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CRÔNICA
A
quem interessar Manoel
Carlos Era
esse o título que se colocava nas cartas de recomendação.
Quando se saía de um emprego, pedia-se a carta e lá vinha o "A quem
interessar", com as informações profissionais do portador. Não
sei se ainda se usa essa expressão. Lembro que, quando saí do meu
emprego de auxiliar de escritório, no Banco Noroeste, em São Paulo,
pedi essa carta ao meu chefe, um ótimo sujeito, que teve paciência
para me agüentar seis meses no emprego. Ele me colocou na mão o envelope
timbrado, dizendo: "Leve, mas procure emprego numa outra área. Você
não tem a menor vocação para bancário". Eu, até
então, nem sabia que para exercer essa atividade era preciso vocação.
Mais tarde percebi que além da vocação era preciso também
uma grande dose de resignação. Segui o conselho do bom Adhemar e
fui cantar noutra freguesia. Eu tinha 15 anos. O
Banco Noroeste não foi o meu primeiro emprego. Antes disso, a partir dos
11 anos, nas férias do internato, eu trabalhava com o meu pai, numa empresa
que ele tinha de material de construção. Era uma espécie
de office-boy de luxo. Na verdade era só uma maneira de o meu pai me tirar
da rua. Lembro que uma vez fui entregar uma correspondência a uma senhora,
que me deu 2 mil-réis de gorjeta. Era uma moeda de prata, muito bonita.
Aquilo ficou queimando na minha mão, eu não sabendo se contava ou
não ao meu pai. Afinal, era uma gorjeta para o filho do patrão.
Quando contei, ele riu muito e disse que eu fizera bem em aceitar. Que era dinheiro
de trabalho. Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo nesse dia.
Mas
se o Noroeste não foi o meu primeiro emprego, foi nele que eu encontrei
o meu primeiro grande amor. Até então todos os meus amores eram
pequenos, mais imaginados do que vividos. Esse meu primeiro grande amor era uma
moça muito bonita, cabelo preto, de franja e que carregava a marca de uma
paralisia infantil. Usava uma bota ortopédica no pé atingido, aquela
com salto bem alto, para compensar a altura da perna normal. A gente a chamava
de Mariazinha. Teria uns 25 anos mais ou menos, dez mais do que eu. Minha mesa
de trabalho ficava de frente para a dela. E meus olhos e meu desejo percorriam
esse pequeno espaço, não mais do que 3 metros, lançando chispas
de fogo. Mariazinha nunca teve demonstrações objetivas dessa minha
adoração de todos os dias, mas percebia meu interesse. Tanto percebia
que um dia deixei um pequeno poema sobre a sua mesa, sem assinar meu nome, e ela,
do lugar que ocupava, me fez sinal de agradecimento, acompanhado de um largo sorriso.
Era um madrigal, vejam só vocês. Para quem não sabe, encontram-se
no Aurélio pelo menos duas definições perfeitas para
madrigal: 1.
Pequena composição poética, engenhosa e galante.
2.
Galanteio dirigido a damas. Meu
madrigal para a Mariazinha cabia nas duas definições. Leiam, lembrando
que eu tinha 15 anos: Senhora,
esta minha lira, que
empunho com devoção,
há
muito que só suspira
nas
notas de uma canção.
Mas
ontem, quando à tardinha
me
viste, senhora minha,
sorriste,
e esse sorriso
me
fez, senhora, tão bem,
que
as cordas da minha lira
sorriram
de amor também. Naquele
mesmo dia, nos quinze minutos que tínhamos para um lanche, ela me pediu
que fizesse uma dedicatória, deixando claro que era uma composição
feita especialmente para ela. Exclusiva. Envaideceu-se, como toda mulher presenteada
com poesia. O poema não me rendeu mais do que isso, mas já serviu
para que eu vivesse algumas noites recheadas de sonhos impossíveis.
Por
que estou eu mergulhado nessas remotas lembranças? Eu conto. É que
fiquei algumas horas procurando, em várias caixas e álbuns, material
para um livro que a Tânia Carvalho está escrevendo sobre a minha
trajetória profissional, com pitadas que disso não se escapa
da minha vida pessoal. E, mexendo em papéis e fotos antigas, acabei
por achar uma cópia desse madrigal, que tem pouco menos de sessenta anos,
escrito, com letra de adolescente, numa folha de papel de seda azul-claro, como
o céu de maio. Abri, li e a Mariazinha me veio inteira à memória,
no seu andar lento e preocupado em não mancar. Bonita, vaidosa, lembro
que ela era a última a sair da seção em que trabalhávamos,
a de câmbio, para não ter de claudicar andando à frente dos
colegas. Vocês
hão de me desculpar pela pretensão de achar que uma antiga lembrança
pudesse se transformar numa crônica, ocupando cinco minutos do tempo precioso
de um domingo. Foi apenas um episódio. Uma página, já amarelecida,
da minha vida. E-mails para
o cronista: almaviva@uninet.com.br |