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Aos 24 anos, a fisioterapeuta Renata Cavalcanti tem currículo invejável. Formou-se por uma ótima universidade, domina quatro idiomas, trabalha em três importantes hospitais. É bonita, simpática, independente. Com esses atributos, fica difícil imaginar que a moça, solteiríssima, tenha dificuldade para conhecer pessoas. Mas ela tem. Renata acaba de bater à porta de uma elegante empresa de relacionamentos. Há quinze dias pagou 190 reais para participar de uma reunião para solteiros, num sofisticado restaurante da cidade. Entre uma e outra conversa regada a flûtes de prosecco, saiu de lá impressionada com a quantidade de pessoas bonitas, bem-sucedidas e interessantes que estavam no mesmo barco. Renata constatou na prática uma tendência cada vez mais forte na cidade. Sem tempo, vocação nem paciência para a paquera tradicional, uma parcela dos cariocas está buscando namoro em agências, sites de encontros e reuniões de solteiros. Tudo de muito bom gosto. "O melhor encontro é aquele que se dá ao acaso, sem dúvida. O problema é que o acaso não acontece quando a gente quer, não é? Então, o jeito é forçar um pouquinho o destino e provocar o encontro", teoriza Guilherme, empresário de 48 anos que já experimentou algumas dessas formas pouco convencionais de conhecer pessoas. O também empresário Hélcio Hime, 34 anos, faz coro. "Muita gente pode pensar que é a última cartada. Bobagem. É só mais uma opção." Acostumada a ouvir muita reclamação sobre desencontros amorosos, a psicóloga Teresinha Mello da Silveira, do Instituto de Psicologia da Uerj, concorda. "É um caminho a mais. Com uma vantagem: as pessoas sabem que quem vai ali está mesmo disposto a conhecer outras."
O cupido por encomenda pode ter vários nomes e formatos. No caso de Renata e Hélcio, ele atende pelo nome de Vai Dar Certo, empresa criada pela jornalista e terapeuta Jael Coaracy. A proposta é no mínimo inusitada. Depois de se inscrever na internet e passar por uma sabatina, Renata foi convidada para um encontro no 2º andar do restaurante Osteria dell'Angolo, em Ipanema. Lá, foi levada a uma mesa onde estavam nove mulheres. Enquanto isso, dez homens se reuniam noutro canto do restaurante. Renata conversou, bebericou, comeu e então começou a brincadeira. Cada mulher foi conduzida a uma mesa separada. Como num revezamento, os homens percorreram, uma a uma, as mesas do grupo, apresentando-se e conversando com cada uma das mulheres. Papos de dez minutos, ao fim dos quais soava uma sineta.
O rodízio não é exclusividade da Vai Dar Certo. Inspirado num modelo francês, o site 7minutos lançou-se no mercado no ano passado promovendo encontros semelhantes, mas com sete casais e conversas de sete minutos de duração. "É pouco para conhecer alguém, sem dúvida, mas o suficiente para saber se há atração ou desinteresse", aposta o francês Emeric Chevalier, um dos sócios do projeto. O 7minutos é mais descontraído que o Vai Dar Certo. Os encontros acontecem em locais como os restaurantes 00, na Gávea, e Dom João, no Horto. Para participar, pagam-se 40 reais, incluindo uma bebida de cortesia. O consumo a mais fica por conta de cada um. "Fui por indicação de um amigo. Achei a idéia muito criativa. O encontro foi no Caroline Café do Centro. Começou às 20 horas e foi tão bom que o tempo das conversas terminou, os organizadores foram embora e a gente ficou. Só saímos de lá por volta da meia-noite", lembra o empresário Flávio. Das sete mulheres com quem falou, Flávio é categórico: quatro eram mesmo bonitas. E uma delas, uma dentista, acabou virando namorada. "Em menos de um ano, já temos mais de 2.000 cadastrados 800 deles no Rio de Janeiro", comemora Emeric. Há propostas mais discretas. Como a da agência Lunch for Two, há sete anos no mercado. Por 1.980 reais, assina-se um contrato de um ano em que a agência se encarrega de encontrar pessoas compatíveis com o perfil desejado pelo cliente, incluindo aí religião, aparência, gostos, planos de vida a dois. Tão logo a empresa encontra duas pessoas com perfis que se encaixam, entra em contato com os pretendentes para marcar o encontro. Sempre um almoço. A agência faz as reservas e avisa os clientes. O resto fica por conta dos dois. Caberá a eles decidir se trocam telefones ou marcam um segundo encontro. "Já tive almoços deliciosos, que passaram num segundo, e outros que pareciam não ter fim, com papos chatíssimos. É questão de sorte", diz o empresário Guilherme. A Lunch for Two orgulha-se de já ter aproximado pessoas cheias de afinidades que, provavelmente, jamais se conheceriam se dependessem apenas do destino. Mas também já patrocinou episódios desagradáveis, como o da mulher que ao chegar ao restaurante deparou com o ex-marido. Ioná Schechter, dona da empresa, ri da coincidência. E afirma que, ao contrário do caso, 70% dos almoços levam a alguma forma de relacionamento e 30% deles duram mais de um ano. Garante também que todos os seus clientes têm os dados pessoais minuciosamente checados, para barrar picaretas e mentirosos. Apesar da sofisticação dos serviços e do perfil dos pretendentes, muita gente ainda torce o nariz para o cupido por encomenda. Por isso, preferem se esconder atrás de nomes falsos e não expor o rosto. "Infelizmente ainda há um preconceito muito grande quando a gente lida com o não-convencional", analisa Carla Leitão, psicóloga da PUC que estuda novas formas de relacionamento. O principal alvo de estudo de Carla é mesmo a internet, onde os sites de relacionamentos são a grande febre do momento. O maior deles, o carioca www.parperfeito.com, já superou a marca de 1,6 milhão de cadastrados em todo o país mais de 250.000 só no Rio. "Basta percorrer as faculdades e verificar. É enorme a quantidade de pessoas inscritas nos sites de encontros", afirma Carla. Ela tem razão. De todos os usuários do Par Perfeito, 33% cursam faculdade e outros 33% têm curso superior ou algum tipo de pós-graduação.
Apesar disso, usuários e estudiosos garantem: conseguir alguém muito legal na internet é achar agulha no palheiro. Mas há quem ache. Na primeira semana em que acessou o Par Perfeito, a empresária Marisa do Amaral Gomes, 26 anos, identificada como "mary gomes", encontrou o consultor de empresas Caio André Marsili, 27, na rede o "shaolin". Depois de teclarem por alguns dias, mary e shaolin trocaram telefones e marcaram um encontro, desconfiadíssimos. "Como tenho identificador de chamadas em casa, confirmei o telefone dele", conta Marisa. "Ela pensa que eu não notei, mas mandou a irmã até o portão só para marcar a minha cara", provoca Caio. O mais constrangedor, porém, veio em seguida. A professora Geisa Gomes, mãe de Marisa, estava no teatro enquanto a filha se aventurava com o desconhecido. Coração de mãe, Geisa deixou a peça de lado e deu um jeitinho de acompanhar a história. "Fiquei ligando do teatro para o celular dela. Minha filha estava saindo com um rapaz que ninguém sabia quem era, ora." Geisa jamais se imaginou sogra de um namorado.com. No próximo mês, Marisa e Caio completam um ano de namoro. E vão muito bem, obrigado.
Com menos tempo de estrada, o empresário paulista Leandro Siqueira Faria, 28 anos, há três no Rio, e a tecnóloga em processamento de dados Elaine Cubeiro dos Santos, 26, também comemoram o encontro via internet. Juntos desde março, ninguém suspeitaria que os dois se conheceram teclando. Mas foi assim, protegidos pelos pseudônimos de executivo81 e loura_marj, que eles se conheceram. "Trocamos foto, falamos por telefone. Quando decidimos nos encontrar, não tive dúvidas. Marquei numa happy hour bem movimentada do Centro. Por segurança", conta Elaine. Apesar das histórias com final feliz, muita gente que se arrisca na rede coleciona pequenos desastres. Como o caso da garota que passou semanas teclando com um rapaz, marcou um encontro e só na hora da despedida descobriu que ele era casado. Conhecer pessoas na internet, garantem os usuários, é trafegar em terreno ardiloso. Protegido pelo anonimato, o pretendente pode ser um poço de mentiras. Mas, como a ordem na rede é teclar primeiro e encontrar depois, há sempre a possibilidade de ir conhecendo a pessoa aos poucos. E descartando quem não se quer. No jogo da sedução, a julgar pelas reclamações de ambas as partes, faltam pessoas disponíveis na cidade. Mas o último censo garante: quase 2 milhões de cariocas adultos, desses que a gente vê no cinema, no bar, no sinal de trânsito, estão oficialmente desimpedidos. São solteiros, divorciados, desquitados e viúvos, com idade entre 20 e 59 anos. Entre os homens, são mais de 861.000. Entre as mulheres, 1 milhão. É claro que nem todos estão por aí dando sopa. Muitos são comprometidos, mesmo que não no papel. Mas ainda há muita gente disponível. É só procurar. Guilherme não pretende desistir tão cedo. Solteiro há seis anos, desde que se separou, ele dá a dica: "Controle a ansiedade e aproveite. Enquanto seu Lobo não vem, vamos passear no bosque".
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