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8 de junho de 2005

REPORTAGEM DE CAPA
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BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Queixas

Manoel Carlos


Todos nós conhecemos pessoas que se queixam, se queixam, se queixam... e parecem não saber viver sem proclamar suas mazelas. São chorões de pai e mãe, queixosos profissionais, e, se surge uma chance (alguém com cara de bom ouvinte, como eu), pronto! Põem-se a desfiar um rosário de mágoas. Se é mulher, o repertório mais comum inclui o marido que não sai do computador, o filho que está namorando uma moça interesseira, a filha que trancou matrícula na faculdade, a empregada que é preguiçosa, a mãe que vive doente... Se é homem, o que muda é o cardápio, que com eles o prato principal é quase sempre o trabalho: injustiças, promoções que não receberam, ingratidões etc., etc. A verdade é que boa parte do tempo é gasto com reclamações, insatisfações e arrependimentos tardios. E, quando fogem dos temas pessoais, homens e mulheres enveredam pelas generalidades habituais, igualmente transformadas em queixas: o governo que não governa, o trânsito que está um caos, o tempo que anda maluco, o Flamengo que não está jogando nada, a dificuldade de perder peso. Enfim: todos querem ter vida longa, mas todos se queixam da vida.

Uma noite dessas, num jantar em que caí como numa armadilha, fui vítima de uma dupla infernal e os meus ouvidos sofreram das 9 às 11 da noite. Não deu para escapar. Como escrevo novelas – paixão nacional – e como sabem que gosto de sair por aí colhendo informações, ouvindo pessoas, pesquisando ao vivo temas para o meu próximo trabalho, me pegam pelo braço a todo instante. São pessoas amáveis, carinhosas, que me envaidecem com a admiração que demonstram pelo que faço, mas que desconhecem os mecanismos da minha profissão.

Minha vida dá uma novela – me dizem freqüentemente.

Escuta só o que aconteceu comigo – ameaçam alguns, os olhos lampejando.

E me puxam de um lado e de outro, todos com histórias mirabolantes que acreditam servir para novelas maravilhosas. E quase sempre o que me contam é mesmo tão mirabolante, com lances tão pungentes, que não dá para transformar em ficção, já que tanto sofrimento e tão grandes infortúnios pareceriam exagerados e inverossímeis. Vale sempre lembrar a frase de Huxley, que afirma que a grande dificuldade da ficção é que ela precisa fazer sentido; a realidade não.

Mas voltando aos queixosos. Para esses tenho vontade de imprimir dados biográficos de determinadas pessoas, para que leiam e vejam o que é uma vida verdadeiramente sofrida, intensamente dramática. Acompanhem, por exemplo, alguns acontecimentos na vida de Camilo Castelo Branco, que nasceu em Lisboa, em 1825, e foi o primeiro escritor português a viver exclusivamente de literatura. Seu livro mais famoso, que encantou várias gerações, chama-se Amor de Perdição, que virou filme, peça de teatro e até novela de televisão. Já pelo nome se vê a vocação trágica de Camilo. Há algum tempo, neste mesmo espaço, numa crônica chamada "Amigos", citei o autor português, transcrevendo uns versos que ele escreveu a propósito da ingratidão dos amigos diante da cegueira que o atingiu. Pois bem, a trajetória dessa vida foi assim: Camilo ficou órfão de mãe aos 2 anos e de pai, aos 10. Criado por uma tia e uma irmã, casou-se aos 16 anos com Joaquina Pereira. Com 21 raptou uma jovem por quem se apaixonou, sendo preso logo depois por bigamia. Quando se livrou da prisão, conheceu uma outra jovem, Ana Plácido, de quem disse ser o grande amor de sua vida. Mas a moça era casada, o que impediu a relação de ambos. Desiludido, Camilo entrou para o seminário, procurando conforto na vida religiosa, mas logo passou a ter um caso amoroso com uma freira, Isabel Cândida, com quem viveu por dois anos. Depois de tentar o suicídio pela primeira vez, por causa de tantos problemas e aflições, reencontrou Ana, que abandonou então o marido para viver com o escritor. Logo em seguida o casal foi preso pelo crime de adultério. Julgados e absolvidos, foram viver juntos em Lisboa. Se a história acabasse aqui seria um final feliz, mas o drama continua. Camilo e Ana tiveram dois filhos com sérios problemas de saúde, cujo custoso tratamento acabou com as finanças do casal. Em 1888, já legalmente casado com Ana, o escritor começou a sentir os primeiros sintomas da cegueira, causada por uma sífilis crônica. Dois anos depois, em 1890, desesperado com tantos infortúnios, Camilo Castelo Branco suicidou-se com um tiro de pistola. Tinha então 65 anos.

E então? Quem se habilita a queixar-se da vida, diante dessa biografia? E o que dirão de mim meus amáveis e generosos telespectadores, se eu colocar numa novela uma personagem de tão má sorte? Certamente dirão que exagero, que sou fantasioso, que invento sem nenhuma verossimilhança. No entanto, como acabaram de ler, Camilo Castelo Branco existiu, seu sofrimento foi real e todas as suas queixas tinham fundamento.

Os versos de um trovador, Aldemar Tavares, se não me engano, afirmam, com razão, que o que nos mata é a função de viver. Os queixosos, que suspiram a cada instante, correm mais rapidamente para esse inevitável desfecho.

A vida vai de tal sorte

Nos matando devagar,

Que enfim, quando chega a morte,

Não há mais o que matar.

     
   

 

 
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