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8 de junho de 2005

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CULTURA

Elas levantaram o Poeira

Andréa Beltrão e Marieta Severo são sócias no teatro que será aberto no dia 16

Debora Ghivelder


André Valentim /Strana
Divulgação
Andréa e Marieta no palco do Teatro Poeira: juntas, também, em cena

Um jantar pode ser decisivo na vida de alguém. Da entrada ao cafezinho, de uma hora para a outra tudo pode mudar. No caso das atrizes Marieta Severo e Andréa Beltrão, um jantar trivial transformou as parceiras de cena, amigas e comadres em sócias-propretárias de um teatro. "Andréa virou para mim e disse: vamos fazer um teatro? Eu respondi: vamos", conta Marieta, que ao longo da vida já tinha pensado na idéia e a arquivado. Dia seguinte, caderno de classificados à mão, as duas começaram a rodar pela cidade em busca de um endereço. Não demorou muito para que elas achassem o sobrado de 1912, tombado, na Rua São João Batista, 104, em Botafogo. A história ocorreu há um ano e quatro meses, e a empreitada chega agora à reta final. O vaivém de operários pelo imóvel é grande, e tapumes ainda escondem parte da fachada restaurada do novo Teatro Poeira, que vai abrir as portas ao público no próximo dia 16 de junho, com a estréia de Sonata de Outono (veja quadro abaixo), roteiro cinematográfico do sueco Ingmar Bergman levado ao palco pela primeira vez. A peça, claro, é interpretada por Andréa Beltrão e Marieta Severo. No elenco está também Ísio Ghelman, todos dirigidos por Aderbal Freire-Filho.

Desde que comprou a casa, a dupla acompanhou cada passo do processo. "Quase enlouquecemos os arquitetos", diz Marieta. O espaço de 160 metros quadrados foi todo reformado. Não há luxo no hall de entrada, classudo ambiente com paredes em branco e detalhes de madeira, que abrigará um café. Tampouco há sofisticação nos três confortáveis camarins. O luxo está na sala, uma bela caixa preta de uso múltiplo dotada da parafernália necessária para um bom espetáculo. O isolamento acústico, por exemplo, é feito com esquadrias de vidro blindado na fachada. Marieta e Andréa cuidaram de todos os detalhes da reforma. Foram atrás dos melhores postes de luz, passaram a entender de perfurações e sapatas. Até cálculos sobre quantos mililitros de água se gastam na descarga dos vasos sanitários se meteram a fazer. "Botamos a mão na massa mesmo", diz Andréa. O investimento, em torno de 1,5 milhão de reais, saiu integralmente do bolso das duas, que tiveram a ajuda de duas empresas na cessão do sistema de refrigeração e do piso.

O projeto prevê uso múltiplo para o Poeira. O nome carinhoso foi idéia das atrizes, que o definem como um pequeno teatro de bairro. Podem-se montar espetáculos em arena, semi-arena ou mesmo palco italiano (convencional). Isso graças ao uso de plataformas com poltronas, que poderão ser dispostas de acordo com a conveniência de cada diretor, com lotação máxima de 200 lugares. O Poeira tem platéia, mezanino e um banco comprido suspenso, preso à parede, já devidamente apelidado de poleiro pelas proprietárias. Engana-se quem pensa que a aventura de levantar um teatro, que incluiu até o despejo de um mendigo que lá vivia – "Boa gente, coitado", lamenta Andréa –, levou a dupla a ataques nervosos e arrependimentos. Elas souberam aproveitar cada minuto de toda a poeirada. "Adoro obra. Já construí cinco casas", justifica Marieta. "Queremos que o Poeira seja o primeiro de uma rede de teatros", brinca Andréa. Quem sabe? Elas subiram a construção como se ouvissem música.

 

Bergman para a inauguração

 
Flavio Colker
Andréa, Marieta e Aderbal: ensaio de Sonata de Outono

O sueco Ingmar Bergman levou às telas Sonata de Outono em 1978. A história sobre mãe e filha que passam por um acerto de contas foi imortalizada no cinema por Ingrid Bergman e Liv Ullman. Após um ano de negociações dos direitos autorais, agora ela é transposta pela primeira vez para o palco. Marieta Severo é a mãe que abandonou a família pela carreira e tenta se aproximar da filha, interpretada por Andréa Beltrão. "É bacana inaugurar o espaço com um Bergman", diz Marieta. A peça, que estréia em 16 de junho, tem direção de Aderbal Freire-Filho e participação de Ísio Ghelman como marido da personagem de Andréa. A pauta do Teatro Poeira já lista outros projetos. O patrocínio de uma empresa estatal garante atrações por um ano. Estão programados projetos como o Residência Artística, em que um diretor convidado terá carta-branca para fazer experimentações durante três meses. Hamilton Vaz Pereira será o primeiro. Depois virão Amir Haddad e Naum Alves de Souza. O Ponte Aérea prevê palestras com gente de teatro e áreas afins, e o Canequinho (homenagem ao Canecão) apresentará pocket shows nas noites de terça e quarta.

     
  
   

 

 
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