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9 de agosto de 2006

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CRÔNICA

A quem interessar

Manoel Carlos

Era esse o título que se colocava nas cartas de recomendação. Quando se saía de um emprego, pedia-se a carta e lá vinha o "A quem interessar", com as informações profissionais do portador. Não sei se ainda se usa essa expressão. Lembro que, quando saí do meu emprego de auxiliar de escritório, no Banco Noroeste, em São Paulo, pedi essa carta ao meu chefe, um ótimo sujeito, que teve paciência para me agüentar seis meses no emprego. Ele me colocou na mão o envelope timbrado, dizendo: "Leve, mas procure emprego numa outra área. Você não tem a menor vocação para bancário". Eu, até então, nem sabia que para exercer essa atividade era preciso vocação. Mais tarde percebi que além da vocação era preciso também uma grande dose de resignação. Segui o conselho do bom Adhemar e fui cantar noutra freguesia. Eu tinha 15 anos.

O Banco Noroeste não foi o meu primeiro emprego. Antes disso, a partir dos 11 anos, nas férias do internato, eu trabalhava com o meu pai, numa empresa que ele tinha de material de construção. Era uma espécie de office-boy de luxo. Na verdade era só uma maneira de o meu pai me tirar da rua. Lembro que uma vez fui entregar uma correspondência a uma senhora, que me deu 2 mil-réis de gorjeta. Era uma moeda de prata, muito bonita. Aquilo ficou queimando na minha mão, eu não sabendo se contava ou não ao meu pai. Afinal, era uma gorjeta para o filho do patrão. Quando contei, ele riu muito e disse que eu fizera bem em aceitar. Que era dinheiro de trabalho. Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo nesse dia.

Mas se o Noroeste não foi o meu primeiro emprego, foi nele que eu encontrei o meu primeiro grande amor. Até então todos os meus amores eram pequenos, mais imaginados do que vividos. Esse meu primeiro grande amor era uma moça muito bonita, cabelo preto, de franja e que carregava a marca de uma paralisia infantil. Usava uma bota ortopédica no pé atingido, aquela com salto bem alto, para compensar a altura da perna normal. A gente a chamava de Mariazinha. Teria uns 25 anos mais ou menos, dez mais do que eu. Minha mesa de trabalho ficava de frente para a dela. E meus olhos e meu desejo percorriam esse pequeno espaço, não mais do que 3 metros, lançando chispas de fogo. Mariazinha nunca teve demonstrações objetivas dessa minha adoração de todos os dias, mas percebia meu interesse. Tanto percebia que um dia deixei um pequeno poema sobre a sua mesa, sem assinar meu nome, e ela, do lugar que ocupava, me fez sinal de agradecimento, acompanhado de um largo sorriso. Era um madrigal, vejam só vocês. Para quem não sabe, encontram-se no Aurélio pelo menos duas definições perfeitas para madrigal:

1. Pequena composição poética, engenhosa e galante.

2. Galanteio dirigido a damas.

Meu madrigal para a Mariazinha cabia nas duas definições. Leiam, lembrando que eu tinha 15 anos:

Senhora, esta minha lira,

que empunho com devoção,

há muito que só suspira

nas notas de uma canção.

Mas ontem, quando à tardinha

me viste, senhora minha,

sorriste, e esse sorriso

me fez, senhora, tão bem,

que as cordas da minha lira

sorriram de amor também.

Naquele mesmo dia, nos quinze minutos que tínhamos para um lanche, ela me pediu que fizesse uma dedicatória, deixando claro que era uma composição feita especialmente para ela. Exclusiva. Envaideceu-se, como toda mulher presenteada com poesia. O poema não me rendeu mais do que isso, mas já serviu para que eu vivesse algumas noites recheadas de sonhos impossíveis.

Por que estou eu mergulhado nessas remotas lembranças? Eu conto. É que fiquei algumas horas procurando, em várias caixas e álbuns, material para um livro que a Tânia Carvalho está escrevendo sobre a minha trajetória profissional, com pitadas – que disso não se escapa – da minha vida pessoal. E, mexendo em papéis e fotos antigas, acabei por achar uma cópia desse madrigal, que tem pouco menos de sessenta anos, escrito, com letra de adolescente, numa folha de papel de seda azul-claro, como o céu de maio. Abri, li e a Mariazinha me veio inteira à memória, no seu andar lento e preocupado em não mancar. Bonita, vaidosa, lembro que ela era a última a sair da seção em que trabalhávamos, a de câmbio, para não ter de claudicar andando à frente dos colegas.

Vocês hão de me desculpar pela pretensão de achar que uma antiga lembrança pudesse se transformar numa crônica, ocupando cinco minutos do tempo precioso de um domingo. Foi apenas um episódio. Uma página, já amarelecida, da minha vida.

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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