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REPORTAGEM DE CAPA
Janeiro, mês do teatro
Debora Ghivelder e Lívia de Almeida
O verão ainda não
disse a que veio. Indeciso, oscila entre o calor causticante e dias
chuvosos. Longe das areias, a temporada teatral ferve. Janeiro oferece
aos cariocas mais de duas dezenas de peças recheadas de estrelas.
Luana Piovani, Marília Gabriela, Reynaldo Gianecchini, Suzana
Vieira, Eliane Giardini, Guta Stresser são exemplos (veja
preços e horários). "Janeiro é disparado
o melhor mês da temporada carioca", afirma o presidente da
Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro
(APTR), Eduardo Barata. "Do ano passado para cá, houve um
boom de mercado", acrescenta. A explicação é
simples. O Rio recebe nesta época, segundo a Riotur, mais
de 2 milhões de turistas brasileiros e estrangeiros. "As
platéias se enchem de gente de outros estados ávida
para ver de perto as estrelas da TV", diz Barata. "Eu queria estar
no Rio em janeiro. Tive essa experiência com Alice
e deu muito certo", afirma Luana Piovani, que aterrissa na cidade
com o infantil O Pequeno Príncipe. "Todo mundo que
estreou em São Paulo quer estar aqui no verão", faz
coro Ecila Mutzenbercher, proprietária de quatro teatros
na cidade, que se prepara para inaugurar mais um nesta semana. A
Sala Tônia Carrero do Teatro do Leblon abre as portas na quarta
(10) com A Descoberta das Américas. A cidade ganha
neste mês um outro palco. A sala do Centro Cultural Solar
de Botafogo começa a funcionar no dia 25, quando entra em
cartaz Campo de Provas, com direção de Gilberto
Gawronski e texto do paulista Aimar Labaki. Veja Rio destaca
doze atrações desta alta estação do
teatro na cidade.
Lady Gabriela entra em cena
Julio Vilela
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| Marília: cabelo escuro para viver personagem
inspirada em Shakespeare |
Esqueça a figura loura da jornalista
e apresentadora Marília Gabriela. Esqueça, também,
a personagem Lady Macbeth exatamente como ela é na tragédia
de Shakespeare, uma mulher que incita o marido a cometer crimes
para chegar ao poder. Como Senhora Macbeth, Marília aparece
em cena com cabelo escuro. Já a personagem foi desmembrada
da história original nessa versão tragicômica
da escritora argentina Griselda Gambarro. Da trama inicial restaram
apenas as bruxas (Selma Egrei, Natália Correa e Danielle
Farnezi) e o rei assassinado (Eduardo Leão). Com atuação
elogiada na temporada paulista, Marília Gabriela vive um
conflito entre amor e ambição pelo poder. A tragédia
é recriada pelo olhar desta mulher, que de coadjuvante se
torna protagonista. "Eu me entreguei completamente. Me identifico
com as paixões dessa mulher", diz Marília. Ela acredita
que o texto da argentina humaniza a personagem. "Ninguém
é um ser completamente hediondo", afirma ela, que sofreu
durante os ensaios, sob direção de Antônio Abujamra.
"Eu e Abujamra tivemos um choque de temperamentos", conta. Sofrimento
recompensado. Gabi ficou feliz com o resultado da peça, que
chega na sexta (12) ao palco do Villa-Lobos. A crítica também.
Princesa Luana na pele do príncipe
Fotos divulgação
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| Luana encarna o personagem de Exupéry:
abaixo o preconceito |
Luana Piovani não se abala quando
associam O Pequeno Príncipe aos concursos de miss, em que
as candidatas costumam citar a obra de Saint-Exupéry como
livro de cabeceira. "Inteligente a miss que lê o livro", responde
a atriz. Luana, que vive em cena o principezinho, não tem
por que se abalar. O espetáculo que estréia no sábado
(13), no Teatro Odylo Costa Filho, da Uerj, foi sucesso absoluto
em São Paulo, totalizando 103 000 espectadores. "Só
no Brasil O Pequeno Príncipe virou uma coisa brega.
No resto do mundo, não. Puro preconceito de Terceiro Mundo",
diz. A peça fez com que a obra voltasse a ter destaque nas
livrarias. "Recebi carta de bibliotecária agradecendo por
a história voltar a ser procurada", comenta ela. A adaptação
é de João Falcão, e Luana divide o palco com
Marcus Alvisi, Isabel Lobo, Ana Baird, Renato Oliveira e Felipe
Koury. "Meu negócio é oferecer qualidade às
crianças", diz ela.
Vizinha do barulho s
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| Guta: filando o telefone |
Domingos Oliveira é mestre na
dramaturgia de umbigo. Boa parte de sua obra é inspirada
em histórias vividas por ele mesmo. Rita Formiga, escrita
em parceria com Maria Gladys, nasceu da experiência que os
dois viveram como vizinhos na charmosa Ipanema da década
de 60. Na época, Maria Gladys não tinha telefone e
invadia a casa de Domingos para se pendurar no aparelho enquanto
ele tentava trabalhar. As conversas renderam o espetáculo,
que, após temporada em São Paulo, chega na sexta (12)
ao Teatro do Leblon. Convencido de que Guta Stresser é a
versão moderna de Maria Gladys, Domingos, que assina também
a direção, convidou-a para o papel. Em cena está
ainda Cláudio Tizo, que incorpora o alter ego do escritor.
"Estou feliz por chegarmos ao Rio. A peça tem a cara da cidade",
diz a atriz, que define sua personagem como boêmia, alegre,
corajosa e divertida. Tudo indica que Rita Formiga está mais
para Rita Cigarra.
Parente é serpente, sim
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| Valli, Gueiros, Abreu e Adnet: humor |
Corações Encaixotados
foi escrita por Bosco Brasil especialmente para a atriz Maria Clara
Gueiros. "Queria fazer comédia, mas não queria a piada
pela piada, e sim defender uma história e uma personagem
que tivessem uma trajetória", diz ela, que faz graça
também no programa Zorra Total. Então, ganhou
de presente Dulce, uma defensora pública que, enquanto faz
sua mudança, tenta resolver a vida do pai (André Valli),
do ex-marido (Aluísio Abreu), do filho e até do seu
estagiário (Marcelo Adnet). "Eu levo o mundo nas costas.
Essa frase define a personagem", comenta a atriz, que permanece
em cena praticamente o tempo todo. Em meio à barafunda da
mudança, Dulce quer que o ex-marido conte ao filho que é
gay, precisa lidar com o pai, que quer morar com ela, e ainda descobre
que sente ciúme do estagiário.
Faxina no baixo-astral
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| Zezeh: mulher simples que divide os sonhos
com a platéia |
A escritora Maria Carmen Barbosa desenvolve com Miguel Falabella
uma bem-sucedida parceria que já rendeu oito peças
e duas novelas. A Mulher Invisível, que estréia na
quarta (10), no Teatro Cândido Mendes, é seu primeiro
trabalho-solo, com direção de Stella Miranda
curiosamente, estrela do musical South American Way, de Carmen
e Falabella. "É um texto muito pessoal, com indagações
minhas, e o Miguel me deu a maior força para ir fundo e produzi-lo",
conta Maria Carmen. A estrela do monólogo é Zezeh
Barbosa, do elenco da novela O Profeta. Com trinta anos de
carreira em São Paulo, ela se apresenta pela primeira vez
nos palcos cariocas. Ela dá vida a Eunice, faxineira da madrugada
em uma loja de artigos masculinos de luxo. "É uma mulher
que vai revelar ao público seus sonhos e a forma que encontra
para superar uma realidade brutal, mas sempre com humor, que é
o meu carro-chefe", diz a autora. Zezeh já participou de
duas novelas da dupla Barbosa-Falabella: Salsa & Merengue
e A Lua Me Disse.
Acerto de contas mórbido
e cômico
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| Marisa e Benício em cena: ela decide
velar o corpo do marido na própria cama e faz um acerto
de contas |
Marisa Orth era uma noviça no
ramo quando, aos 24 anos, fez Fica Comigo Esta Noite, ao lado de
Carlos Moreno, que se notabilizou como o desajeitado rapaz mil-e-uma
utilidades da Bombril. A peça de Flávio de Souza resultou
num tremendo sucesso e foi um marco na carreira da atriz. Passados
dezoito anos, Marisa volta a encarnar Laura, mulher que se sente
culpada por não estar em casa no dia em que o marido morre
e decide velar o falecido na própria cama. O velório
transforma-se em acerto de contas. Agora, seu par em cena é
Murilo Benício. A comédia leva a assinatura do cineasta
e diretor teatral bissexto Walter Lima Júnior e estréia
na sexta (12), no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea,
depois de rodar capitais como Curitiba e Salvador. "É prazeroso
voltar a fazer esse papel. Penso que agora estou mais próxima
da idade da personagem do que antes. E já adquiri experiências
pelas quais ela passou. O difícil foi fazê-la aos 24
anos", diz Marisa.
Escrete reunido em
montagem de época
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| Silvia Pfeifer e Herson Capri: casal inabalável?
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Um Marido Ideal é uma das obras
mais encenadas de Oscar Wilde, que usa sua mordacidade característica
para falar de ética, moral e política. A peça,
que estréia no Rio na sexta (12), na Sala Marília
Pêra (Teatro Leblon), vem de São Paulo, com uma ficha
técnica de pedigree. A tradução do texto do
autor irlandês é de Miguel Falabella. Na direção
está Victor Garcia Peralta, argentino radicado no Rio que
assinou megassucessos como Os Homens São de Marte... e
É pra Lá que Eu Vou e Não Sou Feliz,
Mas Tenho Marido. O escrete segue nos figurinos, a cargo de
Kalma Murtinho, e nos cenários, concebidos por Hélio
Eichbauer. No elenco, Herson Capri vive Lord Robert Chiltern, um
marido aparentemente virtuoso, e Silvia Pfeifer é Gertrude,
sua feliz esposa. Bianca Byington é uma aventureira que ameaça
a tranqüilidade do casal com um segredo do passado e encontra
no bom-vivant Lord Goring (Edwin Luisi) um adversário à
altura. "É um vaudeville sem portas", descreve Peralta.
A fama para a filha como idéia
fixa
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| Bárbara e Suzana: mãe e filha
no palco |
Suzana Vieira não é vista
nos palcos cariocas desde 2003, quando encenou o monólogo
Água Viva, uma adaptação do romance
de Clarice Lispector. Depois de um conturbado fim de ano matrimonial,
a atriz está de volta à ribalta na comédia
A Namoradinha do Brasil, com estréia nesta sexta (12), no
Teatro das Artes, no Shopping da Gávea. A direção
e o texto são de Fernando Ceylão, autor cuja marca
é o humor. Suzana contracena com Bárbara Borges, ex-paquita
e sua companheira de elenco na novela Senhora do Destino,
exibida em 2004, na TV Globo. Suzana encarna Ragilda, uma mãe
obcecada em transformar a filha Viviane em uma estrela de primeira
grandeza. Ragilda dedica sua vida inteiramente à causa. Ela
não trabalha, fica enfurnada em casa e suas tentativas de
obter fama para a jovem se tornam mais e mais remotas.
Um estranho (invisível)
no ninho
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| Fieschi e Ohana: às voltas com um morador
invisível |
Claudia Ohana é uma oftalmologista
interessada no sobrenatural. Edson Fieschi, um mágico nada
talentoso. Juntos, vão começar vida nova numa casa
nova, mas acabam deparando com um estranho fato: a residência
já é habitada por um mal-humorado ente invisível.
O casal protagoniza Você Está Aí?, que estréia
na quinta (11), no Teatro Ipanema. O texto é do argentino
Javier Daulte, e na direção está outro hermano,
Victor Garcia Peralta, de Os Homens São de Marte... e
É prá Lá que Eu Vou. "Ele faz parte da
nova geração de dramaturgos argentinos. É um
texto apaixonante, que aborda as dificuldades de comunicação",
diz Peralta. O tal irascível invisível não
dá descanso ao casal. "Ele abre e fecha portas, escreve coisas
e até trava uma batalha de papel higiênico com a dupla",
conta Peralta, o diretor mais ocupado da temporada. Além
de Você Está Aí?, ele estréia
Um Marido Ideal, prossegue a temporada de Quarttet e
volta com Os Homens São de Marte... e Não
Sou Feliz, Mas Tenho Marido.
Sua excelência,
Gianecchini
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| Gianecchini (à dir): o galã
arranca risos e suspiros como um político corrupto |
Corrupção, desvio de verbas,
maracutaias. É possível rir de mazelas que revoltam
diariamente. Prova disso é que Sua Excelência, o Candidato,
texto de 1984 escrito por Jandira Martini e Marcos Caruso, ficou
em cartaz por quatro anos seguidos quando estreou no longínquo
1985. A história do político corrupto Orlando recebeu
uma terceira montagem a segunda foi com Fulvio Stefanini
, que subiu à cena em setembro de 2006 em São
Paulo. No papel principal está Reynaldo Gianecchini. Depois
de fazer a platéia rir (e suspirar) na capital paulista,
o galã aterrissa, na sexta (12), no Teatro do Leblon. "Não
me espelhei em nenhum político em particular", diz o ator.
Na história, ele é um candidato às vésperas
da eleição, que tem como amante (Lara Cordola) a mulher
de seu padrinho político (Paulo Coronato). Para completar,
entra em cena uma mãe solteira (Tânia Castello), envolvida
com a questão da paternidade do filho.
Labirintos da memória
numa história de amor
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| Garib e Eliane Giardini |
Em O Mundo dos Esquecidos, de Adriana
Falcão em parceria com a filha Tatiana Maciel, Dolores (Eliane
Giardini) vive em uma cidadezinha, concentrada entre o trabalho
e os cuidados com a mãe doente, até se apaixonar por
Arthur (Adriano Garib), o homem encarregado de montar a roda-gigante
na quermesse local. A história de amor dos dois atravessa
vinte anos e tem uma peculiaridade. Enquanto se desenrola, os personagens
que desapareceram da memória de Dolores como uma atriz,
um guia de turismo, uma antiga colega de colégio e um taxista
vivem em um mundo paralelo. "O palco ganhou passarelas e
deques que separam esses dois planos. Pensamos naquela estética
meio labiríntica da obra de Escher", conta o diretor Flávio
Graff, referindo-se ao artista holandês. Graff também
assina cenários e figurinos, em parceria com Ronald Teixeira.
A peça estréia na quinta (11), na Casa de Cultura
Laura Alvim, e tem ainda no elenco Silvia Buarque, Gisele Froes
e Fernando Alves Pinto.
Uma cidade em marcha
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| O elenco de Sassaricando: afinação
em uma centena de marchinhas |
O musical Sassaricando vai ocupar o
teatro Sesc-Ginástico a partir do dia 25 e promete sacudir
a cidade em compasso pré-carnavalesco. O jornalista Sérgio
Cabral e a historiadora Rosa Maria Araújo uniram forças
e a paixão pela música nesse projeto que conta a história
do Rio por meio das marchinhas de Carnaval. A dupla de autores e
diretores pesquisou por um ano e ouviu mais de 1 000 músicas
até chegar às 100 que integram a trilha, a ser lançada
em disco pela Biscoito Fino. Orçado em 900 000 reais, o musical
reúne os veteranos Eduardo Dussek, Soraya Ravenle e Sabrina
Korgut e os estreantes Pedro Paulo Malta, Alfredo Del Penho e Juliana
Diniz. A ficha técnica soma nomes como Cláudio Botelho,
na direção cênica, Renato Vieira, na coreografia,
Charles Möeller, nos cenários, e Luís Filipe
de Lima, na direção musical. "Reunimos as marchinhas
produzidas entre os anos 20 e 70", conta Rosa Maria, que tem o luxuoso
auxílio da banda formada pelos irmãos Henrique e Beto
Cazes, Silvério Pontes, Oscar Bolão e Dirceu Leite.
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