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9 de março de 2005
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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Paraíso de estimação

Tutty Vasques

Os lugares são como nós, seres humanos: mudam – para melhor e para pior – a toda hora. Visconde de Mauá (RJ), por exemplo, já foi tantas coisas quanto eu, pessoas diferentes. No princípio, éramos cabelo e barro. Ultimamente, tenho freqüentado lá umas quebradas muitas léguas adiante, em bom gosto, conforto e sofisticação, de tudo que projetei para minha vida alternativa na Serra da Mantiqueira. Aos 20 e poucos anos de idade, encasquetei de plantar batatas. Falava disso direto em minhas sessões de análise. Queria jogar o jornalismo para o alto e viver numa curva de rio como aquela em que costumava me recostar numa pedra para invejar o proprietário-fantasma da casa sempre fechada que saltava aos meus olhos grandes na margem oposta. Quem seria o cretino que construiu para deixar ali trancado o sonho que me destruía no divã? Depois de muita espera, duas ou três temporadas mergulhando nas redondezas, enfim aconteceu: a porta da varanda do sótão se abriu e uma mulher de penhoar e regador encaminhou-se aos gerânios da sacada. Sem pressa. Estávamos a uns 20 metros um do outro. A princípio não consegui distinguir a pessoa, mas, quando o sol lhe sacou a sombra do rosto, meninos, eu vi. Era ela. A dona dos meus sonhos era minha analista.

Foi como se o próprio Freud me apunhalasse as costas, cortando a confiança necessária na relação do analisando com sua terapeuta. Como pôde a danada ter ouvido minha fantasia de paraíso descrita em tantas minúcias sem reconhecer a própria casa de campo? E, se a reconheceu, como pôde me deixar ir adiante por tantas sessões que decerto lhe renderam o suficiente para pagar o caseiro? Será que prendia o riso na poltrona atrás de mim? Mandei às favas o tratamento, mas não foi tempo perdido: acho que também enterrei naquele consultório da Rua Canning o sonho sá-rodrix-guarabiriano de um lugar para plantar amigos, discos e livros, fora os rocks rurais, carneiros e cabras, a pimenta e o sal. Pelo menos desse mico escapei. Nunca mais pensei à vera em cultivar bicho-de-pé e mel silvestre no Vale do Pavão.

Nos últimos 33 anos, voltei a Visconde de Mauá cem vezes, sempre com a saudável disposição de atualizar minha visão de paraíso. À Maromba, por exemplo, nem vou mais para não jogar a última pá de cal na imagem de quando descobri a cachoeira, nu para não bancar o diferente, aos 17 anos de idade. Voltar lá para que se há tanto mais a explorar naquela cadeia de vales recortados por rios e quedas-d'água, natureza para mais 5.000 anos de destruição. Pousei de todo jeito em Mauá: campings, repúblicas, chalés de aluguel, pousadinhas, hotéis, casas de amigos... Revi o éden a cada visita, à exceção da vez em que o dentista da vila diagnosticou um canal para tratar apertando onde doía com o polegar calejado de enxada. Nem o golpe covarde de minha analista machucou tanto.

Devo ter tratado muito bem dos dentes e da alma depois disso para merecer o upgrade que na última década duas estâncias da região promoveram em meus conceitos acerca do bem-viver. O Fronteira Arte e Hotelaria eu conhecia há mais tempo. O Quinta da Grama Pecuária e Hotelaria cruzou meu caminho depois do Carnaval. Sem exagero, poucas montanhas no mundo podem se dar ao luxo de tanto requinte em pontos distantes 5 quilômetros um do outro. A visão definitiva do paraíso, aliás, não pode ser nada muito melhor que aquilo. Fronteira (www.hotelfronteira.com.br) e Quinta da Grama (www.quintadagrama.com.br) são delírios de perfeição. Parecem disputar quem tem a melhor cama, o melhor banheiro, a melhor cozinha, o melhor lago, a melhor iluminação, a melhor sauna, a melhor escultura, a melhor conexão com a internet, o melhor vinho, a melhor vista, o melhor lençol de linho, o melhor café-da-manhã... Os responsáveis por essa obsessão – Ivan Marinho (Fronteira) e Ivan Lopes (Quinta) – mantêm a pose, mas evidentemente se odeiam. De vez em quando um deixa escapar uma piadinha sobre o ego ou a megalomania do outro. Os dois, em geral, têm razão. Um sabe que o hotel do outro é o máximo.

Paguei minha estada com a designer Helga Stein no Quinta da Grama prestando serviços no fogão. Cozinhava para os hóspedes e o dono do hotel. Fiz polvo com batata ao murro, espaguete com lulas e cogumelos frescos, surubim com mussarela de búfala, manjericão e hortelã... Éramos nove no almoço de domingo, e eu aproveitei os elogios ao cozinheiro do prefeito Silvinho de Carvalho, de Resende, para vaiar com grande entusiasmo sua idéia de levar o asfalto até a vila de Visconde de Mauá. O projeto cria uma ecoestrada explorada por pedágio e equipada para controlar o fluxo de ônibus de turismo na região, blablablá... Acho que não vai surtir muito efeito, mas, enquanto servia ao ilustre hóspede a mais bela sobrecoxa ao molho à base de mel, shoyu, curry, pimenta-do-reino e vinho branco, sugeri com humildade pouco comum aos chefs de cozinha: "Deixa pelo menos 5 quilometrozinhos de barro, prefeito!" Ele riu.

Com certa razão. Tudo que eu previ para Mauá não aconteceu. Passei uns dez anos, de 1975 a 1985, achando que o lugar estava em via de se tornar uma imensa favela hippie e o que vejo lá de diferente hoje é justamente a sofisticação. A natureza, que se temia desalojada, jorra exuberância e água limpa. Berra o verde rasteiro demarcado por cercas vivas de araucárias gigantescas. Mugem as vacas, bailam no céu gaviões e pica-paus. Está tudo lá, como sempre, inteiramente à minha disposição. Para que serve isso? Para nada! Mas eu duvido que em Brasília nas últimas semanas tenha acontecido alguma coisa mais interessante e divertida do que minha última estada em Mauá. Acho que um dia vou morar lá. Meu novo analista prometeu manter-se a distância. O cara é argentino – sim, eu tenho um analista argentino! –, se amarra mais em Santa Catarina.

     
   

 

 
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