| |
| |  | |
CRÔNICA
Paraíso de estimação Tutty
Vasques Os
lugares são como nós, seres humanos: mudam para melhor e
para pior a toda hora. Visconde de Mauá (RJ), por exemplo, já
foi tantas coisas quanto eu, pessoas diferentes. No princípio, éramos
cabelo e barro. Ultimamente, tenho freqüentado lá umas quebradas muitas
léguas adiante, em bom gosto, conforto e sofisticação, de
tudo que projetei para minha vida alternativa na Serra da Mantiqueira. Aos 20
e poucos anos de idade, encasquetei de plantar batatas. Falava disso direto em
minhas sessões de análise. Queria jogar o jornalismo para o alto
e viver numa curva de rio como aquela em que costumava me recostar numa pedra
para invejar o proprietário-fantasma da casa sempre fechada que saltava
aos meus olhos grandes na margem oposta. Quem seria o cretino que construiu para
deixar ali trancado o sonho que me destruía no divã? Depois de muita
espera, duas ou três temporadas mergulhando nas redondezas, enfim aconteceu:
a porta da varanda do sótão se abriu e uma mulher de penhoar e regador
encaminhou-se aos gerânios da sacada. Sem pressa. Estávamos a uns
20 metros um do outro. A princípio não consegui distinguir a pessoa,
mas, quando o sol lhe sacou a sombra do rosto, meninos, eu vi. Era ela. A dona
dos meus sonhos era minha analista. Foi
como se o próprio Freud me apunhalasse as costas, cortando a confiança
necessária na relação do analisando com sua terapeuta. Como
pôde a danada ter ouvido minha fantasia de paraíso descrita em tantas
minúcias sem reconhecer a própria casa de campo? E, se a reconheceu,
como pôde me deixar ir adiante por tantas sessões que decerto lhe
renderam o suficiente para pagar o caseiro? Será que prendia o riso na
poltrona atrás de mim? Mandei às favas o tratamento, mas não
foi tempo perdido: acho que também enterrei naquele consultório
da Rua Canning o sonho sá-rodrix-guarabiriano de um lugar para plantar
amigos, discos e livros, fora os rocks rurais, carneiros e cabras, a pimenta e
o sal. Pelo menos desse mico escapei. Nunca mais pensei à vera em cultivar
bicho-de-pé e mel silvestre no Vale do Pavão.
Nos
últimos 33 anos, voltei a Visconde de Mauá cem vezes, sempre com
a saudável disposição de atualizar minha visão de
paraíso. À Maromba, por exemplo, nem vou mais para não jogar
a última pá de cal na imagem de quando descobri a cachoeira, nu
para não bancar o diferente, aos 17 anos de idade. Voltar lá para
que se há tanto mais a explorar naquela cadeia de vales recortados por
rios e quedas-d'água, natureza para mais 5.000 anos de destruição.
Pousei de todo jeito em Mauá: campings, repúblicas, chalés
de aluguel, pousadinhas, hotéis, casas de amigos... Revi o éden
a cada visita, à exceção da vez em que o dentista da vila
diagnosticou um canal para tratar apertando onde doía com o polegar calejado
de enxada. Nem o golpe covarde de minha analista machucou tanto.
Devo ter tratado muito
bem dos dentes e da alma depois disso para merecer o upgrade que na última
década duas estâncias da região promoveram em meus conceitos
acerca do bem-viver. O Fronteira Arte e Hotelaria eu conhecia há mais tempo.
O Quinta da Grama Pecuária e Hotelaria cruzou meu caminho depois do Carnaval.
Sem exagero, poucas montanhas no mundo podem se dar ao luxo de tanto requinte
em pontos distantes 5 quilômetros um do outro. A visão definitiva
do paraíso, aliás, não pode ser nada muito melhor que aquilo.
Fronteira (www.hotelfronteira.com.br)
e Quinta da Grama (www.quintadagrama.com.br)
são delírios de perfeição. Parecem disputar quem tem
a melhor cama, o melhor banheiro, a melhor cozinha, o melhor lago, a melhor iluminação,
a melhor sauna, a melhor escultura, a melhor conexão com a internet, o
melhor vinho, a melhor vista, o melhor lençol de linho, o melhor café-da-manhã...
Os responsáveis por essa obsessão Ivan Marinho (Fronteira)
e Ivan Lopes (Quinta) mantêm a pose, mas evidentemente se odeiam.
De vez em quando um deixa escapar uma piadinha sobre o ego ou a megalomania do
outro. Os dois, em geral, têm razão. Um sabe que o hotel do outro
é o máximo. Paguei
minha estada com a designer Helga Stein no Quinta da Grama prestando serviços
no fogão. Cozinhava para os hóspedes e o dono do hotel. Fiz polvo
com batata ao murro, espaguete com lulas e cogumelos frescos, surubim com mussarela
de búfala, manjericão e hortelã... Éramos nove no
almoço de domingo, e eu aproveitei os elogios ao cozinheiro do prefeito
Silvinho de Carvalho, de Resende, para vaiar com grande entusiasmo sua idéia
de levar o asfalto até a vila de Visconde de Mauá. O projeto cria
uma ecoestrada explorada por pedágio e equipada para controlar o fluxo
de ônibus de turismo na região, blablablá... Acho que não
vai surtir muito efeito, mas, enquanto servia ao ilustre hóspede a mais
bela sobrecoxa ao molho à base de mel, shoyu, curry, pimenta-do-reino e
vinho branco, sugeri com humildade pouco comum aos chefs de cozinha: "Deixa pelo
menos 5 quilometrozinhos de barro, prefeito!" Ele riu.
Com certa razão.
Tudo que eu previ para Mauá não aconteceu. Passei uns dez anos,
de 1975 a 1985, achando que o lugar estava em via de se tornar uma imensa favela
hippie e o que vejo lá de diferente hoje é justamente a sofisticação.
A natureza, que se temia desalojada, jorra exuberância e água limpa.
Berra o verde rasteiro demarcado por cercas vivas de araucárias gigantescas.
Mugem as vacas, bailam no céu gaviões e pica-paus. Está tudo
lá, como sempre, inteiramente à minha disposição.
Para que serve isso? Para nada! Mas eu duvido que em Brasília nas últimas
semanas tenha acontecido alguma coisa mais interessante e divertida do que minha
última estada em Mauá. Acho que um dia vou morar lá. Meu
novo analista prometeu manter-se a distância. O cara é argentino
sim, eu tenho um analista argentino! , se amarra mais em Santa Catarina.
|