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REPORTAGEM DE CAPA
Das ruas para as vitrines Grifes, arquitetos e galerias de
arte rendem-se ao boom do grafite Fátima Sá
e Livia de Almeida
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Smael
(à esq.) e Piá: o
grafite vira obra de arte
em telas que custam
até 10 000 reais
na galeria Haus | A
bonequinha de traços orientais e cabelo esvoaçante espalhou-se de
muro em muro. Hoje, é um fenômeno de marketing. Criada pelo grafiteiro
Tomaz Viana, o "Toz", 30 anos, a boneca Niña já decora apartamentos
à beira-mar, ilustra camisetas e virou obra de arte à venda na Galeria
Haus Contemporânea. Não é caso isolado. Nos últimos
anos, o grafite carioca vem extrapolando os limites dos muros, ganhou status e
tornou-se objeto de consumo de adolescentes e jovens. "O grafite virou uma estética",
diz Carlos Esquivel, 27 anos, o "Acme", veterano na tinta spray. Exemplos não
faltam. Na sofisticada loja Clube Chocolate, chamam atenção as estampas
que o grafiteiro Mateu Velasco, o "TM1", 26 anos, criou para a estilista Adriana
Barra. Na mostra Artefacto do ano passado, o arquiteto Geraldo Lamego projetou
um home theater em que se destacava uma parede coberta pelo grafite abstrato de
Ismael Vagner de Lima, 26 anos, o "Smael". No circuito das artes plásticas,
telas de grafiteiros cariocas (Toz e Smael entre eles) chegam a valer 10.000 reais.
Felipe Varanda/Strana
 | | Mateu
Velasco: dos muros para as
vitrines da Clube Chocolate | A
estética do spray fascina tanto jovens moradores do subúrbio e de
comunidades carentes quanto da Zona Sul. O grupo Flesh Beck Crew, do qual Toz
faz parte, talvez seja o exemplo mais bem-sucedido de que o grafite ganhou status.
Colegas de faculdade, os integrantes originais se conheceram em 1998, quando estudavam
desenho industrial na UniverCidade. O grupo fundou o próprio estúdio
de design, o Motim. Depois de fazer projetos para a Coca-Cola, a Blue Man e a
H.Stern, decidiu criar uma grife, que estreou com elogiado desfile no Rio Moda
Hype, evento do Fashion Rio destinado aos novos talentos. O poder de fogo da turma
seria confirmado a seguir. Para decorar a loja, Bruno Bogossian, o "BR", e Toz
pintaram pequenos objetos, telas e as caixas de papelão das latas de spray.
"Era só decoração. A gente não pensava em ganhar dinheiro
com aquilo, mas as pessoas começaram a querer comprar", lembra Bruno. Um
dos compradores foi o cantor Lulu Santos. A atriz Vera Holtz também aprovou
o traço da turma. Levou uma cadeira para o grupo pintar.
Divulgação
 | | Grafite
décor: spray
com luxo em
projeto de Geraldo
Lamego | Tanta
projeção reduziu o estigma, sem dúvida, mas não livrou
o grafite da pecha de vandalismo. Muita gente ainda confunde os coloridos desenhos
que decoram muros, viadutos e fachadas com pichação. Que fique claro:
a pichação tem por objetivo emporcalhar o patrimônio e dar
publicidade à assinatura do vândalo. É prática clandestina,
que ocorre na calada da noite. O grafite, em vez disso, busca a beleza. É
um trabalho delicado, que consome horas de dedicação. Usa a luz
do dia e procura por espaços deteriorados, que quase sempre se revitalizam
após os primeiros espirros de tinta. Muitos donos de muros concordam com
a pintura. E há cada vez mais cariocas simpáticos ao assunto. "Hoje
em dia, até policial vem dar os parabéns, fica olhando enquanto
a gente pinta, elogia. Muitos já diferenciam o grafite da pichação",
diz Maíra Botelho, 21 anos, a "Ira", integrante do único grupo da
cidade formado apenas por meninas grafiteiras a TPM Crew. "O que era político
virou artístico", comenta Toz.
Felipe Varanda/Strana
 | | Sonho
de consumo: João Victor ganhou a pintura de presente dos pais
| O
grafite começou a ter projeção no Rio nos anos 90. Ganhou
força no município de São Gonçalo e em favelas e bairros
do subúrbio do Rio. Acme, com Fábio Ema, é um dos veteranos
dessa primeira geração, uma referência para quem desponta
agora e tem um olho na parede e outro nas múltiplas aplicações
da técnica em design e moda. Cria do Pavão-Pavãozinho, autodidata,
Acme já fez capa de disco, cartazes para festas, cenários, ilustrações.
Também dá aulas de grafite e ainda encontra tempo para pintar nos
becos da favela onde mora. Diferentemente dos primeiros tempos, quando os artistas
do spray torciam o nariz para suportes tradicionais como a tela e o emprego de
técnicas variadas, Acme acha que o grafite pode comportar tudo. "Grafite
é uma atitude", afirma ele, o primeiro grafiteiro a entrar para o time
de artistas da Haus. Na época da inauguração da galeria,
o dono, Marcus Aurelius de Macedo Soares, viu fotos do trabalho de Acme e ficou
encantado. Encomendou dez telas ao grafiteiro, que foram expostas na primeira
mostra da galeria. Foi
Acme quem convidou Smael a exibir seu trabalho para o dono da Haus. Smael, por
sua vez, convidou "Piá" (ou Marcos Ribeiro, 31 anos) e depois Toz, ambos
da Flesh Beck Crew. "Entre doze artistas que representamos, quatro são
grafiteiros. Suas obras custam entre 2.000 e 10.000 reais e têm muito boa
aceitação comercial", diz o galerista. Foi Marcus Aurelius que fez
a ponte entre Smael e o arquiteto Geraldo Lamego. "Até então, só
se via grafite em quarto de criança e adolescente. E trata-se de uma técnica
muito versátil, que pode ser usada com mais liberdade", comenta Lamego.
 | Felipe
Varanda/Strana
 | | Na
passarela: depois de dominar os
muros da Zona Sul, o grupo Flesh Beck
Crew (à dir.) virou grife do Rio
Moda Hype (acima). Um sucesso | Smael
começou a se interessar pelo grafite na época em que freqüentava
a festa hip hop Zoeira, na Sinuca da Lapa, nos anos 90. Voltou a desenhar, coisa
que não fazia desde a infância, e em 1999 grafitou sua primeira parede.
Como queria fazer uma letra diferente, começou com caracteres japoneses.
Depois, passou para os coreanos. Quando chegou ao português, suas letras
já estavam tão deformadas que beiravam a abstração.
"Foi um processo intuitivo. Agora estou estudando arte contemporânea e vou
fazer um curso de história da arte no Parque Lage", diz. A partir da exposição
na Haus, seu trabalho foi selecionado para a Gemac, feira de arte contemporânea
em Paris, e também foi exposto na Holanda e na Bélgica. Além
das pinturas, ele trabalha com moda. Faz estampas para camisetas da grife Reserva
e planeja desenvolver uma linha própria, misturando pintura e bordados
que ele mesmo faz. Além de pintar e bordar, Smael mantém a rotina
de grafitar muros da cidade com os amigos da Santa Crew e da Nação
Crew, as duas turmas de artistas das quais faz parte. "A grafitagem é o
futebol do domingo", diz.
Dilmar Cavalher/Strana
 | Felipe
Varanda/Strana
 | | O
veterano Acme: "O grafite virou uma estética" | Lynn:
grafiteira, modelo e aspirante a atriz | A
busca por novas referências em contato com grafiteiros de outros países
tem sido uma preocupação comum entre os artistas do spray. Os veteranos
Fábio Ema e Acme estiveram na França no ano passado. Mateu Velasco,
com cinco anos de grafite, também esteve lá. Em fevereiro, participou
de três coletivas e uma individual. "Lá tem artista demais para muro
de menos. Nesse aspecto, o Rio é um paraíso", conta ele, que foi
ainda a Lisboa, onde pintou em favelas com artistas portugueses. Mateu é
representante da nova geração do grafite. Criado em Laranjeiras,
ex-aluno do Colégio São Vicente de Paulo, fez curso de desenho industrial
na PUC. Foi na faculdade que se encantou com a técnica e fundou com colegas
a El Ninho. Com o que aprendeu com o grafite, desenvolveu um estilo próprio
de ilustração. Um de seus painéis foi escolhido para enfeitar
o muro da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Já
pintou várias vitrines e fez cenário para a estilista Isabela Capeto.
Os vestidos de Adriana Barra, para quem criou estampas em parceria com a artista
Renata Americano, chegam a custar quase 2.500 reais. Atualmente,
não faltam vitrines para o grafite. Clivson da Silva, 24 anos, o "Akuma",
foi selecionado pelos Correios para ilustrar um selo da série Favela, lançada
em março. Também colabora com cenógrafos, como Clivia Cohen,
para quem fez bichos para ser usados no mais recente filme da turma do Casseta
& Planeta. Apesar da pouca idade, Akuma é referência para
a nova geração. Morador de Niterói, ele passou pela fase
de pichador até começar a grafitar com Fábio Ema. Logo mostrou
talento para lidar com o spray, criando efeitos de volume e tridimensionalidade.
"Ele é um escultor do grafite", elogia Smael. A qualidade foi acentuada
depois que Akuma passou três Carnavais ajudando a criar esculturas para
o desfile da escola de samba Viradouro. Em 2001, com Fábio Ema, Akuma pintou
a fachada do estúdio de Gilberto Gil, na Gávea, e fez pinturas durante
um show do grupo Rappa. Desde então, muita coisa mudou na paisagem carioca.
A arte nos muros vem atraindo cada vez mais adeptos, como Lynn Court, 21 anos,
a "Noia", moradora da Fonte da Saudade. "A sensação de pintar um
muro é deliciosa. Você esquece de comer, esquece que tem casa", diz
a moça, que estuda desenho na PUC, trabalha em um curso de interpretação
e ainda é modelo da agência 40 Graus. Ela também dá
aula de grafite para meninos de 10 a 15 anos em uma oficina montada na loja Addict
porque já existem fãs da arte de todas as faixas etárias,
como João Victor de Souza, 5 anos, que tem um painel em seu quarto. "É
muito mais legal do que uma parede branca", festeja. "No começo, a gente
ouvia: grafite é que nem mendigo. Tá na rua e ninguém quer
ver", lembra Toz. "Hoje em dia todo mundo quer fazer e usar." Spray
fashion Fotos Felipe Varanda/Strana
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BERMUDA
DE SURFE da marca Lost (R$ 129,00). Mormaii,
Galeria River, lojas 6 e 7, Arpoador,
2513-4725. |  | | GUARDA-CHUVA
(R$ 348,00) e VESTIDO (R$ 2 498,00) de Adriana Barra com estampa de
Mateu Velasco. Clube Chocolate. Fashion Mall, 2º piso, São Conrado,
3322-3733. |  |
CAMISETA DE
MALHA da grife americana Tribal (R$ 120,00). Junkz, Rua Francisco Sá,
95, loja I, Copacabana,
2525-6774. |  |
TERNO risca-de-giz
com pintura em dourado da grife Manifesto 33 1/3, do músico Marcelo D2
(R$ 1 200,00). Perfit.
Rio Sul, 3º
piso, Botafogo,
2275-9747. |  |
CAIXA DE PAPELÃO
com desenho do artista BR (R$ 150,00). Flesh Beck Clothing. Galeria
River, loja 20, Arpoador,
2513-1383. |  |
BONÉS
da Flesh Beck Crew com ilustrações do personagem BB Batman e
de letras da grife (R$ 75,00 cada um). Flesh Beck Clothing. Galeria
River, loja 20, Arpoador,
2513-1383. |  |
CAMISETA FEMININA
criada por Maíra Botelho, a Ira, da TPM Crew (R$ 30,00).
9118-0375. |  |
TÊNIS
All Star personalizados pela
equipe de grafiteiros da Addict (R$ 140,00 o par). Addict. Rua Dias Ferreira,
417, sala 405, Leblon,
2239-9710. | |