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11 de abril de 2007

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CRÔNICA

SOS Tom Jobim

Tutty Vasques


Estou tomando coragem para ligar pra Danuza Leão, que, afinal, é a mãe da criança. Foi ela a principal responsável pelo movimento que rebatizou com o nome Tom Jobim o até então Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão. "Nunca mais você vai chegar à cidade sem lembrar de Tom – e com muita honra", escreveu a colunista ao sair toda orgulhosa da solenidade em que FHC sacramentou a justa homenagem. Na época, janeiro de 1999, viagens aéreas suscitavam boas lembranças, daí a simpatia geral pela idéia de associar o gênio musical da bossa nova ao aeroporto que o inspirou na aterrissagem de Samba do Avião.

Oito anos depois, justo quando o carioca começava a se habituar com o nome do maestro impresso nos bilhetes de avião, Tom Jobim virou apelido regional desse inferno que todos conhecem e, se possível, evitam. Quem pode quer distância do Tom Jobim, ainda mais nessas datas de risco iminente de caos aéreo em todo o país. A persistir o ritmo alucinante da bagunça em curso, daqui a dez, quinze anos Tom Jobim terá mais fama de aeroporto do que sucessos na boca do povo.

É sobre isso que eu quero falar com a Danuza. A gente não pode deixar que um homem desses vire uma espécie de Cumbica carioca, referência de mal-estar, descaso, lambança, sofrimento, irritação, histeria... "Droga de Congonhas" é uma coisa; "porcaria de Tom Jobim" é outra, muito mais grave, impossível não ligar o nome do aeroporto à pessoa do maestro. Ouça, cara colega, ouça a voz rouca das salas de embarque: "Não agüento mais o Tom Jobim"; "maldito Tom Jobim"; "Tom Jobim nunca mais"...

E aí, Danuza, como diz o Nizan Guanaes, "não vamos fazer nada?". Precisamos dar um jeito de tirar o maestro dessa roubada, posto que não há nenhuma perspectiva de final feliz para a crise no setor aéreo. Proponho que se lance logo uma campanha para eleger outro nome para o aeroporto internacional – o Rio de Janeiro está cheio de homenageáveis com perfil mais apropriado ao estado de coisas a que chegamos.

Aeroporto Internacional Eurico Miranda, por exemplo. Não creio que o ex-deputado tenha alguma coisa contra, está mais que acostumado a ouvir seu nome associado a desaforos. Páreo duro com Sérgio Naya e Anthony Garotinho, sérios candidatos à sucessão de Tom Jobim (se, onde quer que esteja, o maestro estiver nos ouvindo, há de compreender que estamos fazendo isso para o bem dele).

Aeroporto Internacional Rosinha Matheus, já pensou? Vamos lá, leitor, me ajude a raciocinar: quem mais tem a cara do caos em nossa cidade? Não vale Fernandinho Beira-Mar ou qualquer outra alcunha do crime organizado, que pode não gostar de se consagrar por tamanha desorganização.

Não precisa também ser, necessariamente, nome próprio de alguém. Valem designações genéricas do tipo Casa da Sogra, Mãe Joana, Salve-se Quem Puder, Sai de Baixo, Fim do Mundo, Viajou na Maionese... Aeroporto Internacional Tenha a Santa Paciência, que tal? Em último caso, que volte a ser Galeão, que, a exemplo de Cumbica ou Congonhas, não tem mãe nem passado que se possa denegrir. Aeroporto Internacional da Balbúrdia também não é mau! Tom Jobim é que não pode continuar.

Pobrezinho! Morreu sem imaginar que um dia os versos "Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro" soariam paradoxais a quem chega de avião. Lá de cima, a vista da cidade desperta apreensão. "Água brilhando, olha a pista chegando / e vamos nós..." Se ferrar é coisa comum nos procedimentos de solo. Tem gente que só relaxa quando chega à Linha Vermelha, bala perdida já não é motivo maior de medo lá para as bandas da Ilha do Governador. Tem coisa pior, pode crer que tem.

Tom Jobim dizia que só fez as músicas que fez porque, na época, o Brasil tinha mais passarinho do que gente. Os aeroportos, inclusive, eram muito menores e tranqüilos. Só assim a gente entende para que tanto céu, para que tanto mar em suas canções. Antes que a garotada comece a achar que Samba do Avião é aquele que diz "É pau, é pedra, é o fim do caminho", precisamos dar um jeito de tirar o nome Tom Jobim dessa confusão de gente amontoada sobre malas pelos cantos dos aeroportos.

Peço sua bênção, querida Danuza!

P.S.: Sim, eu sei, Santos Dumont também não merece, mas alguma culpa nesse cartório ele tem. Se não tivesse inventado o avião...


e-mail:
tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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