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10 de janeiro de 2007

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CRÔNICA

Primo prima

Manoel Carlos

Primo prima, costumava afirmar meu amigo Juvenal, traduzindo a seu modo a expressão que era apenas um trocadilho: primeiro as primas. Ele tinha verdadeira obsessão pelas garotas que se enquadravam nesse parentesco. E, como só tinha duas, ambas por parte de mãe, atacava também as primas dos amigos.

– As minhas, não – disse eu, um dia, ao ver que ele lançava olhares cobiçosos em direção à minha prima Clarice, por quem eu arrastava um bonde, como se costumava dizer.

Leo Martins


Fomos criados juntos, Clarice e eu. Idades próximas. Eu mais velho um ano apenas. Foi amor de berço, portanto. Minha mãe não se incomodava com isso, achava natural, mas minha tia Elvira, mãe de Clarice, nossa! Tinha simplesmente horror em pensar na remota possibilidade de esse amor transpor a barreira dos 17, 18 anos. Sim, porque aí, dizia ela, a coisa fica séria e eu não vou permitir uma relação entre os dois. Tia Elvira tinha duas razões para justificar esse horror: a de sermos primos e com isso Clarice correr o risco de gerar filhos anormais; e o fato de ela sonhar para a filha um casamento rico, com gente importante, e eu, tudo indicava naquela época, não demonstrava vocação para o sucesso, fosse a área que fosse.

– Mente quem disser que nunca cobiçou uma prima!

Juvenal tinha dessas afirmações radicais, que não admitem contestação de espécie alguma. Confesso que, no fundo, via razão no que ele afirmava de maneira tão categórica. Como podem imaginar, não me casei com prima Clarice, mas meu amor por ela resistiu ao tempo e até hoje, quando olho uma foto nossa, na praia de Santos, no remotíssimo ano de 1949, eu com 16 e ela com 15 anos, meu coração bate mais rapidamente e ouço a voz de Clarice, voz esganiçada de adolescente magra, pedindo:

– Neco: me ajuda a subir nessa pedra!

Naquela época, para toda a família e mesmo para os amigos e vizinhos e colegas de escola, eu era Maneco, Manequinho, Nelinho, Manoelzinho, mas para Clarice, só pra ela, eu era Neco. Ninguém mais me chamava dessa maneira. E, quando eu enlaçava Clarice nos braços e ali tirava umas casquinhas do seu lindo corpo, sempre me aparecia tia Elvira, de óculos na ponta do nariz e um maiô que ia quase até o joelho, chamando:

– Clarice, vem aqui pra perto de mim, vem, pra tirar os cravos que eu tenho nas costas.

E lá ia minha priminha do coração debruçar-se sobre a mãe, apertando de um lado e de outro, fazendo os cravos saltarem sob o sol da Praia do Gonzaga. E tia Elvira soltava gritinhos, que eram mais de fita do que de dor:

– Ai, Clara, não precisa apertar tanto, que dói.

Sempre que era para protestar ou reprimir, Clarice virava Clara.

– Tem uns, mãe, que só apertando.

Bem, na época não se falava em limpeza de pele e produtos adequados, porque tudo era feito em casa, como a ambrosia, o bolo de fubá e os doces de coco e leite, cortados em losangos sobre o mármore da pia. A gente não falava losango, claro, mas balãozinho.

– Corta em balãozinho, vó – pedíamos nós, Clarice e eu, à avó que tínhamos em comum.

Toda a família sabia do nosso amor juvenil. As tias maliciosas (quem não teve pelo menos uma tia meio safadinha?) brincavam:

– Isso vai acabar em casamento!

– Mas nada de pressa, hein? Tem de esperar a noite de núpcias!

– Onde é que vocês estavam? Tão com cara de quem aprontou!

– De vez em quando esses dois somem no porão!

Tia Elvira sufocava de raiva e de medo quando ouvia esses comentários familiares.

Pois é. Estava disposto a contar algumas histórias do meu amigo Juvenal e da sua obsessão pelas primas. Dele e dos amigos. Mas acabei falando de Clarice, que era só minha e de mais ninguém. Quando ela morreu (foi-se espontaneamente, abrindo o gás), eu estive no apartamento dela e recolhi alguns cadernos com anotações, poemas, pequenos contos, frases soltas. Foi em 1972, nós dois já beirando os 40 anos. Cheguei em casa e abri numa página qualquer o primeiro dos cadernos. E li:

"Amei o meu primo Neco

a vida inteira, porém

nunca soube se o Nequinho

gostava de mim também!"

E eu perguntava, entre lágrimas:

– Como não soube, Clarice? Se passei toda a minha infância e adolescência de joelhos, aos seus pés!

– Primeiro as primas – diz o Juvenal.

E eu digo:

– E por último também.


E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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