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CRÔNICA
Primo prima
Manoel Carlos
Primo
prima, costumava afirmar meu amigo Juvenal, traduzindo a seu modo
a expressão que era apenas um trocadilho: primeiro as primas.
Ele tinha verdadeira obsessão pelas garotas que se enquadravam
nesse parentesco. E, como só tinha duas, ambas por parte
de mãe, atacava também as primas dos amigos.
As minhas, não
disse eu, um dia, ao ver que ele lançava olhares cobiçosos
em direção à minha prima Clarice, por quem
eu arrastava um bonde, como se costumava dizer.
Leo Martins
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Fomos criados juntos, Clarice e eu. Idades próximas. Eu mais
velho um ano apenas. Foi amor de berço, portanto. Minha mãe
não se incomodava com isso, achava natural, mas minha tia
Elvira, mãe de Clarice, nossa! Tinha simplesmente horror
em pensar na remota possibilidade de esse amor transpor a barreira
dos 17, 18 anos. Sim, porque aí, dizia ela, a coisa fica
séria e eu não vou permitir uma relação
entre os dois. Tia Elvira tinha duas razões para justificar
esse horror: a de sermos primos e com isso Clarice correr o risco
de gerar filhos anormais; e o fato de ela sonhar para a filha um
casamento rico, com gente importante, e eu, tudo indicava naquela
época, não demonstrava vocação para
o sucesso, fosse a área que fosse.
Mente quem disser que
nunca cobiçou uma prima!
Juvenal tinha dessas afirmações
radicais, que não admitem contestação de espécie
alguma. Confesso que, no fundo, via razão no que ele afirmava
de maneira tão categórica. Como podem imaginar, não
me casei com prima Clarice, mas meu amor por ela resistiu ao tempo
e até hoje, quando olho uma foto nossa, na praia de Santos,
no remotíssimo ano de 1949, eu com 16 e ela com 15 anos,
meu coração bate mais rapidamente e ouço a
voz de Clarice, voz esganiçada de adolescente magra, pedindo:
Neco: me ajuda a subir
nessa pedra!
Naquela época, para toda
a família e mesmo para os amigos e vizinhos e colegas de
escola, eu era Maneco, Manequinho, Nelinho, Manoelzinho, mas para
Clarice, só pra ela, eu era Neco. Ninguém mais me
chamava dessa maneira. E, quando eu enlaçava Clarice nos
braços e ali tirava umas casquinhas do seu lindo corpo, sempre
me aparecia tia Elvira, de óculos na ponta do nariz e um
maiô que ia quase até o joelho, chamando:
Clarice, vem aqui pra
perto de mim, vem, pra tirar os cravos que eu tenho nas costas.
E lá ia minha priminha
do coração debruçar-se sobre a mãe,
apertando de um lado e de outro, fazendo os cravos saltarem sob
o sol da Praia do Gonzaga. E tia Elvira soltava gritinhos, que eram
mais de fita do que de dor:
Ai, Clara, não
precisa apertar tanto, que dói.
Sempre que era para protestar
ou reprimir, Clarice virava Clara.
Tem uns, mãe, que
só apertando.
Bem, na época não
se falava em limpeza de pele e produtos adequados, porque tudo era
feito em casa, como a ambrosia, o bolo de fubá e os doces
de coco e leite, cortados em losangos sobre o mármore da
pia. A gente não falava losango, claro, mas balãozinho.
Corta em balãozinho,
vó pedíamos nós, Clarice e eu, à
avó que tínhamos em comum.
Toda a família sabia do
nosso amor juvenil. As tias maliciosas (quem não teve pelo
menos uma tia meio safadinha?) brincavam:
Isso vai acabar em casamento!
Mas nada de pressa, hein?
Tem de esperar a noite de núpcias!
Onde é que vocês
estavam? Tão com cara de quem aprontou!
De vez em quando esses
dois somem no porão!
Tia Elvira sufocava de raiva
e de medo quando ouvia esses comentários familiares.
Pois é. Estava disposto
a contar algumas histórias do meu amigo Juvenal e da sua
obsessão pelas primas. Dele e dos amigos. Mas acabei falando
de Clarice, que era só minha e de mais ninguém. Quando
ela morreu (foi-se espontaneamente, abrindo o gás), eu estive
no apartamento dela e recolhi alguns cadernos com anotações,
poemas, pequenos contos, frases soltas. Foi em 1972, nós
dois já beirando os 40 anos. Cheguei em casa e abri numa
página qualquer o primeiro dos cadernos. E li:
"Amei o meu primo Neco
a vida inteira, porém
nunca soube se o Nequinho
gostava de mim também!"
E eu perguntava, entre lágrimas:
Como não soube,
Clarice? Se passei toda a minha infância e adolescência
de joelhos, aos seus pés!
Primeiro as primas
diz o Juvenal.
E eu digo:
E por último também.
E-mails para o cronista:
almaviva@uninet.com.br
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