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CRÔNICA
Queixas Manoel
Carlos
Todos
nós conhecemos pessoas que se queixam, se queixam, se queixam... e parecem
não saber viver sem proclamar suas mazelas. São chorões de
pai e mãe, queixosos profissionais, e, se surge uma chance (alguém
com cara de bom ouvinte, como eu), pronto! Põem-se a desfiar um rosário
de mágoas. Se é mulher, o repertório mais comum inclui o
marido que não sai do computador, o filho que está namorando uma
moça interesseira, a filha que trancou matrícula na faculdade, a
empregada que é preguiçosa, a mãe que vive doente... Se é
homem, o que muda é o cardápio, que com eles o prato principal é
quase sempre o trabalho: injustiças, promoções que não
receberam, ingratidões etc., etc. A verdade é que boa parte do tempo
é gasto com reclamações, insatisfações e arrependimentos
tardios. E, quando fogem dos temas pessoais, homens e mulheres enveredam pelas
generalidades habituais, igualmente transformadas em queixas: o governo que não
governa, o trânsito que está um caos, o tempo que anda maluco, o
Flamengo que não está jogando nada, a dificuldade de perder peso.
Enfim: todos querem ter vida longa, mas todos se queixam da vida. Uma
noite dessas, num jantar em que caí como numa armadilha, fui vítima
de uma dupla infernal e os meus ouvidos sofreram das 9 às 11 da noite.
Não deu para escapar. Como escrevo novelas paixão nacional
e como sabem que gosto de sair por aí colhendo informações,
ouvindo pessoas, pesquisando ao vivo temas para o meu próximo trabalho,
me pegam pelo braço a todo instante. São pessoas amáveis,
carinhosas, que me envaidecem com a admiração que demonstram pelo
que faço, mas que desconhecem os mecanismos da minha profissão.
Minha vida dá
uma novela me dizem freqüentemente. Escuta
só o que aconteceu comigo ameaçam alguns, os olhos lampejando.
E me puxam de
um lado e de outro, todos com histórias mirabolantes que acreditam servir
para novelas maravilhosas. E quase sempre o que me contam é mesmo tão
mirabolante, com lances tão pungentes, que não dá para transformar
em ficção, já que tanto sofrimento e tão grandes infortúnios
pareceriam exagerados e inverossímeis. Vale sempre lembrar a frase de Huxley,
que afirma que a grande dificuldade da ficção é que ela precisa
fazer sentido; a realidade não. Mas
voltando aos queixosos. Para esses tenho vontade de imprimir dados biográficos
de determinadas pessoas, para que leiam e vejam o que é uma vida verdadeiramente
sofrida, intensamente dramática. Acompanhem, por exemplo, alguns acontecimentos
na vida de Camilo Castelo Branco, que nasceu em Lisboa, em 1825, e foi o primeiro
escritor português a viver exclusivamente de literatura. Seu livro mais
famoso, que encantou várias gerações, chama-se Amor de
Perdição, que virou filme, peça de teatro e até
novela de televisão. Já pelo nome se vê a vocação
trágica de Camilo. Há algum tempo, neste mesmo espaço, numa
crônica chamada "Amigos", citei o autor português, transcrevendo uns
versos que ele escreveu a propósito da ingratidão dos amigos diante
da cegueira que o atingiu. Pois bem, a trajetória dessa vida foi assim:
Camilo ficou órfão de mãe aos 2 anos e de pai, aos 10. Criado
por uma tia e uma irmã, casou-se aos 16 anos com Joaquina Pereira. Com
21 raptou uma jovem por quem se apaixonou, sendo preso logo depois por bigamia.
Quando se livrou da prisão, conheceu uma outra jovem, Ana Plácido,
de quem disse ser o grande amor de sua vida. Mas a moça era casada, o que
impediu a relação de ambos. Desiludido, Camilo entrou para o seminário,
procurando conforto na vida religiosa, mas logo passou a ter um caso amoroso com
uma freira, Isabel Cândida, com quem viveu por dois anos. Depois de tentar
o suicídio pela primeira vez, por causa de tantos problemas e aflições,
reencontrou Ana, que abandonou então o marido para viver com o escritor.
Logo em seguida o casal foi preso pelo crime de adultério. Julgados e absolvidos,
foram viver juntos em Lisboa. Se a história acabasse aqui seria um final
feliz, mas o drama continua. Camilo e Ana tiveram dois filhos com sérios
problemas de saúde, cujo custoso tratamento acabou com as finanças
do casal. Em 1888, já legalmente casado com Ana, o escritor começou
a sentir os primeiros sintomas da cegueira, causada por uma sífilis crônica.
Dois anos depois, em 1890, desesperado com tantos infortúnios, Camilo Castelo
Branco suicidou-se com um tiro de pistola. Tinha então 65 anos.
E então?
Quem se habilita a queixar-se da vida, diante dessa biografia? E o que dirão
de mim meus amáveis e generosos telespectadores, se eu colocar numa novela
uma personagem de tão má sorte? Certamente dirão que exagero,
que sou fantasioso, que invento sem nenhuma verossimilhança. No entanto,
como acabaram de ler, Camilo Castelo Branco existiu, seu sofrimento foi real e
todas as suas queixas tinham fundamento. Os
versos de um trovador, Aldemar Tavares, se não me engano, afirmam, com
razão, que o que nos mata é a função de viver. Os
queixosos, que suspiram a cada instante, correm mais rapidamente para esse inevitável
desfecho. A
vida vai de tal sorte Nos
matando devagar, Que
enfim, quando chega a morte, Não
há mais o que matar. |