Publicidade
 
 


 
 



7 de dezembro de 2005

REPORTAGEM DE CAPA
LAZER
PERFIL
SOLIDARIEDADE
SOLIDARIEDADE
OPINIÃO DO LEITOR
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Sair pra beijar

Manoel Carlos


– Como vou sair com ele, se não o amo? Se não me interesso por ele? Se não temos nenhum ponto em comum? Nem no futebol, que ele é Flamengo e eu sou Fluminense? Não dá!

Hoje isso acabou. Essa preocupação com as afinidades ficou antiquada. Hoje em dia o que importa é ter um programa.

– Vou ficar em casa num sábado? Nem morta! Se não aparecer uma companhia interessante, ligo pra um, mesmo desinteressante, e me mando by night. Mas em casa, nunca! Vou sair pra beijar!

Estou reproduzindo o que a Bia disse à mãe dela, Míriam, nossa vizinha em Búzios, que nos contou esse episódio, depois de um copo de vinho branco.

– Fica difícil ouvir uma coisa dessas de uma filha de 16 anos! O pai levantou os olhos do jornal, abanou a cabeça e mandou ver em cima de mim: "Você não soube educar essa menina", ele me disse, "e agora é tarde". Cortei na hora: "Como eu não soube? Nós não soubemos, que ela é filha sua também". Ele não se convenceu: "Quem educa filha é mãe! Se não era capaz, que deixasse pra mim, que eu ia educar direitinho!"

A essa altura, com Míriam bufando, minha mulher se ofereceu para fazer um sanduíche, já que ela mesma disse que estava sem jantar, mas Míriam recusou, engrenando outra vez, às vezes lacrimejando um pouco, outras os olhos faiscando de ódio.

– Fiquei possessa! Como ele pensa que sabe educar, se não tem nem o 2º grau completo? Ah, mas eu fui com tudo: "Você é um péssimo educador porque foi pessimamente educado! Mesmo sua mãe diz isso pra quem quiser ouvir!" E, só para não ficar por baixo, ele teve a coragem de pichar a própria mãe: "Minha mãe tá esclerosada, só fala besteira!"

E virando para nós seus pequeninos olhos sofredores:

– Vocês acham que está direito um filho falar assim de uma mãe? É por isso, por isso que a Bia não me respeita! Aprendeu com o pai!

Ficamos penalizados. Aquela bela mulher, 45 anos mais ou menos, aflita, torcendo as mãos, magoada com a maneira de a filha lhe falar e – mais ainda – com a culpa que o marido lhe impunha injustamente. Minha mulher fez uma sugestão óbvia:

– Você tem de sentar com o Oscar, tem de conversar com ele. Colocar a culpa em você é de um comodismo revoltante.

Dei uma olhada para a minha mulher. Será que não estava se metendo demais? Mas ela me ignorou. As mulheres são mais corajosas do que nós, homens, que temos sempre medo dos envolvimentos humanos. Achamos que vamos nos comprometer.

– Já tentei várias vezes! Mas ele sempre me culpa pelo que há de errado. Sempre eu, sempre eu! – Ela fungou, as lágrimas brotaram com mais abundância e eu ofereci meu lenço.

Aqui eu abro um curto parêntese para contar a vocês que eu ainda uso lenço, lenço de pano. Alguns até com monograma, por capricho da minha mulher. Um costume que herdei do meu pai. Ele exagerava até. Saía com dois, um em cada bolso, explicando: "Um é para mim e outro para oferecer a uma senhora, caso ela necessite!" Meu pai era um homem educadíssimo, filho de portugueses, que educavam vibrando a palmatória no ar. Bem diferente de hoje em dia, quando nem pais nem filhos sabem sequer o que é uma palmatória.

Voltando à sala, onde ouvíamos Míriam e suas queixas familiares.

– O que eu sei é que estou começando a desistir. Desistir do marido, da filha, de tudo! Ela se juntou ao pai, contra mim. Meu espaço em casa está cada vez menor!

O desabafo da nossa vizinha acabou aí, pois o marido Oscar logo gritou por ela, chamando para irem juntos à Rua das Pedras dar uma olhada no Festival de Cinema que por aqueles dias estava se realizando em Búzios. Míriam se despediu com um pedido de desculpa pela cena, mas nós a tranqüilizamos. Afinal, vizinhos são os parentes mais próximos que temos. Devemos ser solidários uns com os outros, não é verdade?

À noite, já na cama, minha mulher transferindo os telefones do celular velho para o celular novo, tarefa na qual anda envolvida há uma semana, e eu lendo e me deliciando com o livro da Danuza Leão, Quase Tudo, nos olhamos depois de alguns minutos e percebemos um no outro a mesma perplexidade.

– Estou abismado com o comportamento da Bia com a mãe. Não me sai da cabeça a frase da garota: 'Vou sair pra beijar!'

– Eu também estava pensando nisso – me disse ela, dando por encerrada a tarefa do celular. Fico me perguntando: onde anda o amor? Onde se esconde? Por que essa juventude não o encontra?

Nós nos olhamos mais uma vez, suspiramos em uníssono e nos demos as mãos. Depois disso... bem, depois disso fechei o livro e apaguei a luz, que intimidade de casal não é para aparecer nas páginas da revista.

 

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados