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CULTURA
Elas levantaram o Poeira Andréa Beltrão e Marieta Severo
são sócias no teatro que será aberto no dia 16 Debora
Ghivelder
André
Valentim /Strana
 | Divulgação
 | | Andréa
e Marieta no palco
do Teatro Poeira: juntas,
também, em cena |
Um
jantar pode ser decisivo na vida de alguém. Da entrada ao cafezinho, de
uma hora para a outra tudo pode mudar. No caso das atrizes Marieta Severo e Andréa
Beltrão, um jantar trivial transformou as parceiras de cena, amigas e comadres
em sócias-propretárias de um teatro. "Andréa virou para mim
e disse: vamos fazer um teatro? Eu respondi: vamos", conta Marieta, que ao longo
da vida já tinha pensado na idéia e a arquivado. Dia seguinte, caderno
de classificados à mão, as duas começaram a rodar pela cidade
em busca de um endereço. Não demorou muito para que elas achassem
o sobrado de 1912, tombado, na Rua São João Batista, 104, em Botafogo.
A história ocorreu há um ano e quatro meses, e a empreitada chega
agora à reta final. O vaivém de operários pelo imóvel
é grande, e tapumes ainda escondem parte da fachada restaurada do novo
Teatro Poeira, que vai abrir as portas ao público no próximo dia
16 de junho, com a estréia de Sonata de Outono (veja quadro abaixo),
roteiro cinematográfico do sueco Ingmar Bergman levado ao palco pela primeira
vez. A peça, claro, é interpretada por Andréa Beltrão
e Marieta Severo. No elenco está também Ísio Ghelman, todos
dirigidos por Aderbal Freire-Filho. Desde
que comprou a casa, a dupla acompanhou cada passo do processo. "Quase enlouquecemos
os arquitetos", diz Marieta. O espaço de 160 metros quadrados foi todo
reformado. Não há luxo no hall de entrada, classudo ambiente com
paredes em branco e detalhes de madeira, que abrigará um café. Tampouco
há sofisticação nos três confortáveis camarins.
O luxo está na sala, uma bela caixa preta de uso múltiplo dotada
da parafernália necessária para um bom espetáculo. O isolamento
acústico, por exemplo, é feito com esquadrias de vidro blindado
na fachada. Marieta e Andréa cuidaram de todos os detalhes da reforma.
Foram atrás dos melhores postes de luz, passaram a entender de perfurações
e sapatas. Até cálculos sobre quantos mililitros de água
se gastam na descarga dos vasos sanitários se meteram a fazer. "Botamos
a mão na massa mesmo", diz Andréa. O investimento, em torno de 1,5
milhão de reais, saiu integralmente do bolso das duas, que tiveram a ajuda
de duas empresas na cessão do sistema de refrigeração e do
piso. O
projeto prevê uso múltiplo para o Poeira. O nome carinhoso foi idéia
das atrizes, que o definem como um pequeno teatro de bairro. Podem-se montar espetáculos
em arena, semi-arena ou mesmo palco italiano (convencional). Isso graças
ao uso de plataformas com poltronas, que poderão ser dispostas de acordo
com a conveniência de cada diretor, com lotação máxima
de 200 lugares. O Poeira tem platéia, mezanino e um banco comprido suspenso,
preso à parede, já devidamente apelidado de poleiro pelas proprietárias.
Engana-se quem pensa que a aventura de levantar um teatro, que incluiu até
o despejo de um mendigo que lá vivia "Boa gente, coitado", lamenta
Andréa , levou a dupla a ataques nervosos e arrependimentos. Elas
souberam aproveitar cada minuto de toda a poeirada. "Adoro obra. Já construí
cinco casas", justifica Marieta. "Queremos que o Poeira seja o primeiro de uma
rede de teatros", brinca Andréa. Quem sabe? Elas subiram a construção
como se ouvissem música.
Bergman
para a
inauguração Flavio
Colker
 | | Andréa,
Marieta e Aderbal: ensaio
de Sonata de Outono |
O
sueco Ingmar Bergman levou às telas Sonata de Outono em 1978. A
história sobre mãe e filha que passam por um acerto de contas foi
imortalizada no cinema por Ingrid Bergman e Liv Ullman. Após um ano de
negociações dos direitos autorais, agora ela é transposta
pela primeira vez para o palco. Marieta Severo é a mãe que abandonou
a família pela carreira e tenta se aproximar da filha, interpretada por
Andréa Beltrão. "É bacana inaugurar o espaço com um
Bergman", diz Marieta. A peça, que estréia em 16 de junho, tem direção
de Aderbal Freire-Filho e participação de Ísio Ghelman como
marido da personagem de Andréa. A pauta do Teatro Poeira já lista
outros projetos. O patrocínio de uma empresa estatal garante atrações
por um ano. Estão programados projetos como o Residência Artística,
em que um diretor convidado terá carta-branca para fazer experimentações
durante três meses. Hamilton Vaz Pereira será o primeiro. Depois
virão Amir Haddad e Naum Alves de Souza. O Ponte Aérea prevê
palestras com gente de teatro e áreas afins, e o Canequinho (homenagem
ao Canecão) apresentará pocket shows nas noites de terça
e quarta. | |