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10 de maio de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
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REPORTAGEM DE CAPA

Das ruas para as vitrines

Grifes, arquitetos e galerias de arte rendem-se ao boom do grafite

Fátima Sá e Livia de Almeida

Dilmar Cavalher/Strana
Smael (à esq.) e Piá: o grafite vira obra de arte em telas que custam até 10 000 reais na galeria Haus

A bonequinha de traços orientais e cabelo esvoaçante espalhou-se de muro em muro. Hoje, é um fenômeno de marketing. Criada pelo grafiteiro Tomaz Viana, o "Toz", 30 anos, a boneca Niña já decora apartamentos à beira-mar, ilustra camisetas e virou obra de arte à venda na Galeria Haus Contemporânea. Não é caso isolado. Nos últimos anos, o grafite carioca vem extrapolando os limites dos muros, ganhou status e tornou-se objeto de consumo de adolescentes e jovens. "O grafite virou uma estética", diz Carlos Esquivel, 27 anos, o "Acme", veterano na tinta spray. Exemplos não faltam. Na sofisticada loja Clube Chocolate, chamam atenção as estampas que o grafiteiro Mateu Velasco, o "TM1", 26 anos, criou para a estilista Adriana Barra. Na mostra Artefacto do ano passado, o arquiteto Geraldo Lamego projetou um home theater em que se destacava uma parede coberta pelo grafite abstrato de Ismael Vagner de Lima, 26 anos, o "Smael". No circuito das artes plásticas, telas de grafiteiros cariocas (Toz e Smael entre eles) chegam a valer 10.000 reais.

 
Felipe Varanda/Strana
Mateu Velasco: dos muros para as vitrines da Clube Chocolate

A estética do spray fascina tanto jovens moradores do subúrbio e de comunidades carentes quanto da Zona Sul. O grupo Flesh Beck Crew, do qual Toz faz parte, talvez seja o exemplo mais bem-sucedido de que o grafite ganhou status. Colegas de faculdade, os integrantes originais se conheceram em 1998, quando estudavam desenho industrial na UniverCidade. O grupo fundou o próprio estúdio de design, o Motim. Depois de fazer projetos para a Coca-Cola, a Blue Man e a H.Stern, decidiu criar uma grife, que estreou com elogiado desfile no Rio Moda Hype, evento do Fashion Rio destinado aos novos talentos. O poder de fogo da turma seria confirmado a seguir. Para decorar a loja, Bruno Bogossian, o "BR", e Toz pintaram pequenos objetos, telas e as caixas de papelão das latas de spray. "Era só decoração. A gente não pensava em ganhar dinheiro com aquilo, mas as pessoas começaram a querer comprar", lembra Bruno. Um dos compradores foi o cantor Lulu Santos. A atriz Vera Holtz também aprovou o traço da turma. Levou uma cadeira para o grupo pintar.

 
Divulgação
Grafite décor: spray com luxo em projeto de Geraldo Lamego

Tanta projeção reduziu o estigma, sem dúvida, mas não livrou o grafite da pecha de vandalismo. Muita gente ainda confunde os coloridos desenhos que decoram muros, viadutos e fachadas com pichação. Que fique claro: a pichação tem por objetivo emporcalhar o patrimônio e dar publicidade à assinatura do vândalo. É prática clandestina, que ocorre na calada da noite. O grafite, em vez disso, busca a beleza. É um trabalho delicado, que consome horas de dedicação. Usa a luz do dia e procura por espaços deteriorados, que quase sempre se revitalizam após os primeiros espirros de tinta. Muitos donos de muros concordam com a pintura. E há cada vez mais cariocas simpáticos ao assunto. "Hoje em dia, até policial vem dar os parabéns, fica olhando enquanto a gente pinta, elogia. Muitos já diferenciam o grafite da pichação", diz Maíra Botelho, 21 anos, a "Ira", integrante do único grupo da cidade formado apenas por meninas grafiteiras – a TPM Crew. "O que era político virou artístico", comenta Toz.

 
Felipe Varanda/Strana
Sonho de consumo: João Victor ganhou a pintura de presente dos pais

O grafite começou a ter projeção no Rio nos anos 90. Ganhou força no município de São Gonçalo e em favelas e bairros do subúrbio do Rio. Acme, com Fábio Ema, é um dos veteranos dessa primeira geração, uma referência para quem desponta agora e tem um olho na parede e outro nas múltiplas aplicações da técnica em design e moda. Cria do Pavão-Pavãozinho, autodidata, Acme já fez capa de disco, cartazes para festas, cenários, ilustrações. Também dá aulas de grafite e ainda encontra tempo para pintar nos becos da favela onde mora. Diferentemente dos primeiros tempos, quando os artistas do spray torciam o nariz para suportes tradicionais como a tela e o emprego de técnicas variadas, Acme acha que o grafite pode comportar tudo. "Grafite é uma atitude", afirma ele, o primeiro grafiteiro a entrar para o time de artistas da Haus. Na época da inauguração da galeria, o dono, Marcus Aurelius de Macedo Soares, viu fotos do trabalho de Acme e ficou encantado. Encomendou dez telas ao grafiteiro, que foram expostas na primeira mostra da galeria.

Foi Acme quem convidou Smael a exibir seu trabalho para o dono da Haus. Smael, por sua vez, convidou "Piá" (ou Marcos Ribeiro, 31 anos) e depois Toz, ambos da Flesh Beck Crew. "Entre doze artistas que representamos, quatro são grafiteiros. Suas obras custam entre 2.000 e 10.000 reais e têm muito boa aceitação comercial", diz o galerista. Foi Marcus Aurelius que fez a ponte entre Smael e o arquiteto Geraldo Lamego. "Até então, só se via grafite em quarto de criança e adolescente. E trata-se de uma técnica muito versátil, que pode ser usada com mais liberdade", comenta Lamego.

 

Felipe Varanda/Strana
Na passarela: depois de dominar os muros da Zona Sul, o grupo Flesh Beck Crew (à dir.) virou grife do Rio Moda Hype (acima). Um sucesso

Smael começou a se interessar pelo grafite na época em que freqüentava a festa hip hop Zoeira, na Sinuca da Lapa, nos anos 90. Voltou a desenhar, coisa que não fazia desde a infância, e em 1999 grafitou sua primeira parede. Como queria fazer uma letra diferente, começou com caracteres japoneses. Depois, passou para os coreanos. Quando chegou ao português, suas letras já estavam tão deformadas que beiravam a abstração. "Foi um processo intuitivo. Agora estou estudando arte contemporânea e vou fazer um curso de história da arte no Parque Lage", diz. A partir da exposição na Haus, seu trabalho foi selecionado para a Gemac, feira de arte contemporânea em Paris, e também foi exposto na Holanda e na Bélgica. Além das pinturas, ele trabalha com moda. Faz estampas para camisetas da grife Reserva e planeja desenvolver uma linha própria, misturando pintura e bordados que ele mesmo faz. Além de pintar e bordar, Smael mantém a rotina de grafitar muros da cidade com os amigos da Santa Crew e da Nação Crew, as duas turmas de artistas das quais faz parte. "A grafitagem é o futebol do domingo", diz.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Felipe Varanda/Strana
O veterano Acme: "O grafite virou uma estética" Lynn: grafiteira, modelo e aspirante a atriz

A busca por novas referências em contato com grafiteiros de outros países tem sido uma preocupação comum entre os artistas do spray. Os veteranos Fábio Ema e Acme estiveram na França no ano passado. Mateu Velasco, com cinco anos de grafite, também esteve lá. Em fevereiro, participou de três coletivas e uma individual. "Lá tem artista demais para muro de menos. Nesse aspecto, o Rio é um paraíso", conta ele, que foi ainda a Lisboa, onde pintou em favelas com artistas portugueses. Mateu é representante da nova geração do grafite. Criado em Laranjeiras, ex-aluno do Colégio São Vicente de Paulo, fez curso de desenho industrial na PUC. Foi na faculdade que se encantou com a técnica e fundou com colegas a El Ninho. Com o que aprendeu com o grafite, desenvolveu um estilo próprio de ilustração. Um de seus painéis foi escolhido para enfeitar o muro da Casa de Saúde São José, no Humaitá. Já pintou várias vitrines e fez cenário para a estilista Isabela Capeto. Os vestidos de Adriana Barra, para quem criou estampas em parceria com a artista Renata Americano, chegam a custar quase 2.500 reais.

Atualmente, não faltam vitrines para o grafite. Clivson da Silva, 24 anos, o "Akuma", foi selecionado pelos Correios para ilustrar um selo da série Favela, lançada em março. Também colabora com cenógrafos, como Clivia Cohen, para quem fez bichos para ser usados no mais recente filme da turma do Casseta & Planeta. Apesar da pouca idade, Akuma é referência para a nova geração. Morador de Niterói, ele passou pela fase de pichador até começar a grafitar com Fábio Ema. Logo mostrou talento para lidar com o spray, criando efeitos de volume e tridimensionalidade. "Ele é um escultor do grafite", elogia Smael. A qualidade foi acentuada depois que Akuma passou três Carnavais ajudando a criar esculturas para o desfile da escola de samba Viradouro. Em 2001, com Fábio Ema, Akuma pintou a fachada do estúdio de Gilberto Gil, na Gávea, e fez pinturas durante um show do grupo Rappa. Desde então, muita coisa mudou na paisagem carioca. A arte nos muros vem atraindo cada vez mais adeptos, como Lynn Court, 21 anos, a "Noia", moradora da Fonte da Saudade. "A sensação de pintar um muro é deliciosa. Você esquece de comer, esquece que tem casa", diz a moça, que estuda desenho na PUC, trabalha em um curso de interpretação e ainda é modelo da agência 40 Graus. Ela também dá aula de grafite para meninos de 10 a 15 anos em uma oficina montada na loja Addict – porque já existem fãs da arte de todas as faixas etárias, como João Victor de Souza, 5 anos, que tem um painel em seu quarto. "É muito mais legal do que uma parede branca", festeja. "No começo, a gente ouvia: grafite é que nem mendigo. Tá na rua e ninguém quer ver", lembra Toz. "Hoje em dia todo mundo quer fazer e usar."

 

Spray fashion

Fotos Felipe Varanda/Strana

BERMUDA DE SURFE da marca Lost (R$ 129,00). Mormaii, Galeria River, lojas 6 e 7, Arpoador, 2513-4725.

GUARDA-CHUVA (R$ 348,00) e VESTIDO (R$ 2 498,00) de Adriana Barra com estampa de Mateu Velasco. Clube Chocolate. Fashion Mall, 2º piso, São Conrado, 3322-3733.

CAMISETA DE MALHA da grife americana Tribal (R$ 120,00). Junkz, Rua Francisco Sá, 95, loja I, Copacabana, 2525-6774.

TERNO risca-de-giz com pintura em dourado da grife Manifesto 33 1/3, do músico Marcelo D2 (R$ 1 200,00). Perfit. Rio Sul, 3º piso, Botafogo, 2275-9747.

CAIXA DE PAPELÃO com desenho do artista BR (R$ 150,00). Flesh Beck Clothing. Galeria River, loja 20, Arpoador, 2513-1383.

BONÉS da Flesh Beck Crew com ilustrações do personagem BB Batman e de letras da grife (R$ 75,00 cada um). Flesh Beck Clothing. Galeria River, loja 20, Arpoador, 2513-1383.

CAMISETA FEMININA criada por Maíra Botelho, a Ira, da TPM Crew (R$ 30,00). 9118-0375.

TÊNIS All Star personalizados pela equipe de grafiteiros da Addict (R$ 140,00 o par). Addict. Rua Dias Ferreira, 417, sala 405, Leblon, 2239-9710.

     
   

 

 
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