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MÚSICA
Bravo! Talentoso e exigente ao extremo,
o maestro Roberto Minczuk trouxe a Orquestra Sinfônica Brasileira
de volta ao topo e ganhou dos músicos o apelido de "Bernardinho",
o difícil e vitorioso técnico da seleção
de vôlei Débora Ghivelder
Ricardo
Fasanello/Strana  |
| O maestro, no ensaio para o concerto
com Yamandú: rigor com os noventa músicos
da orquestra | Teatro
Municipal lotado. Os 2 350 ingressos para assistir ao concerto da Orquestra Sinfônica
Brasileira com o violonista Yamandú Costa, no sábado 28 de abril,
esgotaram-se cinco dias antes. Antítese do tradicional músico clássico,
Yamandú conversou, reclamou do forte ar condicionado e deslumbrou a audiência
na Suíte para Violão de Sete Cordas e Orquestra, do violonista
e compositor Maurício Carrilho, um aplicado estudioso do choro. A platéia
veio abaixo e mandou as convenções às favas. Aplaudiu com
entusiasmo, inclusive entre os três movimentos da obra, coisa que, para
a turma erudita, soa como heresia. Mentor da festa, o maestro paulista Roberto
Minczuk acompanhava tudo com satisfação. O sucesso da apresentação
coroa um ano e oito meses de trabalho à frente da orquestra, como diretor
artístico e regente titular. Desde que assumiu o posto, em agosto de 2005,
em meio a uma das mais sérias crises da instituição, Minczuk
elevou o nível do conjunto a um patamar não visto (ou ouvido) há
anos, com direito a ousadias como a presença no palco de um solista mais
afeito às rodas de choro da Lapa. "Eu e o maestro temos uma boa liga",
diz Yamandú, que já apresentou a obra na canadense Filarmônica
de Calgary, igualmente comandada por Minczuk, e, graças a uma mãozinha
do regente, na Orquestra Nacional da França, conduzida por Kurt Masur.
O tom popular do concerto continuou
noite adentro no Amarelinho, bar tradicional da Cinelândia, quase ao lado
do Municipal. Minczuk promoveu uma rodada de chope com os músicos da orquestra.
Pagou a conta, pois queria comemorar com o grupo seus 40 anos, completados na
mesma semana. "Eles tocaram Parabéns pra Você, durante o ensaio,
e eu quis retribuir", conta. Mais que isso. Com o encontro, ele sinaliza que deseja
se aproximar dos instrumentistas, ainda um tanto abalados pelas catorze demissões
promovidas pelo regente em dezembro último, ao término da temporada.
"O processo não foi transparente e os músicos estão tensos.
Todos se perguntam quando virá a próxima leva", diz um deles. O
maestro sabe que, para transformar a OSB novamente numa grande orquestra, precisa
do time a seu favor. E fazer com que se apague a lembrança de que foi escolhido
para o cargo por vontade da administração, e não dos músicos.
As chances são boas. Embora seja visto como um sujeito linha-dura, rigoroso
e exigente, seu talento é incontestável. Não é à
toa que os músicos se referem a ele como Bernardinho, o vitorioso
e muitas vezes difícil técnico da seleção masculina
de vôlei. Ao mesmo tempo em que o regente carrega as demissões em
sua lista de débitos, exibe na coluna de créditos o fato de ter
elevado o salário-base do grupo de 2 200 para 4 000 reais e ampliado o
esquema de gratificação para os músicos.
Missão é a melhor palavra para definir como o maestro encara seu
trabalho na OSB. Evangélico, Minczuk colore com tintas messiânicas
sua trajetória. Costuma dizer que Deus sabe o que faz. Religioso, lê
a Bíblia diariamente, inclusive antes de pisar no palco. O livro
sagrado está sempre em seu camarim, e a leitura, em silêncio, é
um ritual. Sabe salmos de cor. Entre os preferidos, o de número 19: "Os
céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das
suas mãos", recita. Quando está na cidade, freqüenta a pentecostal
Igreja da Nova Vida, no Recreio dos Bandeirantes. "Vou aos dois cultos de domingo",
diz ele. Faz-se sempre acompanhar da mulher, Valéria, com quem vive há
dezesseis anos, e dos quatro filhos, com idades entre 3 e 14 anos. Não
abre mão da presença das crianças na igreja nem nas aulas
de música. "Não impingi o estudo a nenhum deles. Eles quiseram.
Agora, não permito que desistam", explica.
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| Ensaio da OSB de Minczuk: salários iniciais
de 4 000 reais | Tudo
indica que o maestro repete, em sua casa, o modelo que conheceu na infância.
Quinto dos oito filhos do sargento reformado da Polícia Militar José
Minczuk, descendente de russos, ele aprendeu a tocar trompa aos 6 anos, antes
mesmo de ter pulmões para isso. Por determinação do pai,
todos os irmãos se iniciaram musicalmente, mas só Arcádio
(primeiro-oboísta da Orquestra Sinfônica do Estado de São
Paulo, a Osesp), Eduardo (trompista) e Cristiane (cantora lírica) seguiram
na profissão. Os Minczuk tocavam na orquestra criada por José no
templo da Assembléia de Deus que freqüentavam. Aos 14 anos, estreou
com a Orquestra Sinfônica Brasileira, então uma potência, e
no ano seguinte ganhou uma bolsa de estudos na americana Juilliard School. Nessa
época começou a reger, na igreja que freqüentava em Nova Jersey.
O passo seguinte foi a Gewandhaus, orquestra do lendário maestro alemão
Kurt Masur. Caiu nas graças do regente e de sua mulher, Tomoko Sakurai.
O fato de ser brasileiro deve ter ajudado. Masur e Tomoko se conheceram na Orquestra
Sinfônica Brasileira, na qual ela tocava viola, em 1974. O casal adotou
o rapaz. "Eu ia à casa deles lavar minhas roupas", conta. Masur, que vai
reger a OSB no próximo dia 25, transformou-se no guru da carreira de Minczuk.
"Roberto criou, em um curto tempo, um clima muito especial entre os membros da
OSB", declarou a Veja Rio por e-mail. "Por isso, é com grande prazer
que retorno à orquestra. Sua orientação e liderança
musical são qualidades raras nos dias de hoje."
A experiência de Minczuk é invejável. Foi regente associado
da Filarmônica de Nova York e conduziu orquestras do porte das filarmônicas
de Israel e Londres. Antes dele, entre os regentes brasileiros, apenas Eleazar
de Carvalho, que morreu em 1996, havia alcançado tanta expressão
no circuito internacional. No Brasil, participou da revitalização
da Osesp como assistente do maestro John Neschling. Deixou a orquestra em 2005,
depois de uma série de atritos com o titular. "Não fui eu quem brigou
com o Neschling. Foi ele que brigou comigo", limita-se a dizer Minczuk. Há
poucas semanas viu seu nome surgir como o suposto pivô de um desentendimento
entre o número 1 da Osesp e o governador de São Paulo, José
Serra, que gostaria de afastar Neschling e colocar Minczuk em seu lugar. "Não
fui procurado por ninguém", esquiva-se.
Não há dúvida de que assumir a Osesp, a melhor orquestra
nacional, faria bem ao ego de qualquer regente. E o de Minczuk não é
pequeno. Mas ter no currículo o título de salvador da OSB pega tão
bem quanto o de fundador da nova Osesp, que Neschling ostenta. Sede própria
também não é o problema: se a Osesp tem a moderna Sala São
Paulo, a orquestra carioca está prestes a ganhar a Cidade da Música,
megainvestimento da prefeitura orçado em 350 milhões de reais, com
previsão para ficar pronta em julho de 2008. O salário de titular
da Osesp pode ser maior estimados 110 000 reais por mês, o equivalente
a 650 000 dólares por ano, contra também estimados 400 000 dólares
por ano para Minczuk na OSB. "Salário de 400 000 dólares? Quem me
dera", desconversa o regente da OSB. Sem dúvida, são valores altíssimos
para o mercado brasileiro, mas não exagerados se comparados aos 2,6 milhões
de dólares pagos pela Filarmônica de Nova York ao maestro Lorin Maazel,
seu diretor musical. Com contrato
até 2010, Minczuk conta com duas pessoas-chave no processo de reestruturação
da orquestra. Trouxe para cuidar do marketing Ricardo Levisky, com quem tinha
trabalhado na Osesp. Na administração tem o pianista e advogado
Luís Fernando Benedini, escolhido pelo conselho da instituição.
O trabalho da dupla fez o orçamento da orquestra saltar de insuficientes
7,5 milhões de reais, em 2005, para confortáveis 16,5 milhões
em 2007. Moradores de uma casa alugada
num condomínio da Barra da Tijuca, Minczuk e a mulher procuram agora um
imóvel para comprar no bairro. "Estamos felizes aqui. É outra qualidade
de vida", diz ele, que transita pela cidade no banco do carona da Caravan da família
ou de táxi. Dirigir nem pensar. Valéria não deixa. "Ele tem
muita coisa na cabeça. Tenho medo", diz a mulher. O maestro esforça-se
para adquirir hábitos de carioca. Outro dia levou o filho, Joshua, à
praia. Na semana passada, arriscou uma ida ao tradicional bar Jobi, no Leblon.
Mas os gostos de Minczuk são mais refinados. O casal freqüenta restaurantes
como Antiquarius, Gero e Garcia & Rodrigues. Ele gosta de um bom vinho e acaba
de descobrir o champanhe. "Tenho regido mais na França e agora sei o que
é champanhe bom de verdade", esnoba. No tempo livre, dá braçadas
na piscina de casa ou voltas de bicicleta. A agenda apertada são
cerca de oitenta concertos anuais não permite que se dedique a dois
prazeres: andar de jet ski ou driblar corredeiras praticando rafting. Apesar de
adotar, fora do palco, um visual esportivo, o maestro é dado a pequenos
luxos, como o par de óculos escuros Chanel, que leva pendurado na camisa,
e o terno preferido, um Ermenegildo Zegna. Ainda entre os caprichos estão
as batutas da marca Mollard, 30 dólares cada uma, que, acredita, têm
um equilíbrio perfeito como o que ele trouxe para a OSB.
Concorrência de peso
Divulgação
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| Karabtchevsky: espaço para duas orquestras
| As sucessivas crises pelas
quais a OSB passou nos últimos anos agora superadas levaram
a Orquestra Petrobras Sinfônica a ocupar maior espaço no cenário
erudito da cidade. Criada em 1987, ela é mantida pela maior estatal do
país (este ano tem orçamento previsto de 9,7 milhões de reais).
O grande salto de qualidade aconteceu em 2004. Enquanto a OSB ficava acéfala,
com a saída do maestro Yeruham Scharovsky, a outra comemorava a chegada
do veterano e experiente Isaac Karabtchevsky. Com a vinda de Roberto Minczuk,
o desequilíbrio cessou. Ganhou o público. Bom exemplo desse lucro
foi o recente episódio envolvendo o pianista Nelson Freire. Convidado a
fazer um concerto com a Petrobras Sinfônica na capital, em 22 de abril último,
o artista que tinha agendada apresentação com a OSB no dia
3 de maio pediu um remanejamento de datas. Fofoqueiros das coxias logo
alardearam uma briga com a direção da OSB. Não houve. O concerto
foi transferido para setembro e os cariocas poderão ver o pianista mais
uma vez na temporada. "Tóquio tem onze orquestras, Paris nove e Londres
seis. É claro que o Rio pode ter duas", diz Isaac Karabtchevsky. Viva a
concorrência!
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Histórias de sucesso
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Um prêmio Grammy:
melhor álbum clássico, Jobim Sinfônico... | ...e
um Emmy: programa com o New York City Ballet |
Fotos Álbum de Família
 | | Minczuk
e Valéria com os filhos Natalie e Rebecca (atrás), Julia
e Joshua: rotina recheada por aulas de música e idas à igreja
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| No Festival de Inverno de Campos de Jordão,
aos 11 anos: encontro do trompista iniciante
com o mítico violonista e maestro russo Mstislav Rostropovitch,
que morreu no último dia 27 |
Rachel Guedes  |
Ao lado dos dois
maiores incentivadores de sua carreira: o pai, José
(à esq.), e o maestro Kurt Masur, que o levou
para tocar na Alemanha |
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Na Playbill: capa da revista da programação
nova-iorquina | |
Bela, talentosa e modesta
Fotos Ricardo Fasanello/Strana
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Bonita, esguia, de pele alva e cabelos escuros, a violoncelista Iris Regev chama
atenção no palco. "É porque sou a única mulher do
naipe", desconversa, cheia de modéstia. Aos 17 anos, ela saiu de Tel Aviv
para estudar na Juilliard School, em Nova York. Em sua jornada americana, tocou
com virtuosos como os violinistas Itzhak Perlman e Pinchas Zukerman. Depois de
se casar com o pianista Ilan Rechtman, ela passou a se apresentar em cruzeiros,
e numa dessas viagens conheceu o Brasil. A paisagem, o povo e o clima seduziram
o casal, que se mudou para cá. Em 2001, Iris ingressou na Osesp, e desde
março está na OSB.
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Erudição nas veias
Michel Bessler pôs fim a uma
longa tradição da OSB de ter estrangeiros como spalla. Isso aconteceu
em 1977, quando ele foi aprovado para ser o primeiro-violino da casa, aos 28 anos,
assim que regressou de uma temporada de estudos no exterior. Seu sobrenome batiza
um prestigiado conjunto de cordas. O Quarteto Bessler que reúne
Michel, seu irmão Bernardo, sua cunhada Christine Springel e Hugo Pilger
tem discos editados no Japão e já foi premiado por publicações
como Le Monde de la Musique e Diapason. |
O caçula-prodígio
Único violista admitido nas audições
de março, Gabriel Marin, 21 anos, é o caçula da orquestra.
O novato já conquistou a posição de concertino. Ou seja:
na hierarquia musical, é o segundo do naipe de violas, atrás apenas
do spalla. Marin chegou a assumir o posto principal durante três semanas,
devido a uma licença médica do veterano Frederick Stephany. "Fiquei
feliz pela confiança do maestro", diz. Não foi a primeira vez que
Minczuk apostou no talento desse paulista de Piracicaba. Há três
anos, no Festival Internacional de Campos do Jordão, ele ganhou uma bolsa
de estudos para passar um ano na Dinamarca. Minczuk era da comissão julgadora.
| O veterano
do grupo A história do violista Frederick
Stephany é repleta de aventuras. Nascido no Irã, em 1929, aos
20 anos ele foi para a Itália estudar. Lá, casou-se com a cantora
lírica Aida Stephany e passou a viver da música. Em 1961, trocou
Milão por São Roque, no interior paulista, onde sua família
possuía uma granja e uma fabriqueta. Foi um choque. Por sorte, em um recital
de Aida Stephany no Teatro Municipal de São Paulo, conheceu o compositor
alemão Hans-Joachim Koellreutter e sua carreira no Brasil deslanchou. Há
41 anos como spalla das violas, Stephany é o músico mais longevo
da orquestra. |
Adeus, periferia
No vocabulário musical, a palavra
"tutti" indica os trechos da obra com a participação de todos os
instrumentistas. Daí que "ficar no tutti" significa estar em posição
periférica na orquestra. Com 21 anos de idade e quatro de OSB, a violinista
paraibana Gabriela Queiroz fazia parte dessa turma até submeter-se,
no ano passado, a uma avaliação proposta por Minczuk. Resultado:
saltou da última para a segunda fileira do naipe de violinos e, por isso,
ganhou aumento de 30% no salário. "A prova não era obrigatória,
foi uma opção minha", diz ela. "Agora, aqui, quem quiser crescer
terá de correr atrás." |
Em ótimas companhias
Pode-se dizer que o trompista Luís
Garcia, na OSB desde março, sempre tocou em boa companhia. Depois
de diversos concertos com a Sinfônica de Boston e de quatro anos na Osesp,
ele embarcou para a Alemanha, onde participou da Orquestra da Rádio Bávara
de Munique. Por indicação de Stefan Dohr, músico da Filarmônica
de Berlim, Garcia tocou, também, como convidado regular nessa que é
considerada a melhor orquestra do mundo. |
Com a corda toda
De cabelo e barba desalinhados, o visual
do inglês David Chew destoa no palco. Apaixonado pelo Brasil, por
Villa-Lobos e pelas brasileiras, ele migrou da Sinfônica da BBC para a OSB
após ser aprovado em um exame de fita gravada, em 1981. Adaptou-se perfeitamente
à vida carioca. Chew gosta de jogar bola na praia, virou fã de caipirinha
e consegue aliar o lazer a uma agenda lotada de atividades musicais paralelas.
O spalla dos violoncelos é fundador da ONG All Music, que atua em áreas
pobres de Niterói, e criador do Rio International Cello Encounter, um badalado
festival que agita a cidade todo ano. |
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