiro

Eduardo Jorge tinha 38 anos, era vice-presidente de uma multinacional, morava num excelente apartamento de um por andar e era casado com uma mulher deslumbrante que o amava. Em suma, uma vida mais que perfeita.

Uma vez, almoçando num restaurante perto do trabalho, Eduardo deu de cara com Fabrício, colega de faculdade que tinha sido admitido na mesma época que ele na firma. Eduardo tornou-se um executivo importante e Fabrício não passava de um anônimo funcionário. O pobre Fabrício chorava em bicas na mesinha do restaurante. Sua mulher o tinha abandonado. E ele ainda a amava desesperadamente.

O encontro com Fabrício gerou um estranho sentimento em Eduardo. Ao invés de ficar com pena daquele pobre perdedor, Eduardo ficou com inveja. Há muito tempo ele não sentia nada tão forte por ninguém, nem por nada. Fabrício, em sua tragédia, estava absolutamente vivo; ele, completamente anestesiado pela sua vidinha conveniente.

Ninguém entendeu o súbito acesso de depressão de Eduardo, que se trancou no quarto por dias a fio, recusava-se a comer e a trocar qualquer palavra com sua deslumbrante amorosa esposa.

Três dias depois, Eduardo saiu do quarto. Estava pálido e magro. A primeira coisa que fez foi apanhar o telefone e discar para o doutor Barbosa Pereira, presidente da empresa em que ele trabalhava:

– Alô, doutor Barbosa, sou eu, Eduardo Jorge.

– Pois não, Eduardo...

– Estou ligando pra mandar o senhor se catar!

– Como é que é!?

– Vai se catar, velho babão!

E bateu o telefone na cara do patrão. A mulher de Eduardo estava boquiaberta diante dele:

– O que foi que você fez? Ficou maluco?

– Quero ficar desempregado, dá licença!? E tem mais: vou me separar de você!

– Como é que é?

– Me apaixonei por outra mulher.

Era mentira. Não havia outra mulher. Mas Eduardo não queria dar a menor chance para que ele mesmo pudesse voltar atrás em sua decisão radical de subverter o jogo de sua própria vida. Xingar o patrão e dizer à mulher que se apaixonou por outra era o melhor atalho para um caminho sem volta.

O próximo passo era a venda do apartamento. O corretor que Eduardo chamou percebeu logo que ele estava louco para vender o apartamento e fez uma avaliação por baixo:

– Acho que dá pra conseguir uns 600.000 neste apartamento.

O corretor ficou esperando que Eduardo subisse o preço, mas Eduardo responde calmamente:

– Eu vendo por menos.

O corretor quase caiu pra trás:

– Quatrocentos mil?

– Menos.

– Trezentos mil?

– É muito.

– Duzentos?

– Duzentos está ótimo.

O apartamento foi vendido em quatro horas.

A partir desse ponto, o que dizer da vida de Eduardo? Ele não foi para o sul da Bahia virar pescador. Não se tornou ator de filme erótico nem dançarino de um espetáculo em Las Vegas. Sua vida não teve nenhum grande clímax, nenhum plot dramático interessante.

É certo que ele sofreu, chorou muito, fez das tripas coração, se arrependeu diversas vezes por ter deixado aquela vida tranqüila de executivo pra trás. Deu com os burros na água, com a cara no muro, com os cornos no chão. Em suma, deu errado.

Na noite em que sua quarta mulher o abandonou, lá estava Eduardo completamente bêbado, chorando em bicas, exatamente como seu colega Fabrício anos atrás. Triste, bêbado, mas completamente vivo.

         
     
 
 
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