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REPORTAGEM
DE CAPA
Adrenalina
nas alturas
Torneio
mobiliza fãs
e mostra a força
dos esportes radicais na cidade
Fabio
Brisolla
André Valentim/Strana
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| Balé
de bikes: curtição na pista da Ilha do Governador |
Para
a maioria das pessoas, o atleta Alan Mesquita, 27 anos, é
um desconhecido. Dentro de uma pista de skate, no entanto, é
um ídolo. Na semana passada, ele foi conhecer um novo circuito
com obstáculos, da modalidade conhecida como street, em um
clube no Grajaú. Ao chegar, magnetizou a atenção
dos cinqüenta adolescentes que brincavam com as pranchas. Os
garotos olhavam com reverência cada movimento do skatista
profissional, antes mesmo de ele subir no skate. Depois de fazer
algumas manobras nas rampas e no corrimão, Alan abriu a mochila
e começou a distribuir brindes. Camisetas e adesivos dos
patrocinadores fizeram a alegria dos fãs. Quando ele tirou
da mochila um par de tênis igual ao que estava usando e deu
a um dos meninos, o escolhido delirou. A cena se repete em rampas
no Aterro, na Lagoa e no Recreio. Alan não é um nome
consagrado no cenário internacional, como outro carioca,
o campeão mundial Bob Burnquist. Mas sua notoriedade é
sinal do alcance do esporte entre os cariocas. Alcance que poderá
ser comprovado no próximo fim de semana, durante as Eliminatórias
Latino-Americanas dos X Games, torneio de esportes radicais organizado
nos Estados Unidos pela rede de televisão ESPN.
Além
do skate, serão disputadas outras duas modalidades, patins
e bicicleta, em que os praticantes se especializam em desafiar as
leis da física, com riscos óbvios para os ossos. Uma
pista com 1.600 metros quadrados e doze
obstáculos está sendo montada para a disputa da categoria
street. Nela, skatistas, patinadores e ciclistas enfrentam degraus,
rampas e corrimões. Na outra categoria, a vertical, a turma
se exibe em um half pipe, rampa em forma de U que proporciona vôos
espetaculares e tombos idem. A competição vai reunir
250 atletas. Dois blocos de arquibancadas, cada um com capacidade
para 2.500 pessoas, e uma pista próxima
ao half pipe receberão o público. Estima-se que 50.000
pessoas verão as competições ao longo de três
dias, das 10 às 22 horas. Em sua primeira edição,
realizada no ano passado, no Rio, o público surpreendeu os
organizadores. Quase 40.000 pessoas foram
à arena montada no Aterro do Flamengo, e muita gente ficou
de fora. A multidão surpreendeu até os atletas. O
campeão Bob Burnquist, por exemplo, escalado para uma apresentação,
resolveu seguir de táxi do hotel para o Aterro. Chegou lá
sozinho e se viu cercado por centenas de pessoas. "O trânsito
estava lento. De repente, alguém me reconheceu e, quando
o táxi parou, não tive como sair dele. Fui resgatado
pelo pessoal da organização", conta Bob.
André Valentim/Strana
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Divulgação
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| X-Games:
arena do Leme (à esq.) será maior que a do ano
passado (à dir.) |
O astro
que faturou mais de 1,5 milhão de reais entre patrocinadores,
exibições e competições só no
ano passado e já quebrou dezenove ossos em dezesseis anos
de skate desembarca nesta semana no Rio. Mas ainda não
confirmou se irá se exibir no torneio. "Vou decidir na última
hora", diz. Já Alan Mesquita é presença garantida.
Um dos poucos profissionais cariocas inscritos, no ano passado ele
ficou em terceiro lugar na categoria street e em sétimo na
vertical. "Neste ano vou me concentrar no street, porque apenas
o campeão se classifica para as próximas etapas",
explica Alan. A grande decisão dos X-Games, com a participação
das principais estrelas internacionais, está marcada para
agosto, em Los Angeles, Califórnia. Para chegar lá,
Alan trocou a rotina de Ipanema pelos treinos em Porto Alegre, no
Rio Grande do Sul. O Rio enfrenta uma contradição
curiosa: a cidade é uma das recordistas no Brasil em número
de pistas públicas, com um total de 55. Mas não possui
pistas de qualidade para os profissionais. "Apesar de receber um
campeonato tão importante, o Rio não tem uma estrutura
profissional para o treinamento de atletas", lamenta Alan.
A presença
nos X-Games em 2002 garantiu a Alan dois fortes patrocinadores.
Com isso, ele pôde participar do circuito europeu e se tornou
muito mais conhecido. "Os moleques nos reconhecem das revistas especializadas
e da televisão. Pedem autógrafos. Adesivo é
ouro para eles", diz o skatista Júlio Vasconcelos, 24 anos,
morador da Tijuca, conhecido como Feio. "Se você não
tem adesivo para distribuir, não é um profissional",
comenta, em tom bem-humorado, o paulista Otávio Neto, 23
anos, o Peruquinha, que veio ao Rio participar da competição.
A tribo tem seus rituais. Mesmo quem vai apenas assistir leva o
equipamento. "Quando Bob saiu da pista, tinha muita gente, mas eu
consegui entregar meu skate para ele e ganhei o autógrafo.
Dei a maior sorte", conta Gustavo Eduardo Rodrigues, 12 anos, três
de prática no skate. O shape (a madeira do skate) com a assinatura
de Bob e de outros atletas famosos, como Anderson Reco, Cristiano
Mateus e Sandro Dias, virou objeto de decoração na
parede do quarto. "Fui todos os dias no ano passado. Ficava o dia
inteiro no Aterro. Também peguei um autógrafo do Bob",
gaba-se Marcos Vinícius Lobo, 15 anos, outro a transformar
em troféu um shape assinado.
André Valentim/Strana
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| Velocidade:
Felipe atinge 70 quilômetros por hora com seu long board |
Nas
eliminatórias dos X-Games, outra modalidade em alta entre
os cariocas acabou ficando de fora: o downhill, a descida em ladeiras
praticada, na maioria das vezes, com skates long board (as pranchas
com mais de 40 polegadas). A Vista Chinesa é o ponto preferido
pelos atletas. O trajeto é perigoso e exige uma série
de precauções, entre elas a utilização
de equipamentos de segurança, como capacete, joelheiras,
cotoveleiras e luvas. Os skatistas descem no mesmo trecho, de mão
dupla, utilizado pelos carros. "O ideal é ter sempre um carro
fazendo a escolta e descendo na frente dos praticantes", diz João
Marcelo Bonanata, o Billy, 32 anos, experiente skatista da modalidade.
Além de estar atento a eventuais veículos subindo
pela pista, o carro-escolta tem de manter certa distância
para não ser atingido pelos atletas. Skatistas como Felipe
Cobra, 27 anos, chegam a atingir 70 quilômetros por hora nas
curvas da Vista Chinesa. "Já tomei inúmeros tombos,
mas nunca me machuquei, porque sempre uso equipamentos de segurança.
Um tombo numa ladeira equivale ao de uma moto de competição",
comenta Felipe. Ou seja, o sujeito tem de saber cair para evitar
acidentes sérios. Para orientar os praticantes cariocas,
Felipe e outros atletas fundaram o Clube Skate de Ladeira. "Nós
tentamos conscientizar a galera a obedecer às regras de segurança,
porque a maioria das pessoas que abandonam o esporte faz isso por
causa de acidente", diz Felipe. Para se ter idéia dos riscos,
basta saber o que é preciso para frear um skate em alta velocidade.
"Primeiro tem de abrir os braços e fazer curvas para reduzir
a velocidade. Aí, você freia botando um dos pés
no chão", ensina Felipe. Os atletas de downhill orientam
os iniciantes a começar pela descida das Paineiras (proibida
para carros) antes de se aventurarem na Vista Chinesa. Apesar dos
riscos, os viciados em adrenalina vibram. "Aqui no Rio, você
ainda tem a vantagem de encontrar lugares maravilhosos para a prática
do esporte", elogia Billy, após uma corrida até a
Vista Chinesa.
André Valentim/Strana
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| Amadoras:
Patrícia e Ariane (à dir.) patinam por pura diversão
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No Rio, patins, outra modalidade do torneio, são mais utilizados
em passeios que em competições arriscadas. "Nunca
gostei de bicicleta, sempre vou para a praia de patins", conta a
bailarina Ariane Rocha, 27 anos, que tem o hábito de patinar
aos domingos pela orla de Ipanema, quando uma das pistas está
fechada aos carros. Apesar de o uso de patins no Rio se resumir
a passeios por belas paisagens, a modalidade vai contar com uma
atração de peso, a paulistana Fabíola de Oliveira
Simões, 23 anos, musa dos profissionais. Fabíola ganhou
seis dos oito X-Games mundiais já realizados. Ela vai à
Praia do Leme. "Mas ainda não está definido se vou
patinar ou não", avisa. Incertezas estão começando
a se tornar parte dos X-Games. No ano passado, os anúncios
das premiações provocaram protestos. Segundo os atletas,
a organização do torneio inicialmente divulgou um
prêmio total de 100.000 reais e,
durante o torneio, reduziu o valor para 50.000
reais. Neste ano, mais confusão. A uma semana do início
da competição, os organizadores ainda não tinham
chegado a um valor para a premiação. A coordenação
dos X-Games, mesmo em sua etapa latina, é feita nos Estados
Unidos. Os valores inicialmente cogitados giravam em torno de 7.000
dólares para os dez primeiros colocados em cada categoria.
"É um valor muito baixo para um evento desse tamanho. Afinal,
o torneio também vai valer pontos para o ranking mundial",
reclama Sandro Dias, 27 anos, quarto colocado no ranking mundial.
Os
atletas, porém, não visam apenas à premiação.
Para muitos, o torneio é a chance de ganhar visibilidade
e conseguir patrocínios para prosseguir no esporte. Saulo
de Tarso Medeiros, 20 anos, é um exemplo. Ele é o
principal ciclista carioca inscrito na competição
e não tem sequer patrocinador. "No ano passado fui o quarto
colocado no ranking brasileiro e fiquei em 11º nos X-Games",
diz. Saulo mora na Ilha do Governador e trabalha como vendedor e
mecânico em uma loja de bicicletas. "Saio do trabalho no fim
da tarde, vou direto para a pista e treino por três horas.
Todos os dias", conta. Em uma manobra, ele consegue voar até
2 metros acima do chão. Após o próximo fim
de semana, Saulo espera chegar ainda mais longe.
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As
feras da rampa
Divulgação
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O
paulista Sandro Dias, 27, é um dos favoritos do torneio.
Quarto do ranking mundial, ele passa o ano competindo
mundo afora |
André Valentim/Strana
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Divulgação
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Divulgação
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| Alan
Mesquita, 27 anos (à esq.), e Júlio
Vasconcelos, 24, são os melhores skatistas do
Rio. Alan já começou sua carreira internacional.
Júlio ainda sonha com isso |
O
carioca Bob Burnquist, 26, é o grande ídolo do skate.
Vive nos EUA e faturou mais de 1,5 milhão de reais em
2002 |
Fabíola
Simões, 23, musa do patins in-line, ganhou seis
dos sete X-Games em que competiu |
Divulgação
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Saulo
de Tarso, 20, trabalha em uma loja debicicletas e não
tem patrocinadores. Mas consegue voar sobre as duas rodas
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Equipamentos
radicais
Fotos
André Valentim/Strana
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SKATE FEMININO
Mary
Jane, da Qix.
R$ 200,00. Kelly
Connection, Galeria River, loja 67, Arpoador,
2522-1967. |
SKATE SECTOR NINE. R$ 750,00. Radical
Sports, Galeria River, loja 38, Arpoador,
2522-2918. |
JOELHEIRAS TRACKER. R$ 35,00.
Rio Longboard, Galeria River, loja 24, Arpoador,
2522-1268. |
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TÊNIS
QIX, para skate. R$ 155,00. Homey, Galeria
River, loja 17, Arpoador,
2513-3148. |
CAPACETE
TRACKER. R$ 40,00. Homey, Galeria River, loja
17, Arpoador,
2513-3148. |
PATINS
SPEED 3.0.
R$ 300,00. Rollin' Time, Galeria River, loja 47, Arpoador,
2523-3811. |
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