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9 de abril de 2003
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REPORTAGEM DE CAPA

Adrenalina nas alturas

Torneio mobiliza fãs e mostra a força
dos esportes
radicais na cidade

Fabio Brisolla


André Valentim/Strana
Balé de bikes: curtição na pista da Ilha do Governador

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Programação completa

Para a maioria das pessoas, o atleta Alan Mesquita, 27 anos, é um desconhecido. Dentro de uma pista de skate, no entanto, é um ídolo. Na semana passada, ele foi conhecer um novo circuito com obstáculos, da modalidade conhecida como street, em um clube no Grajaú. Ao chegar, magnetizou a atenção dos cinqüenta adolescentes que brincavam com as pranchas. Os garotos olhavam com reverência cada movimento do skatista profissional, antes mesmo de ele subir no skate. Depois de fazer algumas manobras nas rampas e no corrimão, Alan abriu a mochila e começou a distribuir brindes. Camisetas e adesivos dos patrocinadores fizeram a alegria dos fãs. Quando ele tirou da mochila um par de tênis igual ao que estava usando e deu a um dos meninos, o escolhido delirou. A cena se repete em rampas no Aterro, na Lagoa e no Recreio. Alan não é um nome consagrado no cenário internacional, como outro carioca, o campeão mundial Bob Burnquist. Mas sua notoriedade é sinal do alcance do esporte entre os cariocas. Alcance que poderá ser comprovado no próximo fim de semana, durante as Eliminatórias Latino-Americanas dos X Games, torneio de esportes radicais organizado nos Estados Unidos pela rede de televisão ESPN.

Além do skate, serão disputadas outras duas modalidades, patins e bicicleta, em que os praticantes se especializam em desafiar as leis da física, com riscos óbvios para os ossos. Uma pista com 1.600 metros quadrados e doze obstáculos está sendo montada para a disputa da categoria street. Nela, skatistas, patinadores e ciclistas enfrentam degraus, rampas e corrimões. Na outra categoria, a vertical, a turma se exibe em um half pipe, rampa em forma de U que proporciona vôos espetaculares e tombos idem. A competição vai reunir 250 atletas. Dois blocos de arquibancadas, cada um com capacidade para 2.500 pessoas, e uma pista próxima ao half pipe receberão o público. Estima-se que 50.000 pessoas verão as competições ao longo de três dias, das 10 às 22 horas. Em sua primeira edição, realizada no ano passado, no Rio, o público surpreendeu os organizadores. Quase 40.000 pessoas foram à arena montada no Aterro do Flamengo, e muita gente ficou de fora. A multidão surpreendeu até os atletas. O campeão Bob Burnquist, por exemplo, escalado para uma apresentação, resolveu seguir de táxi do hotel para o Aterro. Chegou lá sozinho e se viu cercado por centenas de pessoas. "O trânsito estava lento. De repente, alguém me reconheceu e, quando o táxi parou, não tive como sair dele. Fui resgatado pelo pessoal da organização", conta Bob.

 
André Valentim/Strana
Divulgação
X-Games: arena do Leme (à esq.) será maior que a do ano passado (à dir.)

O astro – que faturou mais de 1,5 milhão de reais entre patrocinadores, exibições e competições só no ano passado e já quebrou dezenove ossos em dezesseis anos de skate – desembarca nesta semana no Rio. Mas ainda não confirmou se irá se exibir no torneio. "Vou decidir na última hora", diz. Já Alan Mesquita é presença garantida. Um dos poucos profissionais cariocas inscritos, no ano passado ele ficou em terceiro lugar na categoria street e em sétimo na vertical. "Neste ano vou me concentrar no street, porque apenas o campeão se classifica para as próximas etapas", explica Alan. A grande decisão dos X-Games, com a participação das principais estrelas internacionais, está marcada para agosto, em Los Angeles, Califórnia. Para chegar lá, Alan trocou a rotina de Ipanema pelos treinos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O Rio enfrenta uma contradição curiosa: a cidade é uma das recordistas no Brasil em número de pistas públicas, com um total de 55. Mas não possui pistas de qualidade para os profissionais. "Apesar de receber um campeonato tão importante, o Rio não tem uma estrutura profissional para o treinamento de atletas", lamenta Alan.

A presença nos X-Games em 2002 garantiu a Alan dois fortes patrocinadores. Com isso, ele pôde participar do circuito europeu e se tornou muito mais conhecido. "Os moleques nos reconhecem das revistas especializadas e da televisão. Pedem autógrafos. Adesivo é ouro para eles", diz o skatista Júlio Vasconcelos, 24 anos, morador da Tijuca, conhecido como Feio. "Se você não tem adesivo para distribuir, não é um profissional", comenta, em tom bem-humorado, o paulista Otávio Neto, 23 anos, o Peruquinha, que veio ao Rio participar da competição. A tribo tem seus rituais. Mesmo quem vai apenas assistir leva o equipamento. "Quando Bob saiu da pista, tinha muita gente, mas eu consegui entregar meu skate para ele e ganhei o autógrafo. Dei a maior sorte", conta Gustavo Eduardo Rodrigues, 12 anos, três de prática no skate. O shape (a madeira do skate) com a assinatura de Bob e de outros atletas famosos, como Anderson Reco, Cristiano Mateus e Sandro Dias, virou objeto de decoração na parede do quarto. "Fui todos os dias no ano passado. Ficava o dia inteiro no Aterro. Também peguei um autógrafo do Bob", gaba-se Marcos Vinícius Lobo, 15 anos, outro a transformar em troféu um shape assinado.

André Valentim/Strana
Velocidade: Felipe atinge 70 quilômetros por hora com seu long board

Nas eliminatórias dos X-Games, outra modalidade em alta entre os cariocas acabou ficando de fora: o downhill, a descida em ladeiras praticada, na maioria das vezes, com skates long board (as pranchas com mais de 40 polegadas). A Vista Chinesa é o ponto preferido pelos atletas. O trajeto é perigoso e exige uma série de precauções, entre elas a utilização de equipamentos de segurança, como capacete, joelheiras, cotoveleiras e luvas. Os skatistas descem no mesmo trecho, de mão dupla, utilizado pelos carros. "O ideal é ter sempre um carro fazendo a escolta e descendo na frente dos praticantes", diz João Marcelo Bonanata, o Billy, 32 anos, experiente skatista da modalidade. Além de estar atento a eventuais veículos subindo pela pista, o carro-escolta tem de manter certa distância para não ser atingido pelos atletas. Skatistas como Felipe Cobra, 27 anos, chegam a atingir 70 quilômetros por hora nas curvas da Vista Chinesa. "Já tomei inúmeros tombos, mas nunca me machuquei, porque sempre uso equipamentos de segurança. Um tombo numa ladeira equivale ao de uma moto de competição", comenta Felipe. Ou seja, o sujeito tem de saber cair para evitar acidentes sérios. Para orientar os praticantes cariocas, Felipe e outros atletas fundaram o Clube Skate de Ladeira. "Nós tentamos conscientizar a galera a obedecer às regras de segurança, porque a maioria das pessoas que abandonam o esporte faz isso por causa de acidente", diz Felipe. Para se ter idéia dos riscos, basta saber o que é preciso para frear um skate em alta velocidade. "Primeiro tem de abrir os braços e fazer curvas para reduzir a velocidade. Aí, você freia botando um dos pés no chão", ensina Felipe. Os atletas de downhill orientam os iniciantes a começar pela descida das Paineiras (proibida para carros) antes de se aventurarem na Vista Chinesa. Apesar dos riscos, os viciados em adrenalina vibram. "Aqui no Rio, você ainda tem a vantagem de encontrar lugares maravilhosos para a prática do esporte", elogia Billy, após uma corrida até a Vista Chinesa.

André Valentim/Strana
Amadoras: Patrícia e Ariane (à dir.) patinam por pura diversão


No Rio, patins, outra modalidade do torneio, são mais utilizados em passeios que em competições arriscadas. "Nunca gostei de bicicleta, sempre vou para a praia de patins", conta a bailarina Ariane Rocha, 27 anos, que tem o hábito de patinar aos domingos pela orla de Ipanema, quando uma das pistas está fechada aos carros. Apesar de o uso de patins no Rio se resumir a passeios por belas paisagens, a modalidade vai contar com uma atração de peso, a paulistana Fabíola de Oliveira Simões, 23 anos, musa dos profissionais. Fabíola ganhou seis dos oito X-Games mundiais já realizados. Ela vai à Praia do Leme. "Mas ainda não está definido se vou patinar ou não", avisa. Incertezas estão começando a se tornar parte dos X-Games. No ano passado, os anúncios das premiações provocaram protestos. Segundo os atletas, a organização do torneio inicialmente divulgou um prêmio total de 100.000 reais e, durante o torneio, reduziu o valor para 50.000 reais. Neste ano, mais confusão. A uma semana do início da competição, os organizadores ainda não tinham chegado a um valor para a premiação. A coordenação dos X-Games, mesmo em sua etapa latina, é feita nos Estados Unidos. Os valores inicialmente cogitados giravam em torno de 7.000 dólares para os dez primeiros colocados em cada categoria. "É um valor muito baixo para um evento desse tamanho. Afinal, o torneio também vai valer pontos para o ranking mundial", reclama Sandro Dias, 27 anos, quarto colocado no ranking mundial.

Os atletas, porém, não visam apenas à premiação. Para muitos, o torneio é a chance de ganhar visibilidade e conseguir patrocínios para prosseguir no esporte. Saulo de Tarso Medeiros, 20 anos, é um exemplo. Ele é o principal ciclista carioca inscrito na competição e não tem sequer patrocinador. "No ano passado fui o quarto colocado no ranking brasileiro e fiquei em 11º nos X-Games", diz. Saulo mora na Ilha do Governador e trabalha como vendedor e mecânico em uma loja de bicicletas. "Saio do trabalho no fim da tarde, vou direto para a pista e treino por três horas. Todos os dias", conta. Em uma manobra, ele consegue voar até 2 metros acima do chão. Após o próximo fim de semana, Saulo espera chegar ainda mais longe.

As feras da rampa


Divulgação
O paulista Sandro Dias, 27, é um dos favoritos do torneio. Quarto do ranking mundial, ele passa o ano competindo mundo afora


André Valentim/Strana
Divulgação
Divulgação
Alan Mesquita, 27 anos (à esq.), e Júlio Vasconcelos, 24, são os melhores skatistas do Rio. Alan já começou sua carreira internacional. Júlio ainda sonha com isso O carioca Bob Burnquist, 26, é o grande ídolo do skate. Vive nos EUA e faturou mais de 1,5 milhão de reais em 2002 Fabíola Simões, 23, musa do patins in-line, ganhou seis dos sete X-Games em que competiu


Divulgação
Saulo de Tarso, 20, trabalha em uma loja debicicletas e não tem patrocinadores. Mas consegue voar sobre as duas rodas

 

Equipamentos radicais

Fotos André Valentim/Strana

SKATE FEMININO
Mary Jane, da Qix.
R$ 200,00.
Kelly Connection, Galeria River, loja 67, Arpoador,
2522-1967.
SKATE SECTOR NINE. R$ 750,00. Radical Sports, Galeria River, loja 38, Arpoador,
2522-2918.
JOELHEIRAS TRACKER. R$ 35,00. Rio Longboard, Galeria River, loja 24, Arpoador,
2522-1268.


TÊNIS QIX, para skate. R$ 155,00. Homey, Galeria River, loja 17, Arpoador,
2513-3148.
CAPACETE TRACKER. R$ 40,00. Homey, Galeria River, loja 17, Arpoador,
2513-3148.
PATINS SPEED 3.0.
R$ 300,00.
Rollin' Time, Galeria River, loja 47, Arpoador,
2523-3811.

 

         
     
 
 
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