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9 de maio de 2007

MÚSICA

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MÚSICA

Bravo!

Talentoso e exigente ao extremo,
o maestro Roberto Minczuk trouxe
a Orquestra Sinfônica Brasileira
de volta ao topo – e ganhou dos
músicos o apelido de "Bernardinho",
o difícil e vitorioso técnico da seleção
de vôlei

Débora Ghivelder

Ricardo Fasanello/Strana
O maestro, no ensaio para o concerto com Yamandú: rigor com os noventa músicos da orquestra

Teatro Municipal lotado. Os 2 350 ingressos para assistir ao concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira com o violonista Yamandú Costa, no sábado 28 de abril, esgotaram-se cinco dias antes. Antítese do tradicional músico clássico, Yamandú conversou, reclamou do forte ar condicionado e deslumbrou a audiência na Suíte para Violão de Sete Cordas e Orquestra, do violonista e compositor Maurício Carrilho, um aplicado estudioso do choro. A platéia veio abaixo e mandou as convenções às favas. Aplaudiu com entusiasmo, inclusive entre os três movimentos da obra, coisa que, para a turma erudita, soa como heresia. Mentor da festa, o maestro paulista Roberto Minczuk acompanhava tudo com satisfação. O sucesso da apresentação coroa um ano e oito meses de trabalho à frente da orquestra, como diretor artístico e regente titular. Desde que assumiu o posto, em agosto de 2005, em meio a uma das mais sérias crises da instituição, Minczuk elevou o nível do conjunto a um patamar não visto (ou ouvido) há anos, com direito a ousadias como a presença no palco de um solista mais afeito às rodas de choro da Lapa. "Eu e o maestro temos uma boa liga", diz Yamandú, que já apresentou a obra na canadense Filarmônica de Calgary, igualmente comandada por Minczuk, e, graças a uma mãozinha do regente, na Orquestra Nacional da França, conduzida por Kurt Masur.

O tom popular do concerto continuou noite adentro no Amarelinho, bar tradicional da Cinelândia, quase ao lado do Municipal. Minczuk promoveu uma rodada de chope com os músicos da orquestra. Pagou a conta, pois queria comemorar com o grupo seus 40 anos, completados na mesma semana. "Eles tocaram Parabéns pra Você, durante o ensaio, e eu quis retribuir", conta. Mais que isso. Com o encontro, ele sinaliza que deseja se aproximar dos instrumentistas, ainda um tanto abalados pelas catorze demissões promovidas pelo regente em dezembro último, ao término da temporada. "O processo não foi transparente e os músicos estão tensos. Todos se perguntam quando virá a próxima leva", diz um deles. O maestro sabe que, para transformar a OSB novamente numa grande orquestra, precisa do time a seu favor. E fazer com que se apague a lembrança de que foi escolhido para o cargo por vontade da administração, e não dos músicos. As chances são boas. Embora seja visto como um sujeito linha-dura, rigoroso e exigente, seu talento é incontestável. Não é à toa que os músicos se referem a ele como Bernardinho, o vitorioso – e muitas vezes difícil – técnico da seleção masculina de vôlei. Ao mesmo tempo em que o regente carrega as demissões em sua lista de débitos, exibe na coluna de créditos o fato de ter elevado o salário-base do grupo de 2 200 para 4 000 reais e ampliado o esquema de gratificação para os músicos.

Missão é a melhor palavra para definir como o maestro encara seu trabalho na OSB. Evangélico, Minczuk colore com tintas messiânicas sua trajetória. Costuma dizer que Deus sabe o que faz. Religioso, lê a Bíblia diariamente, inclusive antes de pisar no palco. O livro sagrado está sempre em seu camarim, e a leitura, em silêncio, é um ritual. Sabe salmos de cor. Entre os preferidos, o de número 19: "Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos", recita. Quando está na cidade, freqüenta a pentecostal Igreja da Nova Vida, no Recreio dos Bandeirantes. "Vou aos dois cultos de domingo", diz ele. Faz-se sempre acompanhar da mulher, Valéria, com quem vive há dezesseis anos, e dos quatro filhos, com idades entre 3 e 14 anos. Não abre mão da presença das crianças na igreja nem nas aulas de música. "Não impingi o estudo a nenhum deles. Eles quiseram. Agora, não permito que desistam", explica.

Ensaio da OSB de Minczuk: salários iniciais de 4 000 reais

Tudo indica que o maestro repete, em sua casa, o modelo que conheceu na infância. Quinto dos oito filhos do sargento reformado da Polícia Militar José Minczuk, descendente de russos, ele aprendeu a tocar trompa aos 6 anos, antes mesmo de ter pulmões para isso. Por determinação do pai, todos os irmãos se iniciaram musicalmente, mas só Arcádio (primeiro-oboísta da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp), Eduardo (trompista) e Cristiane (cantora lírica) seguiram na profissão. Os Minczuk tocavam na orquestra criada por José no templo da Assembléia de Deus que freqüentavam. Aos 14 anos, estreou com a Orquestra Sinfônica Brasileira, então uma potência, e no ano seguinte ganhou uma bolsa de estudos na americana Juilliard School. Nessa época começou a reger, na igreja que freqüentava em Nova Jersey. O passo seguinte foi a Gewandhaus, orquestra do lendário maestro alemão Kurt Masur. Caiu nas graças do regente e de sua mulher, Tomoko Sakurai. O fato de ser brasileiro deve ter ajudado. Masur e Tomoko se conheceram na Orquestra Sinfônica Brasileira, na qual ela tocava viola, em 1974. O casal adotou o rapaz. "Eu ia à casa deles lavar minhas roupas", conta. Masur, que vai reger a OSB no próximo dia 25, transformou-se no guru da carreira de Minczuk. "Roberto criou, em um curto tempo, um clima muito especial entre os membros da OSB", declarou a Veja Rio por e-mail. "Por isso, é com grande prazer que retorno à orquestra. Sua orientação e liderança musical são qualidades raras nos dias de hoje."

A experiência de Minczuk é invejável. Foi regente associado da Filarmônica de Nova York e conduziu orquestras do porte das filarmônicas de Israel e Londres. Antes dele, entre os regentes brasileiros, apenas Eleazar de Carvalho, que morreu em 1996, havia alcançado tanta expressão no circuito internacional. No Brasil, participou da revitalização da Osesp como assistente do maestro John Neschling. Deixou a orquestra em 2005, depois de uma série de atritos com o titular. "Não fui eu quem brigou com o Neschling. Foi ele que brigou comigo", limita-se a dizer Minczuk. Há poucas semanas viu seu nome surgir como o suposto pivô de um desentendimento entre o número 1 da Osesp e o governador de São Paulo, José Serra, que gostaria de afastar Neschling e colocar Minczuk em seu lugar. "Não fui procurado por ninguém", esquiva-se.

Não há dúvida de que assumir a Osesp, a melhor orquestra nacional, faria bem ao ego de qualquer regente. E o de Minczuk não é pequeno. Mas ter no currículo o título de salvador da OSB pega tão bem quanto o de fundador da nova Osesp, que Neschling ostenta. Sede própria também não é o problema: se a Osesp tem a moderna Sala São Paulo, a orquestra carioca está prestes a ganhar a Cidade da Música, megainvestimento da prefeitura orçado em 350 milhões de reais, com previsão para ficar pronta em julho de 2008. O salário de titular da Osesp pode ser maior – estimados 110 000 reais por mês, o equivalente a 650 000 dólares por ano, contra também estimados 400 000 dólares por ano para Minczuk na OSB. "Salário de 400 000 dólares? Quem me dera", desconversa o regente da OSB. Sem dúvida, são valores altíssimos para o mercado brasileiro, mas não exagerados se comparados aos 2,6 milhões de dólares pagos pela Filarmônica de Nova York ao maestro Lorin Maazel, seu diretor musical.

Com contrato até 2010, Minczuk conta com duas pessoas-chave no processo de reestruturação da orquestra. Trouxe para cuidar do marketing Ricardo Levisky, com quem tinha trabalhado na Osesp. Na administração tem o pianista e advogado Luís Fernando Benedini, escolhido pelo conselho da instituição. O trabalho da dupla fez o orçamento da orquestra saltar de insuficientes 7,5 milhões de reais, em 2005, para confortáveis 16,5 milhões em 2007.

Moradores de uma casa alugada num condomínio da Barra da Tijuca, Minczuk e a mulher procuram agora um imóvel para comprar no bairro. "Estamos felizes aqui. É outra qualidade de vida", diz ele, que transita pela cidade no banco do carona da Caravan da família ou de táxi. Dirigir nem pensar. Valéria não deixa. "Ele tem muita coisa na cabeça. Tenho medo", diz a mulher. O maestro esforça-se para adquirir hábitos de carioca. Outro dia levou o filho, Joshua, à praia. Na semana passada, arriscou uma ida ao tradicional bar Jobi, no Leblon. Mas os gostos de Minczuk são mais refinados. O casal freqüenta restaurantes como Antiquarius, Gero e Garcia & Rodrigues. Ele gosta de um bom vinho e acaba de descobrir o champanhe. "Tenho regido mais na França e agora sei o que é champanhe bom de verdade", esnoba. No tempo livre, dá braçadas na piscina de casa ou voltas de bicicleta. A agenda apertada – são cerca de oitenta concertos anuais – não permite que se dedique a dois prazeres: andar de jet ski ou driblar corredeiras praticando rafting. Apesar de adotar, fora do palco, um visual esportivo, o maestro é dado a pequenos luxos, como o par de óculos escuros Chanel, que leva pendurado na camisa, e o terno preferido, um Ermenegildo Zegna. Ainda entre os caprichos estão as batutas da marca Mollard, 30 dólares cada uma, que, acredita, têm um equilíbrio perfeito – como o que ele trouxe para a OSB.



Concorrência de peso

Divulgação
Karabtchevsky: espaço para duas orquestras


As sucessivas crises pelas quais a OSB passou nos últimos anos – agora superadas – levaram a Orquestra Petrobras Sinfônica a ocupar maior espaço no cenário erudito da cidade. Criada em 1987, ela é mantida pela maior estatal do país (este ano tem orçamento previsto de 9,7 milhões de reais). O grande salto de qualidade aconteceu em 2004. Enquanto a OSB ficava acéfala, com a saída do maestro Yeruham Scharovsky, a outra comemorava a chegada do veterano e experiente Isaac Karabtchevsky. Com a vinda de Roberto Minczuk, o desequilíbrio cessou. Ganhou o público. Bom exemplo desse lucro foi o recente episódio envolvendo o pianista Nelson Freire. Convidado a fazer um concerto com a Petrobras Sinfônica na capital, em 22 de abril último, o artista – que tinha agendada apresentação com a OSB no dia 3 de maio – pediu um remanejamento de datas. Fofoqueiros das coxias logo alardearam uma briga com a direção da OSB. Não houve. O concerto foi transferido para setembro e os cariocas poderão ver o pianista mais uma vez na temporada. "Tóquio tem onze orquestras, Paris nove e Londres seis. É claro que o Rio pode ter duas", diz Isaac Karabtchevsky. Viva a concorrência!



Histórias de sucesso

Um prêmio Grammy:
melhor álbum clássico,
Jobim Sinfônico...

...e um Emmy: programa com o New York City Ballet

Fotos Álbum de Família
Minczuk e Valéria com os filhos Natalie e Rebecca (atrás), Julia e Joshua: rotina recheada por aulas de música e idas à igreja

No Festival de Inverno de Campos de Jordão, aos 11 anos: encontro do trompista iniciante com o mítico violonista e maestro russo Mstislav Rostropovitch, que morreu no último dia 27

Rachel Guedes

Ao lado dos dois maiores incentivadores de sua carreira: o pai, José (à esq.), e o maestro Kurt Masur, que o levou para tocar na Alemanha


Na Playbill: capa da revista da programação nova-iorquina



Bela, talentosa e modesta

Fotos Ricardo Fasanello/Strana


Bonita, esguia, de pele alva e cabelos escuros, a violoncelista Iris Regev chama atenção no palco. "É porque sou a única mulher do naipe", desconversa, cheia de modéstia. Aos 17 anos, ela saiu de Tel Aviv para estudar na Juilliard School, em Nova York. Em sua jornada americana, tocou com virtuosos como os violinistas Itzhak Perlman e Pinchas Zukerman. Depois de se casar com o pianista Ilan Rechtman, ela passou a se apresentar em cruzeiros, e numa dessas viagens conheceu o Brasil. A paisagem, o povo e o clima seduziram o casal, que se mudou para cá. Em 2001, Iris ingressou na Osesp, e desde março está na OSB.



Erudição nas veias

Michel Bessler pôs fim a uma longa tradição da OSB de ter estrangeiros como spalla. Isso aconteceu em 1977, quando ele foi aprovado para ser o primeiro-violino da casa, aos 28 anos, assim que regressou de uma temporada de estudos no exterior. Seu sobrenome batiza um prestigiado conjunto de cordas. O Quarteto Bessler – que reúne Michel, seu irmão Bernardo, sua cunhada Christine Springel e Hugo Pilger – tem discos editados no Japão e já foi premiado por publicações como Le Monde de la Musique e Diapason.



O caçula-prodígio

Único violista admitido nas audições de março, Gabriel Marin, 21 anos, é o caçula da orquestra. O novato já conquistou a posição de concertino. Ou seja: na hierarquia musical, é o segundo do naipe de violas, atrás apenas do spalla. Marin chegou a assumir o posto principal durante três semanas, devido a uma licença médica do veterano Frederick Stephany. "Fiquei feliz pela confiança do maestro", diz. Não foi a primeira vez que Minczuk apostou no talento desse paulista de Piracicaba. Há três anos, no Festival Internacional de Campos do Jordão, ele ganhou uma bolsa de estudos para passar um ano na Dinamarca. Minczuk era da comissão julgadora.



O veterano do grupo

A história do violista Frederick Stephany é repleta de aventuras. Nascido no Irã, em 1929, aos 20 anos ele foi para a Itália estudar. Lá, casou-se com a cantora lírica Aida Stephany e passou a viver da música. Em 1961, trocou Milão por São Roque, no interior paulista, onde sua família possuía uma granja e uma fabriqueta. Foi um choque. Por sorte, em um recital de Aida Stephany no Teatro Municipal de São Paulo, conheceu o compositor alemão Hans-Joachim Koellreutter e sua carreira no Brasil deslanchou. Há 41 anos como spalla das violas, Stephany é o músico mais longevo da orquestra.



Adeus, periferia

No vocabulário musical, a palavra "tutti" indica os trechos da obra com a participação de todos os instrumentistas. Daí que "ficar no tutti" significa estar em posição periférica na orquestra. Com 21 anos de idade e quatro de OSB, a violinista paraibana Gabriela Queiroz fazia parte dessa turma até submeter-se, no ano passado, a uma avaliação proposta por Minczuk. Resultado: saltou da última para a segunda fileira do naipe de violinos e, por isso, ganhou aumento de 30% no salário. "A prova não era obrigatória, foi uma opção minha", diz ela. "Agora, aqui, quem quiser crescer terá de correr atrás."



Em ótimas companhias

Pode-se dizer que o trompista Luís Garcia, na OSB desde março, sempre tocou em boa companhia. Depois de diversos concertos com a Sinfônica de Boston e de quatro anos na Osesp, ele embarcou para a Alemanha, onde participou da Orquestra da Rádio Bávara de Munique. Por indicação de Stefan Dohr, músico da Filarmônica de Berlim, Garcia tocou, também, como convidado regular nessa que é considerada a melhor orquestra do mundo.



Com a corda toda

De cabelo e barba desalinhados, o visual do inglês David Chew destoa no palco. Apaixonado pelo Brasil, por Villa-Lobos e pelas brasileiras, ele migrou da Sinfônica da BBC para a OSB após ser aprovado em um exame de fita gravada, em 1981. Adaptou-se perfeitamente à vida carioca. Chew gosta de jogar bola na praia, virou fã de caipirinha e consegue aliar o lazer a uma agenda lotada de atividades musicais paralelas. O spalla dos violoncelos é fundador da ONG All Music, que atua em áreas pobres de Niterói, e criador do Rio International Cello Encounter, um badalado festival que agita a cidade todo ano.

     
   

 

 
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