Publicidade
 
 


 
 



9 de maio de 2007

MÚSICA

PATRIMÔNIO
CULTURA
CIDADE
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Há tanta vida lá fora

Tutty Vasques

O medo de sair às ruas, epígrafe da violência no Rio de Janeiro, soa conversa fiada de indignado toda vez que 1 milhão de cariocas cismam de ir à mesma festa. Multidão assim só se encontrava anos atrás no réveillon de Copacabana. Há duas semanas, a marca virou unidade de medida de público de corrida de aviões. Mas não é de hoje que o temor cada vez maior de sair de casa vem sendo desafiado por esse espírito de resistência de uma gente decidida a curtir seu programa de índio em paz.

Taí o fenômeno da proliferação dos blocos que não me deixa mentir. O Carnaval do Rio voltou a ser de rua. Aconteceu de forma espontânea, em meio ao recrudescimento da selvageria nas esquinas, muito na base da improvisação entre amigos de bairro. Não importam os problemas de transporte e de alimentação, banheiros públicos insuficientes, falta de informação e de limpeza pública – a bagunça de praxe, enfim –, o povo se mantém fiel à coreografia da ordem, do bom comportamento. Show! Dos Rolling Stones a Sérgio Mendes, quanto mais gente junta, mais seguro o Rio fica.

Parece milagre que nada de grave ocorra nessas aglomerações incalculáveis quase sempre mal planejadas e invariavelmente desconfortáveis para o grande público. Mais incríveis ainda são as demonstrações de camaradagem explícita entre pessoas de nível social, escolaridade, credo, procedência, cor de pele, tudo, tudo diferente. Não há nada mais democrático na cidade do que tais manifestações de amor ao ar livre e ao próximo ao mesmo tempo. Tanto faz se estão ali para ver aviõezinhos, fogos, Iemanjá, Mick Jagger, eclipse ou o papa, o fato de estarem juntas é o que importa.

O carioca de bem dá um polimento em sua auto-estima sempre que, a despeito da desordem urbana federal, consegue quórum suficiente para se sentir maioria esmagadora de gente decente nas ruas. A bandidagem não se atreve a dar as caras em ocasiões como a daquele sábado de piruetas aéreas na Enseada de Botafogo. Meninos, eu vi: nem policiais havia na orla da Urca, tomada de assalto pela alegria da convivência. O que foi aquilo?

Na longa espera pela decolagem do evento, aconteciam momentos contagiantes como um Parabéns pra Você ao pé do ouvido da namorada se transformar em coro de 200 vozes – uma espécie de ola de aniversário. Vi um senhor expulsando do parapeito de sua varanda para dentro de casa quem por lá arriscasse um olhar sobre a multidão. Vi motoristas respeitando a velocidade mínima recomendável, tamanha a quantidade de gente que se derramava das calçadas. Vi um pessoal pedindo licença, velhinhos gratos pela atenção, adultos dando passagem a crianças, tapinhas nas costas, tantos risos, oh!, quanta alegria.

Foi aí que eu comecei a pensar no seguinte: essa vocação do carioca para festa pode garantir o sucesso dos Jogos Pan-Americanos, pelo menos no que diz respeito às provas a céu aberto. A Lagoa Rodrigo de Freitas, que no passado se gabava do feito de reunir todos os eleitores do Gabeira num abraço, deve receber seu primeiro milhão de espectadores nas competições de remo, canoagem e esqui aquático.

O Parque do Flamengo será palco da maratona, da marcha atlética e do ciclismo de estrada. Ali do lado, a Marina da Glória servirá de ponto de partida da vela. Entre o Leme e o Posto 6, além do vôlei de praia fechado em arena, o público poderá acompanhar o triatlo e a estréia em Pan-Americanos da maratona aquática, prova de natação de longa distância (10 quilômetros) no mar. Garantia de gente nas ruas que não acaba mais.

No que depender do espírito carioca, vai rolar a festa, pode crer que vai rolar, o que também não deixa de ser uma forma de protesto, um basta efetivo ao medo de sair de casa e à máxima "Não dá mais para viver no Rio de Janeiro". O povão quer que dê tudo certo e, no que depender dele, vai dar.

Quanto às denúncias de irregularidades e atrasos na construção ou reforma de vários estádios, críticas assim perderam muito de sua força depois que Pelé aderiu ao coro dos descontentes. O rei, como se sabe, nunca foi bom de prognóstico. Quem é carioca tem mais que apostar no sucesso do Pan. Tô nessa!


e-mail: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados