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10 de janeiro de 2007

REPORTAGEM DE CAPA

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REPORTAGEM DE CAPA

Janeiro, mês do teatro

Debora Ghivelder e Lívia de Almeida

O verão ainda não disse a que veio. Indeciso, oscila entre o calor causticante e dias chuvosos. Longe das areias, a temporada teatral ferve. Janeiro oferece aos cariocas mais de duas dezenas de peças recheadas de estrelas. Luana Piovani, Marília Gabriela, Reynaldo Gianecchini, Suzana Vieira, Eliane Giardini, Guta Stresser são exemplos (veja preços e horários). "Janeiro é disparado o melhor mês da temporada carioca", afirma o presidente da Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro (APTR), Eduardo Barata. "Do ano passado para cá, houve um boom de mercado", acrescenta. A explicação é simples. O Rio recebe nesta época, segundo a Riotur, mais de 2 milhões de turistas brasileiros e estrangeiros. "As platéias se enchem de gente de outros estados ávida para ver de perto as estrelas da TV", diz Barata. "Eu queria estar no Rio em janeiro. Tive essa experiência com Alice e deu muito certo", afirma Luana Piovani, que aterrissa na cidade com o infantil O Pequeno Príncipe. "Todo mundo que estreou em São Paulo quer estar aqui no verão", faz coro Ecila Mutzenbercher, proprietária de quatro teatros na cidade, que se prepara para inaugurar mais um nesta semana. A Sala Tônia Carrero do Teatro do Leblon abre as portas na quarta (10) com A Descoberta das Américas. A cidade ganha neste mês um outro palco. A sala do Centro Cultural Solar de Botafogo começa a funcionar no dia 25, quando entra em cartaz Campo de Provas, com direção de Gilberto Gawronski e texto do paulista Aimar Labaki. Veja Rio destaca doze atrações desta alta estação do teatro na cidade.


Lady Gabriela
entra em cena

 
Julio Vilela
Marília: cabelo escuro para viver personagem inspirada em Shakespeare

Esqueça a figura loura da jornalista e apresentadora Marília Gabriela. Esqueça, também, a personagem Lady Macbeth exatamente como ela é na tragédia de Shakespeare, uma mulher que incita o marido a cometer crimes para chegar ao poder. Como Senhora Macbeth, Marília aparece em cena com cabelo escuro. Já a personagem foi desmembrada da história original nessa versão tragicômica da escritora argentina Griselda Gambarro. Da trama inicial restaram apenas as bruxas (Selma Egrei, Natália Correa e Danielle Farnezi) e o rei assassinado (Eduardo Leão). Com atuação elogiada na temporada paulista, Marília Gabriela vive um conflito entre amor e ambição pelo poder. A tragédia é recriada pelo olhar desta mulher, que de coadjuvante se torna protagonista. "Eu me entreguei completamente. Me identifico com as paixões dessa mulher", diz Marília. Ela acredita que o texto da argentina humaniza a personagem. "Ninguém é um ser completamente hediondo", afirma ela, que sofreu durante os ensaios, sob direção de Antônio Abujamra. "Eu e Abujamra tivemos um choque de temperamentos", conta. Sofrimento recompensado. Gabi ficou feliz com o resultado da peça, que chega na sexta (12) ao palco do Villa-Lobos. A crítica também.

 

Princesa Luana na pele do príncipe

 
Fotos divulgação
Luana encarna o personagem de Exupéry: abaixo o preconceito

Luana Piovani não se abala quando associam O Pequeno Príncipe aos concursos de miss, em que as candidatas costumam citar a obra de Saint-Exupéry como livro de cabeceira. "Inteligente a miss que lê o livro", responde a atriz. Luana, que vive em cena o principezinho, não tem por que se abalar. O espetáculo que estréia no sábado (13), no Teatro Odylo Costa Filho, da Uerj, foi sucesso absoluto em São Paulo, totalizando 103 000 espectadores. "Só no Brasil O Pequeno Príncipe virou uma coisa brega. No resto do mundo, não. Puro preconceito de Terceiro Mundo", diz. A peça fez com que a obra voltasse a ter destaque nas livrarias. "Recebi carta de bibliotecária agradecendo por a história voltar a ser procurada", comenta ela. A adaptação é de João Falcão, e Luana divide o palco com Marcus Alvisi, Isabel Lobo, Ana Baird, Renato Oliveira e Felipe Koury. "Meu negócio é oferecer qualidade às crianças", diz ela.

 

Vizinha do barulho s

Guta: filando o telefone

Domingos Oliveira é mestre na dramaturgia de umbigo. Boa parte de sua obra é inspirada em histórias vividas por ele mesmo. Rita Formiga, escrita em parceria com Maria Gladys, nasceu da experiência que os dois viveram como vizinhos na charmosa Ipanema da década de 60. Na época, Maria Gladys não tinha telefone e invadia a casa de Domingos para se pendurar no aparelho enquanto ele tentava trabalhar. As conversas renderam o espetáculo, que, após temporada em São Paulo, chega na sexta (12) ao Teatro do Leblon. Convencido de que Guta Stresser é a versão moderna de Maria Gladys, Domingos, que assina também a direção, convidou-a para o papel. Em cena está ainda Cláudio Tizo, que incorpora o alter ego do escritor. "Estou feliz por chegarmos ao Rio. A peça tem a cara da cidade", diz a atriz, que define sua personagem como boêmia, alegre, corajosa e divertida. Tudo indica que Rita Formiga está mais para Rita Cigarra.

 

Parente é serpente, sim

 
Valli, Gueiros, Abreu e Adnet: humor

Corações Encaixotados foi escrita por Bosco Brasil especialmente para a atriz Maria Clara Gueiros. "Queria fazer comédia, mas não queria a piada pela piada, e sim defender uma história e uma personagem que tivessem uma trajetória", diz ela, que faz graça também no programa Zorra Total. Então, ganhou de presente Dulce, uma defensora pública que, enquanto faz sua mudança, tenta resolver a vida do pai (André Valli), do ex-marido (Aluísio Abreu), do filho e até do seu estagiário (Marcelo Adnet). "Eu levo o mundo nas costas. Essa frase define a personagem", comenta a atriz, que permanece em cena praticamente o tempo todo. Em meio à barafunda da mudança, Dulce quer que o ex-marido conte ao filho que é gay, precisa lidar com o pai, que quer morar com ela, e ainda descobre que sente ciúme do estagiário.

 

Faxina no baixo-astral

Zezeh: mulher simples que divide os sonhos com a platéia


A escritora Maria Carmen Barbosa desenvolve com Miguel Falabella uma bem-sucedida parceria que já rendeu oito peças e duas novelas. A Mulher Invisível, que estréia na quarta (10), no Teatro Cândido Mendes, é seu primeiro trabalho-solo, com direção de Stella Miranda – curiosamente, estrela do musical South American Way, de Carmen e Falabella. "É um texto muito pessoal, com indagações minhas, e o Miguel me deu a maior força para ir fundo e produzi-lo", conta Maria Carmen. A estrela do monólogo é Zezeh Barbosa, do elenco da novela O Profeta. Com trinta anos de carreira em São Paulo, ela se apresenta pela primeira vez nos palcos cariocas. Ela dá vida a Eunice, faxineira da madrugada em uma loja de artigos masculinos de luxo. "É uma mulher que vai revelar ao público seus sonhos e a forma que encontra para superar uma realidade brutal, mas sempre com humor, que é o meu carro-chefe", diz a autora. Zezeh já participou de duas novelas da dupla Barbosa-Falabella: Salsa & Merengue e A Lua Me Disse.

 

Acerto de contas mórbido e cômico

 
Marisa e Benício em cena: ela decide velar o corpo do marido na própria cama e faz um acerto de contas

Marisa Orth era uma noviça no ramo quando, aos 24 anos, fez Fica Comigo Esta Noite, ao lado de Carlos Moreno, que se notabilizou como o desajeitado rapaz mil-e-uma utilidades da Bombril. A peça de Flávio de Souza resultou num tremendo sucesso e foi um marco na carreira da atriz. Passados dezoito anos, Marisa volta a encarnar Laura, mulher que se sente culpada por não estar em casa no dia em que o marido morre e decide velar o falecido na própria cama. O velório transforma-se em acerto de contas. Agora, seu par em cena é Murilo Benício. A comédia leva a assinatura do cineasta e diretor teatral bissexto Walter Lima Júnior e estréia na sexta (12), no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, depois de rodar capitais como Curitiba e Salvador. "É prazeroso voltar a fazer esse papel. Penso que agora estou mais próxima da idade da personagem do que antes. E já adquiri experiências pelas quais ela passou. O difícil foi fazê-la aos 24 anos", diz Marisa.

 

Escrete reunido em montagem de época

 
Silvia Pfeifer e Herson Capri: casal inabalável?

Um Marido Ideal é uma das obras mais encenadas de Oscar Wilde, que usa sua mordacidade característica para falar de ética, moral e política. A peça, que estréia no Rio na sexta (12), na Sala Marília Pêra (Teatro Leblon), vem de São Paulo, com uma ficha técnica de pedigree. A tradução do texto do autor irlandês é de Miguel Falabella. Na direção está Victor Garcia Peralta, argentino radicado no Rio que assinou megassucessos como Os Homens São de Marte... e É pra Lá que Eu Vou e Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido. O escrete segue nos figurinos, a cargo de Kalma Murtinho, e nos cenários, concebidos por Hélio Eichbauer. No elenco, Herson Capri vive Lord Robert Chiltern, um marido aparentemente virtuoso, e Silvia Pfeifer é Gertrude, sua feliz esposa. Bianca Byington é uma aventureira que ameaça a tranqüilidade do casal com um segredo do passado e encontra no bom-vivant Lord Goring (Edwin Luisi) um adversário à altura. "É um vaudeville sem portas", descreve Peralta.

 

A fama para a filha como idéia fixa

Bárbara e Suzana: mãe e filha no palco

Suzana Vieira não é vista nos palcos cariocas desde 2003, quando encenou o monólogo Água Viva, uma adaptação do romance de Clarice Lispector. Depois de um conturbado fim de ano matrimonial, a atriz está de volta à ribalta na comédia A Namoradinha do Brasil, com estréia nesta sexta (12), no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. A direção e o texto são de Fernando Ceylão, autor cuja marca é o humor. Suzana contracena com Bárbara Borges, ex-paquita e sua companheira de elenco na novela Senhora do Destino, exibida em 2004, na TV Globo. Suzana encarna Ragilda, uma mãe obcecada em transformar a filha Viviane em uma estrela de primeira grandeza. Ragilda dedica sua vida inteiramente à causa. Ela não trabalha, fica enfurnada em casa e suas tentativas de obter fama para a jovem se tornam mais e mais remotas.

 

Um estranho (invisível) no ninho

 
Fieschi e Ohana: às voltas com um morador invisível

Claudia Ohana é uma oftalmologista interessada no sobrenatural. Edson Fieschi, um mágico nada talentoso. Juntos, vão começar vida nova numa casa nova, mas acabam deparando com um estranho fato: a residência já é habitada por um mal-humorado ente invisível. O casal protagoniza Você Está Aí?, que estréia na quinta (11), no Teatro Ipanema. O texto é do argentino Javier Daulte, e na direção está outro hermano, Victor Garcia Peralta, de Os Homens São de Marte... e É prá Lá que Eu Vou. "Ele faz parte da nova geração de dramaturgos argentinos. É um texto apaixonante, que aborda as dificuldades de comunicação", diz Peralta. O tal irascível invisível não dá descanso ao casal. "Ele abre e fecha portas, escreve coisas e até trava uma batalha de papel higiênico com a dupla", conta Peralta, o diretor mais ocupado da temporada. Além de Você Está Aí?, ele estréia Um Marido Ideal, prossegue a temporada de Quarttet e volta com Os Homens São de Marte... e Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido.

 

Sua excelência, Gianecchini

 
Gianecchini (à dir): o galã arranca risos e suspiros como um político corrupto

Corrupção, desvio de verbas, maracutaias. É possível rir de mazelas que revoltam diariamente. Prova disso é que Sua Excelência, o Candidato, texto de 1984 escrito por Jandira Martini e Marcos Caruso, ficou em cartaz por quatro anos seguidos quando estreou no longínquo 1985. A história do político corrupto Orlando recebeu uma terceira montagem – a segunda foi com Fulvio Stefanini –, que subiu à cena em setembro de 2006 em São Paulo. No papel principal está Reynaldo Gianecchini. Depois de fazer a platéia rir (e suspirar) na capital paulista, o galã aterrissa, na sexta (12), no Teatro do Leblon. "Não me espelhei em nenhum político em particular", diz o ator. Na história, ele é um candidato às vésperas da eleição, que tem como amante (Lara Cordola) a mulher de seu padrinho político (Paulo Coronato). Para completar, entra em cena uma mãe solteira (Tânia Castello), envolvida com a questão da paternidade do filho.

 

Labirintos da memória numa história de amor

 
Garib e Eliane Giardini

Em O Mundo dos Esquecidos, de Adriana Falcão em parceria com a filha Tatiana Maciel, Dolores (Eliane Giardini) vive em uma cidadezinha, concentrada entre o trabalho e os cuidados com a mãe doente, até se apaixonar por Arthur (Adriano Garib), o homem encarregado de montar a roda-gigante na quermesse local. A história de amor dos dois atravessa vinte anos e tem uma peculiaridade. Enquanto se desenrola, os personagens que desapareceram da memória de Dolores – como uma atriz, um guia de turismo, uma antiga colega de colégio e um taxista – vivem em um mundo paralelo. "O palco ganhou passarelas e deques que separam esses dois planos. Pensamos naquela estética meio labiríntica da obra de Escher", conta o diretor Flávio Graff, referindo-se ao artista holandês. Graff também assina cenários e figurinos, em parceria com Ronald Teixeira. A peça estréia na quinta (11), na Casa de Cultura Laura Alvim, e tem ainda no elenco Silvia Buarque, Gisele Froes e Fernando Alves Pinto.

 

Uma cidade em marcha

 
O elenco de Sassaricando: afinação em uma centena de marchinhas

O musical Sassaricando vai ocupar o teatro Sesc-Ginástico a partir do dia 25 e promete sacudir a cidade em compasso pré-carnavalesco. O jornalista Sérgio Cabral e a historiadora Rosa Maria Araújo uniram forças e a paixão pela música nesse projeto que conta a história do Rio por meio das marchinhas de Carnaval. A dupla de autores e diretores pesquisou por um ano e ouviu mais de 1 000 músicas até chegar às 100 que integram a trilha, a ser lançada em disco pela Biscoito Fino. Orçado em 900 000 reais, o musical reúne os veteranos Eduardo Dussek, Soraya Ravenle e Sabrina Korgut e os estreantes Pedro Paulo Malta, Alfredo Del Penho e Juliana Diniz. A ficha técnica soma nomes como Cláudio Botelho, na direção cênica, Renato Vieira, na coreografia, Charles Möeller, nos cenários, e Luís Filipe de Lima, na direção musical. "Reunimos as marchinhas produzidas entre os anos 20 e 70", conta Rosa Maria, que tem o luxuoso auxílio da banda formada pelos irmãos Henrique e Beto Cazes, Silvério Pontes, Oscar Bolão e Dirceu Leite.

     
   

 

 
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